Aquele começou como um dia normal. Ele mal sabia, mas tudo ia mudar.

Ele acordou se olhou no espelho, viu sua terrível barriga que o perseguia a vários e vários anos. Sentiu a mesma auto piedade, a mesma impotência de todos os dias.

Tomou seu banho, vestiu seu fardamento escolar, tomou um gole de café e foi para seu amado colégio.

Sentindo o peso da rotina nos ombros e a estabilidade puxando seu peso para o chão, mal sabia que naquele mesmo momento todas as divindades do mundo acabavam de dizer sim a ele.

Sim a mudança,ao amor, a quebra de rotina.

Você deve se perguntar: "quem é ele?"

A resposta é essa: 'quem você quiser que ele seja'

Escolha alguém para ser Ele, crie na sua mente, diga que é alguém de seus círculos íntimos... não importa.

Hoje Ele mudou. Enquanto caminhava para ir ao colégio sentiu um impulso, uma inquietação, um choque que viajava diretamente pela sua espinha e terminava nas extremidades do seu corpo.

Então ele a viu. Ela, a garota que nunca havia visto na vida, mas que o instigava de maneira tão descontrolada atravessar a rua e rumar na mesma direção que ele.

Então ele mudou. Deixou a rotina, deixou de ser coadjuvante na historia da sua vida, deixou de não decidir nada, de não ser nada, de existir apenas pelo existencial fato de ser.

Deixou de ser refém do destino para tão incrivelmente ser o dono do mesmo.Criou um sentimento no qual nunca havia pensado. Um sentimento que seu acuado espirito nunca havia desenvolvido.

Então ele rompeu as correntes da estabilidade, tirou seu fardo da rotina e pela primeira vez na vida fez o que queria fazer.

Claro que isso não poderia dar certo...

Numa conversa entre dois desconhecidos não havia espaço para ele. Nunca havia sido eloquente,engraçado nem nada do gênero. Se comunicava por causa da necessidade visceral de se comunicar, mas aquele dia estava diferente.

Numa fala atrapalhada ele disse a primeira coisa que seu cérebro conseguiu sintetizar. E essa incrível palavra, de caminhos ambíguos e escorregadios se projetou pra fora dele com a força de uma mosca pousando.

Um inaudível "hum" havia sido dito.

E para a sua enorme surpresa ela se virou para observá-lo.

Silencio constrangedor, o barulho do vento que ia de encontro a eles dois era muito mais audível do que seu pensamento.

Parecia que seu cérebro havia se dissolvido. Ele havia acabado de falar com alguém.

O pior de tudo isso, esse alguém havia visto ele.

O silencio durou mais intermináveis minutos e incontáveis instantes para ser quebrado.

Dessa vez ele havia conseguido formular uma frase inteira, com começo meio e fim, sem nenhuma interrupção ou abordagem abrupta.

sua novíssima frase saiu dele como um trem bala, e numa sonoridade audível apenas para gatos.

Ele tentou novamente e finalmente sua frase saiu audivel, um pouco embaralhada.

"Olá,bem como seu nome?"

Parecia que todos os neurônios dele haviam morrido depois de se ouvir dizer isso.

Se repreendeu e já acreditava ter perdido a batalha quando sentiu um surpreendente "olá" que vinha acompanhado de um cheiro de menta.

Nesse momento ele tinha certeza que iria morrer. Sentiu nas entranhas algo que nunca havia sentido e pela segunda vez em toda sua vida ele se sentiu menos esquisito.

Sempre fora inteligente, deslocado, gordo.

Nunca nenhuma garota no mundo iria lhe dar uma chance.

Ela havia acabado de contrariar as regras do mundo.

"Meu deus"-pensou

Aquilo estava durando pra sempre, ele sabia que tinha que dizer alguma coisa.

Então direto de algum lugar dentro dele veio a frase perfeita, o grandioso avanço na comunicação.Ele a utilizou prontamente:

"Como vai?"

"Deus, como isso é difícil"-pensou

Olhos femininos haviam acabado de depositar atenção nele, e um doce "tudo bem, e com você?" havia sido ouvido.

Uma indagação vinda dela.

Não sei se deveria contar isso, mas os deuses, os cerca de 7 bilhões de deuses(sim, cada pessoa tem o deus que deseja acreditar ter.Até mesmo os ateus, num lugar em que nenhuma emoção jamais chegaria acreditam em deus.)estavam rindo sonoramente.

Dentro dele um alerta vermelho soava em alto e bom som.

"Bem"-por fim ele disse.

Ela deu um sorriso.Ele havia feito ela dar um sorriso.

"Deus do céu"-pensou

Após essa incrível conversação ela se despediu e atravessou a rua.Ele rumou direto para o colégio com um saco de emoções destruindo seu plexo solar.

Não olhava para o lado, como sempre, estava olhando para um ponto fixo a sua frente.

Queria desesperadamente gritar, ou ir no banheiro.

Subiu seus lances de escada, sentou em seu confortável assento de sua velha e antiga escola.

E quando arriscou finalmente olhar para o lado, admirou-se em ver que ela, havia acabado de entrar na sala de aula.

Pior, tinha acabado de se sentar a três cadeiras de distancia dele.

Aquele dia estava com cara de que não iria ser normal.

Notas finais
Aos que leram, muito obrigado, apoiem a historia.
Grato