Paixões surgem pelos mais diversos motivos. O filho daquele famoso coordenador gostava dos cachos louros da garota, das curvas de seus seios. O neto de um dos antigos membros da Elite Quatro apreciava o talento da treinadora para a música, admirava a forma como ela dançava sobre as sapatilhas, movendo os cabelos negros e guiando os passos do Bellossom. A herdeira daquela família tradicional enamorava-se pelo professor dos óculos de aros circulares e gravata torta que lia os capítulos em tom monótono. E Jesse adorava as tampinhas.

No meio da tarde, quando as aulas haviam chegado ao fim, ele se encontrava com James para uma agradável conversa ao sabor de um refrigerante. A Meowth espreguiçava-se no gramado, lambia as patinhas brancas. O Growlithe sentava-se com a língua de fora. E os garotos trocavam ideias durante horas e horas, os olhos de um perdendo-se no sorriso do outro. Quando Jesse virava a cabeça de lado e passava os dedos por suas mechas ruivas, James era apenas silêncio. Gravava aquele gesto como se fosse uma estratégia. Um super efetivo. Mas era o olhar maroto que o deixava fora de combate. E o pobre Baudelaire não tinha encanto que deixasse o Quagmire a seus pés.

Não. Jesse Quagmire era insuperável em seu Charme. Os cabelos ruivos. Os olhos azuis. O andar altivo. E ele gostava de provocar. Roçava as mãos de James sem necessidade. Jogava-se sobre o encosto da cadeira com uma expressão divertida. Brincava com a tampinha por entre seus dedos. Veja como ela é bonita! Aposto que não tem nenhuma tampinha tão bonita quanto esta. Mas James tinha. Sua coleção era inderrotável.

E assim os dias se passaram, até o ameno outono ceder espaço ao rigoroso inverso. Se James acreditava que Jesse não poderia ficar mais bonito, quase engoliu a própria língua quando viu o Quagmire de cachecol. A Meowth olhou para ele, questionando em silêncio aquele ruído estranho. O Baudelaire tentou disfarçar, alisou os cabelos. Jesse apenas balançou a cabeça, sorrindo. Convidou-o para um chocolate quente. Sentados em um dos bancos do pátio interno, eles observaram a neve cair. Meowth encolhida ao lado de Jesse. Growlithe deitado com o focinho sobre a perna de James. O chocolate aquecia as mãos dos garotos e trazia doces memórias da infância. Eu fiz curso de piano, mas nunca fui capaz de tocar. Jesse riu. É mesmo? James ajeitou o gorro, envergonhado. Sou uma negação para música. Só sirvo para colecionar tampinhas. Jesse balançou a cabeça, descrente. E você, Jesse? Conte algo sobre seu passado. O Quagmire alisou os pelos da Meowth. Ela soltou um longo bocejo. Eu gostava de passar as tardes com meu tio quando voltava da escola. Ele sempre me ensinava coisas legais sobre batalhas e sobrevivência na floresta. Uma vez, durante as férias, ele me deu uma gaita de presente e me ensinou a tocar. Mas eu a perdi para um Geodude quando fui explorar uma caverna. Virou-se para James. Ridículo, não é? O Baudelaire fez que não. De forma alguma! Eu nem poderia te censurar... Quando era criança, um Rattata roubou meu sapato. Jesse inclinou-se para frente, contendo o riso. James sentiu o rosto corar. Você é legal, James. Você é legal.

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As chamas do Growlithe pairavam no ar. Com um sorriso cálido, James aquecia suas mãos. Eles estavam sozinhos no imenso jardim, escondidos atrás de uma árvore decorada pela neve. O Baudelaire gostava daquele aconchego, mas, ao mesmo tempo, sentia-se triste. Abraçou-se, fitou o céu. O gorro de lã cobria seus cabelos azuis. Sabe, Growlithe... As chamas cessaram. Eu... acho que estou apaixonado. O cachorro abanou a cauda. Mas é uma paixão perdida... Não tem jeito de o Jesse se apaixonar por mim. Quero dizer, olhe só para mim! Ele não entendeu o que havia de errado. Eu sou patético! Só um garotinho rico e mimado que coleciona tampinhas! Se não fosse por elas, o Jesse nem saberia que eu existo. Eu sou uma piada! Um ganido baixinho. Growlithe aproximou-se do dono e esfregou a cabeça em seu joelho. Eu nunca terei uma história de amor para mim, Growlithe.

Bastava! O cachorro não aguentava mais. Afastou-se de James e correu pelo jardim. Após alguns passos, virou-se para trás, mas o treinador não se movera. Growlithe latiu. Latiu de novo. E nada. Com um movimento rápido, afanou o gorro de lã e disparou em direção ao prédio da escola, James seguindo-o de perto. Devolva o meu gorro, Growlithe! Eu vou sentir frio! E o cachorro virando aqui, virando lá, desviando da garota loura, passando por entre as pernas do professor. Adentrou o saguão e olhou a seu redor, a peça de lã firme entre seus dentes. Saltou no instante em que James atirou-se no chão, tentando agarrá-lo. Ora, seu... O pompom da cauda balançou em deboche. E o cheiro guiou Growlithe a seu destino. Uma sala vazia, exceto por um garoto que folheava um livro. Subiu na mesa e jogou o gorro em seu colo.

Mas o quê?! Jesse virou o rosto em sobressalto. Encontrou James parado na porta, ofegante. Quando os olhares se cruzaram, um rubor coloriu as faces do Baudelaire. O Quagmire deixou escapar o riso. Está mais vermelho do que seu Growlithe! Onde é o incêndio? Piada maldosa a de Jesse. O incêndio era no coração de James. Jesse vestia seu gorro de lã. E não poderia ser mais bonito.

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Todos sempre dizem que, às vezes, nós só precisamos de um empurrãozinho. O de James não era nada metafórico. Growlithe empurrava seus joelhos por trás, rosnando, mas o Baudelaire estava tão firme que parecia ter crescido raízes no solo. Lança-chamas, então. James teve de recuar rápido para não ser atingido pelo fogo. Seu cachorro idiota! O que pensa que está fazendo?! A mãe me mata se queimar este terno! Não mataria... A senhora Baudelaire estava ocupada demais experimentando joias em uma loja chique a quilômetros de distância. Do senhor Baudelaire, nem notícias. Não que ele fosse se importar mais com o terno. Por que você faz isso? Por que fica insistindo tanto, hein, seu travesso? Growlithe rolou pelo chão, exibindo a barriguinha peluda. James esfregou o rosto. Eu mereço...

Ei, James! Que susto tomou o Baudelaire. Quase caiu sobre o cachorro. Jesse! Não se aproxime assim de mansinho! O Quagmire fez uma careta. Que culpa eu tenho se estava tão distraído? Ei, o que é isso aí? As faces de James enrubesceram. Ele se atrapalhou todo com o embrulho, mas Jesse segurou suas mãos antes que deixasse o presente cair. Abriu aquele sorriso que o Baudelaire tanto adorava, o sorriso que alcançava o azul de seus olhos. Growlithe empurrou o dono outra vez.

Growlithe! James ralhou com ele, afastando-o com o pé. Ajeitou seu gorro de lã, deu um pigarro. E estendeu o presente. Jesse ergueu as sobrancelhas, curioso. Não são tampinhas, não, são? O outro se ofendeu. É claro que não! Apenas abra! Jesse era só sorrisos quando rasgou o embrulho. O objeto dourado brilhou em suas mãos. O que é isso? James abaixou o rosto. A gaita da minha caixa de tampinhas. Jesse jogou a cabeça para trás e gargalhou. É sério isso? Está dando de presente para mim? Parece ter sido caro... James deu de ombros. Eu não uso. Não tem utilidade para mim. Jesse sorriu, maroto. Neste caso... Ele levou a gaita aos lábios e extraiu algumas notas. Segurou-a com delicadeza e a moveu com habilidade, soprando em uma cadência tranquila. Preencheu o ar entre eles com a mais bela Canção. E Growlithe ergueu as orelhas para escutar.

Um pouco enferrujado... Jesse limpou a gaita em seu casaco. Quando eu era criança, tocava isso muito b... James desequilibrou-se. Growlithe empurrara seus joelhos outra vez. Por sorte, Jesse estava logo diante dele e aparou a queda. E James deixou-se ficar assim, nos braços do garoto que amava. Aqueles braços quentes e fortes que pelo amor... E os olhos brilhando azuis. James recompôs-se, murmurando desculpas. Mas Jesse não ouviu. Ocupara-se com outra coisa. Os lábios do Baudelaire.