Uma lição de amor
35 Invasor
Narrado por Jacob
A chuva batia fraca na janela, mas constante. Daquelas que parecem não ter pressa de ir embora. O céu estava cinza, pesado. Combinava comigo.
Eu não dormi nada, fiquei virando na cama, encarando o teto, pensando nela… pensando em tudo que eu não disse.
Quando o despertador tocou, eu já estava acordado há horas.
Levantei no automático e fui pra cozinha. Coloquei água pra ferver, peguei a caneca da Ayla, a preferida dela, aquela com uma lasquinha na borda que ela se recusa a trocar.
Preparei o café dela do jeito que ela gosta, mais leite do que café, peguei a caneca e caminhei devagar. A porta do quarto dela estava entreaberta. Empurrei com cuidado, Ayla ainda dormia, toda encolhidinha, abraçando o travesseiro como se o mundo lá fora não existisse.
Eu parei ali por um segundo e respirei fundo. Não tive coragem de acorda-la.
Caminhei até a cama, sentei na beirada e passei a mão devagar pelos cabelos dela.
— Dorme, pequena…
Ela nem se mexeu.
Fiquei ali, olhando. E, sem querer, lembrei das palavras dela durante a semana.
“As três palavrinhas mágicas, pai… às vezes é só isso que falta.”
Fechei os olhos.
E se eu…
Minha mão parou no meio do carinho — E se eu tivesse dito? E se eu ainda…
Balancei a cabeça, afastando o pensamento como se fosse perigoso demais.
— Agora é tarde…
Murmurei quase sem som.
Levantei devagar, puxei a coberta um pouco mais pra cima dela e saí do quarto, fechando a porta com cuidado.
De volta à cozinha, o silêncio parecia ainda mais alto.
Coloquei café na minha caneca, mas nem senti o cheiro direito. Minha cabeça estava longe, muito longe.
Encostei na pia, olhando a chuva cair lá fora.
Ela devia estar acordando agora… ou talvez já estivesse no aeroporto. Talvez já estivesse…
A campainha tocou.
Franzi a testa, irritado.
— Sério, Seth?
Passei a mão no rosto.
— Perdeu a chave de novo, né?
Caminhei até a porta ainda resmungando.
Abri sem nem olhar direito.
Mas não era o Seth.
Meu corpo travou na hora, Alec Volturi e Elizabeth Cullen.
Os dois estavam ali, na minha porta, debaixo da chuva, Elizabeth parecia tensa. Alec… como sempre, com aquela calma que incomoda.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Bom dia, Black.
Olhei de um pro outro, sem entender nada.
— O que vocês estão fazendo aqui?
Alec deu um meio sorriso.
— Tivemos um pequeno imprevisto. O pneu do carro furou aqui perto.
Fiquei em silêncio por um segundo e meu instinto gritou que aquilo não era só coincidência.
O som da chave de roda girando ecoava pela oficina. Metal contra metal. Ritmo seco, repetitivo. Era quase bom… ajudava a não pensar, quase.
— Motor bem cuidado — eu comentei, mais pra ocupar o silêncio do que por interesse real.
Alec Volturi deu de ombros, encostado perto do carro.
— Eu gosto de manter as coisas funcionando.
Assenti, apertando mais um pouco o parafuso.
— Dá pra ver.
Elizabeth Cullen estava ali, quieta, observando, con os braços cruzados, uma expressão difícil de decifrar.
O celular do Alec tocou e ele olhou a tela e fez um gesto leve com a cabeça — Com licença.
Se afastou alguns passos, atendendo baixo.
O barulho da chuva no telhado preencheu o espaço que ele deixou e eu continuei mexendo no pneu, focado.
Até ela falar.
— Vai demorar muito? A voz de Elizabeth saiu calma, quase casual — A Nessie já está no aeroporto.
Minha mão parou.
Por um segundo, tudo parou. A chave ainda encaixada no parafuso, mas sem força.
Aeroporto.
Engoli seco e voltei a girar a chave, como se nada tivesse acontecido.
— Dez minutos.
Respondi sem olhar pra ela, só queria terminar logo e despachar a Cullen, mas Elizabeth não deixou.
— Vocês dois… — ela começou, leve, como quem puxa assunto qualquer — sempre achei um casal lindo.
Soltei o ar devagar, meio sem paciência, levantei, limpando as mãos num pano, e olhei direto pra ela.
— Tá. Chega.
Ela arqueou a sobrancelha, divertida.
— Chega?
— O que vocês vieram fazer aqui de verdade?
Apontei com a cabeça pro carro. — Porque até onde eu sei, esse carro tem pneu reserva.
O canto da boca dela subiu e ela riu baixo. — Tá bom… você me pegou.
Cruzei os braços, esperando.
— Desculpa — ela disse, ainda sorrindo — sei que tô quebrando uma promessa, mas essa foi a única maneira de falar com você.
Voltei a me abaixar, encaixando o último parafuso — Se for sobre a sua irmã...
— Ela te ama.
A frase veio rápida e direta me acertando o peito sem aviso e minha mão travou de novo — Eu nunca vi a Nessie chorar por ninguém — Elizabeth continuou, a voz mais séria agora — mas ontem… Ela respirou fundo. — Ontem eu vi.
Fechei os olhos por um segundo.
— Você vai mesmo deixar ela ir… — ela deu um passo mais perto — sem saber que você também ama ela?
Levantei devagar sentindo uma mistura de emoções que não consegui descrever.
— Eu...
— Precisamos ir.
A voz do Alec cortou o momento, ele olhou pra mim depois pra Elizabeth, como se soubesse exatamente o que tinha sido dito, tive certeza que o celular não havia tocado atoa.
Endireitei o corpo, dando um passo pra trás.
— O carro tá pronto.
Elizabeth ainda me encarava, como se esperasse por alguma coisa, mas eu não disse nada.
- Quanto é o serviço? Alec perguntou quebrando o silêncio.
- É por conta da casa — Respondi olhando para Elizabeth.
Alec assentiu.
— Agradeço a ajuda.
Eles se afastaram e entraram no carro, ouvi o som do motor sendo ligado e eu fiquei ali, parados em silêncio, com o som da chuva… e das palavras dela batendo na minha cabeça.
“Ela te ama.”
Passei a mão no rosto.
Olhei na direção da rua, Aeroporto
Ainda dava tempo.
…não dava?
Eu ainda estava parado no meio da oficina, com a cabeça longe, quando ouvi passos apressados entrando sem cerimônia. Seth Clearwater apareceu na porta como um furacão, pronto pra falar qualquer coisa, mas travou no meio do caminho ao me ver daquele jeito, imóvel, com o olhar perdido e o corpo tenso como se eu estivesse prestes a explodir. Não esperei ele perguntar nada. Peguei a chave da moto que estava pendurada, enfiei a carteira no bolso e passei direto por ele, como se cada segundo ali dentro estivesse me sufocando.
— Cuida da Ayla pra mim.
Minha voz saiu mais firme do que eu me sentia. Seth virou atrás de mim, claramente tentando entender o que estava acontecendo.
— Ei, pera, tu vai pra onde assim?
Eu já estava na porta quando respondi, sem olhar pra trás, porque se olhasse talvez perdesse a coragem.
— Corrigir um erro.
Saí pra chuva sem pensar duas vezes. A água fria bateu no rosto, mas nem senti direito. Subi na moto e dei partida com pressa, o motor rugindo alto no meio da manhã cinza. As ruas de Seattle estavam molhadas, escorregadias, cheias de reflexos das luzes e dos carros que passavam, mas nada disso me fez diminuir. Eu desviava, acelerava, cortava caminho, ignorava buzinas e sinais, dirigindo como alguém que já não tinha muito a perder. Minha mente só repetia o mesmo pensamento, como um eco irritante que não me deixava respirar.
Ela está indo embora.
Apertei o acelerador com mais força, sentindo o vento e a chuva se misturando no rosto. Cada cruzamento parecia demorar demais, cada carro na frente parecia um obstáculo pessoal. Eu não sabia se ainda dava tempo, mas também sabia que, se não tentasse, aquilo ia me perseguir pelo resto da vida.
Quando finalmente vi o aeroporto à frente, meu coração já estava descompassado, batendo forte demais. Estacionei a moto de qualquer jeito, mal me importando se estava certo ou não, e corri para dentro, desviando das pessoas, esbarrando em algumas, ouvindo reclamações que eu simplesmente ignorei. Meu foco era um só. Encontrar ela.
Atravessei o saguão rápido, os olhos varrendo cada rosto, cada direção, até chegar ao setor de embarque. Foi ali que eu vi eles. Bella Swan, Edward Cullen, Alec Volturi e Elizabeth Cullen estavam reunidos, como se já esperassem alguma coisa. Parei na frente deles, ainda tentando recuperar o fôlego, sentindo o peito subir e descer rápido demais.
— Cadê a Nessie?
Edward me olhou com aquela expressão séria que não deixava espaço pra esperança.
— Ela acabou de embarcar.
Aquilo me atingiu em cheio. Por um instante, o mundo pareceu desacelerar, como se tudo ao redor tivesse perdido o som. Elizabeth cruzou os braços, observando minha reação com um leve sorriso que não ajudava em nada.
— Você demorou.
Eu nem respondi. Meu olhar já tinha encontrado o portão de embarque logo à frente, perto demais pra desistir, longe demais pra alcançar sem esforço. Comecei a andar rápido, depois acelerei o passo, sentindo a urgência tomar conta de novo. Quando me aproximei, um homem se colocou na minha frente, bloqueando o caminho com firmeza.
— Senhor, não pode passar.
Respirei fundo, tentando manter a calma que eu claramente não tinha.
— Eu só preciso falar com uma pessoa. É rápido.
Ele negou com a cabeça, mantendo a postura.
— Não é permitido.
Meu maxilar travou. Olhei por cima do ombro dele, enxergando o corredor que levava ao embarque, tão perto que parecia provocação. Eu estava prestes a insistir de novo quando a voz da Elizabeth cortou o ar atrás de mim, alta o suficiente pra chamar atenção.
— Eu não tô passando bem!
O homem virou imediatamente, preocupado.
— Senhora, precisa de ajuda?
Foi a brecha que eu precisava. Não pensei duas vezes. Passei por ele rápido, aproveitando o momento, ignorando completamente o que ele dizia logo em seguida.
— Senhor, o senhor precisa voltar!
O ignorei.
Já estava correndo de novo, agora dentro da área de embarque, com o coração batendo ainda mais forte, a respiração pesada e a única certeza que eu tinha naquele momento queimando dentro de mim.
Eu precisava encontrar ela, antes que fosse tarde de verdade.
Eu nem sabia se aquele era o avião certo e isso só deixava tudo mais insano.
O corredor à frente levava direto para o único embarque ainda aberto, com alguns funcionários organizando os últimos passageiros. Meu cérebro tentava me alertar do tamanho da besteira que eu estava prestes a fazer. Se ela não estivesse ali, eu não só teria perdido ela… como provavelmente sairia dali algemado, sem nem conseguir explicar direito o porquê.
Mas, naquele momento, eu já tinha ido longe demais pra voltar.
Apertei o passo, tentando parecer só mais alguém atrasado, mas a tensão no meu corpo denunciava tudo. Um funcionário olhou na minha direção, desconfiado, e deu um passo à frente.
— Senhor, sua passagem...
Não deixei ele terminar. Passei direto, fingindo não ouvir, ignorando completamente a mão que tentou me segurar de leve pelo braço. Meu coração disparou ainda mais quando ouvi ele chamar alguém atrás de mim, mas eu não parei. Só continuei andando, atravessando o acesso e entrando no avião como se aquele lugar me pertencesse.
Assim que pisei lá dentro, senti todos os olhares se virarem pra mim.
Droga.
Uma comissária de bordo veio rápido na minha direção, com aquele sorriso treinado que não escondia a tensão nos olhos.
— Senhor, o senhor não pode embarcar sem...
— Eu preciso encontrar alguém- Minha voz saiu firme, mas carregada de pressa.
Ela tentou manter o controle — O senhor precisa se retirar imediatamente ou...
Mas eu já estava andando pelo corredor, olhando de um lado pro outro, passando pelas poltronas, ignorando completamente ela falando atrás de mim. Algumas pessoas cochichavam, outras me encaravam abertamente, incomodadas com a cena. Um homem levantou levemente da cadeira, como se estivesse pronto pra interferir, e uma senhora levou a mão ao peito, assustada.
A comissária insistiu, agora mais firme:
— Senhor, isso não é permitido!
Mas eu não escutava mais direito, só via rostos, um após o outro e nenhum era o dela.
A tensão começou a subir de um jeito perigoso dentro de mim. E se eu estivesse no avião errado? E se ela já estivesse no ar, indo embora enquanto eu fazia papel de idiota ali dentro?
Passei a mão no cabelo, nervoso, girando no corredor, tentando decidir se avançava mais ou voltava correndo.
Não.
Não dava pra parar agora.
Respirei fundo e, sem me importar com mais nada, levantei a voz.
— Nessie!
O burburinho aumentou na mesma hora.
Algumas pessoas trocaram olhares, outras se inclinaram pra ver melhor, claramente curiosas com a cena. A comissária parou de tentar me puxar por um segundo, surpresa com o grito.
Meu coração martelava no peito.
— Renesmee Cullen!
O nome dela ecoou pelo avião.
O silêncio que veio logo depois foi estranho, pesado, como se todo mundo estivesse esperando alguma coisa acontecer.
E então, lá no fundo, na última fileira, ela apareceu.
Renesmee Cullen se levantou devagar, surgindo entre os assentos, e quando nossos olhares se encontraram… tudo ao redor pareceu desaparecer.
Ela me olhava como se não acreditasse que eu estava ali.
E, pra ser sincero… nem eu acreditava direito.
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