Notas iniciais
Não te aconselho a ler se você tem graves problemas de compreensão. Reflita sobre a história antes de dizer que sou alucinada. Acontecimentos podem ser metáforas. Ou não. E eles nem mesmo são reais. Ou são.

Abro os olhos para enfrentar a terrível — porém costumeira — sensação de acordar às cinco horas da manhã depois de uma noite mal dormida. Remexo a cabeça para o lado e resmungo um "bom dia" para minha esposa, que continua num sono tranquilo. O despertador jaz no chão, ao lado dos chinelos. Lembro-me que esqueci de acioná-lo noite passada pois estava ocupado demais terminando a redação para o jornal desta manhã. De qualquer forma, meu relógio biológico sempre fora muito pontual.

Busco meus óculos na mesinha de cabeceira e expulso o edredom de cima de mim. Por fim, rolo para fora da cama, calço os chinelos e rastejo até a grande janela. Chacoalho as cortinas e o sol invade o quarto de tal forma que me cega. Olho para Rose, que não parece sequer incomodada pela luz do dia. Resisto à vontade de me deitar novamente e caminho até o banheiro.

Apronto-me da forma mais lenta possível. Amo meu trabalho, mas odeio usar camisa e gravata. Checo rapidamente meu reflexo no grande espelho atrás da porta e encaro o relógio vermelho ainda no chão. Eu estou, definitivamente, atrasado. Desço as escadas correndo, tropeçando em meus próprios pés. Na bancada da cozinha, minha mulher me deixou um bilhete. "Peter, boa sorte em NY. Te amo.". Rabisco um "Também te amo." no canto do mesmo papel e saio de casa com minha caneca de café. Vou precisar de bastante cafeína para me manter acordado. Resolvo telefonar para Rose mais tarde. Tenho de agradecê-la por me lembrar que hoje vou para Nova York.

Minhas viagens a trabalho são realmente corriqueiras. No mínimo uma vez ao mês eu vou para algum lugar diferente. Nunca gostei muito de sair e passear pelo mundo — sou uma pessoa tipicamente caseira. Mas viajar para escrever é ótimo. Traz inspiração, acho.

O trajeto para NY foi rápido. A questão é que meu chefe deve me amar muito para conseguir uma suíte econômica num dos hotéis mais disputados da cidade — ou então ele quer um texto extremamente bom. Gosto mais da primeira alternativa.

Logo no saguão, tento dar início a uma série de pensamentos para trazer à tona o tema da minha próxima redação. Ando devagar, mirando meus sapatos escuros. Carrego só uma mala, de forma que apenas ela voa para frente quando esbarro num senhorzinho de meia idade. Ponho-me de pé rapidamente e assisto o bom homem levantar-se e caminhar trôpego até ela. Ele recolhe alguns pertences que caíram e os põe de volta na mala. Após entregá-la diretamente a mim, com um certo brilho nos olhos, ele sussurra "Desculpe-me, senhor James. Você veio!". Então, aperta minha mão direita e — ainda cambaleando — vai em direção a um dos balcões de check in. Ótimo, penso entre risos. Fui confundido.

Qualquer um é confundido hoje em dia. Foi só um acidente. Passo a mão pelo meu blazer, a fim de desamarrotá-lo, e sigo para um dos balcões do hotel. A recepcionista me atende com um sorriso no rosto. Deseja-me boas-vindas e, sem mesmo pedir quaisquer documentos, me entrega uma chave e um cartão. Agradeço-a e vou até um dos sofás do saguão. Analiso o cartão minuciosamente. Em letra garrafais e amigáveis, encontro a seguinte frase: "Reserva do quarto 221B — Suíte Master -, no nome de Senhor James.". A chave continha apenas um "221B". Há aqui outro engano.

Fui confundido novamente. Qualquer um é confundido hoje em dia. Foi só um acidente, repito para mim mesmo mais algumas duas ou três vezes. O correto seria eu entrar na fila do check in mais uma vez e alertar a jovem de que ela cometera um engano. É. É isso que vou fazer. Levanto-me do confortável sofá decidido. Mas todo o meu moralismo desmorona ao ver tamanha fila no balcão de onde eu saí há alguns minutos.

Olho para o cartão. Olho para o balcão. Olho para a recepcionista sorridente. Olho para as letras amigáveis. Detenho meu olhar no "Suíte Master" em negrito. Mas poxa. É uma suíte MASTER. Se duas pessoas acham que eu sou o senhor James é porque eu realmente devo me parecer com o senhor James. Que mal fará se eu for o senhor James por alguns minutinhos — ou talvez horinhas — e checar tal suíte? É uma oportunidade única. Eu nunca conseguiria pagar por uma dessas. E, ei! Eu estou num dos hotéis mais disputados de NY! Quantas celebridades já se hospedaram no 221B?

Impassível, sigo para o elevador da primeira classe – ala B, onde toca uma musiquinha agradável e quase inaudível. A porta se abre, expondo-me a um saguão inteiramente branco. Eu não sabia que as celebridades tinham um saguão bem maior e melhor só para elas. Encaro o lugar, maravilhado. No centro, cercada por janelas, há uma longa mesa de vidro. Completamente vazia. Mais para trás, há um longo corredor, que se ramifica em dois.

Ainda embasbacado, viro-me para o elevador para pegar minha bagagem. "Senhor James!", sou surpreendido por uma voz grossa. Volto-me para a mesa e sou recebido por um segurança solitário sentado na ponta. Ele está inteiramente vestido de preto, com óculos escuros. Sua careca reflete a luz das janelas. Ele abre um sorriso de dentes perfeitamente enfileirados e estende os braços em minha direção. Sem qualquer reação, observo sério enquanto o homem se levanta e anda até mim. Ele aperta minha mão com força. "Ainda bem que chegou! Estava demorando, não, senhor James?".

Sorrio, nervoso, e aceno com a cabeça num sinal positivo. Ele apoia uma das grandes mãos em meu ombro e eu percebo como ele é enorme e forte. Nenhum ser vivo seria capaz de não se sentir intimidado com aquela criatura sorridente. "Estava ocupado, senhor? Sei como é... Ser desejado por muitas ... Complicado, se é que o senhor me entende! HAHAHA!" No momento, eu tinha duas coisas para dizer àquele homem. 1) Não, eu não entendo e 2) não, você não parece saber como é ser desejado por muitas. Mas calei a boca e sorri com os lábios apertados para não deixar nenhuma daquelas grosserias escaparem. Ele deu leves tapinhas em minhas costas e prosseguiu.

"Bom, senhor James, não me lembro do senhor ser tão quieto. De qualquer forma, também estou feliz em vê-lo. Ah, sim! Antes que eu me esqueça. O senhor já deve ter sido avisado, confere?". Fiz que não com a cabeça. Não confere. Mas o brutamontes ignorou o gesto e continuou "São apenas 24 horas! Poxa, o senhor tem uma enorme responsabilidade. E é por isso que eu lhe admiro tanto, sr. James! Você é meu ídolo! Bom, digo isso apenas cumprindo ordens, mas o senhor já sabe que o mundo está em suas mãos. Pense bem, hein, sr. James! Terá que decidir entre 'sim' e 'não'! Mas o senhor é incrível, vai tirar de letra! Te vejo amanhã de manhã neste mesmo salão!".

Meus olhos estão arregalados. Não compreendi sequer uma palavra do que o homem disse. Ele se aproxima do meu ouvido e sussurra "Quero um autógrafo depois, senhor James!" e chacoalha os dedos na minha frente, abrindo e fechando as mãos num formato de arco-íris "'Com todo o amor do senhor James, para meu fã número 1, Ivan.' e um coração do lado! Ai, minha nossa, que incrível! Até, senhor! Vou para a minha suíte. Não se esqueça! Amanhã, às nove. Reunião. Aqui!" e sai saltitando em direção ao corredor.

Ainda boquiaberto, tento processar a torrente de informações que Ivan acabara de me passar. Sim. Não. Responsabilidade. Ídolo. Mundo em minhas mãos. Esfrego minhas têmporas e me acalmo, afinal, eu não sou o senhor James.

Sigo calmamente pelo estreito corredor à procura 221B. Encontro-o, destranco a porta e mais uma vez, surpreendo-me. A suíte master é, provavelmente, maior que minha casa inteira. E é decorada de forma extremamente luxuosa. Uau. Definitivamente, eu posso ser o senhor James por mais algumas horas. Mas isso ainda me parece bem injusto. Ah... Uma hora o verdadeiro James irá chegar. Isso talvez gere uma confusão maior, mas eu estarei relaxado porque OLHE O TAMANHO DESSA BANHEIRA. Quantas celebridades já dormiram nesse lugar? É maravilhoso! Não. Preciso ser justo. Não sou uma celebridade. Mas, neste exato momento, quem liga? Apenas espero que o senhor James chegue antes de amanhã de manhã.

Estou decidido. Tomo meu banho na enorme banheira, que suporta no mínimo uns cinco Ivans e deito-me na cama king size de lençóis brancos. Suspiro e encaro o menu do serviço de quarto emoldurado na parede. Tudo tão suculento e ao mesmo tempo tão caro. Sinto fome e decido descer para o restaurante do hotel. Já passam das 6 da tarde e eu juro que não vi o tempo passar. Tiro o roupão de seda e coloco uma roupa qualquer que não combina nem um pouco com o renomado senhor James. Minha barriga ronca alto de forma nem um pouco educada, mas eu não consigo me lembrar de onde coloquei as chaves da suíte. Não estão na porta. Não estão na mesa. Não estão na cama, e nem no banheiro. Reviro o lugar de tal forma que a camareira vai desejar me matar no dia seguinte. E mesmo assim, não as encontro.

Resolvo ligar para a recepção. "Alô?", digo, "Aqui é o senhor Peter e..."

"Não há nenhum senhor Peter com registro neste hotel.", recebo como resposta. Peço desculpas e reafirmo ser James. "Ora, senhor James! Passando trotes?" e desliga na minha cara. Estou começando a ficar com medo de ser James. Penso no que Ivan disse. Não quero escolher o futuro do mundo! É certo de que vou fazer alguma bobagem. Sempre quis ser uma personagem histórica quando era um garoto. Mas eu gostaria de ser reconhecido por algo bom. Tentei procurar pela minha carteira. A identidade certamente provaria a todos de que não sou o senhor James. Mas onde ela estaria? Retiro todas as coisas da mala e no instante seguinte um rápido flashback passa pela minha mente. Manhã. O iluminado salão de baixo. Um velhinho. Minha mala voando. As coisas caindo para fora. A primeira confusão. Onde tudo começou. Onde "Peter" passou a ser "James".

Eu perdi minha carteira no pior momento da minha vida. Liguei para a recepção mais uma vez. "Senhor James, não nos responsabilizamos por itens perdidos no saguão.". Começo a chorar no bocal do telefone. Soco as paredes. Lanço os vasos de porcelana pela chão. Eu não sou James! Grito enlouquecidamente antes de desligarem. Recosto-me na parede em posição fetal. Disco pela última vez o número da recepção. A fome já não era mais tão sentida. O desespero era muito maior. Nunca, na minha vida inteira, eu quis tanto ser apenas o Peter. Nunca.

"Senhor James, não estamos autorizados a tirar-lhe deste quarto até amanhã de manhã. Descanse.". Mas antes de qualquer coisa, eu peço-lhes para me escutarem. Não sei quem está do outro lado da linha, mas sei que essa pessoa tem compaixão. Resiste um pouco e por fim resolve me ouvir. Chame o Ivan, digo. "Não há nenhum Ivan hospedado aqui, senhor." M-m-mas, e o homem que me recebeu esta manhã? "O senhor é o único hóspede na ala B, senhor." Não, eu não sou! Ivan entrou num dos quartos da ala B! "Não, senhor. O senhor está sofrendo, senhor? Posso pedir para lhe mandarem um calmante, senhor." Eu quero falar com o Ivan! "Não há Ivans aqui senhor. Nãnãnão. Nenhum homem de preto. Sem óculos escuros. Nenhum careca." Mas eu o vi! E sobre a reunião de amanhã às 9? "Nenhuma reunião foi marcada, senhor. Tem certeza de que não quer um calmante?" Socorro. "Tenho que desligar, senhor. Boa noite. Tu tu tu."

Minha esposa. Rose. Preciso ligar para Rose. Meu celular estava dentro da carteira. Droga. Esforço-me para lembrar do seu número. Disco. Tu. Tu. Tu. "Alô?" ROSE! ROSE, MINHA QUERIDA! MEU AMOR! MINHA VIDA! É O PETER! "Desculpe, moço. Há algum engano. Não conheço nenhum Peter." Rose? "Sim, Rose, sou eu." Sou seu marido, Rose! O bilhete! Eu te amo! Estou em Nova York, lembra-se? "Olha moço, me desculpe mesmo. Eu nunca me casei, nem ao menos conheço alguém chamado Peter. Não há bilhetes aqui, e..." Sou o jornalista por quem você se apaixonou, Rose! Me escute! Lembre-se de mim, meu amor, faça um esforço. "Olhe, me desculpe mesmo, moço... Tu tu tu."

Tento ligar de novo. E de novo. E mais algumas 5 ou 6 vezes. E nada. Ocorre-me ligar para minha mãe. No casaco do blazer, pesco um cartão de sua clínica ortodôntica. Disco. Ocupado. Tento de novo. Ocupado. Mais uma vez.

"Consultório da Doutora Sara, boa noite. Quem gostaria?" GRAÇAS! ALÔ? AQUI É O PETER! EU PRECISO FALAR COM A DOUTORA SARA! "Desculpe-me senhor Peter. Tem hora marcada?" Eu preciso falar com a doutora. É urgente. "Sinto muito, mas terá de marcar um horário." Eu preciso. "Me desculp..." É urgente. "Senhor Peter..." EU PRECISO MARCAR HORÁRIO PRA FALAR COM A MINHA PRÓPRIA MÃE? "Ahn, doutora Sara não tem filhos, que eu saiba..." Eu preciso falar com ela. Por favor. "Está bem. Aguarde na linha."

Confesso que meu maior medo é que a secretária me deixe aguardando na linha e desligue na minha cara uma hora ou outra. Eu preciso falar com a minha mãe. Lágrimas grossas rolam pelas minha bochechas. Seja homem, Peter! Ou seria sr. James?

"Alô? Olha eu espero que seja realmente importante porqu..." MAMÃE! MAMÃE, AQUI É O PETER! "Desculpe, senhor. Eu não tenho filhos. E não conheço nenhum Peter." MÃE, SOU EU! "Querido, me desculpe, mas..." Mãe! Faça um esforço, lembre-se de mim! Eu preciso da sua ajuda, mãe! "Isso é algum tipo de trote?" NÃO, MÃE, NÃO DESLIGUE! Sou eu, Peter! Lembra-se? Você costumava dizer que eu era seu xodó, coisa e tal. "Olha, moço, eu realmente não tenho filhos. Sou viúva. Não conheço nenhum Peter. Me desculpa mesmo. Tu tu tu."

E tento mais uma única vez. A esperança é a última que morre, não é mesmo? Mas Peter parece ter sido aniquilado, de forma que deito no tapete e choro em posição fetal até adormecer.

Acordo com um barulho estranho. Batidas na porta. Batidas enlouquecidas na porta. Sinto-me doente e esfomeado. Não como nada desde o café da manhã passada. Os olhos esbugalhados miram meu reflexo no espelho com desgosto. Quem sou eu? Pareço ter envelhecido uns dez anos. Não sei quem sou. Não quero ser quem acham que sou. Quero, mais do que tudo, voltar no tempo e não aceitar essa proposta de trabalho — mesmo tendo uma enorme paixão pelo jornalismo.

As batidas na porta são insistentes. Ignoro-as por um tempo. Minha cabeça está a ponto de explodir. Mas não abro. "Senhor James!" Quero que eles deem o fora. Não sou o senhor James! Mas me chamam insistentemente. Não quero encarar a vida. Ligo para a recepção. Não há mesmo nenhum Ivan hospedado? "Não, senhor." Desligo. Visto o roupão de seda. Caminho até a porta e vejo que a maçaneta vibra. Alguém a está forçando do outro lado. Espero para ver até onde a força de Ivan vai. Mas não é Ivan quem está do outro lado. Minha mente está a mil. A voz não é grossa como a de Ivan. Não tenho coragem para olhar através do olho mágico. A porta se abre. O velhinho do saguão segura as chaves e minha carteira, sorridente. Arranco-as de sua mão num salto. Minha identidade e meu telefone não estão lá. "Quem sou eu?" vocifero.

"Acalme-se, senhor James. São 8h49min. Quer dar uma espiada na reunião?". Empurro-o pro lado sem dó e caminho pelo corredor pisando forte. O saguão, antes vazio, está repleto de personalidades famosas, cada qual ocupando um lugar na mesa de vidro, que parece ter ficado três vezes mais longa. Tento identificar quem está lá. Ivan é o da ponta. Ao seu lado, duas cadeiras vazias. Todos tagarelam animadamente. Embaixadores de várias organizações famosas. Barack Obama. Rainha Elizabeth. A liga da justiça. O Papa. Alguns atores. Os x-men. Pessoas que já deveriam estar mortas...

Minha cabeça dói. Penso em voltar para o quarto e ligar para a recepção mais uma vez. Só para ter certeza de que o Papa também não está hospedado aqui. Sinto uma mão pesada e enrugada no meu ombro. "Vá se arrumar", o senhorzinho sussurra. "8h56min.". Corro para o quarto. Quero me trancar lá. Ou me jogar da janela. Mas recordo-me que não tenho chaves nem janelas grandes o suficiente. Não quero tirar o tão confortável roupão. Se for para salvar — ou destruir — o mundo, não quero estar bem vestido para isso. Vejo, na mesinha de cabeceira, uma moeda de 10 centavos. Brinco com ela até que dê 9 horas e sou obrigado a sair do quarto. As coisas já estão insanas demais. Não quero piorá-las.

"Senhor James!", sou recebido por Ivan. "Seu limite acabou. Desculpe ser ríspido, ainda te amo, mas... chegou o momento. E aí? É 'sim' ou 'não'?" Todos me encaram como se eu fosse o último pedaço de pizza existente no mundo. Os olhares sedentos e os sorrisos maníacos me intimidam. Resmungo. Olho para a moeda que ainda está em minhas mãos. Pois bem. Preciso decidir isso. Sim. Não. Cara. Coroa.

Cara sim, coroa não. Todos continuam me olhando. Bocejo e lanço a moeda para cima.

Notas finais
vushhhhh
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!