Uma nova história
3 A conversa
Como ele odiava esbarrões.
Detestava esbarrar nas pessoas, gostava de ser invisível, detestava ser notado.
Entretanto ali estava ele tendo de se desculpar.
Não tinha visto, mas era ela. Os dois sentiram um rubor que ficou evidente afinal ambos ficaram corados.
–Me desculpe-disse ele, sendo o mais rápido possível e saindo, deixando para trás tudo o que queria dizer.
"Quem você acha que é?" Já havia intercedido por ela na aula, não queria parecer estar querendo chamar a atenção, o que era exatamente o que ele queria.
A verdade é que, sejamos todos honestos, era um garoto, e ela era muito, muito atraente do jeito dela. Não conseguia fitar aqueles olhos tão bonitos sem tentar sair, fugir, ele não se achava bom o suficiente pra ela.
Fim das aulas, Graças a deus, ele já estava ficando sufocado de medo de chamar a atenção dela. Quando descia as escadas com a discrição de sempre, de nunca ser notado, como um verdadeiro fantasma ele se lembrou.
"Ela mora no mesmo lugar que eu!"
Mas aquele embrião de pensamento foi deixado de lado quando ele pôs seu fone de ouvido, e começou a escutar suas musicas.
Enquanto se aproximava de casa com seus passos rápidos ele olhou pra trás e a viu.
"MERDA" e todo um turbilhão de perguntas disparou seu cérebro inteiro. Deveria falar com ela e ser educado? Ser mal educado e ir embora? Correr como se não houvesse amanhã e se esconder com a cabeça no chão?
Então como por capricho do destino ela atravessou a rua.
"Ufa!"
Seguido disso um som de buzinas e um baque surdo rompe a sua corrente de duvidas existenciais.
Ele olha pra trás e vê algo que é incrivelmente chocante.
Ela estava ali, estatelada no chão, inerte.
"JESUS CRISTO!" ele corria pra ajudar, o maldito motorista fugiu sem dar socorro. Ia denunciar aquele filho da puta, mas não teve tempo de anotar placa, modelo, nem nada do tipo.
Quando chegou perto dela ela parecia estar consciente, apesar de abatida, como qualquer ser humano deveria parecer depois de ser atropelado por um carro.
–Você está bem?
–S-sim. Eu acho.
Ele chamou uma ambulância, que chegou lá mais rápido do que ele achou que chegaria, ela tinha documentos na carteira e então levaram ela para o hospital.
Ele,que estava se sentindo responsável por ela, acompanhou todo o trajeto dela até o hospital.
não sabia se ela estava bem ou não, até que a enfermeira disse que ele podia vê-la.
Entrou no quarto que rescendia a éter, e olhou aqueles olhos que o hipnotizavam, começou a conversa porque achou que seria mais conveniente:
–Olá.
–Hm...-ela parecia não estar tão consciente, mas ele continuou
–Tudo certo?
–Me diga você. Esses babacas não me disseram nada sobre minha situação.
–Você quebrou algumas costelas,algumas escoriações, mas vai ficar bem.
–Obrigada.
Silêncio, um silencio que desagradava não só os dois, desagradava toda a comunidade divina que assistia a cena.
–Seus pais já foram avisados e ...
–Nenhum dos dois vai dar a mínima, meu pai sempre ocupado no trabalho, minha mãe mora do outro lado do país, tem outros dois filhos e nunca gostou tanto assim de mim.
–Nossa!
–Mas eu conheço você, você é o garoto da minha sala.
–Thomas na verdade.
–Jura? Você não tem cara de Thomas.
–Ninguém nunca disse isso, acho que você deve estar meio grogue dos analgésicos.
–Devo sim, mas deixe pra lá, meu nome é Clare.
–Muito bom te conhecer Clare.
–Não digo o mesmo pra você, já que você só falou comigo depois que fui atropelada.
"Meu deus, ela sabe quem eu sou"
–Na verdade eu falei com você de manhã.
–Realmente, tinha me esquecido...
–Sem problemas.
Mais silencio ensurdecedor.
–Acho que não deveria, cansar você.
–Você não está...-ele já tinha saído do quarto.
Os deuses do mundo todo estavam olhando, e todos naquele momento fitavam o deus de Thomas, que estava tão vermelho quanto um deus pode ficar.
"Não devia ter feito isso, não devia!" Thomas se culpava
Pegou um táxi e voltou pra casa.
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