Uma estranha no ninho - Vol. I
31 Um estranho malvado.
Notas iniciais

O berro dado por Saga em meio ao jardim de Kyoko fez a mesma pular da cama. Um grito de horror e desespero como um animal diante de um monstro. Kyoko engoliu em seco reconhecendo a voz e ainda mais em ver seu pior shinobi sorrir da forma que fazia até ela mesma tremer.
Saltou da cama tão rápido que só teve tempo de cobrir o corpo com sua própria pelagem, correndo até lá.
Ao vê-lo enfim, Kyoko sentiu-se estremecer dos pés à cabeça sem saber o que fazer. Saga urrava de joelhos com ambas as mãos na cabeça, segurando a mesma como se sentisse a maior dor de sua vida. Lágrimas escorriam por seus olhos, mirando o nada; as pupilas contraídas, os dentes cerrados.
— Ahhhhhhhhhh...- berrou o geminiano, apertando mais a cabeça entre as mãos e se encolhendo.
Os dentes da Kitsune despontaram sobre os lábios curvados na careta de irritação e uma fúria fez crescer um ódio em Kyoko que ela já quase havia esquecido ser capaz de sentir. Virou de uma só vez, desferindo um tapa fortíssimo com as costas da mão, acertando o rosto de Cheshire e o arremessando longe. Ele derrapou nas pedras, parando do outro lado do lago com a ajuda das mãos. Kyoko estava furiosa.
— Como se atreve? COMO SE ATREVE? – gritou — Eu disse a você para não toca-lo. Avisei a você que não tocasse nem um dedo nele!!! Ele é meu! MEU! — berrou Kyoko como um leão furioso prestes a atacar.
Cheshire cuspiu o sague que saia do corte na parte interna da boca, mas não se alterou. Já esperava uma reação daquela vinda de Kyoko. Era óbvio e justo que ela não entendesse seus motivos, mas mesmo assim revidar seria pior do que a própria morte.
—Me desobedeceu...- as unhas de Kyoko despontaram como garras afiadas. —...você...
E não conseguiu completar a frase, pois novamente Saga berrou, mas dessa vez ainda mais alto. Kyoko deixou o shinobis de lado somente para amparar o cavaleiro. Não sabia o que fazer e muito menos sabia dizer o que ele estava realmente sentindo.
— Saga! Saga, fala comigo, por favor! – pediu ajoelhando de frente a ele.
—Ahhhhhhhhhh...- berrou Saga se encolhendo mais ainda.
De longe Cheshire ficou novamente de pé, observando o cavaleiro urrar. Sorriu de lado; o sangue deixando-o ainda mais sinistro do que naturalmente já era. Estava na hora de Saga provar ser realmente digno de ter Kyoko.
— O que você fez com ele? – Kyoko segurou nos braços de Saga, mas virando só um pouco para o shinobi. — O que você fez com...
Não terminou, pois, sua voz foi contida de forma brusca. A Kitsune engoliu em seco ao sentir a mão poderosa em seu pescoço. Kyoko engasgou pela força impressa aí, ficando totalmente sem saber o que fazer.
—Na...ni!!!(O quê?) – resmungou.
Então o cabelo do cavaleiro de gêmeos oscilou rapidamente entre o azul, branco e negro. A respiração acelerada e a força dos músculos faziam as veias do pescoço e do braço da mão que ainda apertava seu pescoço marcarem a pele morena como vermes. Kyoko empalideceu, paralisada diante daquela visão. Que diabos estava acontecendo? E que energia gigantesca e maligna era aquela que exalava de todo o corpo de Saga? Por instinto levou a mão ao pulso dele, tentando se libertar. Sentia que a qualquer momento sua traqueia seria arrancada pelos dedos dele. Gruiu de dor, mas se aquilo ainda não fosse ruim o suficiente ele enfim ergueu o rosto mirando os olhos coloridos de Kyoko com os vermelhos seus. Um sorriso diabólico mudou completamente a fisionomia bondosa do homem que a havia amado como ninguém nunca fez, deixando Saga simplesmente medonho. Os cabelos mudando finalmente do azul para o negro completando o visual nada agradável do cavaleiro de gêmeos, para o pavor total de Kyoko.
— Sa...Sa...ga! O...que você...
—Saga? É isso que você vê em mim? – fez uma pausa. — Não me confunda com aquele idiota e fraco do Saga...- puxou a Kitsune para mais perto. —...eu sou muito melhor que ele...
O olhar malicioso que aquela versão maléfica de Saga lançou fez Kyoko estremecer. Era visível até mesmo para uma criança sacar o que ele queria dizer com aquele olhar. Não precisava ser nenhum gênio para isso. Não conseguia entender o que estava acontecendo ali. Haviam se amado de forma plena até o amanhecer e depois dele, e agora Saga, o homem humano que a havia protegido da fera parecia ter sido tragado para o fundo da alma horrível daquele ser diante de si. Seja lá o que havia acontecido entre Saga e Cheshire enquanto dormia, fora feito de maneira muito sábia. Se ele queria prejudica-la, tinha que admitir que estava conseguindo.
—...em todos os sentidos. – completou o homem, deslizando o indicador da mão livre pelo vale entre os seios fartos de Kyoko.
Mas mesmo sem entender bem o motivo daquela mudança e porquê dela, Kyoko sabia que tinha que fazer alguma coisa para sair dali. E pensando nisso resolveu agiu da maneira mais sensata que julgou para o momento: sendo ela mesma. Abstraindo o fato de que em algum lugar daquele homem, Saga ainda podia estar ali.
—Melhor do que ele? – sorriu sacana. — Não me faça rir. Eu conheço bem o seu tipo. Cães como você só sabem latir.
O lado mal de Saga crispou o cenho. Por essa ele não esperava. Quem aquela vagabunda pensava que era para chama-lo assim? E pior, rebaixa-lo daquela maneira? Ahh...mas isso era muito bom! Kyoko era do tipo rebelde e mal ela sabia que ele... adorava ensinar boas maneira a tipos rebeldes como ela. Faria isso com gosto e muito, muito prazer.
Então Ares jogou a Kitsune no chão de qualquer jeito, ficando de pé. Kyoko se arrastou como pode, se afastando o máximo que conseguiu. Pensou em pegar sua espada, mas lembrou-se de que já não tinha uma graças a Kazuia. Seus olhos mudaram de cor, combinando com sua feição irritada e desafiadora, fazendo pequenos raios subirem por seu braço direito como um aviso para que ele não tentasse nenhuma loucura. Mas para sua surpresa Ares gargalhou alto, admirado com a valentia e coragem dela. Aquela brincadeira seria muito melhor do que a que sadicamente se passava em sua mente.
—Hummm... corajosa. Eu gosto disso. — falou elevando o cosmo e rindo sadicamente.
—Se der um passo eu vou fritar você. — rosnou Kyoko.
—Vai ter coragem de machucar o corpo do seu amado...Saga?! – ironizou.
Kyoko estancou com a frase. Então aquele era realmente Saga? Lógico que o corpo, a voz eram os mesmos, mas com toda certeza a mente não. No instinto deu um passo para trás sentindo a energia e a intenção extremamente agressiva e maléfica que saia dele crescer ainda mais, era como se algo dentro de si lhe avisasse que a melhor saída no momento não era lutar, mas sim fugir. Se entrasse em um confronto com ele ali com toda certeza não sobraria nada, e também se aquele fosse realmente o corpo de Saga, se o ferisse fatalmente jamais se perdoaria. Estava muito nervosa e tensa com aquela nova situação, mas ao mesmo tempo ficou satisfeita em ter sua desconfiança confirmada. Sorriu de lado.
—E quem disse que preciso machucar o Saga para me livrar de você?
E sem dar a menor chance de Ares processar aquela informação, Kyoko avançou sobre ele, mas desviando logo para o lado, correndo como uma louca em direção a saída do quarto. O demônio rosnou ao ser feito de bobo. Levou um sustou ao pensar que ela o atacaria, e sem demora saiu como um cão furioso atrás de Kyoko, derrubando e quebrando tudo que estava a sua frente. Atravessou as paredes de fusuma como um louco quase alcançando Kyoko. Ela gritou ao sentir os dedos dele encostarem em seus cabelos, mas não parou de correr. Precisava sair dali, precisava encontrar Camus, Mu e Afrodite antes que seus shinobis encontrassem Saga. Por mais importante que ele fosse naquela história toda, nenhum deles hesitaria em feri-lo para que ficasse segura. Só não entendia porque Cheshire não havia feito nada e ainda a abandonara sozinha com aquele demônio. Ele era sua sombra, nunca a havia deixado sozinha, a não ser quando dava ordem dele não aparecer, mas naquele momento não era bem isso que queria.
Na vila Camus esperava Mu na porta da pequena escola improvisada, já que a outra foi totalmente destruída pelas chamas. Algumas menininhas acenavam para o Sensei* bonitão e outras se arriscavam em cumprimenta-lo com abraços e beijos. No início Camus estranhou e muito aquela situação, mas logo se adaptou assim como fora na época de mestre. De todos os seus amigos acreditava ser o que mais estava acostumado a lidar com crianças. Lógico que lecionar nem se comparava ao treinamento árduo que Hyoga e Izaak receberam para se tornarem cavaleiros. Sempre tratou os meninos com máxima seriedade e frieza exagerada, mas ainda assim nunca deixou de ser zeloso para com seus pupilos.
—Ohayo sensei! (Bom dia professor!) – disse uma menininha de maria chiquinha nos cabelos negros e encaracolados, e de pele esverdeada. Os olhos expressivos e de tom mel.
—Bon jour(Bom dia!), Melissa. – respondeu Camus meio sem jeito pelo fato dela lhe estender os braços para receber um abraço.
Camus ergueu uma das sobrancelhas, mas logo abaixou para abraçar a menina. Ela agarrou seu pescoço com força, soltando um gemido de satisfação. Camus achou graça daquilo e sorriu, ergueu os olhos somente um pouco só para -sem querer- encontrar os de Naomi rindo da situação. Mu, que até então conversava com Ume um pouco mais afastado, também sorriu ao ver a cena. Camus era tão sério e frio que quando demonstrava um pouco de carinho a alguém acabava por se tornar cômico.
E foi justo nessa hora que Camus e Mu levaram um susto e se não fosse pela habilidade incrível de cavaleiro que possuíam ambos teriam sido pegos pela pressão do corpo de Kyoko ao cair bem no meio deles. Mu agarrou Ume pela cintura, pulando com a moça para trás enquanto Camus girou o corpo, usando-se de escudo para proteger a menina. Com o impacto fortíssimo dos golpes, Camus acabou por ser arremessado longe, afundando o corpo na parede de uma das casas ao redor.
Naomi que observava o belo cavaleiro de Aquário empalideceu ao se dar conta do motivo de toda aquela confusão: Saga. O soco desferido por ele fora tão forte que arremessou a raposa com tanta força que fora como se um meteoro tivesse caído ali e não o corpo de Kyoko.
A Kitsune gemeu de dor, ficando de pé como pode; A boca sangrando e um hematoma embaixo do olho direito. Olhou ao redor e viu Mu segurando Ume e várias pessoas assustadas com a cena.
— Tire essas pessoas daqui!
Só teve tempo de gritar, pois o demônio Ares pareceu surgir do nada, avançando outra vez contra Kyoko. Ela pulou para trás, tentando defender, mas ele era mais rápido do que qualquer coisa que ela já tinha visto na vida. Nunca imaginou que Saga pudesse ser tão poderoso a ponto de ser praticamente massacrada por ele.
Camus, Mu, e agora, Afrodite, Yamoto, Águia e Ookami ficaram paralisados com a cena. Não dava para acreditar que Saga estava realmente acertando um soco bem no estômago de Kyoko e a jogando longe como se fosse nada.
— Ares!! – disse Camus, Mu e Afrodite sem acreditar que Saga novamente havia sucumbido a algo que achavam nem existir mais.
Os shinobis avançaram contra ele sem pensar. Precisavam tirar Kyoko dali urgente! Ou Saga a mataria sem ao menos perceber. Ookami puxou sua katana disparando um golpe na direção de Saga. Ele desviou, sumindo de onde estava e reaparecendo bem atrás do Shinobi, não dando a menor chance a ele de reação. Um soco carregado de cosmo certou em cheio o rosto de Ookami, fazendo com que acertasse Águia. Águia ainda tentou segurar o amigo, sendo distraído e não vendo a fenda dimensional da Outra Dimensão ser aberta bem atrás dele.
—Águia, cuidado! – berrou Afrodite sem sucesso.
A Outra Dimensão de Saga estava duas vezes mais poderosa e puxou ambos os shinobis com uma força fora do comum, mas antes de serem sugados, Yamoto agiu rápido, soltando um golpe que acertou Águia e Ookami, empurrando ambos para o lado e saindo da fenda aberta por Saga.
Ares gargalhou sádico e ergueu o indicador ao céu. Um novo buraco dimensional apareceu bem em cima dele e uma luz dourada surgiu. Os três cavaleiros ficaram boquiabertos ao verem nada mais, nada menos que a armadura de Gêmeos aparecer ali. A mesma aceitou sem problemas o comando do cavaleiro, desmontando suas partes e cobrindo o corpo de Saga.
—Não acredito! — balbuciou Afrodite.
— É a armadura de Gêmeos! — Mu falou também surpreso.
Yamoto, de início, paralisou. Era impossível que Saga conseguisse abrir uma fenda dimensional do Makai para o Nigenkai. A barreira entre os dois mundos impedia isso, a não ser que ele estivesse usando...Não! Impossível! Ele era um homem humano. Seu corpo nunca suportaria tanta energia. Saga jamais teria como suportar o poder da Adamantine em tão pouco tempo. Kyoko levou muito tempo, sofrendo dias após dia até seu corpo aguentar a energia da pedra. Saga não tinha como fazer aquilo em menos tempo que ela. Nem Hiroaki havia conseguido isso, então...como ele conseguiu?
Gruiu irritado. Como fora tolo em não perceber que a tão procurada parte da pedra de Kyoko estava mais perto do que ele ou qualquer um podia imaginar. Sem mais partiu para cima de Saga. Cortes e mais cortes eram dados na direção do cavaleiro, mas nada adiantava. Saga movia-se na velocidade da luz com perfeição, desviando de um lado para o outro, fazendo o shinobi de bobo até quando achou suficiente. Sua gargalhada irritando o outro até o último fio de cabelo. Quando achou suficiente a humilhação, atacou sem nenhuma piedade, usando sua Explosão Galáctica.
Yamoto urrou ao ser pego em cheio pelo golpe, sentindo sua pele queimar e rasgar pela força absurda de Saga. Ele nunca em sua sã consciência poderia imaginar que ele pudesse ser tão poderoso assim.
— YAMOTO!!!
Todos gritaram com a cena, inclusive Kyoko. Ela jamais perdoaria Saga se ele matasse um deles sequer.
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No Norte do Makai, Hiroaki e Suzuki estancaram com a energia que sentiram. O Kage mais velho, levantou de onde estava, caminhando imponente até uma das janelas. Os cabelos longos e negros bailando em cada passo. Seus olhos adquirindo o típico intimidador brilho esverdeado, assim como Suzuki.
— Sentiu isso? – inqueriu Suzuki.
Hirokai crispou o cenho ainda mais, mas depois sorriu de lado. Se aquela energia era realmente de quem pensava que era e do que sentiu ser, então a brincadeira seria mais divertida do que imaginou.
—Cuide disso.
Ordenou o inugami, dando as costas a Suzuki e voltando ao seu jantar.
A falsa Naomi sorriu de lado:
— Hai!(Sim!) Hiroaki-sama.
♊oOoOo♊
— YAMOTO!!!- berrou Kyoko já sentindo um nó na garganta.
A fumaça do golpe de Saga começou a se dissipar deixando enfim a visão de todos livre. E para o alívio de Kyoko, Afrodite por um milagre e um braço esmigalhado conseguira agir rápido e evitar que o Shinobi recebesse todo o golpe.
—Ora! Eu nunca pensei que o veria de novo. – falou peixes.
—Nem eu. Se fosse em outra época, você estaria ajoelhado agora, Afrodite. – volveu Ares.
—É, mas não estamos mais naquela época. – respondeu o mais novo.
Saga soltou uma risada anasalada, fechou os olhos por alguns segundos e depois abriu.
— Tem razão.
Disse somente e sem aviso avançou contra Afrodite. Este desviou como pode, jogando Yamoto na direção de Águia. Ele sabia que jamais teria chances contra Saga ainda mais naquelas condições onde ele parecia milhares de vezes mais poderoso, sabe se lá porque, e ele, Afrodite, estava enfraquecido pelo colar que ainda usava. Mas isso não vinha ao caso agora. Ele era um cavaleiro de Athena e não seria por conta disso que fugiria de uma luta com o rabo entre as pernas.
— Rosas piranhas!
Contra-atacou com toda força que tinha. Suas rosas devorando tudo que tocavam, mas sendo miseravelmente corroídas pelo cosmo gigantesco que saia de Saga.
—O quê?! – sussurrou
Saga então sorriu. Ergueu a mão em direção ao cavaleiro de peixes e lançou uma rajada enorme de cosmo. Afrodite só teve tempo de virar um pouco, mas por sorte Mu também resolveu agir, erguendo uma muralha para conter o golpe. Camus saiu de onde estava, deixando a menina com Naomi e indo em prol dos amigos. Derrapou no chão, passando por uma abertura feita por Mu na muralha e emanando seu cosmo também.
—Como isso pode acontecer? – indagou sem acreditar no que via.
—Eu não faço a menor ideia, só sei que temos que pará-lo ou ele vai destruir tudo, e a todos! – respondeu o ariano.
Do lado de fora da muralha Águia entregou Ookami a Naomi e fez o mesmo com Yamoto. Olhou nervoso ao redor e viu alguém que não deveria estar ali. Correu o mais rápido que pode em direção a Ume. A gueixinha estava completamente apavorada com a agressividade que emanava junto com o cosmo de Saga. Era como se um demônio estivesse bem diante de seus olhos. Mesmo estando com muito medo ela simplesmente não conseguia mover um músculo sequer.
Saga soltou uma nova Explosão Galáctica ainda mais poderosa, mas Mu intensificou a sua muralha, para a irritação maior do cavaleiro de gêmeos. Aquela maldita Muralha de Cristal de Áries era de irritar qualquer um.
Olhou em volta e viu algo que não esperava: Ume.
Mu engoliu em seco já antevendo o que Ares planejava. A mão dele direcionou para a mocinha e esta caiu sentada de tanto medo.
—Lerdo como é, tenho certeza de que ele ainda nem comeu você, garotinha. – ironizou gargalhando.
— UMEEE!!! – gritou Mu.
Mas antes de reagir Saga com a outra mão atacou novamente a Muralha, obrigando Mu a ficar onde estava e com a outra atacou Ume sem nenhuma piedade. Mu gritou por ela em desespero. A youkai virou o rosto, mas para sua surpresa o golpe não a acertou e sim em Águia que pulou na sua frente, usando a espada para aparar o golpe lançado por Saga.
Do outro lado Naomi ordenava a todos que saíssem dali o mais rápido possível. Correu o máximo que pode até Kyoko, puxando a Kitsune que parecia já nem ter forças para ficar de pé.
— Kyoko-chan! Kyoko-chan!
— Baa-san! O que...o que está havendo com ele? – gruiu ficando de joelhos.
Os olhos coloridos de Kyoko seguiram em direção a seu casarão e encontrando o olhar inexpressivo de Cheshire. Ele ainda estava lá, observando toda a ação enlouquecida de Saga sem mover nenhum dedo. Por quê? Por que ele ainda estava daquele jeito? E porque ele havia feito aquilo com Saga? O que ele havia feito com Saga?
Um clarão enorme tirou Kyoko de seus devaneios. O golpe de Saga ficou ainda mais poderoso, fazendo a espada de Águia partir em pedaços junto com a Muralha de Mu. O shinobi voou longe, assim como Camus, Afrodite e Mu. Ume desesperou-se.
— ANIKIIIIIII ! (Irmão!!!!)- berrou ao ver Águia ser lançado longe completamente ensanguentado.
Ela já não sabia mais para onde olhar, assim como Kyoko.
— Droga!! – gruiu Mu tentando ficar de pé. Camus nada disse. Somente ficou de pé, erguendo as mãos para o céu em posição de seu ataque mais poderoso, aumentando seu cosmo e congelando tudo ao redor.
Saga ainda sorrindo e sentindo o frio aumenta não pensou duas vezes; sumiu bem no momento em que Camus iria usar sua Execução Aurora, reaparecendo na frente dele e usando de toda força que tinha atravessou o ombro esquerdo dele com a mão nua. Camus prendeu o grito na garganta. Aquilo era surreal.
Kyoko estremeceu com a cena. Ela precisava fazer alguma coisa. Saga estava completamente fora de si e se continuasse naquele ritmo ele mataria a todos e destruiria tudo sem o menor esforço. Camus, Mu e Afrodite ainda não tinha se adaptado ao ar e seus cosmos ainda estavam muito enfraquecidos. Eles nunca conseguiriam dar conta de Saga naquelas condições. Ele havia derrubado seus shinobis com a maior facilidade do mundo, não seria diferente com os outros três. Nem ela havia conseguido tocar nele, não seria os outros que conseguiriam.
Olhou para o casarão outra vez, trocando mais um olhar com Cheshire. Depois voltou para Naomi.
—Baa-san, ele está com a Adamantine. Vai matar todo mundo se continuar nesse ritmo.
—É, eu já percebi isso, mas...como vamos pará-lo?
—Eu vou distraí-lo. Ele precisa sair da cidade. Assim que tiver uma chance eu quero que saia daqui com todos que puder, entendeu?
— Nani?!(O quê?) Você pirou? Ele vai matá-la! Olhe para você, Kyoko! Nunca vai conseguir detê-lo desse jeito.
— Eu tenho que tentar! – rebateu a Kitsune começando a caminhar.
—Não! Você não pode vencer. Você sabe que não. Ele está usando a Adamantine, você sabe disso não sabe?! Não sei como ele conseguiu, não sei como ele está conseguindo essa façanha. – fez uma pausa. — E além disso não é só a pedra, Kyoko. De alguma maneira ele está absorvendo a força do ar, está imune a todos os efeitos reversos que ele causa.
Kyoko olhou para a batalha onde Mu, Camus e Afrodite apanhavam como nunca em suas vidas.
— EU SEI! – Kyoko olhou Naomi outra vez. — Eu sei de tudo isso, agora me faz um favor?! Cala a droga da boca e faz o que mandei.
E sem dar chance Kyoko avançou contra Saga, acertando um soco fortíssimo no rosto dele bem no momento que ele quebraria o pescoço de Afrodite; arrastando o cavaleiro consigo na base de chutes e socos para o mais longe possível de sua cidade. Ambos acertaram a muralha, seguindo naquilo até Saga bater contra um pedregulho. Kyoko não esperou ele se recuperar; ergueu dos dedos para o alto e seus cabelos começaram a balançar com a força da eletricidade. Saga pulou na hora que ela lançou uma sequência enorme de raios, explodindo o chão e tudo ao redor. Aproveitou da distração dela para contra-atacar com socos e chutes fortíssimos. A Kitsune se defendia e desviava, contra-atacando sempre que podia, mas na velocidade que Saga se movia era quase impossível que seus golpes acertassem com toda força. Nunca imaginou que Adamantine estivesse tão perto. Como ele conseguia usar a força do ar e da pedra ao mesmo tempo se seu corpo era humano?
— O quê?! Ahhhhhhh...- ela gritou ao ser acertada por ele outra vez.
O golpe certeiro de Saga jogaria Kyoko de um penhasco, mas antes dela se afastar ele a segurou pelos cabelos, puxando o corpo dela de encontro ao seu. Quando se chocaram Kyoko aproveitou a deixa, cravando as unhas nos braços dele. Sua energia crescendo de forma incrível, fazendo surgir mais quatro caudas, seus olhos tomaram um brilho dourado e seus cabelos se ergueram totalmente. Saga tentou se libertar, mas em cada movimento as unhas de Kyoko pareciam rasgar ainda mais sua pele. A eletricidade que saia das caudas e do corpo da raposa fez Saga berrar de dor. Sem alternativa acendeu seu cosmo.
— Sua vagabunda! Eu vou matar você! — berrou furioso. Os olhos vermelhos e iluminados pelo cosmo.
—Então você vai morrer comigo... Ahhhhhhhhhhh...- gritou fazendo sua energia ficar ainda mais forte, aumentando a potência da eletricidade e fazendo mais uma cauda aparecer.
De longe Camus, Mu, Afrodite, Baa-san e agora Yamoto viam espantados o choque de energia entre os dois. As árvores e rochas sendo transformadas em pó, tudo próximo a Kyoko e Saga sendo consumido pela energia, o chão trepidando como um forte terremoto. As pessoas ainda corriam em desespero, se afastando o máximo que podiam.
— Eles vão se matar! – falou Afrodite visivelmente transtornado.
—Temos que fazer alguma coisa? – Yamoto tentou caminhar, mas sem forças acabou sendo amparado por Mu.
— Não! É muita energia. Se algum de nós tentar entrar ali será desintegrado. – disse Naomi.
No meio do clarão Cheshire observava a disputa acirrada de energias entre Kyoko e Saga. Ele nunca imaginou que o humano detestável teria tanta energia assim. Sorriu satisfeito. Até que enfim Saga mostrava do que era feito. Mostrava a força de um cavaleiro de ouro. Sendo Ares, Saga não tinha medo de nada! Nem medo de ferir Kyoko o que deixava seu poder muito maior do que normalmente seria. Sem medo, Saga fundia-se ao ar de maneira perfeita, ficando muito mais poderoso do que qualquer humano que já tinha visto na vida.
O kiai de Kyoko pode ser ouvido por ele, elevando sua energia ao máximo que podia, trazendo à tona de forma magnifica e extremamente poderosa a raposa de nove caudas. O rosto completamente transformado quase colado ao do cavaleiro de gêmeos. Ares arregalou os olhos em surpresa, mas também de satisfação. Nada como um adversário à altura, mesmo este sendo uma mulher.
— Hihihihehehahaha...isso é incrível! – disse como um animal no cio.
Kyoko abriu a boca e esta começou a se iluminar, assim como seus olhos e as caudas que pareciam eletricidade pura. O chão afundou em uma cratera gigantesca e um trovão iluminou todo o céu do Makai. Agora seria tudo ou nada; ou Saga acordaria daquele transe louco ou morreria junto consigo.
Com muito custo Saga conseguiu erguer sua mão esquerda e uma esfera surgiu ali. Estrelas começaram a se colidir, explodindo. Cheshire ficou de pé, engolindo em seco. Achou que já era hora de sair dali. Aquele choque de energias não iria acabar nada bem. Se Saga e Kyoko usassem os golpes que ele imaginava seu corpo acabaria como as pedras e tudo ali naquele lugar. Rapidamente deu as costas, correndo o máximo que podia afim de se afastar o máximo que podia.
— Escondam-se bando de bocós!! – gritou correndo na direção dos outros.
— Explosão Galáctica!!!
— Ankoku Raijin Ken!!! (Espada trovão das trevas)
Gritaram ao mesmo tempo. Uma explosão gigantesca pareceu sacudir o Makai inteiro, iluminando tudo ao redor. As energias se chocaram de forma animalesca, varrendo tudo pelo caminho e uma parte do reino do Sul do mapa do Makai. O clarão dos golpes durou por vários minutos assim com a poeira e alguns raios. Yamoto caiu de joelhos ao sentir ambas as energias cessarem e ver uma parte da cidade do reino que Kyoko tanto amava desaparecer como se fosse nada. Era doloroso demais a cena. Águia sentiu os olhos arderem. Não sentia mais a presença de Kyoko. Será que ela...não! Não era possível que aquilo tivesse acontecido outra vez. Suas lágrimas rolaram por seu rosto, molhando o chão de terra como gotas de chuva. Camus, Mu e Afrodite mal conseguiam acreditar no que haviam presenciado, mas fora Mu a reagir primeiro.
— Eles estão vivos. – sussurrou para desespero do todos.
No local da luta, Ares se reergueu do meio das pedras como um monstro furioso, empurrando as pedras para longe. Maldita seja aquela Kitsune. Olhou ao redor procurando por ela, mas nada viu. Somente poeira e pedras pareciam estar ali. Procurou pela energia dela, mas nem isso encontrou.
—KYOKOOOOO! –berrou enfurecido, mas levou uma das mãos à cabeça logo em seguida. Estava sangrando e com vários cortes e queimaduras pelo corpo. Metade do peitoral de sua armadura estava partido deixando seu peito nu, assim como o ombro esquerdo. — Você...VOCÊ NÃO VAI ME ATRAPALHAR DESSA VEZ! – gritou consigo mesmo.
Um pouco mais afastado, atrás de alguns escombros Kyoko se encolhia para se esconder como podia. Seu corpo inteiro doía por conta da explosão. Um corte na testa manchava sua franja de vermelho vivo, várias escoriações marcando a pele alva de seu corpo. Olhou para as mãos e vendo seu dedo anelar destroncado. Mordeu os lábios fechando os olhos ao ouvir Ares gritar como um monstro enfurecido. Não conseguia parar de pensar porque Saga havia se deixado dominar assim por aquela...coisa. Achou que se talvez causasse um trauma grande ele voltasse ao normal, mas não foi bem assim. O choque dos golpes pareceu deixar o demônio ainda mais furioso e transtornado. Saga urrava, falando coisas sem sentido como se discutisse com alguém.
Com cuidado olhou por uma pequena brecha entre duas pedras. Viu Ares apertar a cabeça com força, gritando e chamando seu nome como um monstro. O que será que estava faltando?
— Saga, onde você está? – sussurrou.
— Hime-sama...
Kyoko virou num salto. Respirou fundo ao ver quem era: Era Cheshire.
—...que bom que está viva! – Kyoko rosnou.
—Seu filho da puta! Como tem coragem de dizer isso, eu...
— Shiiiiii...- Cheshire tapou a boca de Kyoko, olhando pelo buraco para conferir se Saga ainda estava no mesmo lugar. Para seu alívio, sim! Ele ainda estava de joelhos, gruindo como um animal com as mãos na cabeça. —...não grite Hime-sama, ele vai nos ouvir.
— E o que te interessa se ele vai ouvir? Não era isso que você queria? Me matar? Nós colocar um contra o outro?
— Não! Eu...jamais quero que morra. Hime-sama, sei que pareço um traidor, não a condeno por isso, mas só peço que me ouça. – Kyoko ficou em silêncio. Era totalmente fora da “programação” de Cheshire levantar um dedo sequer ou coloca-la em risco.
—O que fez com ele? O que você fez com ele, Cheshire? – Kyoko disse em um fio de voz. Já não aguentava mais ter de ser forte.
Cheshire franziu o cenho de forma triste, baixando a cabeça só por um momento.
— Por quê? Ele disse que me amava? Disse...disse que nunca me machucaria. Então...porque isso está acontecendo? – se encolheu chorando. Voltava a sentir-se só, pois não conseguia ver esperanças em trazer Saga de volta. — Ele sorriu pra mim e você tirou isso de mim, Cheshire. Por quê? – chorou mais forte.
O shinobi então ergueu o rosto, tocando nos cabelos dela. Depois desceu para o rosto bonito e erguendo em sua direção. Sorriu meigo.
— Para que ele prove que nunca a deixará. – Kyoko paralisou. — Ele está lá Hime-sama. Ele não deixou você, só está...com medo. – fez uma pausa. — Não sente? – Kyoko meneou a cabeça em negativa. — Então, feche os olhos e sinta.
Kyoko respirou fundo; fechou os olhos e relaxou, deixando seu corpo absorver e sentir toda dor que saia imerso aos berros dado por Ares e então encontrou. Saga estava lá, como um menino sozinho acorrentado por espinhos em meio a escuridão. Gemeu com a dor dele. A dor real dele, a dor da alma que assolava o cavaleiro de gêmeos desde a mocidade, desde a infância ruim até os dias de hoje.
—Ele tem...medo de si mesmo. – ela disse de olhos fechados.
—Sim e Hiroaki-sama sabe disso. Kyoko-sama...- ela abriu os olhos. —...eu não podia deixar que ele torturasse vocês dois...
— Mas ele tentou me matar...- volveu Kyoko aflita.
— Mas não matou. Ares não matou você. Por que acha que não o fez? Acha que ele não tem poder para isso?
Kyoko crispou o cenho chorando mais ao entender finalmente o que Cheshire queria com aquilo tudo.
— Eu jamais me perdoaria se tivesse que deixar você morrer outra vez. Jamais me perdoaria em ver você sofrer por ter que matar alguém que só te faz sorrir pela covardia e a maldade de Hiroaki-sama.
— Ah Cheshire...eu...
— Shiiiii...tudo bem.
—...me desculpe! – ela disse chorando abraçada a ele.
— Não tem que se desculpar. Você sempre será minha Hime-sama. Minha princesa. E eu sempre farei qualquer coisa para vê-la sorrir. Você não lembra, mas Hiroaki-sama tirou você de nós. Era Saga quem deveria proteger você, mas não conseguiu. Seu amor por ele foi maior e para que ele vivesse você optou por essa situação de agora. Você sabia que Saga jamais venceria Hiroaki nas condições em que ele estava. Então...você optou...
“ O vento soprava forte naquele dia. Era um dia lindo. O céu do Ningenkai era lindo demais. Como amava aquilo. Kyoko respirou fundo e em seguida soltou o ar devagar pela boca. Iria sentir falta daquilo.
— Hime-sama como se sente?
Kyoko sorriu triste.
—Não estou melhorando, Cheshire.
— Maldito cavaleiro de Aquário, eu queria quebrar o pescoço dele por ter ameaçado você. – resmungou o shinobi flutuando até Kyoko.
—Deixa de ser bobo...- deu-lhe um cascudo. Cheshire se afastou com um muxoxo. — Cheshire, eu...quero lhe pedir uma coisa.
O shinobi se aproximou curioso.
— Não importa o que aconteça comigo, eu não quero que você...
— Não Hime-sama, isso não...
—...quero que você continue nas sombras. – completou a Kitsune.
—Mas...Hime-sama, eu...
—Se acontecer alguma coisa comigo...
— NÃO! EU NÃO VOU DEIXAR VOCÊ! – ele berrou choroso. —Vamos fugir, eu posso tirar você daqui...
—Não posso fugir, Cheshire! Não posso fazer isso com o Saga. Sei que é difícil para você, mas...- os olhos de Kyoko lacrimejaram. —...você é minha única esperança. – chorou enfim.
—Hime-sama...
—Me prometa, prometa que não irá tentar nada. Prometa! Me prometa que continuará nas sombras e só agirá quando for a hora. Prometa! Por favor, prometa que não tentará me salvar. Por...favor, Cheshire. Você...você é minha única esperança. – ordenou mais do que pediu.
Cheshire ficou mirando os orbes coloridos de sua amada Hime-sama, até enfim menear a cabeça positivamente.
— Ótimo! – sorriu. — Agora preste a atenção em tudo que direi okay?! – Cheshire concordou. — Se acontecer alguma coisa comigo, eu quero que você procure por...- e assim ela continuou as instruções. ”
Kyoko ficou boquiaberta ao saber daquelas informações. Então ela conhecia todos eles e ainda pelo visto sabia da própria morte? Ou melhor planejara a própria morte? Deus! O que tinha acontecido consigo no mundo dos humanos?
—Eu nunca odiei tanto alguém como odiei Saga por ter falhado e deixado você morrer, mesmo quando eu sabia que tinha que ser assim. Mas ao mesmo tempo que eu o odeio também sei que é o melhor para você. Saga a faz sorrir, só que ele tem medo de perder. Medo de perder você, mas também tem medo de si mesmo, medo de falhar, medo de errar. Quando você morreu uma parte dele também se foi desencadeando algo dentro dele que já não tentava sair a muito anos. Saga não consegue aceitar, não consegue perdoar seus próprios erros. Ele nunca conseguirá enfrentar Hiroaki se não vencer seu maior desafio. – fez uma pausa. — A única batalha que Saga não conseguiu vencer a vida inteira foi a consigo mesmo. Hiroaki-sama sabe disso e vai usar isso contra você, contra ele. Se Saga não vencer a si mesmo, então nunca vencerá Hiroaki-sama. Nunca conseguirá proteger o que ama como quer. Como ele pode dizer para nós que protegerá você quando ele é a maior ameaça para você? Olhe em volta, Hime-sama. Tudo foi destruído por ele, imagina se fosse Hiroaki a despertar Ares? A compactuar com ele? O criador e a criatura abominável esmagariam você como uma formiga. Esmagaria todos nós.
— O que eu faço então, Cheshire? Eu não sei o que fazer?
—Guie ele, Hime-sama. Ajude-o a vencer. – falou Cheshire sorrindo com o rosto de Kyoko entre suas mãos.
— Mas...eu não sei como vencer esse...
— Não é você quem tem que vencer. Essa luta não é sua. É dele.
Kyoko ficou em silêncio. A cabeça a mil por hora, pensando em tudo que Cheshire havia lhe dito....
“Saga tem medo de perder, tem medo de si mesmo...Ele tem medo de perder você, tem medo de errar outra vez...tem medo de perde-la...”
— É isso! É isso!
Kyoko então respirou fundo. Tinha que admitir, estava morrendo de medo que aquele plano maluco não desse certo. Se Saga não fosse tão forte quanto esperava que fosse, então tudo iria por água abaixo. Teria que confiar nele, mesmo ele não sabendo disso...ainda!
— Eu estarei aqui, Hime-sama. – informou o shinobi sumindo como uma fumaça.
Ares berrou furioso outra vez e Kyoko engoliu em seco. Ficou de pé quase gritando ao sentir finalmente que um pedaço da armadura dele estava enfincado em sua coxa. Com dificuldade, segurou o objeto e começou a puxar. Prendeu o grito na garganta até enfim conseguir. Era óbvio que algo de ruim aconteceria depois da noite maravilhosa que tivera. Tudo que era bom durava pouco. Xingou todos os palavrões que conhecia mentalmente, tomando coragem e saindo detrás dos escombros. Com dificuldade e mancando horrores começou a correr. Aquilo teria que funcionar.
De longe Ares avistou a raposa tentando fugir. Urrou furioso, seus cabelos oscilaram por um segundo e como um animal começou a correr devagar, aumentando a velocidade gradativamente. Sorriu malicioso, excitando-se naquela brincadeira de pique. Não conseguia parar de pensar em ter o pescoço fino de Kyoko entre seus dedos. A estupraria enquanto a matava bem devagar e depois deixaria o pobre “Saga” ver o que sua fraqueza novamente causara.
Kyoko aumentou o passo ao vê-lo se aproximar mais. Sua perna doendo horrores, sangrando e manchando o chão em um rastro carmesim. Subiu em umas pedras, escorregando até o final, em seguida engatinhou rápido, entrando em um buraco. Gritou desesperada ao sentir as mãos poderosas de Ares agarrar seu tornozelo.
—Ahhhhhhhh...Não! – berrou puxando a perna.
— Hihihehehahahaha...onde pensa que vai? Nós ainda não terminamos.
— Não! Me solta...SAGAAAA!!! SAGA!!!!- começou.
Ares sentiu-se ainda mais furioso ao ouvir os apelos de Kyoko parecer ecoar dentro de sua alma, agitando algo dentro de si que até então estava sob controle. Soltou o tornozelo de Kyoko só para pôr a mão na cabeça outra vez. A Kitsune aproveitou a deixa para se enfiar ainda mais no buraco, se arrastando até sair do outro lado. Rapidamente ficou de pé voltando a correr como podia.
— AGHHHHRRRRRRRR...- ouvi-se o urro de Ares ecoar pelo local.
Kyoko olhou por cima dos ombros uma vez e nada viu, mas assim que virou levou um susto ao sentir um peso enorme e uma pancada forte na cabeça. Caiu no chão de bruços.
— Sua...vagabunda! – gruiu Ares disparando um chute e virando a Kitsune. Kyoko gritou de dor, se encolhendo de lado e vomitando sangue. — Quem você pensa que é para me fazer de idiota, hein?!
— Sa...Saga...- balbuciou quase desmaiando.
Ares abaixou ao lado de Kyoko, puxando-a pelo ombro. Sentou em cima dos quadris dela e prendendo os braços no alto da cabeça. Kyoko ainda tentou se soltar, mas um tabefe a deixou tonta.
— Sabia que quando você geme assim eu me excito mais? – Ares ondulou os quadris, fazendo Kyoko sentir o volume que começava a despontar no baixo ventre dele. — Você é linda!
— Não! Me solta! Não! Isso não!!! – gritou a Kitsune se batendo. A mão dele segurando seus pulsos enquanto a outra desceu até o seio direito o apertando com força.
— Isso! Grita! Quanto mais você grita, mas excitado eu fico.
Por mais que tivesse planejado aquilo, Kyoko jamais imaginou que sentira tanto desespero por estar sendo ameaçada a passar por aquele horror outra vez e ainda mais pelas mãos de alguém que na noite anterior havia lhe jurado amor eterno. Estava começando a entrar em desespero e seu desespero transformou-se em lágrimas, e suas lágrimas em lágrimas de pérola, e de suas lágrimas de pérola a lembrança de Saga. Ares estancou com a cena. Seu corpo paralisou perdendo totalmente o controle de suas ações, seu coração disparando dentro do peito, martelando contra suas costelas freneticamente.
De repente uma dor forte de cabeça o fez trincar os dentes e se encolher sobre o corpo de Kyoko. Ah! Não! Agora não! Aquele maldito estava quieto, porque aparecer justo agora?
—Me...DEIXA EM PAZ!! – berrou para si mesmo. — Está fazendo isso só por causa dessas lágrimas, é?! Você a ama? Muito bem...Saga! Veja o que farei com sua amada.
Kyoko gruiu desesperada. Ares começou a apertar seu pescoço entre as mãos grandes com tanta força que ela achou que sua cabeça descolaria do pescoço só com aquilo. Começou a se bater, segurando nos pulsos deles. O ar faltando nos pulmões e em todos os músculos de seu corpo.
De longe Cheshire observava. Observar era uma de suas funções. Por mais que quisesse interferir ele precisava acreditar que Saga não era fraco e que era digno sim de proteger Kyoko. Não era possível que falharia de novo, falharia?
Ares tremia por conta da força que usava para estrangular Kyoko. Nunca aquilo tinha sido tão bom. Nunca tinha sido tão bom tirar algo daquele idiota de gêmeos, mas algo que ele não esperava aconteceu; os olhos de Kyoko abriram e seguiram direto para os seus de um jeito que sentiu-se estremecer. Os olhos coloridos úmidos pelas lágrimas que enfeitavam o canto externo como gotas de orvalho, e com dificuldade disse enfim:
— Saga, eu sei que está aí. Sei...sei que...pode me ouvir. Por favor, não...não deixa ele...vencer. Não deixe...ele...vencer...você...
Ares crispou o cenho sem desviar os olhos dos dela e seu semblante suavizou. Empurrou a saliva goela abaixo como cacos de vidro. Não! Não deixaria Saga tomar o controle da situação. Havia ficado aprisionado tempo demais para perder assim. Mas seus dedos simplesmente pararam e um dor de cabeça exageradamente forte o pegou em cheio. Gritou de dor. Aquela dor que sabia ser Saga. Sabia ser Saga querendo voltar. Seu corpo começou a tremer muito e suas forças se esvaíram obrigando-o a soltar o pescoço de Kyoko. Ela começou a tossir, mas não forçou sair dali, muito pelo contrário; ergueu suas mãos até tocar o rosto transtornado dele.
— Você disse que ficaria tudo bem. Por favor, Saga não me deixe. Eu te amo! Eu...não quero ficar sozinha outra vez.
Ele abriu os olhos e seus olhos se encontraram com os coloridos de Kyoko. Seu cenho crispou dolorido, indicando a dor que sentia. Se encolheu sobre o corpo dela, encostando a cabeça no ombro de Kyoko. As mãos de Saga seguraram os cabelos de Kyoko como se aquilo o sustentasse. Seu corpo tremendo e suando em bicas; o cabelo voltando a oscilar entre o azul, preto e branco; a respiração ofegante saia com dificuldade entre os gruídos de dor. Kyoko abraçou Saga com carinho.
— Não deixe ele vencer. Eu acredito em você, Saga. Eu confio em você. – sussurrou ao pé do ouvido dele.
Os olhos verdes de Saga abriram em um rompante e do mesmo modo ele ergueu o corpo; os olhos arregalados em desespero e em seu último ato para se libertar enfim daquele demônio Saga berrou, elevando seu cosmo ao máximo. Uma nova explosão empurrou tudo ao redor para longe e depois cessou, fazendo Saga tombar exausto sobre o corpo de Kyoko.
De longe Cheshire sorriu satisfeito. Agora sim ele estava pronto.
Kyoko sorriu também envolvendo ele em seus braços. Baixou o rosto só um pouco para ver o rosto bonito e calmo que ele, agora, voltava a possuir. O mesmo rosto gentil, a mesma energia forte, mas ao mesmo tempo pacífica e bondosa. Não havia mais resquício do demônio. Ele havia vencido enfim.
O bakeneko se aproximou sorrindo.
— Ufa! Até que enfim esse maluco voltou para camisa de forças. — gargalhou. — Gosto muito mais dele assim, com cara de anjo.
— Concordo! Também gosto muito mais assim. — abraçou mais o cavaleiro, afundando o rosto nos cabelos dele, se deliciando com o cheiro bom que ele possuía.
— Hime-sama, e agora?! Pra onde a gente vai? – indagou curioso, olhando de um lado para o outro.
Kyoko bufou virando um pouco e deitando Saga no chão de barriga para cima. Ficou de pé para observar o estrago que aquela luta havia feito. Metade da cidade havia virado pó. Muitas pessoas perderam suas casas e com certeza algumas vidas também haviam sido perdidas, mas ainda não era o fim.
—Pra longe, antes que Hiroaki-sama resolva aparecer aqui também. – ela agachou. — Já enfrentei demônios demais por hoje...- tocou o rosto plácido de Saga. —...preciso dormir com os anjos hoje. – sorriu feliz.
Kyoko então girou nos calcanhares. De longe viu o grupo se aproximar; Yamoto, Naomi, Camus, Mu, Afrodite, Ookami, Águia e Ume.
— Olha lá, é ela! – falou Ookami. —HIME-SAMAAAA!!! – correu mais, se jogando nos pés de Kyoko e a abraçando pela cintura.
A Kitsune pareceu abstrair o fato de estar sendo agarrada por Ookami, pois seus olhos estavam presos agora ao Norte, onde sentia que seu tempo havia acabado. Depois daquilo não havia mais acordo, não havia mais prazo, não havia mais nada a não ser a espera pela resposta de Hiroaki ao cosmo gigantesco de Saga. A energia de Suzuki era algo que ela nunca se confundiria e sabia que ele mais do nunca aproveitaria de sua atual fragilidade para atacar. Kyoko só não sabia quando, mas sabia que seria o mais breve possível.
Continua...
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