Eu me lembro da primeira vez em que me senti bem.
Não exatamente a primeira, mas é certo que você me entendeu. Na verdade, acho que foi a primeira vez em que eu pude dar realmente um sorriso sincero.
Pelo que me lembro, foi quando eu ganhei um carrinho de Polly. Era tipo uma limusine, rosa... Era tão divertido. Me recordo que eu fazia todas as lições da escola pensando que se fosse rápida poderia ir para casa e me divertir com aquele lindo carrinho rosa. Sinto falta dele. Mas o que mais sinto falta, era quando meu pai ficava comigo e brincava comigo. Altas gargalhadas e chocolates escondidos da minha mãe, ou fingir que estava me batendo para eu não ficar chateada com ele.
Então, um belo dia, meus pais decidiram mudar de cidade. E isso quebrou o meu coração. Eu tinha amigos onde morava.
Chorei.
Lágrimas escorriam sobre minha pele, e meus pais achavam que eu estava assim pela morte da minha bisavó.
Tolos...
E então quando nos mudamos foi onde tudo começou. Meu pai havia feito faculdade e teve amigos. E ele soube que uma das amigas dele estava morando perto de nós. E ele começou a ter relações mais quentes do que uma simples amizade.
Um dia eu vi pela fechadura da porta meu pai beijando essa "amiga" dele. Eu era muito nova e fiquei confusa com aquilo e fui imediatamente contar à minha mãe.
E os dias foram se passando, e meus pais estavam se comunicando menos. Notei que algo de errado estava acontecendo.
Peguei um dia que cheguei mais cedo em casa da escola e dormi durante a tarde, então a noite eu estaria bem acordada. Foi neste momento em que eu comprovei minha teoria de que algo ruim estava acontecendo...
Ouvi meus pais discutirem.
1 dia.
1 semana.
1 mês...
Não lembro o tempo certo em que isso ocorreu. Mas eu ouvi minha mãe jogar uma cadeira no meu pai. E desde então comecei a sorrir menos, brincar menos, dormir menos... Então notei que meu pai não estava mais dormindo em casa. Saia cedo, voltava tarde...Não me buscava mais na escola.
Então minha mãe conseguiu um emprego em uma escola e ganhei uma bolsa de estudo de 100%. E desde então, sofri um bocado nessa escola. E isso me afeta até hoje.
Acho que nessa escola nova, tudo tem piorado
Lembro-me que tive um namoro com um garoto muito idiota, mas que mexeu muito com o meu psicológico. Ele era magro como um palito, alto como uma parede, e não, não era bonito. Mas por dentro? Um pouco
Namoramos por volta de 6 meses. Nós éramos muito jovens e imaturos para tal relacionamento. Mas ele era doce comigo, fazia me sentir protegida e amada. Criamos até apelidos carinhosos. Gogo e Mama. Era fofo até. Ele me chamava de mama por que quando ele me via ele ficava calmo, e o que acalma ele é maracujá. Pegou?
Ele foi tão babaca comigo que nem lembro o por que eu chamava ele de gogo, só me lembro que tinha algo relacionado com goiaba. Enfim... Recordo-me que fiquei um pouco triste. Quero dizer, "pouco triste", estou sendo gentil comigo mesma. Destruiu-me por inteira quando um amigo do meu ex veio me dar um recado não muito satisfatório. Não vou citar nomes, não seria bom expor tanto.
"Garota, eu tenho que te falar uma coisa. Seu namorado quer terminar com você por que os amigos vem primeiro, e depois as meninas"
Uau... Amigos primeiro. Tudo bem eu entendo perfeitamente. Beleza, terminamos. Estou bem.
"Estou bem" e logo dei um sorriso.
Mas não, eu não estava nada bem.
Mas tudo bem, ninguém sabe. Ninguém precisa saber. Uma mentira e um sorriso e agora ta tudo bem não é?
Não.
Não está
No ano seguinte, eu ouvia rumores de que meu ex estava gostando de uma garota, mas eu vi que ele estava namorando uma outra menina. E parecia que ele fazia questão de estar com a nova namorada dele sempre que eu estava por perto.
E eu não tinha nenhum ombro amigo para eu chorar e desabafar. Foi então que eu entrei na ginástica rítmica.
Eu era a magricela, baixinha, feia e a excluída da sala. Mas quando entrei na ginástica eu comecei a criar um corpo bem definido. E garotos começaram a vir pra conversar comigo, mas se aproveitavam do meu corpo. Me pegavam pela cintura e abaixavam para a bunda. Ou me abraçavam por trás e me encoxavam. Ou apertavam meus seios. Eu me sentia muito mal mas eu não dava a mínima por que queria a atenção do meu ex. Foi então que eu percebi que ele nunca olhava pra mim. E os meninos continuavam e não percebiam que eu ficava desconfortável. Então eu comecei a ignorar eles e brigar com eles. E começaram a me ignorar. Como eu estava tendo um corpo definido por culpa da ginástica e os meninos me tocavam, começaram a me xingar.
Puta.
Feia.
Preta.
Macaca...

Eu tive uma amiga. Uma. E ela era bem bonita. Então os meninos pararam comigo e começaram com ela. Ela gostava disso. Dava para perceber. Ela começou a se focar só nisso e começou a ir mal na escola. Tanto que ela repetiu de ano e eu fiquei sozinha. E então comecei o ano seguinte da escola sozinha .
Esqueci de comentar. Mas quando tive essa amiga, aconteceu algo também não muito bom para mim. Eu tinha um grupo de amigas. Mas eu comecei a ter gostos diferenciados das meninas e elas começaram a me evitar um pouco. Certo dia tivemos que fazer um trabalho. Dividimos o trabalho em partes e me mandaram a minha parte. Mas não me falaram um detalhe e acabei não fazendo minha parte completamente. E no dia da entrega do trabalho, essas meninas colocaram a culpa em mim, de que eu devia ter feito mais coisas, e direito. Coisa boba pra ficar triste, não é mesmo? Mas não contei tudo. Vocês se recordam que minha mãe estava trabalhando na mesma escola em que eu estava estudando? Ela era bibliotecária de lá.
No dia da entrega do trabalho eu fui conversar com a minha mãe e quando sai da biblioteca vi um mutirão de pessoas vindo em minha direção.
As meninas do trabalho, chamaram todos da sala e fizeram um roda em volta de mim e começaram a falar que eu era uma irresponsável, que eu não poderia ficar com elas por que tinha notas baixas e não fazia as lições de casa. Mas o detalhe, é que isso foi tudo em frente a biblioteca. Onde minha mãe estava. Ela presenciou o momento em que eu simplesmente travei e comecei a chorar. Então eu comecei a andar com aquela amiga que gostava que os meninos ficassem em cima dela.
Continuando... Comecei o meu ultimo ano nessa escola sozinha. Sem ninguém. Sem nenhum amigo para confiar. Sem nenhum ombro amigo.
Vocês sabem qual a diferença entre um amigo e um colega, não?
Eu tinha alguns colegas. Amigos não.
E nesse ano, apelidos aplicados em mim começaram a ficar frequentes. Até demais.
Tanto que chegou ao ponto de eu simplesmente desabafar essa dor que não tinha com quem desabafar.
Meu primeiro corte.
Ah sim. Esse foi o outro dia em que eu fiquei feliz, e dei um sorriso bem satisfatório. Não que isso seja bom, nunca façam isso. Não é saudável, acredite em mim.
E eu comecei a me isolar das pessoas e percebi que não fazia diferença eu estar lá ou não.
Fiquei mais sozinha.
Mais cortes.
Mais apelidos.
Mais lágrimas...
"E ai, você ta bem?"
"Sim, claro"
É, uma mentira e um belo sorriso convence qualquer um que não te conhece.
Meu ex começou a se aproximar de mim por que percebera que estava me isolando. E ainda sentia algo por ele. Sim eu fui uma idiota.
Mas deixa pro final pra me chamar realmente de idiota.
Ele começou a ficar comigo. Nas duas últimas semanas antes das férias de Julho.
Um dia, estávamos na biblioteca, onde minha mãe estava.
E estávamos "estudando". Certo momento ele colocara seu braço em volta de minha cintura. E ele me disse que queria fazer algo. Eu, ingênua e apaixonada por um babaca, disse pra fazer. E ele colocou sua mão em baixo de mim. Sim, nas minhas partes baixas da frente. E ele começou a pressionar com um dedo. Dois dedos.
Até que soltei um gemido baixo e abafado. E ele disse que ia parar por que eu estava fazendo sons indesejáveis. E enquanto ele disse isso, ele colocou minha mão em um lugar também indesejável. E eu não percebi. Mas aquele desgraçado estava excitado. E logo após isso, ele terminou comigo e uma amiga nossa chegou. E ele teve a cara de pau de pedir pra ficar com ela na minha frente.
Então, no ultimo dia de aula ele pegou meu celular e viu minhas fotos. Foi quando ele descobriu que eu estava me machucando. E paramos de nos comunicar.
Estamos nas férias. Finalmente estou longe daquele traste, até descobrir que o filho da mãe, só ficou comigo por que eu tinha corpo. Por que eu tinha uma bunda grande. Cara, como eu pude acreditar que ele estava se aproximando de mim só pra me ajudar?
Ele me usou. E me jogou como se eu fosse uma embalagem de bala.
Então, eu mudei de escola. Onde me encontro hoje.
Passei por vários problemas também nessa escola, mas, foram sequelas que restou da outra escola.
Encontrei pessoas incríveis nessa escola. Tão amigáveis, com bom humor. Conversaram comigo, fiz várias amizades. Pode se dizer que eu melhorei um pouco, mas não tanto quanto parece. Tive dias bons, tive sorrisos verdadeiros... Mas não por muito tempo.
Comecei a gostar de um outro garoto que não dava a minima pra mim também, comecei a ir mal na escola e comecei a lembrar da época da outra escola. Então teve uma pessoa muito especial que eu encontrei nessa escola, que quando a vi, eu quis ser a melhor amiga dela. Esse era meu objetivo. Me aproximar mais e ter uma melhor amiga. Eu consegui. Fiquei muito feliz.
Começamos a nos abrir uma para outra e fomos percebendo que éramos uma boa dupla. Que teríamos uma bela amizade.
Aconteceram muitas coisas nesse novo ano, o bom, é que foram mais coisas boas do que ruins. Uma das melhores coisas foi que eu comecei a ter um amor tão grande pela minha amiga que comecei a gostar dela e começamos a namorar.
Já nesse ano, as coisas pioraram, e estão indo de mal a pior.
Primeiro, minha mãe ficou desempregada na época de férias da outra escola e ela ficou em casa. Mas um dia ela conseguiu um emprego em um lugar um poco longe daqui. Mas ela foi. Depois disso meus pais e os pais da minha namorada descobriram que estávamos namorando.
Meus pais são evangélicos e eles abominam a homossexualidade. Tanto que meu pai fez eu ler a parte da bíblia em que dizia isso com uma cinta na mão.
"Se você continuar com essa palhaçada, eu juro, que tiro sua blusa e deixo suas costas toda marcada"
Eles pediram que eu terminasse com a minha namorada e eu disse a eles que iria fazer isso.
Mas não fiz.
Eu a amo. E ela está me ajudando a encarar meus problemas passados e atuais.
Mas, como toda mente confusa e triste, comecei a piorar. Depois de um ano minha mãe machucou seu pé. Ela trincou o tornozelo e pediu as contas do trabalho.
Ela voltou pra casa. E não vou mentir, eu fiquei muito triste. Com ela no trabalho eu podia levar minha namorada pra casa e termos uma tarde juntas. Mas ela voltou.
Ela voltou...
Com ela aqui, fico muito pressionada com completamente tudo. Tenho segredos muito obscuros para contar. E com essa pressão comecei a ficar mais triste. Mais e mais. Chegou ao ponto de que meus pais queriam me tirar da escola por culpa da minha namorada. Por que meus pais ficaram decepcionados comigo. Não faço drama. Eles realmente falaram isso pra mim.
Com essa confusão em toda a minha cabeça, estou me afastando das minhas amigas, da minha namorada e de todos. Meu pai foi no mercado e precisava comprar uma gilette pra fazer a barba. Como estou cheia de coisas na minha cabeça, peguei 2 gilettes dele e as quebrei.
Eu tinha 4 lâminas.
Novas.
Completamente afiadas.
Sangue...
Nas férias de Julho dessa escola onde estou, fiquei completamente mal pelo meu comportamento com meus amigos. E os bloqueei com medo de tratar eles mal até mesmo pelo telefone. Não tenho coragem de desbloqueá-los.
Uma noite, as 3 horas da manhã, peguei minhas lâminas e disse pra mim mesma que ia testá-las.
Peguei uma. E passei rapidamente pelo meu braço. Estava escuro no meu quarto.
Liguei o flash do celular.
Manchei minha cama. Meu braço nunca escorrera tanto sangue quanto queria ver. E não consegui me controlar vendo apenas um forte.
Mais um ali.
Mas três ali.
Mais dois depois de uns dias.
Infelizmente, eu praticamente abri meu braço. Eu fiz cortes fundos que realmente machucaram. Estou com cicatrizes vermelhas e ficando altas. Faz um mês que fiz tal coisa. Elas ainda doem. Por isso te falo, não faça isso. Você só vai deixar seu corpo marcado e lá na frente você vai dizer: " Mas que merda que eu fiz?"
Mas com minha mãe aqui em casa, eu não pensei isso.

Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.

Fui em um psiquiatra pra uma avaliação e ele me receitou um remédio. Mas não quis tomar ele. Ele me deixava com náusea, tontura, tremedeira e muito sono.
Parei de tomar e comecei a guardá-los para um futuro acontecimento.
Guardei.
Guardei.
Guardei.
Numa quinta feira eu fiquei muito irritada comigo mesma e comecei a tratar minha namorada muito mal. Tanto que ela queria falar comigo e eu a ignorava. Ela me perguntava as coisas e eu fingia que não ouvia. Um certo momento fiquei mais irritada me machuquei na sala. Ela viu.
Mas eu não liguei. Eu tava irritada. Queria todos longe de mim. Na última aula não dei tchau a ninguém e fui para casa num tiro só.
Eu não estava mais aguentando todo aquele sentimento de tristeza, vazio dentro de mim.
Eu estava guardando os comprimidos, lembram?
Cerca de 50 comprimidos meus e mais uns de um anti-ansiedade que tinha aqui em casa tarja preta. Não, não era meu.
Disse a minha mãe que ia tomar banho e peguei os comprimidos. Coloquei uma música bem alta pra ela não ouvir o barulho dos comprimidos e tomei todos. Fui tomar banho. Não deu em nada.
Fui na cozinha, peguei algo que tinha álcool e bebi. Mas eu não tava satisfeita. Queria acabar logo com tudo isso e bebi um copo de cândida.
Eu fiquei com sono. E dormi. Infelizmente, eu não morri, se não eu não estaria escrevendo tudo isso.
Eu acordei e fui chamar minha mãe. Mas antes que eu pudesse pronunciar tal palavra eu expeli tudo que havia tomado. Tudo de uma vez.
Fiquei doente.
E aqui estou.
Ainda doente.

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