164 dias antes.

Ela acordara com uma mensagem de bom dia do namorado. Marina sempre abria um sorriso enorme ao acordar e ver que Guilherme também tinha se lembrado dela tão cedo.

“Primeiro dia de aula, estou louco pra te ver naquela farda do terceirão, te amo. G”

“Nem te conto como eu estou louca pra te ver, tbm te amo. M”

Marina não conseguiu tirar o sorriso do rosto enquanto tomava banho e, ao pentear os longos e lisos cabelos loiros, podia jurar que seus olhos brilhavam com um azul mais intenso do que antes. Era o último ano da escola e suas expectativas estavam altíssimas. Como toda garota de cidade pequena, ela sonhava em sair de Quixote, em Santa Catarina, e ir para um lugar onde poderia viver a vida que sempre sonhou. Ela e o namorado de quatro anos, Guilherme, tinham feito muitos planos e um deles era se mudar para São Paulo quando terminassem a escola. As melhores amigas, Rafaela e Luana, também tinham objetivos parecidos. Todas tinham seus sonhos e desejos secretos mas havia algo em comum entre todas elas: procuravam ansiosamente por uma dose violenta de qualquer coisa.

***

—Querida, Luana acabou de ligar e disse que em dez minutos deve estar chegando para te buscar – Luciana gritou da cozinha –Tenho que ir para o hospital fazer um turno extra, pode trancar tudo pra mim?

—Sim! – Rafa respondeu tirando os cabelos castanhos, que ela considerava sem graça, do rosto –Sabe que eu vou almoçar com as meninas, não é?

Luciana gritou que sabia e foi trabalhar. Ela não era a mãe verdadeira de Rafaela mas as duas agiam como se fosse. Rafa fora deixada na portaria do hospital que ela trabalhava com uma pneumonia gravíssima. Lucina, como pediatra, tratou e adotou a menina e Rafaela sabia que devia sua vida a essa mulher. Tudo que a garota fazia era com a intenção de fazer sua mãe adotiva se orgulhar dela, o que parecia dar certo.

Rafa era uma garota tímida e um pouco antissocial, grande parte da escola nunca entendeu como alguém como ela pode ser uma das melhores amigas de pessoas como Marina, a recém reeleita presidente do Grêmio Estudantil, e Luana, a famosa garota-problema de Quixote. Ela simplesmente se aproximou das duas e aquele trio se mostrou inseparável, por mais diferentes que todas elas fossem. No fundo, ela nutria uma admiração incondicional pelas duas. Rafaela gostaria de ser mais como elas, ter mais coragem de ser ela mesma e mostrar suas ideias para o mundo. Quem sabe um dia...

Ela ouviu o barulho da campainha e desceu as escadas correndo.

—Você demorou! – ela reclamou meio rindo.

Luana apenas lhe deu um de seus sorrisos maliciosos. Ela era loira, assim como Marina, mas seus cabelos eram rebeldes dando uma aparência selvagem e quase mística à moça. Seus olhos cinzentos só reforçavam toda a aura de mistério que a cercava. O resto da cidade gostava de dizer que a conheciam mas pouco sabiam sobre ela, apenas que a mãe fora embora viver com uma nova família e vivia com o pai que passara anos lutando contra um câncer de pulmão aparentemente curado. Mas Rafaela e Marina conheciam aquela garota de um jeito que ninguém mais poderia.

—Você não disse que o Gabriel ia nos levar? – Rafa perguntou confusa.

—Disse – Luana riu –Não vai mais...

—O que houve dessa vez, Lu? – Rafaela suspirou enquanto trancava a casa e começava a caminhar com a amiga.

—Nada – ela subiu no meio fio e começou a andar como se estivesse se apresentando em um circo, Rafa encostou na sua cintura para não deixa-la cair –O de sempre: ele pensa que só porque me come eu tenho que dar satisfação. Então o dispensei...

—Você nunca consegue ficar muito tempo com um garoto... – a castanha comentou sarcasticamente –Por que será?

—Ei – a loira a olhou com uma expressão divertida –Se for para me entregar a alguém, que seja uma pessoa tão incrível quanto eu! Você acha mesmo que vai ser qualquer carinha que vai me ganhar? Ele tem que ser bem diferente...

—Esquisito, você quis dizer – Rafa disse baixinho mas a loira escutou e a empurrou de leve.

—Você é uma filha da puta – Luana pegou o braço da amiga e começou a acelerar o passo.

—Eu sei, eu sei – Rafa riu enquanto começava a correr com a amiga.

***

Marina encostava a testa no peito de Guilherme enquanto ele acariciava suas costas. Quando foi tomar café, a loira passou em frente ao quarto dos pais e viu o quanto sua mãe tinha emagrecido nos últimos tempos. Ela sofrera um aborto no ano passado e se afundava cada vez mais na depressão. Perdeu o emprego e toda a credibilidade, o pai de Marina passou a trabalhar em dois escritórios de advocacia para conseguir manter o padrão de vida de sua família. Marina o admirava muito por isso, os últimos meses tem sido difíceis mas ele não deixou de olhar para sua mãe com amor em nenhum momento.

—Calma, talvez esse novo remédio faça efeito e ela melhore – o namorado sussurrou no seu ouvido –Precisa ter um pouco de paciência, não é de uma hora pra outra que essas coisas se resolvem...

—Eu sei, mas ver minha mãe desse jeito acaba comigo – ela respondeu e Guilherme a abraçou mais apertado.

—Você sabe que eu estou aqui, não é? – ele se afastou um pouco para que ela pudesse ver seu sorriso –Pra qualquer coisa que você precisar.

—Eu sei – ela retribuiu o sorriso e o beijou delicadamente nos lábios.

—Ai, gente, vocês podiam se pegar dentro do carro. Ninguém é obrigado a ter que ficar olhando isso... – Luana disse enquanto se aproximava com Rafaela. Marina apenas riu e abraçou as duas amigas, Guilherme cumprimentou as meninas e se despediu da namorada com um beijo rápido indo em direção aos seus amigos.

—Uau, você está cheirando a sexo – Luana comentou fazendo Marina corar.

—Pode falar baixo, por favor?! – ela fingiu estar chateada mas deixou escapar um sorriso –Tem que parar de ficar me entregando desse jeito...

—Você mesma se entrega – a outra loira rebateu, ela colocou o braço em volta das duas amigas e começou a caminhar em direção aos portões da escola –Vamos logo que é a última vez que teremos um primeiro dia de aula na escola e eu quero aproveitar cada minuto.

As três garotas andaram juntas rindo em direção à sala. Havia a promessa de que esse ano seria inesquecível para todas.

***

—Ok, ok, eu tenho uma história que vocês vão amar – Marina comentou rindo enquanto tomava um gole da cerveja. Elas tinham esse jogo, as três amigas. Elas procuravam se ver o mínimo possível nas férias e, depois da aula no primeiro dia, iam em direção ao bosque nos limites da cidade, que ficava localizado perto da Área de Preservação de Quixote, sentavam no lago, bebiam até enjoar e contavam todas as coisas esquisitas, constrangedoras, boas e ruins que tinham acontecido durante o tempo em que ficaram sem se ver –Eu e o Guilherme estávamos na minha casa, no meio do... Vocês sabem...

Luana lançou um olhar para Rafaela que a fez rir. Marina fez uma cara feia e continuou.

—Ok, era tipo, uma das melhores vezes que nós já fizemos, sem brincadeira! E aí a gente escuta o barulho do carro do meu pai, era ele e minha mãe voltando do psicólogo dela. Guilherme pulou minha janela só de cueca e foi pra casa correndo. Eram tipo três da tarde!

Todas elas começaram a rir muito ao imaginar a cena.

—Certo, minha vez – Luana tomou um gole longo e limpou a garganta –Eu briguei com o Gabriel perto do Natal. Esperei ele ficar bêbado e transei com o irmão dele na cama dele. Fim.

Marina e Rafaela olharam para Luana um pouco surpresas. Não era novidade que a amiga sabia ser bem criativa na hora de se vingar mas elas nunca deixavam de se surpreender com as complicações que ela arrumava.

—Não me olhem desse jeito, vocês sabem que isso é bem a minha cara – ela riu enquanto esvaziava a garrafa – E você, Rafa? Ainda não contou nada...

As duas loiras encararam a castanha que corou.

—Não aconteceu nada de interessante... – ela desconversou enquanto recusava a garrafa que Luana oferecia.

—Mentira – Marina sorriu –Fiquei sabendo que você saiu com o Tiago nas férias, nem tente nos enganar...

—E aí? – Luana chegou mais perto, deixando a amiga nervosa –Você deixou ele passar a mão em você, não é? Por isso que você está toda envergonhada... Ou será que vocês fizeram mais do que isso?

Rafa corava cada vez mais, Marina apenas ria da cara da amiga. Luana colocou as pernas no colo da castanha.

—Você tem que saber como fazer as coisas, Rafa, se quiser eu te ensino – a loira deu uma piscadinha e a amiga ficou ainda mais vermelha do que já estava.

—Ok – Marina interrompeu –Chega, Luana. A gente vai matar ela de vergonha se continuarmos com isso...

—Tá bom, tá bom. Vamos fingir que você não estava gostando da ideia – a loira se afastou da garota e caminhou até a beira do lago –Feliz último primeiro dia na escola pra todas vocês.

Marina, Rafaela e Luana jogaram as garrafas vazias no lago e começaram a rir descontroladamente. Luana mal conseguia ficar de pé, as duas garotas tiveram que escorá-la até o carro da mãe da Marina. Rafaela levou todas em suas casas, deixou o carro da mãe de Marina na garagem e foi caminhando até o seu bairro, feliz por ter estado com suas duas pessoas favoritas no mundo novamente.

***

—A minha cabeça tá doendo tanto, você não tem noção... – Luana e Rafaela estavam conversando no telefone. Rafa encarava o teto deitada em sua cama.

—Talvez você não devesse beber tanto da próxima vez – Rafaela tentou aconselhar.

—Não posso, meu bem. Você sabe – a loira riu do outro lado da linha –Estamos todas procurando nossa dose violenta de qualquer coisa, lembra? Marina procura no namorado, você procura nos livros e eu procuro nas coisas que as pessoas desaprovam...

—Eu não procuro nos livros! – a castanha retrucou um pouco chateada.

—Ah, não – Luana respondeu com ironia –Então vou te fazer um desafio. Leio um daqueles livros intelectuais que você gosta se sair comigo qualquer dia desses pra beber até cair. Fechado?

—Fechado! – as duas ainda continuaram rindo no telefone por horas até a madrugada chegar.

***

Guilherme descansava o corpo suado em Marina. A loira respirava com dificuldade, o namorado tenha exigido muito esforço dela mas valera a pena cada segundo. Ela passava as mãos delicadamente pelos cabelos curtos dele, conseguia sentir as batidas do coração do garoto contra o seu e nada poderia fazê-la sentir-se mais feliz naquele momento.

—Eu te amo tanto – ele sussurrou beijando o pescoço dela –Te amo tanto que até esqueci a raiva que senti por você ter ido beber com aquela louca da Luana.

—Eu também te amo – ela sorriu e beijou a testa dele –Te amo tanto que vou esquecer que você chamou uma das minhas melhores amigas de louca.

Guilherme apenas riu e se levantou devagar.

—Queria poder ficar a noite toda desse jeito com você, mas tenho que te deixar em casa antes que seu pai fique preocupado... – ele disse contrariado.

Marina se levantou da cama do namorado, vestiu suas roupas o mais rápido possível e deixou que ele passasse os braços pelo seu ombro a conduzindo até o carro. Guilherme beijou o topo de sua cabeça e a abraçou mais apertado.