Uma estranha no ninho - Vol. I
6 Um estranho hospede.
Notas iniciais

Uma semana depois...
Saga soltou um gemido de susto e desconforto ao sentir algo pular em seus quadris. A claridade externa queimou suas vistas assim que o tapasol foi bruscamente aberto o fazendo torcer os lábios de irritação.
— Aaaaiii! – Gemeu ao sentir as unhas cravando-se em seu peitoral o fazendo abrir os olhos e ver os curiosos sobre seu rosto “amarrotado”.
— Tem papel e caneta? – A cauda macia balançou devagar de um lado para o outro roçando de leve nas coxas grossas e desnudas do cavaleiro de gêmeos.
— Bom dia para você também Kyoko. – Resmungou sonolento voltando a cobrir os olhos com um dos braços.
— Ah bom dia! Eu preciso de papel e caneta. – Puxou o braço que ele havia coberto os próprios olhos na tentativa de se proteger da luz.
— Papel e caneta?! Você veio me acordar uma hora dessas para pedir papel e caneta?! – resmungou irritado. Só Kyoko mesmo para acordá-lo daquela maneira e àquela hora para pedir algo tão inútil. — Para que você quer isso?
A raposa fez uma cara divertida e desdenhosa com a pergunta um tanto quanto óbvia.
— Bom eu pensei que poderia comer o papel com um pouco de geleia e beber a tinta da caneta no café da manhã.
— He he he...muito engraçado. — Saga tentou se virar, mas o peso sobre seus quadris não permitiu.
— Eu sei que sou divertida, agora vai me dizer onde tem papel e caneta?
O geminiano bufou de raiva. Estava exausto. Na noite anterior ele e Dohko haviam sido responsáveis por uma ronda noturna só voltando para casa às cinco da manhã.
— Que saco, Kyoko! — Abriu uma gavetinha no criado mudo tirando de lá uma caderneta e um lápis, praticamente jogando em cima dela.
— Ai! Por que você tem que ser tão grosseiro? — Resmungou com um muxoxo.
— Kyoko estou exausto, eu cheguei em casa as cinco da manhã, ainda são seis e meia, eu não dormi nem uma hora e você ainda acha que estou sendo grosseiro? Você está me enchendo a uma hora dessas e tem coragem de dizer que eu sou grosseiro?!
Kyoko sorriu matreira debruçando sobre o peitoral exposto de Saga e segurando uma mecha do cabelo dele levando as narinas.
— Eu sei que você gosta.
O geminiano engoliu em seco com o sorriso e a voz melodiosa dita assim quase ao pé do ouvido. Tinha que admitir, ela era uma tentação. A pele era tão macia e mais quente do que de uma pessoa comum o que lhe causava um choque sempre que se tocavam, tirando o fato das covinhas em seu sorriso a deixar ainda mais linda. "Por todos os deuses, o que foi que fiz para merecer isso? E porque ela tem que ser tão bonita?", pensou, deixando seus olhos verdes deslizarem pelo belo rosto até encontrarem os bicolores e curiosos.
— Se eu fosse embora você sentiria saudades de mim, admita! – Ela ironizou.
Saga respirou fundo buscando dentro de si um pouco mais de paciência e autocontrole, coisa que estava sendo bem difícil, já que ela não facilitava em nada.
– Não eu não sentiria sua falta porque eu poderia enfim dormir o bom sono dos justos, agora me faz um favor: Pega esse lápis e esse papel, e sai de cima de mim?!
Ela soltou a mecha que segurava, cruzando os braços sobre o peitoral dele para dizer na maior cara de pau:
— Ta bom, mas só se você me disser com o que estava sonhando.
Saga levou mais tempo do que deveria na tentativa de processar aquela informação até que um estalo o fez cair em si. Suas bochechas queimaram de vergonha e um calor tomou conta de toda sua face. “Maldita seja essas ereções matinais”, pensou. Kyoko sorriu ainda mais satisfeita por ter conseguido, mais uma vez, deixar o grande Cavaleiro de Gêmeos completamente envergonhado.
— Sai logo de cima de mim. – Ele usando sua razão misturada com o constrangimento, começou a dar leves tapas nas coxas roliças para expulsá-la de cima de si. – Pega seu papel e o lápis e dá o fora daqui. – Ralhou puxando a cortina e deixando o quarto escuro outra vez. A raposa deu uma risadinha baixa achando graça do constrangimento dele e mesmo depois de ser expulsa, lógico não obedeceu, se jogando no canto da cama de solteiro e empurrando Saga para a ponta, se espremendo entre o corpo másculo e a parede. – Mas...o que você está fazendo?
— Chega pra lá. – Ela resmungou empurrando ele e se acomodando melhor no pequeno espaço.
— Essa cama é de solteiro e não cabe nós dois.
— Caberá se você deitar direito.
— Droga, Kyoko! Por que você não deita em outro quarto? – Agora foi a vez de Saga resmungar quando ela quase o derrubou da cama.
— Porque aqui está escuro e nos outros quartos não. – Continuou se acomodando.
— O meu quarto e o quarto de Kanon também ficam escuros e...Aaaaii...cuidado com essas orelhas, vai acabar me cegando assim.
— Eu não vou dormir com Kanon ele é um pervertido e seu quarto ainda está fedendo. – Disse comicamente.
— Fedendo?! Aquele quarto já foi limpo umas dez vezes e você ainda cisma com isso?
Saga virou de lado na tentativa de se acomodar melhor naquela cama minúscula. Na verdade, ele é quem era grande demais para ela já que desde que Kyoko havia ido para casa de gêmeos ela acabou por se apossar de seu quarto. Não se incomodava com isso, sempre foi um homem simples e desde que tivesse um lugar para deitar estava satisfeito.
— Então não limparam direito. – Ela resmungou finalmente encontrando uma posição confortável naquele pequeno espaço.
Saga ficou na ponta, virado de lado e com um dos braços embaixo do pescoço dela. Uma das pernas de Kyoko entrou entre as dele enquanto a outra ficava esticada, seus braços ficaram encolhidos entre os corpos deixando os rostos perto...
...Perto demais.
— Pronto!
— Isso é sério? – Saga perguntou não acreditando que ela realmente iria dormir ali. – Você vai realmente ficar aqui nessa posição desconfortável só para dormir no escuro?
— Não está desconfortável para mim. – confessou se acomodando mais no peito forte fazendo ele se arrepiar por inteiro quando as orelhinhas felpudas acariciaram seu queixo.
— Mas para mim está.
— Lógico você está todo tenso. Relaxa! – Kyoko puxou o braço livre dele para que a abraçasse e consequentemente debruçasse um pouco sobre si. – Viu?! Agora está mais confortável.
— É... – Saga respirou fundo rendendo-se em acomodar a kitsune em seu corpo. Não era nada mal. Ela era tão quente e...macia.
O silêncio finalmente reinou no quarto. Saga sentiu os olhos de raposa caírem sobre si com atenção e curiosidade, mas não se importou, fechando os seus e tentando não pensar naquilo. Não queria dar margem a pensamentos nada castos justo agora. Ela era arisca, sempre foi desde que havia pisado no santuário, mas com o tempo se identificou mais consigo do que com Kanon, mas também pudera já que ela achava divertido ver o Dragão Marinho soltando fogo pelas ventas por conta de suas traquinagens.
Mesmo que ela não tivesse dito ainda, no fundo sabia que tinha ganhado mais uma estrelinha no caderninho de confiança de Kyoko depois de tê-la salvado e honestamente, não queria desperdiçar aquela sensação inexplicavelmente gostosa por conta de uma atração momentânea. Ela era tão espontânea e fazia e dizia tudo o que sentia sem se preocupar se alguém acharia ruim ou se se incomodaria. Gostava daquilo, gostava muito por sinal o que chegava a lhe preocupar. Nunca foi de se apegar a nada e nem a ninguém além de seu irmão Kanon e agora era difícil explicar por que mesmo ela sendo irritantemente inconveniente ainda assim se sentia tão bem com sua presença.
— Você cheira a chiclete de menta. – Sussurrou. Saga teve que pedir aos deuses controle suficiente para não rir daquela observação. – Posso te morder? – Ela sussurrou novamente.
— Não! – Sussurrou de volta.
— Por favor! Sua carne parece tão macia. – Os dentes finos rasparam de leve no peitoral de Saga e ele se arrepiou inteiro.
— Se me morder eu juro que jogo você para fora dessa cama. – Murmurou baixo em resposta ficando em silêncio logo em seguida.
Mas Kyoko parecia não estar muito a fim de dormir como ele havia pensado.
— Será que ainda tem frutinhas cabeludas? – Cochichou. Saga não respondeu na esperança que ela calasse a boca e dormisse já que o sono voltava a bater em sua porta. – Se não tiver mais terei que sair para procurar e se eu não encontrar você poderia ir à vila e pegar algumas com aquele moço simpático daquela venda engraçada? – Ele continuou em silêncio. Fazendo um esforço enorme para não rir.
— Saga?!
— Qui é!
— Seus amigos confundem muito você com a lagartixa do mar? – Saga trincou os dentes para não rir. Aquele adjetivo que Kyoko havia posto em Kanon fazia o mesmo subir pelas paredes de ódio. – Vocês são idênticos. Não que eu confunda vocês porque consigo identificá-los pelo cheiro. Você tem cheiro de menta e ele de mar. Que coisa! Cheiro de mar. Será que ele toma banho com água salgada todos os dias? E o gosto? Será que ele tem gosto de mar também? Fico me perguntando isso sabe e também...
— Kyoko?!
—Sim?! – Sussurrou em resposta.
— Se continuar falando eu vou mandar você para um lugar de onde nunca poderá voltar.
— Okay. – Sussurrou outra vez.
Cinco minutos depois...
— Saga?! Eu ainda não...
— Shiiii...
— Mas...
— Shiiiii...
— Okay... Obrigada. – Ela falou baixinho o fazendo abrir os olhos e fitar os delas por alguns segundo sentindo-se surpreso com aquilo.
— Pelo quê? – Perguntou sem entender.
— Por salvar minha vida e...por me deixar ficar. Você podia ter me expulsado ou...desistido de mim, mas não o fez.
— Eu...não teria coragem. Não depois do que fez. Você me salvou primeiro e eu não poderia ser...tão cruel assim. — falou carinhoso, deslizando devagar o indicador da mão livre no queixo de Kyoko.
— Arigatou! — disse baixinho, gostando do carinho e mais ainda do sorriso meigo e bonito que se formou nos lábios de Saga.
— Não precisa agradecer. Agora durma.
Kyoko deu um sorriso fazendo suas covinhas surgirem e Saga ruborizar de encanto já que seus olhos, agora acostumados com a penumbra, viam nitidamente o rosto dela. Sorriu mais em resposta puxando o corpo menor junto ao seu em um ato totalmente instintivo e agradável fazendo ela se acomodar ainda mais em seu peito másculo onde podia ouvir em alto e bom som o coração forte dele retumbar, enquanto a desculpa esfarrapada agora jazia largada e esquecida no chão.
♊oOoOo♊
Saga acordou primeiro, sentindo o calor e o cheiro gostoso que se desprendiam dos cabelos e da pele alva. Apertou mais o abraço recebendo um resmungo de satisfação da parte dela como resposta. Bocejou preguiçoso sem querer sair dali. Isso era um mau sinal, ele sabia e mesmo seu alerta lhe dizendo que aquilo era perigoso e muito, muito errado ele, como homem e humano, não conseguia resistir. Era tão bom! Se aquilo virasse um hábito não sabia quanto tempo mais iria aguentar.
Olhou para o relógio vendo que já passava das dez da manhã. Resmungou ainda mais preguiçoso sem vontade alguma de sair dali. Deu mais uma olhada no rosto adormecido e tocou com carinho. "Linda", pensou. Kyoko pareceu ronronar ao seu toque. Sorriu respirando fundo e fazendo menção de levantar, arrependendo-se logo em seguida ao sentir as unhas dela cravarem na carne das suas costas como um aviso para que não se mexesse. A cauda felpuda começou a se movimentar devagar, de um lado para o outro indicando que ela estava em alerta.
— Eu preciso levantar. – Ele sussurrou bem próximo as orelhas dela.
— Hummm...Não...ainda nem amanheceu. – Resmungou em resposta sem abrir os olhos.
— Já amanheceu há muito tempo.
— Não amanheceu não, ainda está escuro. – Ela cravou as unhas um pouco mais fazendo Saga soltar um gemido de dor e ceder em ser puxado mais para perto na tentativa em manter suas costas o mais intacta possível. – Eu não quero levantar agora, fica comigo Saga?
Se tinha algum modo de resistir aquele pedido, ele com todo seu conhecimento e experiência não sabia e nem queria. Rendeu-se mais alguns minutos observando o movimento da cauda se acalmar até parar totalmente. Aproveitou para observar ainda mais o rosto lindo que ela possuía e todos os seus detalhes: A boca carnuda e bem desenhada, o nariz fino e arrebitado, as sobrancelhas angulosas e arqueadas emoldurando o rosto de forma sexy e tensa, os cílios compridos e contornados por um tipo de delineado fino natural e os cabelos lisos e compridos jogados sobre o braço dele, envolvendo seus dedos grossos e cobrindo uma parte do travesseiro. Os olhos de Saga desceram até alcançar os seios fartos, a cintura fina, em seguida o quadril largo e coxas grossas e torneada. Seu corpo respondeu quase de imediato àquela tentação.
Respirou fundo na tentativa de expulsar de sua mente o fato dela estar assim tão próxima e principalmente tão acessível. Esperou mais alguns minutos e muito devagar tirou o braço dela de cima de si e o depositando com cuidado na cama, esgueirou-se ainda mais cauteloso até enfim sair da cama. Kyoko ainda soltou alguns resmungos, mas continuou dormindo.
— Droga! – Suas costas arderam. Olhou no espelho do banheiro e vendo o arranhão na altura do rim. — Ta mais para uma gata do que uma raposa isso sim...e que gata. — Sorriu malicioso e iniciando sua higiene matinal.
♊oOoOo♊
Na cozinha Kanon, que também havia dormido até mais tarde, mas nesse caso por outro motivo, iniciava seu desjejum.
— Bom dia, cópia. — Falou matreiro.
Saga pegou uma xícara de café e bebericou logo em seguida, suspirando de satisfação. Estava perfeito; forte e sem açúcar, do jeito que gostava.
— Acho que a copia aqui é você já que eu sou o mais velho.
Kanon sorriu em reposta. — Dormiu bem?
— Digamos que sim. — Respondeu lembrando-se da sensação do corpo da kitsune junto ao seu. — E você?
— Ahhh eu dormi muito bem.
— Dá para ver. Você está com um semblante ótimo, mas também pudera, transou até as seis da manhã. — Kanon gargalhou em resposta.
— Olha só quem fala, eu vi vocês dormindo abraçadinhos naquela cama minúscula.
— Não aconteceu nada. — Respondeu sem muita importância.
—Ownnn faça-me acreditar que meu lindo irmãozinho ficou tão casto depois que se apaixonou por uma raposinha.
— Apaixonado? Kan...eu não estou apaixonado. De onde você tira essas ideias?
— Não tô com ideia nenhuma, todo mundo viu o quanto você ficou aflito quando a Kyoko quase morreu e também eu te conheço. Pensa que não percebo o jeito idiota que você olha para ela? — Saga levantou para pegar seu pão que acabava de sair da torradeira. — Eu conheço você melhor do que ninguém nesse santuário. Somos gêmeos e gêmeos tem uma ligação incomum, você sabe disso.
— Kan, eu sempre me perguntei se nossa mãe havia dado leite estragado ou outra coisa do tipo para você beber quando nasceu que pudesse ter feito você ficar assim. — O mais velho ironizou fazendo gestos com as torradas.
— Hahaha...muito engraçado maninho. – Devolveu o mais novo bebericando seu café.
♊oOoOo♊
Kyoko caminhava a passos arrastados pelo salão de gêmeos. Acabou por acordar pouco depois de Saga por sentir que faltava algo em sua cama. Bocejou preguiçosa caminhando até a entrada da casa. Observou Aldebaran tagarelar com uma serva e acenou para o grandalhão que retribuiu o gesto. Sentou em suas próprias pernas ao se entreter com os pássaros que faziam a maior algazarra em um pé de “frutinhas cabeludas". Sorriu ao constatar que não era a única que amava aquelas coisinhas. Espreguiçou mais uma vez e em seguida deitou de lado com o rosto apoiado em uma das mãos completamente alheia ao fato de que algo se aproximava sorrateiro atrás de si.
— Ahhhhhhhhhh!!!!!!!!
Saga quase engasgou com seu café e Kanon deu um pulo da cadeira. Os dois se entreolharam e fitaram pela porta da cozinha, Kyoko entrar desesperada, derrapando e tropeçando nas próprias pernas em direção ao mais velho.
— Kyoko, o que houve? — Saga perguntou aflito.
— Tem...tem uma...tem...uma...fera atrás de mim. Saga...não deixa ele chegar perto de mim, por favor...ele...ele vai me...devorar. – A raposa puxava o gêmeo mais velho para se esconder atrás dele.
— O quê? Uma fera? — Kanon levantou ficando em posição de ataque e Saga fez o mesmo, mas não sentiam nada. Nenhuma energia, nenhum barulho, nada. Kyoko tremia atrás do mais velho e não desprendia os olhos da entrada da cozinha.
— Ta vindo! – Ela puxou Saga ainda mais para perto de si. O geminiano não conseguia sentir nada de estranho, mas já que Kyoko dizia que algo ruim estava vindo, ele não podia vacilar.
— Eu não estou sentindo nada. Tem certeza? – Kanon perguntou.
— Sim! É claro que tenho.
Ficaram em silêncio, esperando a fera finalmente aparecer. A kitsune arregalou ainda mais os olhos e tremeu dos pés a cabeça quando a tal “fera” finalmente deu o ar de sua graça.
— É ele!!! – Gritou.
Os gêmeos ficaram estáticos sem conseguir acreditar no que viam. Kyoko soltou um grito de medo e só não trepou nos ombros de Saga, pois o mesmo não deixou.
— É ele! É ele! Saga não deixa ele chegar perto de mim. – Ela pedia usando o mais velho como um escudo.
— Você está falando sério?! – Kanon achou melhor perguntar ao ter que se passar por idiota. Não dava para acreditar que Kyoko estava se borrando de medo de um...
— Cachorro? – Saga indagou sem entender.
O filhote de Shar Pei cinza e olhos azuis correu todo enrugado e fofo para o lado de Kanon, mordendo a barra de sua calça de treino em um ato brincalhão.
— Não Kanon, não deixa ele chegar perto de você. Ele irá te devorar. – A raposa olhou por baixo de um dos braços de Saga que não conseguia acreditar que um filhote de cachorro conseguiu fazer Kyoko tremer de medo.
O marina apoiou as mãos nos joelhos explodindo em um gargalha que pode ser ouvida da casa de Áries. Saga também não aguentou, começando a rir gostosamente daquela “fera selvagem”.
— Então...então essa é a fera que irá nós devorar? – O mais novo chorava de rir. Saga tentava se conter, mas era completamente impossível não gargalhar do desespero da outra.
Passos preguiçosos e um bocejo foram ouvidos e a sereia chamada Thetis surgiu na porta da cozinha. A moça trajando uma camisola rosa de alcinhas finas coçou os olhos azuis sem entender o motivo da gritaria.
— O que está havendo aqui, que gritaria é essa? – A loira perguntou, parando em seguida com ar de curiosa ao finalmente ver Kyoko.
— Quem é ela? – As duas perguntaram ao mesmo tempo.
— Perai, a pergunta aqui é quem é você? Ou o que é você? – A sereia cruzou os braços e franziu o cenho. Kyoko não se intimidou, saindo debaixo das “asas” de Saga e encarando a loira na mesma intensidade.
— Ela é uma Kitsune e se chama Kyoko. Depois eu te explico melhor. – Kanon passou a mão nos cabelos e bufou.
— Kitsune ahn?! – A sereia olhou a outra de cima a baixo. – Pouca roupa não?! – Ironizou.
Kyoko sorriu, colocando as duas mãos na cintura e com uma sobrancelha erguida disse:
— Bom... Pelo menos ninguém está vendo os meus mamilos.
Thetis olhou para si mesma constatando que a esquisita tinha razão. Esqueceu-se completamente onde estava e que ali Kanon não morava sozinho, mesmo já estando acostumada com Saga. A raposa sorriu vitoriosa, mas a fera que até então atacava Kanon lembrou-se de que ela estava ali e saiu correndo com todas as suas rugas em direção a ela, dando-lhe um susto e voltando a usar Saga como escudo. A ferinha deu a volta no cavaleiro, obrigando Kyoko a sentar em cima da pia da cozinha e prender as pernas na cintura de Saga.
— Ele está vindo para cima de mim de novo. Mata ele Saga.
— Não! Está louca, você não vai matar o Jack. — Ditou a loira.
— Jack?! – Kyoko, Saga e Kanon disseram juntos.
— Thetis onde você arrumou esse cachorro? – Kanon perguntou sem muito entusiasmo. – Isso é coisa do Julian né?! — A moça balançou a cabeça animada enquanto afagava o filhote enrugado. – Eu sabia! Ele não cansa de te cortejar não?! Só porque ele é a reencarnação do todo poderoso Poseidon acha que pode sair por aí dando em cima da namorada dos outros. – Bufou de raiva se jogando em uma das cadeiras. A moça aproveitou e sentou toda carinhosa no colo do mesmo.
— Ah Kan não precisa ficar assim, você sabe que eu te amo. – A moça deu um selinho em seu marina.
— Essa coisa não ficará aqui ficará? – Indagou a Kitsune.
— É claro que ficará! Enquanto eu estiver aqui o Jack também vai ficar.
Kyoko olhou incrédula para Saga que não sabia o que fazer. Era só o que faltava, além de ter Kyoko para lhe tirar o sono ainda vinha a namorada de Kanon com um filhote que mais parecia um velho de tão enrugado para tirar sua paz?! Não que não gostasse de animais, gostava e muito, mas saber que sua hospede estava praticamente subindo pelas paredes de tanto medo era sinal de que aquilo não daria certo.
— Saga! – Kyoko chamou manhosa, olhando nos olhos verdes dele em um pedido mudo para que ele não aceitasse o novo inquilino. O mais velho sem saber o que fazer, olhou para o irmão...
—Kanon...
O marina arregalou os olhos e em seguida fez cara de menino chorão.
— Thetis...
— Ah não, Kan! – Fez uma pausa. – Saga.. – Disse a moça com um muxoxo, apelando para o verdadeiro dono da casa.
O mais velho olhou para Kyoko e sem muita opção: — Kyoko... Ele não vai te fazer nenhum mau.
— Ahh não! Se ele ficar aqui eu...vou embora e não volto nunca mais está ouvindo?!
— Ahhh não exagera é só um filhote de cachorro, larga mão de ser desesperada. — Kanon reclamou.
— Ele é um filhote agora, mas crescerá e se tornará um monstro terrível e cruel que irá devorar todos vocês. – O tom de seriedade da raposa logo foi quebrado quando Kanon e sua namorada caíram na gargalhada e lógico, Saga também.
— Saga meu irmão, vou ser sincero, eu esperava morrer de tudo quanto é jeito, mas sendo servido de almoço para um cão foi demais. Prefiro morrer novamente em uma luta com Radamanthis. – E ambos caíram na gargalhada.
Kyoko bufou de ódio em ver todos rirem de si. Mal eles sabiam que aquelas criaturas se fingiam de seres bonzinhos para os humanos e a noite atacavam as raposas para servirem de alimento para seus filhotes.
— Tudo bem! Pode rir, eu quero ver quando ele crescer e devorar você lagartixa do mar isso sim! – Vociferou.
— O quê? Do que você me chamou? – Ralhou o mais novo fazendo Saga e Thetis rirem ainda mais.
— Isso mesmo que você ouviu lagartixa do mar.
— Ah é é?!! Perai! – Kanon aproximou-se de Thetis pegando o enrugadinho no colo e o colocando de volta no chão. Kyoko tremeu dos pés a cabeça quando ele abanou o rabinho em sinal de que iria atacar.
Kanon sorriu maroto antes de dar a ordem: — Pega Jack!
A kitsune deu um grito e correu para fora da cozinha.
— Eu odeio vocês e juro que nunca mais vou voltar.
Thetis ria de a barriga doer e Saga também já não conseguia se controlar, mesmo no fundo sentindo pena dela tinha que admitir que era por demais divertido.
♊oOoOo♊
Kyoko saiu chutando tudo que via pela frente tamanha era sua irritação: Pau, pedra, gato, cachorro, papagaio...tudo! Estava furiosa por Saga ter permitido que aquela loira azeda mantivesse a fera no mesmo ambiente que ela. Passou pela casa de touro e contou tudo para Aldebaran como uma criança birrenta. O taurino prometeu conversar com Saga e Kanon para tentar dar um jeito naquela situação e para amenizar e acalmá-la a serva chamada Maria, que por sinal era a melhor cozinheira das doze casas, serviu um pudim de maria mole inteiro só para Kyoko que não se fez de rogada e devorou tudo. Depois de mais algumas conversas, frutas e doces ela saiu em direção a casa de Áries.
— Aquela lagartixa do mar vai ver só uma coisa. Quando eu tiver uma oportunidade eu vou...
Kyoko que até então tramava sua doce vingança contra Kanon ouviu um som vindo da parte privada da casa de Áries. Curiosa esgueirou-se até o lugar de onde vinha o som e sem permissão ficou a espiar o recém chegado guardião de Áries, Mu. O lemuriano retirou a blusa expondo o peitoral esguio, mas bem marcado pelos músculos, os cabelos lavanda foram soltos e Mu soltou o ar de seus pulmões em total satisfação. A raposa arregalou os olhos ao ver o cavaleiro retirar a calça e expôs sua nudez sem a menor preocupação.
Kyoko balançou a cabeça como que para pôr seus parafusos de volta no lugar e resolveu que era melhor sair dali, mas para seu azar quando ela se virou acabou por trombar com Kiki. O garoto deu um grito de susto e Kyoko deu outro em resposta. Mu ouvindo a gritaria, cobriu sua nudez rapidamente com a calça e quando tencionou a correr, o garoto entrou no quarto arrastando a invasora pela cauda.
— Senhor Mu olha o que eu achei! Ela estava espionando o senhor.
Mu ficou sem palavras ao ver a kitsune emburrar a cara ao ter sido flagrada pelo moleque sem sobrancelhas.
— Ohh! Eis o motivo de nosso retorno Kiki. Uma raposa do Makai, isso é raro. Muito prazer eu me chamo Mu e sou o guardião da casa de Áries. – O ariano sorriu seu sorriso terno. Ela que até então o fitava com cara de desdenho rendeu-se ao jeito calmo do dono da casa. – Seja bem vinda!
— Obrigada! Me chamo Kyoko.
— Mas senhor Mu ela estava espionando o senhor sem roupas.
Kyoko deu um cascudo no garoto que caiu sentado com a mão na cabeça.
— Eu não estava espionando eu só....- Fez uma pausa. – Ah não importa, eu não sei porque vocês homens se incomodam tanto com isso, Saga é outro e Aiolia, e Shaka também. Sem contar aquele metido do Camus que mal me deixa entrar em sua casa...ele tem sorte por ser tão bonito. Qual o problema em ver o corpo nu de um homem? Eu não ia fazer nada eu só...estava olhado. Que mal há em olhar? Até onde eu sei olhar não arranca pedaços.
Mu sorriu achando graça daquilo, mas também ruborizando horrores por saber que ela havia visto sua nudez descaradamente. Ela era bem mais cara de pau do que Shion havia lhe dito e também ainda mais encantadora. Sentiu-se satisfeito em ter em sua casa alguém como Kyoko, uma raposa do Makai. Isso era raro, muito, muito raro. Já havia ouvido relatos delas aparecerem no Japão, mas na Grécia e ainda mais ali no santuário? Realmente era digno de preocupação.
— Então, Kyoko já que está aqui você aceita almoçar conosco? – Perguntou o anfitrião educadamente.
Kyoko ficou mirando os orbes verdes de Mu e todo seu rosto sereno, a voz calma e o cheiro peculiar que ele exalava. Deu uma risadinha. – Você tem cheiro de lavanda. – Mu ruborizou.
— Isso é ruim para você?
— Não, eu gosto de lavanda. – Confessou exibindo suas covinhas – Bom eu preciso ir, obrigada pelo convite, mas eu já almocei com Deba, eu posso passar aqui para jantar?
— É lógico que sim. Será muito bem vinda.
♊oOoOo♊
Já passava das nove da noite quando Kyoko finalmente voltou de Rodório. No caminho lembrou-se do inconveniente enrugado que agora habitava a casa de Gêmeos e bufou de irritação. Caminhou a passos arrastados embaixo da chuva forte, tão concentrada no que faria a respeito que nem se deu conta de que já estava na casa de Gêmeos e era observada por um sério e lindo par de olhos verdes.
— Vai correr para casa de peixes outra vez?
Kyoko parou observando o cavaleiro segurar uma toalha branca, parado bem a sua frente.
— Eu pensei em ficar com Shaka hoje. – Saga sorriu com a cara emburrada dela.
— Terá que passar por Aiolia para chegar até ele ou até Afrodite.
— E daí?
— E daí que Aiolia pode não ficar tão satisfeito com alguém atravessando sua casa à uma hora dessas. Você sabe que ele sempre fica irritado quando você cisma de passar por lá em horas que não deve. – Saga falou tentando ser convincente. Kyoko bufou novamente em pensar no que poderia ser pior: Aturar o mau humor do leonino e as explicações que teria que dar a ele ou o enrugado na casa de Gêmeos.
Girou nos calcanhares ao ouvir a risada de Thetis e Kanon vindo da parte privada da casa.
– Eu dou um jeito.
— Kyoko para com isso. – Saga pediu caminhando atrás dela. – Está chovendo, não tem necessidade de você sair de novo por causa de um filhote de cachorro que mal consegue ficar de pé. Para de bobagem e vamos entrar.
— Pode ser bobagem para você, Gêmeos, mas para mim não é! – berrou em resposta fazendo o homem estancar surpreso. – Eu não gosto deles, me fazem mal, me dá medo e eu não...consigo evitar. Se para você o fato de eu ter medo de cães é uma bobagem fique sossegado que eu irei embora com minhas “bobagens” e não mais o incomodarei. – Gesticulou voltando a caminhar.
O geminiano segurou a toalha pelas pontas enrolando-a, caminhou com passadas largas e muito rápido enlaçou a raposa sem dar chance dela fugir. Kyoko ainda soltou alguns impropérios, mas parando logo assim que uma corrente elétrica tomou conta de todo seu corpo graças ao corpo quente e másculo do cavaleiro colado ao seu. Os olhos verdes como o mar pousaram sobre os seus com um brilho que ela ainda não havia visto e a respiração quente dele chocou-se contra seu rosto frio arrepiando os pequenos pelos de seu corpo. Kyoko sentiu-se indefesa diante do olhar predatório e imponente do cavaleiro de Gêmeos. Ela era lindo demais para um homem humano.
— Me desculpe, não quis ofender você. – A youkai nada disse, sentindo-se hipnotizar pela voz grave do cavaleiro. – Não quero que saia nessa chuva outra vez, se você se resfriar eu terei problemas.
— Eu não fico doente.
— Eu prefiro não arriscar.
— Não acredita em mim?
— E porque eu deveria acreditar em alguém que rouba?
— Eu nunca roubei nada de você.
— Tem certeza? – Ficaram em silêncio, um observando o outro. Um trovão explodiu no céu dando a visão luminosa do rosto molhado da kitsune tão perto que respiravam o mesmo ar. Saga sentiu o coração disparar dentro do peito. Os lábios dela se abriram como um pedido mudo para serem provados.
— Eu nunca roubei nada de você. – Ela afirmou num fio de voz.
Saga puxou mais a toalha e deixou seus dedos deslizarem pela pele das costas dela, sentindo a textura macia e gostosa que ela possuía, e se perguntando que poder era aquele que ela tinha em fazer seu corpo responder daquela maneira. Sabia que não devia pensar nela daquela forma e muito menos desejá-la assim, mas não conseguia mais evitar.
— É isso que acha? Tem tanta certeza assim Kyoko?
— O que é que você quer Saga? – Inquiriu de forma confusa por conta daquela acusação. Nunca havia roubado nada de Saga, dele não. Já havia pegado dinheiro de Kanon, de Aiolia e até mesmo de Milo. Já havia roubado frutas na casa de Aquário, Peixes e Libra, mas de Saga...nunca! Por mais que pensasse em pegar algo simplesmente não conseguia.
— Quero de volta o que tem tirado de mim desde o dia em que você pisou nessa casa.
De forma charmosa aproximou-se mais, deixando seu rosto roçar em um carinho gostoso no dela, aproveitando sem a menor dor na consciência aquele contato que seu corpo ansiava tanto em ter. O corpo frio e molhado, o cheiro doce da pele e a respiração morna e acelerada chocando-se contra o seu causando arrepios maliciosos por todos os músculos e nervos do seu corpo. A boca carnuda exalando o cheiro doce daquela frutinha tão peculiar fazendo a sua salivar de desejo e vontade dela.
— Eu quero o que você roubou de mim...só que eu quero em dobro. – Sussurrou...
Mas, os passos apressados e o ofegar de um visitante completamente inesperado trouxe ambos de volta a realidade. Kyoko piscou algumas vezes e seus olhos que antes haviam se tornado dourados, agora voltavam ao normal. Saga mal pode acreditar naquela interrupção e muito menos na figura que havia feito aquilo. Engoliu em seco achando que não passava de uma miragem, não tinha outra explicação, mas o beijo sedento e a língua atrevida que invadiu sua boca levou embora qualquer dúvida sobre o que era real.
Kyoko ficou em choque ao ver Saga sendo agarrado daquela maneira, sem o menor pudor e ele por instinto ou por mera vontade correspondeu ao ósculo na mesma intensidade até ele chegar ao fim. O cavaleiro mirou o rosto sorridente tão próximo do seu e sem querer acreditar falou a única coisa que veio em sua mente:
— Eva?!
Continua...
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