Uma questão de honra
4 Capítulo 3
Eureca! Eu estava certo. Gray nos acordou cedo, e separou dois grupos. Os que estavam treinando na noite passada, e os que ficaram. A diferença de quantidade era enorme. Jimmy e Fred nos encaravam zombeteiros, como se saíssem ganhando.
– Muito bem – Gray chegou a minha frente. –Posso saber por que o senhor certinho aqui não veio a minha atividade?
– Eu imaginei – engoli em seco –, que fosse alguma coisa que o senhor estivesse testando-nos. Aconselhei meu amigo a não ir também.
– E se estiver errado? O que acontece com seu amigo?
– Se eu estiver errado, O que imagino não estar – ele me fulminou com os olhos. – Será um erro meu, e levarei meu amigo junto.
Ele andou um pouco na minha frente.
– Meus parabéns, militante. Além de tentar me desafiar está certo. Aprecio ter avisado seu amigo. Alguns aqui – ele olhou para as pessoas, como Jimmy e outros –, não fariam isso. Quem é seu amigo?
– O soldado Loews, senhor.
O homem foi à frente de Patrick.
– Meu militante – ele disse, e Patrick ajeitou a postura. – Tem sorte pelo amigo. Continue com essa confiança.
Ele foi ao meio do campo, obtendo visão dos dois grupos.
– Esse grupo – ele apontou para o maior – Vai para lá. – e então apontou para a metade da floresta, onde nos camuflamos alguns dias antes – Vão cortar e carregar toras, para o outro lado, onde ficam os cavalos.
Os iniciados suspiraram, era evidente o cansaço corporal deles.
Gray se direcionou para nós, o grupo menor, com quatro ou cinco pessoas.
–E vocês – ele pensou um pouco. – Hm, não tenho tarefa difícil para vocês, portanto, vão até a cozinha das mulheres e as ajudem a descascar as mandiocas, e façam até o final dessa tarde.
O quê? Essa era definitivamente a primeira vez em que eu saberia que Gray ou qualquer capitão teria pedido para os miltantes iniciados descascarem mandiocas. Sério?
Não tive a chance de opinar, pois Patrick já se afastava, muito rapidamente por sinal. Uma linda e delicada flor chamada Suzanne deveria estar vagando em sua mente suja, eu imagino. Deixei escapar um sorriso entediado, e tratei de seguir a trupe. Não chamei Patrick, para que me esperasse, pois eu sabia onde ele iria sentar.
Durante o caminho, repensei sobre minha ideia idiota de retrucar ou discordar do capitão Gray. Acho que sua resposta não seria tão formidável e obviamente ele não me elogiaria. Tratei de afastar o pensamento inútil.
Fiz menção de sentar perto de Patrick, caso ele fizesse alguma besteira. Eu acredito que Suzanne seria esperta o bastante para não deixar transparecer que estaria dando bola para Patrick, para não ser repreendida. Mas mesmo assim, Pat poderia se prejudicar, tentando fazer algo sem pensar duas vezes.
O balde dele estava quase intocado, e Gray virou-se para nós, com seu olhar de gavião.
– Pat – eu disse, cutucando-o – Gray está vindo, e você sequer encostou em alguma mandioca.
E isso era verdade. A cada passe de faca na superfície da mandioca, Pat olhava duas ou três vezes para Suzanne, que agora estendia os inúmeros lençóis, e ainda não tinha visto ele ali.
Como se tivesse levado choque, Patrick se virou e começou a descasca-las. Duas ao mesmo tempo. E eu fiquei atônito com aquilo.
– Parece que o tal amigo levou mais sorte não é, militante? – Gray olhou para mim, alisando a cicatriz grossa em seu rosto.
O encarei de forma sugestiva, como se o dissesse que não havia entendido. Ele recebeu minha pergunta com afeto, e com a cabeça, apontou o balde de Patrick, que estava quase vazio.
– Pat, como você fez isso? Não começou nem há dois minutos!
– Experiência, meu amigo. Pura experiência, e tempo, é claro, eu fazia isso com minha mãe, então tive que aprender a cortar rápido, para poder jogar bola mais cedo.
– Bem, isso é bem lógico, considerando que você era um menino.
– Sim, me orgulho disso.
– Não exagere.
– Pat? O quê faz aqui? – em uníssomo, eu e Patrick viramos para trás, embora a voz tenha chamado Pat, e não eu. Vimos Suzanne, com o rosto fino corado.
Ela tinha uma voz melodiosa, como um cantar dos pássaros. Eu já havia mencionado isso quando a vi pela primeira vez? Patrick tinha um bom gosto, sua voz era doce, combinava com seu jeito simples e feminino.
– Sem querer me intrometer, mas – interrompi o “olá” não dito de Patrick – Quem diz “Pat”, sou apenas eu, tudo bem? É um apelido que eu quero preservar, que apenas eu o use. Sem ofensas, é claro, Suzanne.
– Oh, é claro, me desculpe – ela fez uma feição chateada, como uma garotinha que deixa seu balão de gás desaparecer nas nuvens, pois acabou segurando-o fraco demais.
Patrick me lançou um olhar repreendedor, mas eu o ignorei. Afinal, isso era verdade. Era o meu apelido para Patrick. Nada contra Suzanne, mas nem ela nem niguém poderia usá-lo além de mim. Isso é um tanto infantil, eu sei. Mas eu considerava como um laço amigável a mais com Patrick, como se nos deixasse mais próximos.
– Desculpe mesmo – ela repetiu, apertando os nós dos dedos – Eu acabei ouvindo você chamá-lo de Pat, então pensei que fosse o apelido público dele, não sabia mesmo.
– Não precisa ser preocupar – disse Patrick, com um sorriso metade bobo metade encantado – Não foi a intenção do meu amigo ser rude, não é Amigão? – ele virou o olhar para mim, bravo.
– Claro que não. Perdoe-me. Vou deixá-los mais a vontade, eu ainda tenho MANDIOCAS PARA DESCASCAR não é, Patrick? – fiz questão de entonar, para tirar Patrick do transe chamado Suzanne. Não obtive êxito.
Dei de ombros por fim, e me afastei, arrumando meu banco de frente a colina , que era fora dos muros do campo, onde os militantes não podiam ir.
– Você me ouviu – uma voz masculina soou em meu ouvido direito, e quando me virei um garoto, que parecia ter a minha idade e de Patrick, sorria.
– Quem é você? – tentei ao máximo não parecer mal educado. O garoto tinha a pele escura, os olhos amendoados, provavelmente origem afro-americana, ou algo do tipo. Não que eu estivesse desinformado. Muito pelo contrário, mas isso não vem ao caso.
– Não reconhece minha voz? – ele pegou outra mandioca, descascando-a como se fosse a coisa mais fácil do mundo.
Foi então que reconheci. A voz limpa e forte, com um sotaque ligeiramente ardido. Era ele, o dono da voz que havia me dado o conselho de levantar a mão.
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