Uma infinidade de papais noéis

1 Entre família e... Papais noéis?


Sophia sempre gostou do Natal. Gostava de como as pessoas se uniam e deixavam as divergências de lado. Gostava dos pratos feitos especialmente para a data e de como ninguém da sua família fazia a brincadeira do "Pavê? Não, pra comer". Só havia uma coisa que Sophia não gostava no Natal: a casa de sua tia, onde ela e sua família comemoravam a data, ser decorada por inúmeros, infinitos, diversos tipos de papais noéis. Ela pensava que, se por acaso alguém de fora visse aquilo, sairia correndo. Quem recepcionava os convidados não era a dona da casa, sua tia Anita, mas sim um imenso papai noel falante. Uma vez, Sophia desligou o boneco discretamente e, felizmente, ninguém teve tempo nem disposição para religá-lo.

Dentro da casa, a estante, as mesas de canto e de centro, a mesa de jantar, o balcão de mármore da cozinha, os guarda roupas, enfim, tudo, era decorado ou com adesivos de papai noel ou com um papai noel em miniatura. O avental que sua tia usava para preparar a ceia tinha um papai noel estampado.

Quando viu tudo aquilo pela primeira vez e já entendia um pouco das coisas, Sophia tinha quatro anos. Lembrava que sentiu um pouco de medo, mas depois começou a brincar com eles e a tratá-los como suas bonecas temporárias. Quando cresceu, achou aquilo ridículo. Uma vez se recusou a ir, alegando estar cansada e sem ânimo para comemorações, quando na verdade apenas queria fugir dos papais noéis. Claro que não funcionou e ela acabou indo. Agora, com seus dezesseis anos, ela sente-se desconfortável em comer ou conversar com tantos olhos de mentira parecendo encará-la. E também não gostava do fato de que, em todas as fotos que tirava, um papai noel aparecia ao fundo.

Algo que deixava tudo aquilo um pouco menos enjoativo era que os pequenos homenzinhos barrigudos e barbudos eram todos diferentes: um usando saia escocesa, outro sem óculos, outro só com a cara estampada numa lua decorativa, um dançando, outro com roupas coloridas e até mesmo um Papai Noel negro ou coreano. Sem falar daqueles com a barba lisa, enrolada e até de dreadlocks. Porém nada disso, em momento algum, faz o hábito deixar de ser... Estranho.

Sophia sempre se vestia pensando que nunca, em hipótese nenhuma, gostaria de compartilhar da mesma gama de cores que a decoração doentia da casa. Por isso, esse ano, ela vestiu-se de azul. Claro que já usou roupas dessa cor para o Natal, mas já faz algum tempo, então decidiu que seria uma boa escolha. Comprou o vestido azul marinho especialmente para a ocasião. Saiu de casa com a esperança de que, apesar de ficar um pouco paranoica dentro da casa da tia, seria um bom Natal.

Seus pais não são o que se pode chamar de pontuais. Então, quando chegam, a casa já está cheia. Pessoas andam por todos os lados enquanto outras estão sentadas em mesas, conversando alto e bebendo. Sophia sempre admirou que sua família fosse tão animada e feliz.

– Querida, leve isso aqui pra mim – pediu sua mãe, entregando-lhe a travessa com a sobremesa que prepararam juntas.

– Filha, carrega isso lá pra dentro, por favor – pediu seu pai, colocando em sua mão a sacola com presentes dentro.

Começou a andar rumo ao portão quando sua irmãzinha a chamou:

– Me espera, Sophi... Quero ir com você. – E então fez sinal, querendo segurar sua mão.

Sophia passou a segurar a travessa numa mão e a sacola em outra, ao mesmo tempo em que segurava a mão de sua irmã. Entraram, desviando-se das pessoas que passavam. O grande Papai Noel continuava em seu posto, logo na entrada, e ela passou por ali o mais rápido possível.

A porta de correr da sala estava aberta e lá dentro algumas pessoas viam tv. Quando foi entrar, sua irmã tentou passar ao mesmo tempo, e Sophia sentiu seus pés se atrapalharem. Sabia que iria cair e quebrar a travessa de vidro, inclusive se sujando toda com a sobremesa. Esperou pelo baque. Mas não caiu.

Acabou apoiada num grande – e novo – Papai Noel inflável. Mas todos a encaravam, porque tinha soltado um grito. Reconheceu alguns rostos, que sorriram e acenaram pra ela. Sophia disse rapidamente um oi coletivo e seguiu até a cozinha, agradecendo intimamente o Papai Noel de mentira.

No momento em que sua irmã encontrou os priminhos, saiu correndo e sumiu de vista. Era sempre assim. Lembrava-se dela até encontrar as outras crianças. Colocou a sacola embaixo da árvore, observando a quantidade imensa de presentes. Todos da família amavam se presentear. Cumprimentou seus avós e tios, percebendo que havia pessoas novas ali. Acabou se direcionando para a sala, onde seus primos estavam. Sentou-se ao lado de Bernardo, logo entrando na conversa sobre jogos. Ela aprendeu, desde muito cedo, a conviver e a gostar dos assuntos masculinos, devido à falta de garotas na sua faixa etária na família.

– Eu disse que ele ia estranhar esses papais noéis – disse seu primo, rindo.

Ela então olhou na mesma direção e viu um garoto entrando, meio perdido, sem saber para qual papai noel olhar primeiro. Junto dele via um casal, que logo parou para conversar, enquanto o menino continuou andando, logo avistando Bernardo, que ela percebeu ser seu amigo.

– Quem é ele? – ela perguntou.

– É um amigo meu. Ele se mudou pra cá faz pouco tempo, e eles não têm família aqui. A tia concordou que eles viessem passar o Natal com a gente. Vou lá buscar ele – e saiu.

O assunto agora era o que cada um queria ganhar. Sophia, apesar de já ter 16 anos, continuava ganhando muitos presentes de Natal. Porém, eram quase sempre surpresa, então ao decorrer do ano ela tentava deixar claro o que gostaria. Nem sempre funcionava, pensou ela, lembrando-se da vez que ganhou aquela roupa super constrangedora, mas que ela ainda não teve coragem de se desfazer.

– E você, Sophia? – perguntou um de seus primos.

– Bem, eu acho que... – mas a frase ficou no ar, pois Bernardo chegou, apresentando seu amigo.

– Gente, esse aqui é o Vitor, meu amigo – e então Vitor cumprimentou todos os garotos dali, daquela forma que só garotos fazem, como se já conhecessem os outros há tempos. Quando foi falar com ela, apenas disse oi e sorriu.

Ela achou então que não deveria voltar no assunto e terminar de responder, mas seus primos continuaram o papo normalmente, refazendo a pergunta.

– Eu queria uma câmera nova... Os vídeos estão ficando meio estranhos na minha.

Bernardo, percebendo que Vitor não tinha entendido muito bem, disse:

– A Sophia faz vídeos pro portal eletrônico do jornal da cidade. A única parte do jornal que procuro pra ver.

– Você faz vídeos sobre o que? – ele perguntou, demonstrando interesse.

– Geralmente sobre o que me pedem, mas minha categoria preferida são os de lazer. Eles dizem o lugar, eu vou até ele e gravo... Já me mandaram visitar lugares muito bons. – ela disse encantada, lembrando-se da visita à biblioteca municipal recém-inaugurada.

– Nós vamos jogar bola, você vem? – perguntou Bernardo.

– Não – responderam Vitor e Sophia em uníssono. A garota nem havia percebido que a pergunta não fora direcionada a ela, afinal sempre fez esse tipo de atividade com os primos. – Ah, me desculpe, achei que a pergunta era pra mim – ela acrescentou.

– Era também.

– Nesse caso, sinto muito. Tô de vestido, e sei lá – ela justificou.

Ele deu de ombros e saiu. Sophia sentia-se um pouco desconfortável por ter sido deixada ali, com um garoto quase desconhecido, mas não tinha coragem de levantar-se e deixá-lo sozinho.

– Qual é a dos papais noéis? – ele perguntou. Novamente esses papais noéis, pensou Sophia, mas ao menos ele estava puxando conversa.

– Digamos que é uma mania um pouco... Diferente. Minha tia sempre gostou, e desde que me entendo por gente eles estão aqui. São parte da família.

– Eles ficam aqui o ano todo?! – ele perguntou meio espantado.

– Não, Deus me livre. Na verdade, alguns ficam sim, tipo o de dreadlocks. Minha tia é apaixonada por ele – ela respondeu rindo.

– Dreadlocks? Nossa, queria ver isso.

– Eu te mostro.

E mesmo sem ter tido resposta, ela se levantou e seguiu até o quarto de brinquedos das crianças, esperando que ele a seguisse. A bagunça estava imensa, como é de se esperar com tantas crianças numa mesma casa. E claro, no meio de toda a bagunça estava também sua irmã, sentada no chão ao lado de André, outro primo, mas esse com a idade da menina, cinco anos. Sophia percebeu que Vitor tinha receio em entrar, como se fosse um invasor. Sentiu pena dele, passar o Natal com um bando de desconhecidos, então tocou-lhe a mão e disse:

– Vem, pode entrar.

Em um dos cantos do quarto estava o Papai Noel, talvez medindo uns dois palmos, estampando seu sorriso maroto e sua barba de dreads.

– Esse é o Harold, o queridinho da tia.

– Parece ser o único lugar intacto do quarto – e de fato era. Todos, até mesmo as crianças, sabiam a importância daquelas coisas. E o valor também. Alguns foram bem caros.

E como nem ela nem Vitor tinham o que fazer seguiram numa excursão pela casa, visitando os papais noéis. No caminho, Sophia foi percebendo o quanto Vitor era legal e compreensivo. E descobriu que ele também sentiu-se observado e meio paranoico quando viu todos aqueles papais noéis.

No outro lado, Vitor pensava em como Sophia era alegre e como toda a família dela parecia tão unida. Agradeceu por ter conseguido Bernardo como amigo, caso contrário não estaria ali. E, num último momento antes de calar seus pensamentos, pensou também em como Sophia era bonita.

– Quer comer alguma coisa? – ela perguntou, pois estava com fome.

– Claro.

Serviram-se, ela de mousse de limão e ele de maracujá. Sophia arrastou-o até a área dos fundos, onde se sentaram nos degraus. Por ali só uma criança ou outra aparecia às vezes, procurando alguém ou perdida. Então Sophia e Vitor conversaram sobre a infância, a família, suas vidas e vontades.

Vitor queria sair do Brasil, se formar em outro país. Sophia pretendia fazer algo relacionado ao cinema, quem sabe. Gostava muito de filmar e coisas do tipo.

Ambos perceberam ali uma afinidade imensa. Vitor pensava que seria incrível manter uma amizade com Sophia... Ou talvez algo mais. Desde que terminara seu último namoro, cerca de sete meses atrás, não havia se sentido assim ao lado de nenhuma outra garota. Até agora.

Enquanto isso Sophia pensava em como se sentia confortável falando com ele, e em como seu olhar para ela era terno. Algo dentro dela dizia que o garoto parecia... Interessado. Surpreendeu-se pensando nele dessa forma, algo que ela não costumava fazer com ninguém.

Poderiam ficar um ao lado do outro o resto da noite, mas Sophia disse:

– Acho que devemos procurar os outros, não?

Então foram, desejando não ir. Passando pelo corredor Sophia lembrou-se do Papai Noel negro e sua Mamãe Noel, no quarto dos tios. Daqueles ela gostava, e o casal também. Seu tio era negro, assim como o boneco, e sua tia branca, como a Mamãe Noel.

– Eu não devia entrar lá, mas quero te mostrar algo.

Subiram as escadas até o quarto, escuro e silencioso. Ela acendeu as luzes e mostrou-lhe, ao lado da cama, o casal natalino. Ele sorriu para Sophia, já não mais surpreso com a quantidade ou variedade de papais noéis.

Ao saírem do quarto, Sophia avistou a última porta do corredor aberta. Foi até lá e fechou-a, observando em seguida o Papai Noel inflável que enfeitava o andar superior da casa. Vendo-a ali Vitor não quis mais se conter. Queria muito beijá-la, expressar como ela o fizera bem naquela noite e como se sente agradecido. Então pegou a mão dela e esperou, para ver se a garota não iria rejeitar ou sair correndo dali. Mas ela apenas o olhou. E sorriu.

E ali, naquele corredor, ele a beijou. E ela correspondeu.

Passos vindos da escada atrapalharam o momento, e Sophia o puxou para trás do Papai Noel gigante. Afinal, mesmo não sendo nada ilegal, o que pensariam dela ali com ele, aos beijos? Ainda mais se fossem os primos. E não deu outra.

– Onde aqueles dois se meteram? – disse Bernardo.

E os dois continuaram ali, encolhidos atrás do boneco, mesmo depois do primo ter se retirado. Sophia olhou para Vitor e beijou-lhe novamente, pensando que a partir dali ela passaria a gostar mais daqueles papais nóeis.

Notas finais
O que acharam? Até a próxima ^^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!