Notas iniciais
Oiiiii gentiii tudo bom com vocês? Então aproveitando o tempo para atualizar o máximo possível e não deixar vocês esperando muito e também a imaginação que está a todo vapor. Não sei se a cena da luta ficou legal porque foi minha primeira vez então, perdoem-me se não ficou tão bom quanto vocês esperavam, prometo me esforça nos próximos para melhorar mais e mais. Obrigada aos comentários fofos que venho recebendo, as pessoas que favoritaram e tbm aos leitores fantasmas porque gente, ele também contam né?! Perdão pelos erros ortográficos e gramaticais, não sou profissional e tudo que faço é de fã para fã então relevem okay?! Um beijo carinhoso para todos e boa leitura.

Dohko, Milo e Aiolia ajudavam quem conseguiu ficar fora da barreira a irem para um local seguro. Saga e Kanon tentaram abrir uma fenda com seus cosmos, mas de nada adiantou. A barreira parecia estar se intensificando em cada investida e mesmo usando a “Outra dimensão”, Saga não conseguiu acessar o local onde Kyoko estava.

Algumas casas ficaram pela metade, mantendo os moradores presos também. O pequeno Saga olhava de uma janela amedrontado com toda aquela situação. Ele nunca tinha visto nada parecido. A paz reinava no santuário há mais ou menos dez anos fazendo os moradores de Rodório quase esquecer que ali já havia tido uma guerra Santa tão sangrenta.

Mu ao ouvir o estrondo desceu rapidamente da casa de Áries se unido aos amigos no resgate das pessoas. Aldebaran e os outros foram ordenados por Shion a ficarem nas doze casas caso mais inimigos aparecesse.

—Você é muito corajosa Kyoko. Vai realmente querer me enfrentar? – Yuriko sorriu.

— Na verdade eu não queria não, mas já que você está querendo morrer mais cedo eu farei as honras então.

— Vamos ver quem irá morrer!

A shirohebi avançou com tudo para cima da kitsune que respondeu na mesma intensidade, desferindo golpes um atrás do outro com toda sua habilidade. As espadas cintilando e faiscando em cada encontro tornando o tilintar delas a valsa para aquela dança. Para uma pessoa normal, era impossível enxergar os movimentos, mas os dourados do lado de fora preferiram nem sequer piscar para não perder nada. A serpente era rápida e ágil, desviando e rebatendo os golpes com toda precisão. A poeira subia em cada derrapada, os dentes se rangiam e a adrenalina já começava a transbordar pelos poros em forma de suor.

A serpente girou as espadas uma de cada vez para frente, e em seguida fez o movimento inverso, acertando de raspão a perna direita de Kyoko, mas ela não se abalou, desviando dos outros, gingando de um lado para o outro; uma, duas, três vezes e um pulo que veio junto com uma estocada, fazendo a lâmina raspar no ombro de seu algoz e quase perfurando o pescoço. Yuriko afastou-se dois passos e em seguida avançou novamente e uma nova sequência, estocando com as espadas em uma velocidade absurda, empurrando Kyoko para próximo de um grupo de pessoas que se encolhia sem ter para onde ir, obrigando-a a ficar ali para que os golpes propositais não acertassem os moradores. A raposa defendia-se como podia, mas a adversária era boa e alguns arranhões começaram a surgir em seu corpo; um na bochecha, outro no abdômen, braço e coxa.

— Vão...agora! – Ela berrou segurando as duas espadas com a sua, empurrando a serpente com força para ganhar distância.

— Eu vou arrancar a sua cabeça. – Yuriko pulou e girou no ar, apoiando as espadas uma de cada lado do corpo. Kyoko desviou sorrindo em resposta.

— Vai precisar muito mais do que isso. – A raposa aprumou o corpo e como um raio avançou contra a inimiga que quase foi pega de surpresa. Kyoko com um battojutsu executado em uma velocidade incrível, por milímetros não lhe acertou a jugular. A cobra derrapou para trás, sentindo o coração bater na garganta ao se dar conta de que quase havia morrido.

Kyoko ficou na mesma posição; um dos joelhos encostados no chão, a mão esquerda na altura da cintura como se segurasse uma bainha e a espada na mão direita estrategicamente apontada para o inimigo.

“Droga ela quase me degolou. Como ela conseguiu fazer isso com uma espada desse tamanho? Se estivesse com a verdadeira ela teria me matado.”

Todos os olhos se prenderam na postura de Kyoko até que ela finalmente se levantou, observando a espada e entortando os lábios em total insatisfação: — Porcaria de espada!

Yuriko sentiu o sangue gelar nas veias. Tinha que ficar o mais esperta possível. Não era à toa que Hiroaki fazia tanta questão que ela retornasse ao em vez de matá-la de uma vez. Ela era um exímio espadachim e disso o Makai inteiro sabia de cor.

— Kenjutsu. – Dohko disse impressionado. De tudo que havia imaginado e pensado a respeito dela aquilo nunca passou por sua cabeça. Ela nunca em momento algum deixou transparecer que era perito em uma arte como aquela.

— Kenjutsu? – Milo perguntou sem acreditar.

— Sim...a arte de combate dos samurais. Essa técnica que ela usou se chama battojutsu; é uma técnica das artes marciais japonesas que tem por objetivo o desembainhamento da espada com a intenção de executar um corte. Existem pessoas que são tão habilidosas nessa arte que antes mesmo de desembainhar a espada o inimigo já está derrotado, sendo o corte apenas a conclusão da vitória. – Dohko fez uma pausa — Por Athena eu...jamais poderia imaginar... – Sem perceber caminhou devagar até a barreira e Milo e Aiolia tiveram a mesma reação. O mestre ancião sorriu olhando para Saga. – Ela é um samurai.

Saga ficou perplexo ao saber aquilo, assim como seus companheiros. Ele podia jurar que Kyoko fosse qualquer coisa: ladra, assassina, uma lutadora, etc... menos um samurai, até porque ele nunca havia visto um em toda sua vida.

Yuriko sentiu um fio quente descer por seu pescoço confirmando ainda mais seus pensamentos. Trincou os dentes de ódio e humilhação. A kitsune nem ao mesmo usava uma katana e mesmo assim não fez por menos, mas como um dos generais dos Kage e por seu orgulho, não deixaria aquilo passar.

Ergueu sua espada que brilhou mais intensa em um tom esverdeado e lançou a magia. Kyoko rebateu com a espada, desviando o golpe para a barreira e fazendo um jogo de luzes e faíscas iluminar tudo ao redor. Kyoko em seguida girou a espada na lateral do corpo e avançou na direção da adversária novamente, acertando por todos os lados em uma velocidade e habilidade incrível.

— Um ponto para mim. – Disse sorrindo.

— Só nos seus pensamentos...ladra. – A serpente pulou para trás lançando várias rajadas de energia. A raposa desviou de alguns e rebateu outros, causando um novo show de luzes sempre que elas acertavam na barreira. Outras voaram pelo local, acertando o solo e algumas casas. Uma mulher soltou um grito de desespero, fazendo Kyoko se lembrar de que não estava sozinha. – Droga! – Resmungou, devolvendo alguns ataques na direção da serpente para ganhar tempo. – Você está bem? Consegue andar?

A mulher acenou positivamente e antes que a raposa pudesse se dar conta, uma nova rajada de energia a acertou em cheio, a arrastando pelo chão até atingir a barreira. Com a pancada uma descarga iluminou o local fazendo a raposa soltar um grito e cair com um dos joelhos no chão.

— Que covarde! – Milo berrou de indignação.

Saga sentiu o coração falhar uma batida, correndo em volta da barreira até aproximar-se de Kyoko. Estava fazendo um esforço tremendo para não cair em desespero de medo em vê-la sozinha naquela situação mesmo sua razão dizendo que ela era mais forte do que qualquer um deles ali imaginava, mas seu coração parecia não querer enxergar. A única coisa que vinha em sua mente era a imagem dela quase morta em cima de sua cama. Não queria ver aquilo...

Nunca mais!

— Kyoko. – Sua voz grave saiu vacilante. A raposa abriu um dos olhos, apoiando uma das mãos no joelho para se reerguer. – Você está bem?

— Estou. – Ela disse. Saga sentiu certo alívio ao ouvir aquilo.

— Ei sua imbecil vê se fica mais esperta. – Kanon disse dando um soco na barreira. – Desse jeito vai matar a gente do coração, porra!

— Ah vê se não enche lagartixa do mar, eu sei o que estou fazendo. Está tudo sob controle ta bom?! – Ela berrou emburrada. – Aff...não sei porque eu trouxe essa porcaria comigo. – Kyoko olhou para espada e em um ato cômico começou a sacudir a mesma como se assim pudesse estrangular o objeto.

— Kyoko-sama. – A serpente gritou chamando a atenção de todos. – Hora de esquentar as coisas.

A mão esguia apontou para o céu e fazendo cair oito esferas grandes que explodiram em uma gosma negra ao atingirem o chão.

— Ah não. – Kyoko resmungou totalmente insatisfeita já tendo ciência do que se tratava. Saga observou o comportamento dela estranhando, mas preferiu não se concentrar naquilo. Do lado de fora as mesmas esferas atingiam o chão, explodindo uma gosma negra e fétida. – Eu odeio essas coisas. – ela grunhiu.

As gosmas começaram a borbulhar e a inchar, tomando forma de monstros semelhantes a ursos com chifres, se contorcendo e gemendo até tomarem suas formas originais. Os monstros berraram ferozes, mostrando suas presas gigantes e garras enormes que poderiam partir um homem ao meio sem o menor esforço.

— Kyoko, por favor, me diz como entrar aí. Você não tem que fazer isso sozinha. Por favor, deixa eu te ajudar.

— Você não estava preocupado comigo até algumas horas atrás. – olhou por cima dos ombros. – Eu não preciso da sua ajuda agora. Eu sei me virar.

Saga engoliu em seco e amargo, como se um soco lhe acertasse bem no meio da cara. E o olhar frio dela não ajudou em nada a tornar as coisas menos desesperadoras.

Os cavaleiros aprumaram o corpo prontos para batalha ao ouvir o mesmo som do lado de fora da barreira.

— São muitos. – Saga disse aflito sem saber se olhava para dentro ou para fora. Ele sabia que Kyoko era forte, mas mesmo assim seu coração não conseguia se apartar. Ele queria ajudar, queria estar ali, mas não conseguia. – Mu, por favor, me teletransporta para lá.

— Não dá, tem alguma coisa me...atrapalhando, como se...tivesse mais alguém. Eu...não consigo entender. Pensa que já não tentei?! – Respondeu o lemuriano.

— Mas alguém? – Saga balbuciou.

Kyoko saltou, saindo da frente de um dos monstros fazendo-a acertar a barreira e sendo atingido pela energia da mesma. A raposa aproveitou o momento e desferiu um golpe na garganta do monstrengo que caiu morto.

— Menos um agora só falta sete. – Sorriu correndo pelo lugar.

Do lado de fora, Aiolia e Milo se encarregavam dos outros, enquanto seus amigos socorriam as pessoas. A pele deles era tão dura quanto aço e tornava as coisas mais difíceis, mas não impossíveis. Com alguns raios o leão realizou sua caçada, assim como o escorpião com suas agulhas fazia os bichos berrarem de dor. Mu teletransportou algumas crianças para longe dali, usando sua Extinção Estelar quando necessário e Kanon também ajudava com seu Triângulo de ouro. Dohko correu ao redor da barreira onde se encontrava um grupo de pessoas encurraladas por um youkai, disparou golpes na velocidade da luz e um Cólera do Dragão para encerrar o assunto. Saga mesmo não querendo por conta de sua preocupação, se juntou aos amigos jogando três monstros de uma só vez em Outra Dimensão e antes do golpe finalizar voltou correndo como uma criança para perto de sua recém-descoberta amada.

Kyoko derrubava o quinto monstro, deixando as vísceras do animal esparramadas no chão usando várias sequências de golpes com a espada. O sangue negro respingou em suas mãos e em seus braços, tingindo a pele alva com o líquido viscoso. Um dos monstros avançou sobre um grupo de pessoas e ela rapidamente atacou, desferindo um corte tão preciso que faria até Shura de Capricórnio sentir inveja. As pessoas ficaram aliviadas e Kyoko sorriu para elas, deixando suas covinhas expostas. Um dos youkais aproveitou a deixa, atacando-a pela lateral esquerda, mordendo seu antebraço e a arrastando consigo até próximo da barreira.

— KYOKO! – Milo, Saga e Dohko gritaram juntos.

Saga já não mais conseguia controlar seu nervosismo e desespero, socando sem controle a barreira que brilhava e soltava faísca. Sem pensar nas consequências, acendeu seu cosmo fazendo-o crescer de modo absurdo, erguendo um dos braços no topo da cabeça. Dohko percebendo o que ele faria a seguir resolveu agir rápido, segurando os braços dele e o impedindo.

— O que está fazendo mestre? Solte-me!!!

— Não, Saga! Você enlouqueceu?! Se você usar esse golpe não sabemos como essa barreira irá se comportar. Se ela agir como a Muralha de Mu e Shion seu golpe voltará contra nós. Tem pessoas inocentes aqui não podemos arriscar. Sei que está preocupado com a Kyoko, mas você não tem outra opção a não ser confiar nela. – O geminiano mesmo a contragosto achou melhor acatar o conselho de Dohko. Ele era um Santo de Ouro e mesmo preocupado com a raposa, proteger pessoas inocentes era sua prioridade.

A Kitsune resmungava de dor, segurando com a mão livre o focinho do animal, mas ele não largava. Um berro altíssimo saiu da garganta dela ao sentir os dentes penetrando sua carne até os ossos conforme o monstro a sacolejava mais e mais. Ela ainda tentou alcançar a espada, mas não conseguiu. A saliva do monstro pingando em seu rosto e seu corpo, misturando-se com o sangue em uma nojeira total.

— Urgh! Que nojo!! Droga!!! – resmungou desviando o rosto para não vomitar.

Milo arregalou os olhos quando viu um dos monstrengos correr em direção a ela e outro avançar sobre a casa onde o pequeno Saga estava escondido com o dono da venda engraçadinha.

— Kyoko, levanta! – Ordenou exacerbado, sentindo o coração na garganta e quase pulando de aflição. Se Kyoko não levantasse a tempo, o menino e o senhor estariam mortos, pois a porta não iria aguentar para sempre.

Os berros desesperados do menino e o senhor chegaram até os ouvidos de Kyoko, e a aquela visão do monstro se atirando em direção do pequeno casebre entrou como espadas pelo peito da kitsune, fazendo seu corpo tremer e o coração falhar uma batia. As lembranças de seu fracasso no passado invadiram sua mente como um raio, fazendo um ódio descomunal tomar conta de todo seu ser.

Um kiai explodiu do fundo de sua alma ao mesmo tempo que uma luz azul surgia entre si e o monstro, gerando uma energia gigantesca na mão e a atravessando no corpo do monstro como uma lança. Em seguida uma descarga elétrica passou por todo o corpo do mesmo, acertando o outro que pulou bem na hora exata. Os monstros trepidavam e fumaça saía de seus corpos, secando e, por conseguinte começando a queimar até a morte.

A raposa empurrou os corpos queimados dos youkais e se reergueu cambaleando, sentindo uma dor inenarrável em seu braço, mas mesmo sentindo seu sangue escorrer e pingar no chão, aquilo era o menor de suas preocupações. Os pedidos de socorro penetravam seus ouvidos chegando até seu íntimo e despertando uma fúria que já não sentia há tempos. Seus olhos se fixaram na barreira, encontrando os preocupados do cavaleiro de Gêmeos.

Ela estava séria. Uma seriedade e ameaça fluíam pelo olhar de Kyoko de um jeito que Saga e nenhum dos outros pensou dela ser capaz. Os olhos bicolores haviam se tornado dourados e as pupilas se contraíram como de um felino assassino pronto para abocanhar a presa. O cenho franzido transformou seu rosto em uma careta assustadora. O geminiano sentiu um frio na espinha ao soar da voz fria dizendo somente uma palavra:

— Saia!

Saga ficou estático, sem reação. Quem era aquela Kyoko? Kanon correu até o irmão, o segurando pelo braço e o puxando. Não sabia o que aquela maluca podia fazer, mas depois do que ela havia feito nas doze casas preferiu não arriscar.

Kyoko voltou a olhar para o monstro, dando alguns passos para direita ao mesmo tempo que seus cabelos começaram a se movimentar. Em volta de si pequenas faíscas brilharam como vaga-lumes. Seu indicador e médio direito foram apontados para o céu dando início a concentração de sua energia. Pequenas pedras se partiram e pequenos raios se formaram ao redor dela. De repente um estrondo e raio gigantesco caiu bem em cima dela, suspendendo seus cabelos e preenchendo seu corpo inteiro com a eletricidade. O chão afundou e depois se passar por todo seu corpo, a energia se concentrou na ponta dos dedos. As íris de seus olhos desapareceram onde pequenos raios deslizaram por todo o globo ocular. Num único movimento, Kyoko tocou a barreira com os dedos transferindo toda a eletricidade de seu corpo pareceu sair como um tiro, fazendo toda a energia correr a redoma até caiu em cheio em cima do monstro. A descarga elétrica fora tão intensa que nem mesmo a barreira conseguiu resistir, rachando como o mais fino cristal e explodindo como purpurina em um show de cores e luz. Do youkai restou somente sua sombra em forma de um buraco no chão. Todos ficaram de boca aberta, tentando processar como ela havia conseguido reduzir a barreira que Saga, Kanon, Dohko e Milo haviam tentado derrubar sem sucesso, em pó.

Yuriko ficou pasma sem conseguir acreditar no que via. Aquilo era um absurdo! Sabia o quanto Kyoko era perigosa e forte, mas aqui era inimaginável. Aquela barreira tinha sido criada e projetada por ele e nunca, jamais ninguém tinha conseguido sequer arranhá-la e Kyoko a estraçalhou como brincadeira de criança.

— Eletricidade?! – Aiolia ficou com cara de bobo.

— Agora eu entendi porque ela não gosta de você, leão: Dois bicudos não se beijam. – Kanon riu no final.

— Ela é igual a você. – Milo comentou com as sobrancelhas erguidas.

A serpente saiu de onde estava com um sorriso falso no rosto. Caminhou devagar até próximo a casa e olhando pela janela, viu o menino e o senhor abraçados em um canto.

— Ahhh então, é por causa deles que você está fazendo tudo isso, não é?!

Kyoko pegou a espada novamente e sem dizer nada adquiriu uma postura de ataque que Yuriko conhecia muito bem: O corpo de lado, as pernas na posição do cavaleiro, seu rosto estava levemente abaixado e seus olhos não podiam ser mais vistos; a espada novamente encostou-se à lateral do seu corpo como se estivesse aguardando para ser retirada da bainha e sua mão posicionada na frente do rosto.

— Você é mesmo tão idiota! Vai tentar usar esse golpe com essa distância? Eu vou matá-los antes de você sacar sua espada. — O silêncio reinou durante alguns segundos...

— Se tocar nessa porta será a última coisa que irá fazer. – Kyoko disse em um tom que fez a serpente tremer, mas jamais deixaria isso transparecer. Ela era um dos generais, não podia perder para uma traidora, ou melhor, não iria perder. Kyoko era rápida sim, mas ela também era.

— Veremos.

O ataque aconteceu em menos de um milésimo de segundo que foi muito bem visto pelos olhos mais do que atento dos cavaleiros de ouro presentes. A serpente ficou parada sentindo os efeitos do golpe pouco a pouco atingirem todos os nervos de seu corpo. Ela nem havia se dado conta quando Kyoko saiu do lugar e apareceu atrás de si mantendo a mesma postura, mas dessa vez com a espada erguida. Era como se ela tivesse sumido e reaparecido bem ali. O golpe acertou o pescoço da serpente, rasgando-o de orelha a orelha. Ela sentiu o gosto de sangue subir pelo que restou de sua garganta sendo expulso em jatos escuros. Seus olhos se encontraram com os amarelos da raposa e o que viu ali fora nada além de sua própria desgraça.

— Ky...Ky...o...ko.

A raposa franziu o cenho e seus caninos apareceram.

Shine! (Morra!) – Sussurrou desferir o golpe de misericórdia. Este acertando a barriga da shirohebi e a partindo ao meio, fazendo com que as metades de seu corpo tombassem uma para cada lado, derramando suas vísceras no chão do Santuário.

Toda Rodório ficou em silêncio total sem consegui desgrudar os olhos da cena. Um vento fresco sacudiu os cabelos esbranquiçados trazendo o rosto encantador de sempre aos olhos de todos. A Kyoko assassina havia ido embora da mesma maneira que chegou. Dentro da casa o pequeno Saga sorriu feliz, saindo correndo porta a fora, se jogando nos braços dela.

— Tyoko!

A kitsune respirou ofegante, aliviada ao ver que o menino estava bem. Sentiu-se tão bem quanto a muito não sentia, salvar a vila e principalmente o menino pareceu lavar sua alma por manter sua promessa em dia.

Os moradores da vila ovacionaram: os cavaleiros, os aprendizes e até os soldados se juntaram no coro. Milo correu como um menino feliz junto com Dohko e Kanon. Aiolia mesmo ranzinza não resistiu e se juntou aos amigos. Saga ficou parado no mesmo lugar sem conseguir acreditar no que ela havia feito, mas sentindo-se tão orgulhoso quanto nunca.

— Voxe me salvou, Tyoko. – o menino disse feliz.

— Viu?! Eu disse que ninguém podia me derrotar. – ela piscou sorrindo e abraçando o menino novamente.

— Isso foi incrível! Você é demais, Kyoko, demais! – Milo abraçou a raposa tirando-a do chão. Sentiu um cheiro estranho se dando conta do quanto Kyoko estava melecada com a baba e o sangue do inimigo. – Ahh que nojo!

— Ninguém mandou você me abraçar, mas concordo que preciso de um banho.

— Não só de um banho, mas também de curativos. Seu braço está péssimo. – completou Dohko.

— Eu vou ficar bem, não foi nada, só...preciso de um tempo.

— Como você fez aquilo? Você...pulverizou a barreira como se fosse nada. — Kanon perguntou confuso.

— Eletricidade. — respondeu observando a ferida aberta no braço, onde podia-se ver os músculos e uma parte dos ossos.

— Eletricidade? Ei, ei, ei, então...se Aiolia tivesse usado seus raios a barreira teria sido destruída?

— Provavelmente, só ia depender de quanta força ele tem. — desdenhou fazendo no rosto de Aiolia surgir uma careta em total desagrado. — Como eu sou mais poderosa que ele em mil anos luz então, duvido muito que ele tivesse conseguido.

— Isso é só porque você quer não é sua debochada?! — Ele rebateu. Kyoko deu de ombros.

Saga caminhou devagar observando o sorriso singelo no rosto sujo dela. Empurrou Kanon e Milo para ter mais acesso e sem pedir permissão seus braços envolveram Kyoko em um abraço terno. Ela ficou paralisada, sem saber bem como reagir. Falar com ele era a coisa que mais evitou por dias e agora, lá estava dentro dos braços aconchegantes dele. Saga fechou os olhos envolvendo o corpo sujo e suado com carinho e desespero como se precisasse daquilo para viver. E mesmo sua parte lógica alertando que não devia se deixar levar por aquele ato simples, Kyoko foi incapaz de resistir, fechando os olhos devagar, relaxando e se entregando aquele momento sem se preocupar com a quantidade de pessoas que começavam a se aglomerar em volta deles. Saga sentiu o corpo inteiro relaxar com a entrega dela e o peito aquecer de alívio depois de tanta aflição, não se importando se estava toda suja ou suada, pois mesmo daquela maneira ela ainda estava linda, o cheiro das frutinhas era inconfundível e inebriante. Não existiam palavras para descrever o quanto se sentiu aliviado com aquele contato mesmo estando protegido pela armadura.

Os outros cavaleiros trocaram um olhar cúmplice, mas nada disseram na esperança de não interromper e quem sabe assim os dois se acertassem, mas os passos corridos e a voz embargada pelo choro trouxeram o “casal” de volta a Rodório. Kyoko abriu os olhou, se afastando devagar e mirando dentro dos olhos verdes de Saga por alguns segundos antes de desviar, e quando ele abriu a boca, Eva o abraçou por trás.

Kanon bufou sem conseguir acreditar que aquela...filha da mãe havia chegado justo agora. Ela não podia demorar mais uns cinco minutos não?! Aliais, por ela não se tocava e ia embora de uma vez?

— Saga! Ahhh...Meu Deus, eu fiquei tão preocupada. – A morena chorava agarrada ao seu amado, fazendo Kyoko ficar séria novamente. O rosto fechado e o olhar sério deixando mais do que óbvio o seu desagrado com o teatro de Eva.

— Eu estou bem, Eva. – ele respondeu sem entusiasmo.

— Tioko o seu baço ta sanglando. – o pequeno Saga disse apontando para a ferida.

— Por Athena! Você precisa de curativos. Vem vamos cuidar disso. – Dohko retirou um pedaço de sua capa e envolveu o braço dela e a levando consigo.

Os olhos verdes de Saga se mantiveram presos em Kyoko que mesmo com o coração saudoso, não olhou para trás.

Um pouco distante dali...

Duas figuras observavam atentamente a kitsune ser levada por Dohko e Saga sendo paparicado pela “amante” e algumas crianças a rodear os outros dourados. Logo Mu de Áries se aproximou do grupo, tirando um sorriso de lado da observadora.

— Ora ora, então...o brinquedinho favorito de Kyoko ainda está com ela.

— Ele sempre está. – comentou o corvo.

— Yuriko subestimou demais a kitsune. Hum! Que patética! Nem com a ajuda da própria Kyoko e a de Hiroaki-sama aquela inútil conseguiu. *fuuu...* Qual é a dificuldade que esses imbecis veem em seguir uma simples ordem? Esses homens não são homens comuns. Está vendo aquele? – apontou. – Ele é um poderoso telecinético. Se ele tivesse conseguido entrar na barreira com aquele homem... — apontou. -...teriam pulverizado Yuriko e seus bichinho num piscar de olhos.

— Se eles são tão fortes, porque Kyoko-sama não permitiu que eles entrassem? – O corvo perguntou. Sua voz esganiçada e o som das asas chacoalhando.

— Porque Kyoko é muito esperta. Mas mesmo ele sendo muito poderoso...todo mundo tem seu...ponto fraco. – disse melodiosa.

— E você é claro que descobriu! A senhora é incrível! – o corvo sacudiu suas asas com total empolgação.

— Ora meu querido, não é segredo para ninguém que o maior ponto fraco dos humanos é ser humano. Eles são fracos só por serem assim. Eles nascem, crescem e quando não matam uns aos outros, morrem de alguma doença ou de velhice, que horror! – completou começando a caminhar.

— Mas então, de quem a Senhora está falando? – o corvo indagou pousando no ombro da mulher.

Ela sorriu um sorriso sexy. Uma fumaça negra começou a sair de sua capa e cabelos logo a envolvendo: —Você irá saber meu querido, na hora certa.

A mulher foi consumida pela fumaça, desaparecendo e deixando somente uma pena negra cair devagar no chão como um sinal de que voltaria.

♊ oOo ♊

Um mês desgastante passou arrastado e com muitos, muitos afazeres por todo o santuário. Depois daquele ataque, alguns youkais menores tentaram invadir o Santuário atrás de Kyoko, mas sem sucesso. A vila aos poucos voltou a ter forma, graça a Saori que contratou os melhores engenheiros e suas equipes para pôr as casas de volta no lugar.

Em uma reunião Kyoko contou a Shion um pouco de sua história e seu treinamento com os Kage. Disse que foi com eles que aprendeu a arte do Kenjutsu e que havia fugido do Makai por não concordar com o estilo de vida que eles queriam lhe impor. Pediu desculpas ao Grande Mestre por todo o estrago e que se o mesmo assim desejasse ela partiria o mais rápido possível. Shion logicamente não permitiu, pois em seu íntimo ele sabia que Kyoko ainda estava escondendo muita coisa.

E o cosmo perturbado de Afrodite deixava mais do que claro que ele sabia demais, mas por algum motivo ele simplesmente negava saber de algo além do que Kyoko já havia dito. Ele já havia tentado convencer a youkai a confessar o que realmente ela tinha ido fazer no mundo dos homens e o que ela estava guardando a sete chaves, mas ela não dizia. Achava que a responsabilidade de tudo era sua e que não queria envolver mais ninguém além dele que por sinal sabia demais.

Sua relação com Saga continuou do mesmo jeito. Kyoko ainda morava em Peixes e Saga mesmo se roendo de ciúmes de Afrodite achava melhor aceitar a escolha dela, mas mesmo assim “aceitando”, seu coração parava de insistir que ele devia continuar a tentar...

— Oi Kyoko. Eu...bem, como você está?

— É, eu tô bem. Tô ótima. – mentiu, desviando o olhar.

— Que bom! Olha, eu...eu só... – fez uma pausa. Tinha tanta coisa pra dizer, mas não entendia porquê não conseguia.

— Eu tenho que ir...- interrompeu, começando a caminhar. — ...desculpe atravessar seu Templo tão tarde. Isso não vai voltar a acontecer.

Saga ficou sem saber o que dizer, seguindo os passos de Kyoko com os olhos. Um nó pareceu apertar sua garganta e num impulso a alcançou com três passos.

— Espera! – Kyoko levou um susto, sentindo a mão suada e firme dele ao redor de seu pulso. — Eu só...queria pedir desculpas e ...dizer que sinto muito. De verdade, eu...sinto muito mesmo. Espero que...um dia você possa me perdoar.

Kyoko ficou séria, observando o olhar aflito do grande Cavaleiro de Gêmeos e sua inédita, e muito estranha gagueira momentânea. Um friozinho desceu por sua espinha onde uma vozinha falava baixinho ao pé do ouvido: “Ele nunca vai amar você. Ele é humano. Não se esqueça disso.”

— Esquece isso, Cavaleiro. – puxou o braço, virando de costas. — Deixa isso pra lá.

— É impossível! – fez uma pausa, se aproximando mais. — Eu sei que você não acredita em mim, mas...quero que saiba, do fundo do meu coração que...esse Templo, essa...Casa, ela é sua também. Será sempre bem-vinda.

Kyoko até pensou no assunto, sentindo-se extremamente tentada em volta para perto do geminiano de voz grave e sexy, mas sempre que olhava para Eva seu sexto sentido lhe dizia que o melhor mesmo era ficar o mais longe possível do cavaleiro e daquela maluca. Eva tinha um controle surreal sobre Saga e Kyoko preferia não arriscar perder a cabeça e matá-la.

Duas semanas depois...

— Eu naum achei a Tioko outla veix. – o menino resmungava consigo mesmo, descendo devagar as escadarias acompanhado de seu primo.

— Fique calmo, você vai achá-la. – confortou o mais velho.

— Maix tá chegando o dia e eu num cosigi achá a Tioko ainda.

O mais velho percebeu o olhar triste do menor e ficou sem saber o que fazer. Realmente estava difícil encontrar a raposa. Com os youkais rondando o santuário, Kyoko passava a maior parte do tempo, agora, ao redor do mesmo junto com os outros. Ela podia sentir o fedor deles há quilômetros o que ajudava e muito a mantê-los o mais longe possível da vila e de Atena.

O mais velho pensou, pensou e pensou, olhando ao redor e avistando um dos dourados.

— Olha é o Senhor Saga!

Os olhos do menor brilharam de alegria ao ver seu maior ídolo caminhando displicentemente pelo Salão de Gêmeos sem sua armadura. Nos lábios ele segurava o cigarro ainda apagado e os cabelos úmidos indicando que ele acabava de sair de um belo banho. O pequeno não pensou duas vezes, saindo correndo com suas pernas minúsculas até o cavaleiro.

— Senhô Saga! Senhô Saga! – ele gritou. Saga ao ouvir a vozinha parou, tirando o cigarro da boca e o pulverizando, reconhecendo o pequeno logo de cara.

— Ora olá, a que devo a honra de sua visita, pequeno? – perguntou se abaixando e ficando na altura do menino que sorriu completamente encabulado ao estar tão perto assim de seu ídolo.

— Eu...eu...é ti eu...- tentou dizer enrolando as mãozinhas em um ato completamente infantil. Saga sorriu.

— Não precisa ficar envergonhado, pode falar. – o menino ficou ainda mais encantado com o olhar terno do cavaleiro. Sorriu estufando o peito e criando a coragem necessária para fazer seu pedido.

— É ti...a Tioko sumiu e eu e meu plimo naum sabemu onde ela tá. A genti ta ploculando a um tempão e não sabe ondi ela tá.

Saga — que de bobo não tinha nada — sacou de cara o que o menino queria. Sorriu de lado achando que seria bem...solícito e amoroso de sua parte ajudar um menino que gastava tanto de si a encontrar alguém que ele, Saga, gostava tanto e já não via a dias. Nada como unir o útil ao agradável. Ele sabia que se tentasse se aproximar da kitsune estando só ela fugiria na primeira oportunidade já que isso já tinha acontecido inúmeras vezes, mas se ele estivesse com o menino aí seria outra história. Ela não teria como acusá-lo de estar “andando” atrás dela como das outras vezes, tampouco ser rude. Não que estivesse usando o menino para se aproximar de Kyoko, mas como já dizia o velho ditado: Quem não tem cão, caça como gato.

— Bom eu não vejo a Kyoko há uns dias, mas se você quiser podemos procurar juntos.

O menino só não explodiu de felicidade porque não podia, mas seu sorriso foi de orelha a orelha. Mal podia acreditar que passearia pelo Santuário ao lado de Saga de Gêmeos! Um dos maiores cavaleiros de ouro que já existiu e seu maior ídolo. Seus amiguinhos morreriam de inveja e sua mãe se sentiria orgulhosa.

— Sélio? Voxê ajuda a genti a acha a Tioko, Senhô Saga? — Saga sorriu.

— É claro, porque não?!

O menino começou a pular de felicidade abraçando seu primo que ficou igualmente feliz. Saga sentiu-se contagiar em ver o quanto as pessoas tinham apresso por si e por seus companheiros.

— E então, por onde a gente começa? – indagou se reerguendo. Os meninos se entreolharam e deram de ombros por não saber mais onde procurar. – Bem que tal começarmos pelos lugares onde a Kyoko mais gosta de ficar?

— Mas não sabemos! – disse o primo.

— Mas eu sei. – Saga sorriu começando a caminhar e sendo seguido por dois pares de olhinhos brilhantes de tanta alegria.

♊ oOo ♊

Saga tirou o dia de babá, mas sentia-se muito bem com aquilo. Era a primeira vez e nunca imaginou que pudesse ser tão divertido e gratificante. A procura por Kyoko durou quase o dia todo, zanzando para lá e para cá sem saber ao certo onde ela poderia estar. A habilidade de se esconder que não só Kyoko e sim os youkais possuíam era algo que nenhum deles sabia explicar. Nem mesmo Shaka e toda sua sabedoria, e “divindade” conseguia entender, pelo menos...ainda. Aproveitou e almoçou na vila, mas precisamente na casa de seu pequeno sósia que fez questão que ele provasse do ensopado de carnes com batatas de sua mãe. Após o almoço a caçada continuou, mas aquilo estava sendo mais difícil do que planejou.

Caminharam até perto de um riacho onde um pescador indicou um lugar onde disse ter visto Kyoko pegando alguns peixes há uns minutos atrás. O menino mais velho correu na frente, enquanto Saga carregava o menor na cacunda por ele já começar a demonstrar sinais de cansaço, mas não de rendição; queria encontrar Kyoko a qualquer custo.

— Ela não está aqui também. – falou o menino maior de nome Dionísio.

Saga olhou em volta, parando na sombra de uma macieira. Havia sinais de pegada e algumas frutinhas pelo chão; Kyoko realmente tinha estado ali e não tinha muito tempo.

— Ela não deve estar longe. — observou.

— Kyoko! – Dionísio chamou e sua voz ecoou pelo bosque.

— Por que não chama mais alto? – Saga disse pondo o pequeno no chão novamente que imediatamente se juntou ao primo, mas nenhum sinal da raposa.

— Senhô Saga ajuda a genti? – o menino pediu com o olhar de pidão e Saga não teve coração para negar.

— Tudo bem, no três okay?! – ele disse. – 1, 2 e 3...

Juntos eles deram um berro, fazendo o nome de Kyoko ecoar pelo bosque em um corro horrível graças à voz fina e infantil dos meninos misturada com a grave de Saga. O bosque respondeu na mesma intensidade, repetindo e repetindo o nome de Kyoko.

Ficaram em silêncio por alguns segundos esperando a resposta que não veio. O menor ficou cabisbaixo: — É acho que a Tioko nun ta ati.

— Aaaiiii! — de repente o som de um gemido e algo oco batendo contra o chão fez os três pularem de susto.

— Ih olha! – Dionísio apontou ao ver Kyoko estatelada no chão.

Ela, que até então dormia sobre um dos galhos da grande macieira, nem se deu conta de estar sendo procurada e com o grito dos três acabou por acordar na base do susto, se desequilibrando e caindo de qualquer maneira pelos galhos até bater de bunda no chão. A raposa sentiu seus ouvidos zumbirem. Esfregou o local da pancada, sentindo-se irritada por ter sido acordada de maneira tão rude e mal-educada.

— Mas que saco, não sabe gritar baixo não? Eu não sou surda seu bando de...

— Tioko!!

Seus olhos automaticamente pousaram sobre a figura do verdadeiro Saga e toda sua imponência, fazendo seu corpo tremer diante daquele olhar que parecia ainda mais lindo sob o reflexo cristalino do pequeno riacho nos verdes tornando-os ainda mais hipnotizantes, se isso ainda era possível. Pensou se talvez existisse alguém no mundo capaz de ser imune a aqueles olhos porque ela com toda certeza não era. Os cabelos soltos caindo displicentemente pelas costas e pelos ombros, o rosto másculo e o sorriso singelo pareciam ter sidos talhados pelas mãos de todos os deuses do Olimpo; o cheiro de menta invadiu suas narinas fazendo com que pedrinhas de gelo se formassem em seu estômago. Realmente, fazia tempo que não o via, tentava manter o máximo de distância possível para que assim, pelo menos um pouco, pudesse acalmar seu desejo e seu coração traiçoeiro. Teimoso. Mesmo assim toda vez que seus olhos se encontravam a reação de seu corpo era sempre o mesmo. A vontade de correr e se jogar nos braços fortes era quase incontrolável, por isso se agarrava com força a sua razão que lhe dizia que aquela não era a melhor escolha. Saga era um homem humano que já havia feito sua escolha: Eva, uma mulher humana e sem graça. E ela, Kyoko, como ele mesmo havia dito, era uma youkai, um monstro, um animal e mesmo ele tendo se desculpado ela não conseguia deixar de achar que era assim que ele a via. Achar que um dia um homem humano, incluindo Saga a veria como algo desejável para amar e respeitar não passava de um sonho bobo e nada mais.

— Tioko! – O menino se jogou nos braços da raposa que pareceu despertar de um sonho.

— Ah! Oi pequeno Saga, como você veio parar aqui? – ela questionou se reerguendo.

— O Senhô Saga ajudô a genti a ti acha. A genti tavu ploculandu voxe a tleis dias. Não, quatu, não...é...cincu dias. – Kyoko sorriu com a confusão do menor.

— Isso tudo?! – Kyoko olhou para Saga que sorriu do mesmo motivo. – Nossa, mas porque estão me procurando dessa maneira? Eu não me lembro de ter roubado nada nesses últimos dias. — os meninos riram da cara pensativa da raposa e suas orelhas atentas.

— Não Tioko, não é issu. É que eu...quelia ti entlegá issu. – o menor enfiou a mão no bolso, tirando de lá um envelope amarrotado.

Saga e Kyoko fitaram o "presente" com curiosidade, trocando um olhar em seguida e dando de ombros. A raposa pegou o envelope e agradeceu com um cafuné no menino e o deixando todo feliz.

Com jeito e cuidado ela retirou o papel de dentro do envelope ficando com cara de boba sem saber o que fazer.

— Ah isso é para mim? – ela perguntou sem jeito. O menino acenou positivamente. – Ãhnnn puxa...ual eu to...lisonjeada com isso...é um...ãhn...

Saga percebendo a confusão no rosto de Kyoko se aproximou mais para ver o que tinha deixado ela assim. O geminiano quando viu o papel franziu o cenho:

— Puxa...mas não dá pra aaaaiii!!!

Ele resmungou com o beliscão dado em sua barriga deixando os meninos sem entender.

— Ta tudo bem Senhor Saga? – perguntou o menino maior.

— Tá...ta tudo bem sim, acho que foi algum...bicho que me picou. – mentiu para disfarçar.

Kyoko e Saga se entreolharam novamente sem saber o que responder. Não é que ela não tivesse gostado do que tinha recebido. O problema era que o pequeno mal sabia escrever causando uma confusão de letras e palavras Gregas que nem mesmo Saga conseguia compreender. A raposa não queria ser rude e magoar o menino dizendo que não conseguia entender por conta de seus garranchos, mas o problema era como decifrar aquele enigma sem magoar os sentimentos do pequeno.

— Por que...não...fazemos assim: Você lê para mim e para o Saga? – Kyoko propôs tentando ser convincente.

— Isso! Boa ideia! – Saga concordou dando mais ênfase.

O menino franziu o cenho: — Maizi puquê? Eu quelia que voxe lessi.

Kyoko e Saga se entreolharam novamente tentando ler nos olhos um do outro um argumento em que os dois não entrassem em contradição.

— É que...bom...é que...eu e o...Saga...nós...nãosabemosler! –Disse tudo de uma vez. – Não é Saga?! – ele confirmou sem jeito, mesmo achando aquilo um absurdo. – É que o Saga...ele treinou muito quando era assim da idade de vocês...e com isso não teve tempo de estudar, coitadinho! Aí ele cresceu e se tornou esse homem burro que ele é hoje. – a raposa semicerrou os olhos, aproveitando a oportunidade para descontar um pouco de sua frustração no geminiano.

— É meninos eu não aprendi a ler, mas...mesmo assim me tornei um cavaleiro honrado e que não rouba nada de ninguém. – respondeu no mesmo tom mirando sério a kitsune. – Então meninos, nunca sigam esse péssimo exemplo, roubar é muito feito e errado e pode aaaaaiiiii!! – resmungou de novo por conta de um novo beliscão.

— Que parar de me beliscar? – resmungou

— Só quando você parar de me ofender.

— Foi você quem começou.

Os meninos olhavam de um para o outro sem entender bem os resmungos do geminiano e a cara emburrada dela...só podia ser coisa de adulto.

— Então, você vai ler pra gente? – ela perguntou sorrindo.

O menino sem opção aceitou começando a ler o bilhete com sua falinha enrolada e a língua presa:

— Quelida Tyoko, eu Luy quelia convidá voxe pala uma festa que os moladoles de Rodoliu estão fazendi em sua omenagi pu salvá a genti. Vai te bolo de maçã, toutla de flutas, suco, celvejas e guananá e tambeim outlas coisas de cume pulque todo mundi sabi que voxe gosta muito. Pufavô vá a nossa festa puque sinaum todo mundi vai ficar tisti. Assinadu toda Rodoliu.

No final o menino sorriu feliz e Kyoko sentiu-se honrada por saber que ganharia uma festa em sua homenagem.

— Uma festa? – Saga comentou. Realmente aquilo era uma surpresa.

— Uma festa? Para mim? Ual!! Que legal!!!

— Sim, sim Senhorita! O povo de Rodório gostaria muito de agradecer pelo que você fez e para isso darão uma festa daqui a três dias, por favor, não deixe de ir, será muito importante para todos nós. – Completou Dionísio.

Kyoko sorriu em resposta já imaginando como seria uma festa cheia de comida e bebida feita especialmente para si. Já Saga pensou que aquilo talvez fosse uma ótima oportunidade. Quem sabe em um momento de descontração ela baixasse mais a guarda e assim poderia tentar de alguma maneira expor finalmente suas dúvidas e seus sentimentos?!

♊ oOo ♊

Na vila a recém-visitante caminhava observando com surpresa as pessoas em seus trabalhos: O senhor da venda voltou com suas frutas, legumes e verduras; o marceneiro transformava as madeiras sem vida em objetos lindos de decoração e outras coisas mais, enquanto o padeiro ajeitava sua nova fornada de pães dentro do cesto onde as pessoas já aguardavam em fila para ter a sua vez. Alguns homens já bêbados olhavam com cobiça e curiosidade, mas ela fingia não se importar, era melhor assim. Parou por alguns instantes, olhando de um lado para o outro sem saber bem para onde ir. Imaginava estava perto, mas não sabia dizer o quão perto estaria. Talvez estivesse um tanto quanto...perdida em meio aquele vai e vem de pessoas.

"É melhor perguntar outra vez", ela pensou. Devagar se aproximou de um homem que carregava algumas caixas de leite.

— É com licença, o senhor saberia me informar como eu faço para chegar nesse lugar?

O homem, crispou o cenho, curioso, mas nada disse além de indicar o caminho, apontando e explicando com gestos e palavras para que a moça não se perdesse. Ela agradeceu e fez exatamente conforme indicado e depois de alguns minutos de caminhada ela finalmente chegou: A escadaria da casa de Áries.

Impressionada, a jovem sorriu de boca aberta. Aquilo era inacreditável.

— É...mas não é que ele existe mesmo?! – fez uma pausa. — Até que enfim eu te encontrei, Kyoko.

Continua...

Notas finais
Mas porque eu tenho que gostar tanto de suspense e deixar vocês morrendo do coração de curiosidade em?!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk... Ai gente o Luy é muito fofoooo, vontade de aperta ele. Olha porque a Eva não morreu na confusão em?! Que mulher...Argh!! Bom espero que vocês tenham gostado mesmo com minha dificuldade em descrever a batalha. Dei tudo que pude, mas prometo tentar melhorar nas próximas. Bjs e até!! Obs: *Kenjutsu, em tradução literal: "Técnica da Espada", é a arte marcial japonesa clássica do combate com espadas. Pode também ser chamada de kendo ou heihō/hyōhō , entre outras denominações possíveis. Também conhecida como A arte da espada Samurai.