Uma noite diferente das outras
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Em todos os canais de televisão o assunto era o mesmo, alerta vermelha por causa de uma tempestade que se aproximava. Mas para Scorpius Malfoy era uma noite como qualquer outra. Como habitual, Scorpius encontrava-se no Três Vassouras, bar conhecido em Londres por suas constantes confusões e brigas entre embriagados. Mas Scorpius não ligava ao que falavam sobre esse bar pois o seu objetivo era o mesmo dos outros, beber. Beber para esquecer. Porque sim, Scorpius queria esquecer tudo, queria esquecer o que acontecera, queria esquecer a porcaria de vida em que vivia.
Scorpius já não sabia quantos copos de whisky bebera. Só sabia que tinham sido muitos. Mas, como já estava habituado à bebida pois era algo que já fazia parte da sua rotina, Scorpius ainda não estava completamente alcoolizado. Sentia-se apenas um pouco zonzo, mas apenas isso.
Pediu mais um whisky mas desta vez um duplo. Queria ficar o mais rápido possível bêbado para esquecer. Quando ia pegar o copo que o barman já tinha enchido alguém o tirou do seu alcance. Virou-se para ver quem tinha sido o desgraçado que se atrevera a tirar-lhe a sua preciosa bebida. Mas era apenas o seu amigo de infância, Albus Potter. Mas não estava sozinho. Um pouco mais atrás, um pouco encolhida estava Rose Weasley, prima de Albus, a melhor amiga dela…
-Dá-me o copo Albus. – pediu Scorpius tentando soar o mais educado possível.
-Chega por hoje, Scorpius. – disse Albus soando o mais determinado possível. Ele simplesmente não conseguia ver o amigo a estragar a sua vida. Scorpius simplesmente riu.
-E tu por acaso és minha mãe para me mandares parar? Eu paro quando quiser. – disse Scorpius já irritado. Tentou tirar o copo das mãos de Albus mas não consegui. – Albus dá-me o copo. – ordenou Scorpius.
-Ela não gostaria de te ver assim. – falou pela primeira vez Rose. Scorpius olhou para a ruiva ao lado de Albus furioso. Como é que ela se atrevera a tocar naquele assunto.
-Não fales nela. – gritou Scorpius chamando a atenção das diversas pessoas que se encontravam no Três Vassouras. Rose encolheu-se ainda mais. Assustara-se com o tom de Scorpius, ele nunca lhe falara naquele jeito. Scorpius ao olhar para Rose viu o quanto apavorada ela estava e sentiu-se mal por lhe ter falado naquele jeito. – Desculpa. – pediu Scorpius – Só não fales nela por favor. – Rose apenas concordou.
Rose estendeu-lhe a mão. Scorpius ficou indeciso se a pegava ou não. Por fim, decidiu pegar. Quando as suas mãos se tocaram, milhares de sensações passaram por ambos. Há muito tempo que Scorpius sonhava com um simples toque de Rose mas negara-se a isso após o fatídico acidente. Ele achava que não merecia felicidade alguma e por isso afastou-se de Rose. Não que eles fossem os melhores amigos mas também não eram meros desconhecidos. Tentou soltar-se mas Rose impediu-o. Os olhos cinzas encararam os azuis e por meros segundos só existiam eles os dois. Scorpius acabou por ceder e saiu com Rose e Albus do bar.
A tempestade noticiada em todos os canais de televisão já começara. E só aquele simples tempo levava não só Scorpius mas também Rose a reviver tudo. Albus sabia que não era uma boa ideia Scorpius ir embora de carro tanto por causa do seu estado de embriaguez como pelas más recordações. Albus nunca falara com Scorpius sobre o acidente, aliás Scorpius nunca falara com ninguém. Albus estava simplesmente à espera que o amigo se sentisse preparado para falar.
Seguiram os três a pé para a casa de Albus que ficava perto do bar. Chegaram todos encharcados e decidiram tomar banho. Albus emprestou roupas secas a Rose e Scorpius pois as suas roupas estavam todas molhadas.
Durante as seguintes horas os três conversaram sobre banalidades. Scorpius conseguira abstrair-se um pouco, por breves momentos conseguiu esquecer tudo e por incrível que pareça não foi através do álcool que conseguiu isso.
Eram quase duas horas da manhã quando decidiram deitar-se. Rose iria dormir no quarto de hóspedes e Scorpius no sofá.
Scorpius preparou-se para dormir mas, como das outras vezes, o sono não vinha. Agora que ficara sozinho novamente, as lembranças do acidente vinham em maior força. Deu voltas e voltas no sofá sem conseguir adormecer. Olhou para o relógio e já eram três e meia.
-Não consegues dormir? – Scorpius assustou-se ao ouvir alguém falar. Olhou e viu Rose com uma camisa que Albus lhe emprestara. Scorpius sentou-se no sofá permitindo que Rose se sentasse também. – Scorpius. – chamou a medo Rose. Rose nunca se sentira assim com Scorpius, sempre tivera liberdade para falar com ele mas desde o acidente…desde o acidente que Scorpius não era mais o mesmo.
-Não. – respondeu Scorpius olhando para Rose. Mais uma vez o cinza cruzou-se com o azul. Encararam-se durante vários minutos, calados. Nada precisava ser dito.
-Scorpius, eu sei que tu não queres falar nisso… — começou Rose. Scorpius ia protestar pois já sabia que assunto ela ia falar mas Rose impediu-o – Por favor deixa-me terminar. Scorpius é verdade que o acidente foi algo que nos marcará para sempre mas também sabes que a Pyxis iria querer que tu seguisses em frente.
-Mas eu não posso seguir em frente. Eu matei-a! – disse Scorpius desesperado. Rose sabia que era a primeira vez que Scorpius falava naquele assunto e por isso decidiu que não ia pressioná-lo, ele iria apenas falar o que queria.
-Tu não a mataste Scorpius, foi um acidente. Eu estava lá, eu sei o que aconteceu. E o que aconteceu foi que um carro completamente descontrolado bateu no que íamos nós e a Pyxis. A morte da tua irmã não foi culpa tua.
-Se não é culpa minha porque é que eu me sinto culpado? Porque esta culpa me acompanha para todo o lado? – perguntou Scorpius desesperado.
-Scorpius tens de te mentalizar que o que aconteceu não foi culpa tua, foi apenas uma tragédia. – disse Rose deitando a cabeça de Scorpius nas suas pernas.
-Então se a culpa não é minha porque é que os meus pais não me olham direito? Eles também me culpam.
-Eles não te culpam, tu apenas vês isso. Tu achas que és culpado e pensas que toda a gente te culpa. Mas não é verdade. Eu estava lá e não te culpo pelo que aconteceu. Assim como Pyxis, também eu e tu estávamos naquele carro e não termos morrido foi um mero acaso.
-Eu sinto tanto a falta dela… — soluçou Scorpius. Scorpius já não conseguia conter mais as lágrimas. Nunca chorara pela sua irmã. Desde a tragédia, Scorpius não demonstrou emoção nenhuma. E agora estava ali, no colo de Rose, a despejar todas as suas mágoas, a libertar-se.
-Eu também sinto. Sinto falta de alguém com quem possa conversar sobre tudo, sinto falta do sorriso dela, da sua boa disposição. Pyxis era a minha melhor amiga. Mas ela não iria querer ver as pessoas que amava a afundar-se, ela iria querer que elas fossem felizes.
-Mas eu não…
-Nem te atrevas a dizer que não mereces. Tu eras a pessoa que a Pyxis mais queria ver feliz. Tu não podes privar-te da tua felicidade. Não é justo contigo nem com as outras pessoas envolvidas. – disse Rose.
Scorpius pensou bem nas últimas palavras proferidas por Rose, afinal ela tinha toda a razão. Scorpius achava que não merecia felicidade alguma porque se sentia culpado pela morte da irmã. Então Scorpius resolveu fazer uma coisa que ansiava há muito tempo. Beijar Rose. E foi isso que fez. Levantou-se, ficando a meros centímetros dela e beijou-a. Rose, inicialmente, ficou sem qualquer reação pois nunca pensou que Scorpius Malfoy a beijasse. Mas rapidamente correspondeu pois era um beijo há muito aguardado. Só Pyxis sabia o quanto Rose era apaixonada por Scorpius. Só ela sabia.
Beijaram-se até lhes faltar o ar. Separaram-se e sorriram um para o outro. Mais nenhuma palavra, nenhum beijo, nenhuma carícia foi trocada. Apenas se mantiveram em silêncio abraçados um ao outro.
Pouco depois, Rose voltou para o quarto deixando Scorpius sozinho mas diferente das outras vezes, ele rapidamente adormeceu.
No dia seguinte Albus, Rose e Scorpius tomaram o pequeno-almoço juntos. Falaram sobre diversos assuntos mas o que aconteceu entre Rose e Scorpius na noite anterior não foi mencionado, era como se não se tivesse passado nada. Albus não soubera, nem desconfiara sobre o que acontecera na noite anterior entre o amigo e a prima mas notou uma grande diferença. Pela primeira vez, em meses, Scorpius sorria. Não era aquele sorriso forçado que ele fazia ultimamente mas sim um sorriso genuíno, o típico sorriso que ele fazia antes de tudo acontecer. Albus não soubera se se passara alguma coisa para a mudança de atitude de Scorpius mas estava feliz por ela ter acontecido.
Albus teve de sair para o trabalho mas disse que os amigos poderiam ficar até quando quisessem, tinha confiança mais que suficiente com eles para lhes confiar a casa. Assim, com Albus ausente, Rose e Scorpius ficaram novamente sozinhos. Ambos se mantiveram em silêncio sem saber o que dizer. O que antes era um silêncio calmo agora era um silêncio constrangedor.
Rose já não aguentava mais aquele silêncio, não aguentava saber o que aconteceria entre eles os dois após o beijo e a confissão de Scorpius sobre o acidente por isso decidiu que ia embora.
-Bem vou andando. – disse Rose dirigindo-se à porta. Scorpius nada respondeu e aquilo só frustrou ainda mais Rose. Rose já estava a fechar a porta quando num ato de coragem Scorpius chamou-a. Rose voltou-se rapidamente para ele para que ele continuasse o que tinha começado.
-Queres dar um passeio? – perguntou Scorpius. Rose sorriu com o convite e acenou em sinal de concordância.
Antes de irem até um parque conhecido por ambos, passaram em casa de Rose para que ela trocasse de roupa pois ainda andava com as roupas do primo.
Caminharam por algum tempo em silêncio. Acabaram por se sentar num banco.
Scorpius queria falar tudo para Rose mas sentia-se sem coragem. Todo o discurso que tinha treinado foi por água abaixo. Já Rose esperava que Scorpius dissesse alguma coisa. Impaciente, decidiu começar ela uma conversa.
-Scorpius porque me convidaste para dar um passeio? – perguntou Rose. Ela queria incentivá-lo a falar.
-Bem…eu queria agradecer-te por me teres ouvido ontem à noite, foi bom desabafar.
-Sabes que não precisas de agradecer, nós somos amigos e os amigos são para os bons e os maus momentos. Só espero que tenhas tirado aqueles macaquinhos todos da cabeça.
-Sim, eu estou a tentar o máximo que consigo. Decidi que vou voltar a trabalhar e deixar a bebida de lado.
-Boa! – disse Rose abraçando Scorpius. Inicialmente em choque, Scorpius não retribuiu o abraço. Mas isso não demorou muito. Quando se deu conta, já abraçava de volta Rose.
-Rose, sobre o beijo…
-Eu compreendo Scorpius, foi na emoção do momento… — Scorpius não deixou Rose acabar de falar e beijou-a. Ficaram assim durante algum tempo até que se afastaram.
-Já te disseram que falas demais? – perguntou Scorpius na brincadeira . — Rose entende, eu já há muito tempo que queria fazer isso mas depois…depois do acidente eu achava que não merecia ser feliz por isso é que me afastei de ti. – confessou Scorpius e pegou nas mãos de Rose – Rose, eu amo-te.
-Eu também te amo. – confessou Rose abraçando Scorpius.
3 anos depois
Fazia quatro anos que Pyxis partira. Scorpius desde então mudara muito. Inicialmente assumiu que ele era o culpado pela morte de Pyxis e decidiu que não merecia ser feliz. Depois Rose fez vê-lo que ele não tivera culpa nenhuma e que aquilo tinha sido sim uma tragédia mas que teria de ultrapassar e seguir em frente. Agora, Rose e Scorpius encontravam-se em frente à campa de Pyxis.
-Scorpius preciso de te contar uma coisa. – confessou Rose. Scorpius olhou para ela, curioso sobre o que a sua esposa queria falar.
-Fala meu amor.
-Eu estou grávida. – contou Rose. Scorpius abraçou-a e rodopiou com Rose para demonstrar toda a felicidade que sentia. – Eu estava a pensar que, se fosse menina, podíamos chamá-la de Pyxis.
-Estás a falar a sério? – perguntou Scorpius já emocionado.
-Claro. – afirmou Rose. Scorpius voltou a abraçá-la. Agora já ambos choravam com a emoção do momento.
-A cada dia eu amo-te mais Rose.
-Eu também te amo.
O que Scorpius achava que seria uma noite como tantas outras acabou por se tornar uma noite diferente delas.
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