Fiquei alguns minutos parado diante do espelho, ajustando a gola da camisa como se aquilo realmente fizesse diferença. Passei a mão pelo cabelo, depois pelo rosto, tentando ignorar a leve tensão que insistia em aparecer. Não era como sair pra resolver algo da oficina, nem como qualquer outro compromisso comum. Era… diferente. E eu sabia disso.

Soltei um suspiro curto, olhando meu reflexo mais uma vez, como se quisesse ter certeza de que estava tudo no lugar. Então estiquei o braço e peguei a pequena caixinha azul sobre a cômoda. Girei ela entre os dedos por um segundo antes de guardá-la no bolso da jaqueta. Em seguida, peguei a carteira, as chaves do carro e saí do quarto.

Na sala, a televisão estava ligada, algum desenho passando enquanto Ayla e Rachel dividiam o sofá. Ayla estava com as pernas cruzadas, completamente envolvida na tela, mas assim que me viu, virou o rosto na hora.

– Que horas a Nessie chega?

Sorri de leve, apoiando o ombro na parede.

– Eu tô indo buscar ela agora.

Os olhos dela brilharam.

– Sério?

Rachel me olhou de cima a baixo, com aquele sorrisinho que já vinha acompanhado de provocação.

– Olha só… tá bonitão, hein.

Revirei os olhos, mas não consegui evitar o canto da boca levantando.

– Para com isso.

– Não, é sério – ela insistiu, apontando pra mim – tá todo arrumado.

Ayla inclinou a cabeça, me analisando como se fosse uma pequena investigadora.

– É mesmo… por que você tá tão arrumado?

Abri a boca pra responder, mas nenhuma resposta parecia boa o suficiente.

Rachel se adiantou, batendo levemente na perna da Ayla.

– Vai lá no quarto buscar seus lápis de cor pra gente desenhar depois.

Ayla fez uma careta.

– Mas eu já tava vendo desenho…

– Vai lá rapidinho – Rachel insistiu, com aquele tom que não deixava muita escolha.

Ayla suspirou, mas desceu do sofá e saiu correndo em direção ao quarto.

Esperei ela sumir pelo corredor antes de olhar pra Rachel.

– Valeu.

Ela deu de ombros, como se não fosse nada demais.

– Eu te salvei de uma pergunta difícil.

Soltei um riso baixo, passando a mão pela nuca.

– Nem sei o que eu ia responder.

Rachel me observou por um momento em silêncio, o sorriso dela diminuindo um pouco, ficando mais… atento.

– Você tá diferente, Jake.

Franzi a testa, sem entender.

– Diferente como?

Ela inclinou a cabeça, como se estivesse escolhendo as palavras.

– Tem um brilho no seu olhar que eu não via há anos.

Fiquei em silêncio por um segundo, absorvendo aquilo.

Instintivamente, pensei nela.

Renesmee.

Respirei fundo, desviando o olhar.

– Você tá viajando.

Rachel soltou uma risadinha baixa.

– Tô não.

Mas não insistiu.

E, por algum motivo… eu também não consegui negar com tanta convicção assim.

Rachel ficou me olhando por mais alguns segundos, como se estivesse esperando eu tentar negar de novo. Quando percebeu que eu não ia falar nada, cruzou os braços e soltou, direto:

– É ela, né?

Virei o rosto de leve.

– Quem?

– A Renesmee.

Ela não desviou o olhar.

– É ela que tá causando esse… brilho aí.

Soltei o ar devagar, sem resposta pronta dessa vez. Acabei cedendo, caminhando até o sofá e me jogando ao lado dela, apoiando os cotovelos nos joelhos. Passei a mão pelo rosto, tentando organizar o que eu mesmo ainda estava entendendo.

– Ela é diferente.

Falei mais baixo, quase como se estivesse pensando em voz alta.

Rachel não interrompeu, só ficou ali, escutando.

– Eu amei a Leah… – continuei, sentindo aquele peso antigo, mas já sem a dor de antes – mas era diferente. A gente era muito novo. Eu tinha vinte anos… não tinha plano nenhum.

Dei um pequeno sorriso de lado.

– A gente não falava de futuro, de casa, de nada disso. A Ayla… aconteceu. E foi a melhor coisa que já me aconteceu, mas não foi algo planejado.

Fiz uma pausa, respirando fundo antes de continuar.

– Com a Nessie não é assim- Levantei o olhar, encarando o nada por um segundo – Eu olho pra ela e penso em… futuro mesmo. Em construir alguma coisa. Em chegar em casa e ela estar lá. Em… – soltei um riso baixo, meio sem acreditar em mim mesmo – em aliança no dedo, filhos… essas coisas.

Rachel não falou nada por um instante. Só colocou a mão no meu ombro e apertou de leve.

– Eu tô feliz por você, Jake.

A voz dela saiu sincera, sem brincadeira dessa vez – Você merece isso. Esses últimos anos… foram muito solitários pra você.

Engoli seco, assentindo de levee antes que eu dissesse mais alguma coisa, um barulho veio do corredor.

– OLHA!

Ayla apareceu carregando uma caixa de sapato cheia de lápis de cor, alguns quase caindo pelo caminho. Ela veio toda animada, como se aquilo fosse o maior tesouro do mundo.

– Eu achei todos!

Sorri na hora, me levantando e indo até ela. Me abaixei um pouco e beijei os cabelos dela com carinho.

– Boa garota- Passei a mão de leve na cabeça dela – Eu vou buscar a Renesmee, tá?

Os olhos dela brilharam de novo, como se aquilo fosse a melhor notícia do dia… de novo.

– Ai que bom!

Ela deu um pulinho no lugar, apertando a caixa contra o peito.

– AAAAAH!

Rachel riu atrás de mim, e eu só balancei a cabeça, ainda sorrindo.

Peguei as chaves no bolso.

E, dessa vez… eu sabia exatamente pra onde eu queria ir.


Narrado por Renesmee


Meu quarto parecia um campo de batalha.

Vestidos jogados na cama, alguns no chão, outros largados na cadeira, como se cada um deles tivesse sido testado e rejeitado em poucos segundos. Eu já tinha trocado de roupa tantas vezes que nem lembrava mais qual tinha sido a primeira escolha.

– Ridículo… – murmurei, olhando meu reflexo mais uma vez.

Mas, ainda assim… fiquei.

O vestido vermelho era simples, curto, rodado, com alças delicadas que deixavam meus ombros à mostra. Não era nada exagerado, mas… era bonito. E, pelo jeito que se ajustava ao meu corpo, era impossível fingir que eu não tinha escolhido ele por um motivo.

Suspirei, passando a mão pela lateral do tecido, como se pudesse alisar também o nervosismo.

Calcei as sandálias de salto, me equilibrando por um segundo, e peguei a bolsa. Antes de sair, voltei ao espelho, ajustando um detalhe da maquiagem, os dedos levemente trêmulos.

Inclinei a cabeça, me encarando.

– Por que você tá tão nervosa?

Perguntei pra mim mesma, em voz baixa.

Não era como se fosse um encontro.

Quer dizer… talvez fosse.

Meu celular vibrou na mão, me tirando dos próprios pensamentos, olhei a tela e havia uma mensagem do Jacob.

“Já tô chegando.”

Meu coração respondeu antes mesmo de eu digitar qualquer coisa.

Respirei fundo, tentando parecer normal até pra mim mesma.

“Já tô descendo.”

Enviei rápido, antes que pensasse demais, e guardei o celular na bolsa. Dei uma última olhada no espelho, como se precisasse de aprovação, e então saí do apartamento.

O ar da noite me atingiu assim que cheguei à frente do prédio, e eu tentei usar aquilo pra me acalmar, cruzando os braços de leve enquanto esperava.

Não demorou muito e o carro dele apareceu na esquina e parou bem na minha frente. O vidro desceu devagar, e ele se inclinou um pouco, apoiando o braço na janela.

O sorriso dele… não ajudava em nada o meu estado.

– Oi, gatinha… quer uma carona?

Dei um riso e ouvi o som da porta do motorista abrindo. Levantei o olhar e vi Jacob dando a volta, caminhando na minha direção com aquela calma que parecia só dele. Meu sorriso veio automático.

– Estou tentando me recuperar da sua cantada – falei, cruzando os braços de leve, divertida.

Ele riu, aproximando-se.

– Foi tão ruim assim?

Balancei a cabeça dizendo que simbe rimos juntos, e por um segundo tudo pareceu leve de um jeito que eu não sentia há muito tempo.

O olhar dele mudou – Você está linda.

A forma como ele disse aquilo fez meu coração apertar de um jeito bom. Engoli seco, sentindo o calor subir pelo rosto.

– Obrigada…

Respondi mais baixo, desviando o olhar por um segundo antes de voltar pra ele.

Jacob levou a mão ao bolso da jaqueta, como se lembrasse de algo.

– Antes da gente ir… eu queria te dar uma coisa.

Franzi levemente a testa, surpresa.

– Pra mim?

Ele assentiu, tirando uma caixinha pequena, azul, e estendendo na minha direção.

Por um instante, só fiquei olhando.

Então peguei.

– Jacob… não precisava…

Murmurei, mas mesmo assim abri a caixinha com cuidado. Dentro havia uma pulseira, simples, mas… linda, nela haviam

Pequenos lobos talhados em madeira, delicados, com um acabamento artesanal que fazia tudo parecer ainda mais especial.

Meus olhos se suavizaram na mesma hora – É… linda.

Levantei o olhar pra ele, ainda segurando a pulseira. – Eu amei.

Sorri, sincera, sentindo algo apertar no peito de um jeito diferente – Obrigada.

Ele não respondeu com palavras, os olhos dele buscaram os meus em silêncio, um silêncio que não era vazio… era cheio de alguma coisa que estava crescendo rápido demais.

Nem percebemos mas nossos corpos estavam próximos, como se o mundo ao redor tivesse desacelerado só pra aquele momento.

A mão dele subiu até meu rosto, os dedos tocando minha pele com cuidado, quase como se estivesse confirmando que eu estava mesmo ali.

Fechei os olhos por um segundo, sentindo o toque dele, os lábios dele se aproximaram dos meus e então… ele me beijou.




Notas finais
O que estão achando desses dois juntos?