Uma irmã meio... Louca!
6 Aquele esquecido
Autora/Kirino.
Parado em frente aquele cômodo, reunia toda a coragem que não teve em todos aqueles anos. Olhava para tal porta de cor intensa, apreensivo.
Seus finos dedos finalmente tinham se encontrado com o gelado da maçaneta, e enfim, a tão temida porta fora aberta.
Guardado numa sala empoeirada, cobertas por teias de aranha e sujeira, lá estava sonhos e lembranças.
Os quais o mesmo julgou ser indiferente para o outro naquela época.
Sem importância, afinal, ele jamais tinha esboçado sequer qualquer reação em relação aqueles fragmentos de memória... Mas agora, de ante daquela sala, podia ver todo o amor que se foi escondido, cada pequeno detalhe que seu pai preservou.
Os inúmeros desenhos de seus filhos, os quadros pintados por sua esposa, fotos em família, cartinhas das crianças em datas comemorativas...
Nada estava faltando, ele lembrava de cada uma que tinha entregado...Simplesmente tudo!
Ele não entende, o por que do outro jamais ter externado todo esse amor, durante seu tempo em vida.
Não entende, qual era a dificuldade em expressar o que sentia, afinal, sua mãe sempre fora tão contrária a ele.
Pegava as pequenas crianças rosadas e as rodava por todo a casa, rindo junto a elas, gritando a imensidão daquela montanha o quanto as amava.
Demonstrando algo...
Talvez, só talvez.
Ele não conseguisse perceber o amor que aquele senhor de cabelos negros possuía.
Não o percebi ao longe sorrindo ao vê-los brincar enquanto fotografava cada momento escondido na sombra das árvores, atrás de alguma parede da casa, por debaixo da escada...
Talvez, ele estivesse tão acostumado ao jeitinho que sua mãe demostrava afeto, que não tinha desenvolvido a percepção de entender as demonstrações do outro.
Talvez, seja isso que sua irmã tenha o dito naquela época, antes dele falecer, e antes dela ir embora...
Embebedado por pensamentos, ele mal nota a água que escorria de seus olhos cor de céu.
Seu corpo deslizava até estar sentado na velha e mal cuidada poltrona, aonde ele trabalhava...
Seu corpo agora parecia pequeno demais... Se encolhia feito uma bola, recluso, arrependido, decepcionado consigo...
Como pudera não notar?
Agora a ira de sua irmã fazia sentido...
Agora, suas lágrimas não eram um desperdício...
Agora, tinha empatia por sua dor...
No final, ela sempre esteve certa, e ele era um tolo.
Enquanto divagava em seus devaneios, algo chamou sua atenção.
Em cima daquela escrivania, uma carta azul com escrita em dourado.
"Para meu precioso, Ranmaru"
Antes te pegar tal objeto, ele recua temeroso.
Pegar ou não?
Dúvida cruel, não sabia do que se tratava, e nem se em seu frágil estado emocional iria suportar o teor de tal papel.
Mas, sentia que de alguma forma devia isso a ele... A elas...
Respirando profundamente, corpo trêmulo e lágrimas em ambulância.
Um barulho de papel abrindo, o lacre em forma de Orquídea foi finalmente rompido.
" Para: meu doce e precioso Filho.
Sei que não tenho direito de escrever para ti, certo?
Você deve estar com raiva, e talvez me odiando...
Não tiro esse direito de você, te falei coisas horríveis, que não me orgulho.
Olhando para você distante, consigo perceber o peso de minhas palavras...
Elas te fizeram sangrar, perfuraram sua alma...
Um pai não deveria tratar um filho assim, em nenhuma circunstância.
O fato de estar confuso, não me dá o direito de me recusar te entender.
O mundo é mal, cruel e injusto, mas isso não é justificativa para ser com você.
Foi difícil deixar a minha garotinha partir... Mas deve ser pior, ferir aquele que estava renascendo dela.
Se encontrar é difícil né?
É mais fácil quando temos aqueles que nos amos ao nosso favor e não contra...
Sua mãe está fazendo um ótimo trabalho, certo?
Vocês conversam?
Ela não te virou as costas como eu fiz...
Ela é maravilhosa, mas acho que você já deve ter percebido...
Ela também me explicou algumas coisas, conversou comigo e me fez te enxergar.
Enxergar você como você é!
Além da aparência e lembranças.
Ela me ensinou a amar o meu filho.
E estou orgulhoso do garoto que você está se tornando, eu espero que você realize todos os seus sonhos e que seja imensamente feliz.
Cresça, estude, trabalhe e ame.
E se você poder, um dia, mesmo que seja no seu último... Possa me perdoar.
Te amo Ranmaru.
Me perdoe por te fazer sofrer e me perdoe por estar deixando vocês tão cedo.
Amo cada um de vocês, como cada fragmento de minha alma.
Com amor, papai ".
O adolescente se encontrava afogado em suas lágrimas, depois de todos aqueles anos...
Depois de tudo...
Ele o enxergava.
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