Uma história qualquer... Ou não.
3 Capitulo 3
Lentamente eu sentia minha consciência voltar. Meu pé estava dormente e já não doía mais. Eu sentia algo no braço que não conseguia identificar o que ou aonde exatamente. Abri os olhos e instantaneamente percebi que estava no hospital. A janela ao lado da cama estava com as cortinas abertas e eu via que era noite, mas não tinha noção nenhuma de tempo. Me lembrava que quando cortei o pé era de manhã, como podia já ser noite? Vi minha mãe dormindo sentada numa cadeira ao canto do quarto. No pé da maca havia um grande buque de flores, parecido com o que o Ben tinha pegado de manhã, mas esse era muito maior. Encostei a cabeça e fiquei olhando para fora. Via algumas luzes por entre as árvores. Estava completamente perdida em pensamentos quando alguém bateu na porta. Minha mãe se virou na cadeira e continuou a dormir enquanto eu virei a cabeça e o vi entrar. Ao me ver acordada Ben abriu o maior sorriso que já vi ele dar na vida. Tentei começar a falar mas fui impedida por ele que correu para mim e me encheu de beijos.
– Príncipe.
– Fala Princesa.
– Eu te amo
– Eu também te amo — via em seu rosto um sentimento de confusão — mas porque isso agora?
– E eu preciso de motivos pra falar que eu te amo?
– Claro que não, mas você não é assim.
– Ah é que hospital sempre trás um clima de sentimentalismo.
– Por falar em hospital. Como você esta se sentindo?
– Eu to bem. Meu pé ta anestesiado e minha boca um pouco seca. Mas eu to bem sim.
Vi no rosto dele uma expressão que nunca havia visto. Era um misto de dor e alegria que eu não conseguia identificar e não sabia o que falar para consolá-lo. Foi aí que eu vi uma lagrima começar a surgir no seu olho direito.
– Príncipe, eu tô bem. Não precisa se preocupar tanto.
– Eu sempre vou me preocupar com você. Quando eu te vi ali, desmaiando eu senti que tinham tirado um pedaço de mim. Aí você acordou e me olhava mas não falava nada. Eu não conseguia saber se você estava bem ou não. Eu só queria que você falasse qualquer coisa. Mas você não falou. Você começou a respirar cada vez mais pesado, como se estivesse com muita dor ou muita dificuldade pra respirar e eu comecei a me desesperar.
Ele falava baixo e não olhava pra mim. Parecia que ele se lamentava e eu não conseguia confortar o sofrimento dele, o que me corroía por dentro. Ver o Ben sofrer era pior que o meu próprio sofrimento.
– E você apagou Anita. Você ia e voltava mas não ficava mais que alguns segundos desperta. Eu me desesperei e comecei a gritar mas não tinha ninguém em casa. Acho que de tanto gritar, a Sofia ouviu, lá da casa da Maura e veio me ajudar. E eu simplesmente comecei a discutir com ela até que você apagou e não voltou mais. Naquela hora eu quase morri. Eu não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo e eu precisava de força pra te ajudar.
Nessa hora ele olhou pra mim e eu vi tristeza e culpa nos olhos dele. Eu queria confortar aquele que era a luz do meu dia e eu tentei começar a falar mas ele não me deixava.
– Anita, de onde é que eu ia tirar forças? Você é quem sempre me da forças, e naquela hora você estava ali na minha frente e eu sem nenhuma reação tinha que te ajudar. Eu te peguei no colo e sai correndo pelo Grajaú com a Sofia tentado falar com qualquer um atrás de mim, mas parecia que todo mundo que vive naquele casarão tinha evaporado.
– Chega Ben! Para com isso. A culpa de nada disso é sua. Foi um acidente.
– Foi um acidente que eu podia ter prevenido.
– Ben. Chega. Você estava tentando me agradar. Eu é que sou estabanada e não te vi na porta. Na verdade eu tava preocupada porque você tinha sumido e mil coisas vieram na minha cabeça e eu comecei a me lembrar de tudo o que o Antônio tinha dito e ai eu surtei e sai correndo. E trombei com você. Foi tudo um acidente.
Eu não tinha mais nada pra falar. Então agarrei o rosto do Ben e olhei fundo nos olhos dele.
– Eu Te Amo Ben. E é só isso que importa.
As lágrimas que haviam se formado nos olhos dele caíram e ele me abraçou forte. Eu sequei seu rosto e lhe dei um beijo que fizesse ele acreditar em tudo aquilo. Entre um beijo e outro eu vi minha mãe levantar e ir para a porta. Ela olhou pra mim e me deu um sorriso. Eu sorri de volta. Pela primeira vez parecia que a nossa família estava finalmente aceitando nosso namoro. Parecia que essa parte da grande teia de problemas que no metemos tinha finalmente se desfeito. Era bom saber que minha mãe e o Ronaldo tinham entendido que nós nos amavamos. Ben viu que eu estava rindo sozinha.
– O que foi Princesa?
– Minha mãe. Ele olhou em volta e percebeu que ela não estava mais ali.
– Cadê a Vera?
– Foi embora
– Como assim?
– É. Acho que ela acordou e viu a gente aqui e ai simplesmente se levantou e saiu. Ela me olhou e sorriu
– Será que isso significa...?
– Eu acho que sim. Acho que eles finalmente viram que a gente foi feito um pro outro e que nada no mundo vai nos separar. Ai pararam de implicar.
– Nada no mundo.
– Nunca... Ben, você estava me falando antes que a Sofia veio correndo da casa da Maura. É isso mesmo?
– É, porque?
– Será que ela perdoou o pão com linguiça então?
Ele deu uma gargalhada e eu olhei para ele que continuava mais lindo do que nunca. Ele viu que eu estava feliz pela minha irmã. Sabia que ela era apaixonada pelo Sidney e ele por ela. Tudo que eu queria era que a Sofia fosse feliz. Ele se aproximou e me deu um beijo. Era incrível como todas as vezes que o Ben me beija ele tem o poder de me deixar sem reação. Ali, naquela cama de hospital os beijos dele conseguiam me levar para outro universo.
Quando o médico entrou no quarto na manhã seguinte eu não tinha percebido que o tempo havia passado. Eu mal vi ele entrar, na verdade. Se não fosse por toda a família que entrou no quarto falando e discutindo atrás dele, confesso que ainda estaria perdida nos beijos do Ben. Nunca vi uma família como a minha, que nem no hospital da trégua. Mas fiquei feliz em vê-los. A Giovana brigava com a Sofia como sempre, o Vitor olhava meio torto pra mim e pro Ben e o Pedro reclamava que a mamãe e o Ronaldo saíram tão rápido que ele nem teve tempo de pegar o dicionário. Eu olhei para o Ben que estava meio sentado e meio de pé na maca e olhava para mim. A gente se entendia só com o olhar. Voltei a olhar para aquela confusão que se instalara na nossa frente. Enquanto meus irmãos brigavam o médico me deu alta e saiu com a mamãe, o Ronaldo e o Pedro, a tira colo e discutindo, para dar instruções sobre os cuidados que eu deveria ter pelos próximos dias.
– Imagina o dia que a gente tiver os nossos filhos? E que for assim essa bagunça. Era isso que você estava pensando, não era?
– Era. E é tudo que eu mais quero.
– Então eu acho que a gente podia começar logo, não?
– Ben. Você esta muito safadinho pro meu gosto.
– Eu? Foi você quem disse que quer começar logo uma família.
– E eu quero mas a gente tem que ter calma. A gente nem entrou na faculdade ainda Príncipe. E não da pra começar uma família do nada, sem nenhuma base, sem condição de criar…
– Tudo bem, eu entendi.
– Mas logo, ta? Eu te prometo.
– Logo.
Nós ficamos ali só vendo todos os nossos irmãos brigarem. O Pedro voltou e os quatro criaram uma discussão sobre quem faria minhas tarefas pelo próximo mês. Ao mesmo tempo que eles brigavam, também se uniam. Parecia que estavamos vendo um espetáculo teatral, era como se eles nem notassem a nossa presença. A enfermeira veio com uma cadeira de rodas e um par de muletas. Ben me ajudou a descer da cama e me empurrou na cadeira até a porta do hospital. Eu levantei, me apoiei nas muletas e olhei pra ele, que me abraçou. Nós dois olhamos pra trás, para as portas do hospital.
– Sabe que eu até gosto desse lugar príncipe?
– Como assim?
– É porque foi depois que você saiu daqui que a gente se acertou da primeira vez.
– Então quem sabe agora a gente não consiga finalmente ficar juntos em paz?
– É o que eu desejo todos os dias quando acordo. Tudo que eu mais quero na vida. Ficar com você, em paz. Pra Sempre.
Ben me deu um beijo longo e me ajudou a entrar no carro. A família toda olhava pra nós como se estivessem querendo dizer que entendiam e apoiavam. Como se finalmente nos dessem a benção deles.
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