Uma dose violenta de qualquer coisa
45 Quebradiços
21 dias depois.
—Hoje, 21 dias após o homicídio que chocou nossa cidade, ainda não temos a menor pista do que pode ter acontecido com Luana Lima. A adolescente de 17 anos caminhava sozinha após uma festa quando foi surpreendida por alguém. O suspeito a acertou com uma pedra na cabeça repetidas vezes e a esquartejou. Seu corpo foi abandonado no local, na estrada que liga Quixote à Área de Preservação. A polícia ainda não...
Marina deixou a TV no mudo, não aguentava mais escutar as mesmas notícias todos os dias. Não tinham suspeito, não sabiam para onde ela estava indo, não havia motivação aparente para o crime, não houve violência sexual... Só havia um monte de ”nãos”, nenhuma explicação, nada que pudesse diminuir o sofrimento daqueles que a amavam.
—Você precisa comer... – escutou a voz do pai vindo do quarto, sua mãe estava começando a ficar mal de novo. Marina escutou um sussurro mas não entendeu o que a mãe respondera, o pai continuou insistindo com uma voz calma.
Em outra época, a loira ficaria preocupada com a mãe e iria tentar ajudar de alguma forma mas no momento tudo que conseguia sentir era raiva. Raiva por não ter respostas para o que acontecera com Luana, raiva pela mãe ter sofrido aquele maldito aborta há tanto tempo, raiva por ela não ter superado esse aborto...
Enquanto a mãe ficava deitada o dia todo na cama olhando para o teto, Marina remoía todas as coisas que haviam dado errado em sua vida dia após dia: a morte da amiga, a perda do irmãozinho, a insanidade da mãe, a distância do pai que tinha que cuidar da esposa... Achou um tremendo egoísmo a mãe escolher ficar deitada enquanto ela tinha que lutar contra essas coisas sozinha.
A loira se levantou e foi em direção ao quarto dos pais, seu pai estava sentado na beira da cama com a bandeja de comida nas mãos, os olhos tristes encaravam a esposa e só perceberam Marina no quarto quando ela se aproximou da mulher deitada na cama.
—Marina, o que você... – ele ficou confuso quando a garota se aproximou da mãe, o nariz quase encostando no dela.
—Você vai ficar deitada nessa cama pra sempre? Como uma velha louca?! – a loira gritou, seu estômago se contorcia mas sentia que iria explodir caso não falasse tudo que queria –Acha isso justo com a gente?! Eu também perdi um irmão, papai também perdeu um filho e nenhum de nós fica olhando o teto o dia inteiro como um vegetal de merda!
—Marina! – o pai a olhava chocado sem saber o que fazer, o olhar da mãe que costumava ser tão indiferente nos últimos tempos parecia assustado e confuso.
—E agora a minha melhor amiga foi esquartejada mas você não liga porque tudo que importa é a sua dor, né?! Você pode ter perdido uma criança mas ainda tem uma filha, eu estou aqui! Onde está minha mãe? Porque você não pode ser ela, tenho certeza disso!
—Marina, sai daqui! – o pai tentou tocar o braço dela mas a loira o afastou com um movimento rápido sem desviar os olhos da mãe.
—Você tem que tomar os malditos remédios, você tem que comer a maldita comida e você tem que levantar dessa maldita cama, querendo ou não! – a loira continuou gritando enquanto lágrimas começaram a correr pelo seu rosto –Eu quero minha mãe de volta! Puta que pariu, eu preciso de você!
Marina deu um tapa forte no rosto da mãe, por um segundo não entendeu o que acabara de fazer mas ao ver os olhos ainda mais assustados e perdidos da mulher que a encarava soube que tinha feito uma grande besteira.
—Fora daqui, agora! – o pai berrou atrás dela, Marina se virou e saiu da casa o mais rápido que pôde.
Saiu para a rua e olhou em volta sem saber para onde ir.
***
Rafa tirava alguns cadernos do topo da estante quando um deles caiu no chão e espalhou vários papeis. A garota suspirou irritada, era um daqueles dias em que tudo parecia dar errado. Agachou-se e começou a organizar tudo que havia caído no chão. Um dos papeis caíra debaixo da sua cama, como se quisesse fugir dela. A garota teve que se esticar bastante para conseguir alcança-lo.
Seu coração ficou apertado ao ver que o papel na verdade era uma fotografia tirada no primeiro ano do ensino médio. Marina sorria olhando para o lado, Rafa olhava para o chão rindo e Luana encarava a câmera com um sorriso genuíno no rosto enquanto puxava as duas garotas para perto dela pelo pescoço. Era uma foto bonita, uma lembrança de uma época doce e pura.
Rafaela não conseguiu segurar as lágrimas, não estava preparada para ter encontrado essa foto. Isso parecia acontecer muito ultimamente. À medida que os dias passavam e o assassinato de Luana ficava mais distante, não sentia mais aquela angústia terrível mas bastava encontrar uma foto, ouvir uma música ou lembrar de algo que ela dissera para todos os sentimentos voltarem como uma enxurrada e saírem pelos seus olhos.
Sentou na cama com a fotografia ainda em mãos, a vista turva devido às lágrimas. Não conseguia parar de encarar as três congeladas naquele momento do tempo, faria qualquer coisa para se teletransportar até lá e viver tudo de novo, queria poder dar momentos melhores para Luana antes dela morrer. Mas não podia.
Deixou a foto cair no chão e deitou na cama, fechou os olhos enquanto os soluços sacudiam seu corpo inteiro. As pessoas dizem que corações partidos não matam mas a dor que sentia nesse momento parecia capaz de matar.
Ouviu passos do lado de fora da casa e batidas fortes na porta, se sentou assustada. Os soluços diminuíram enquanto o medo dentro dela aumentava. E se a pessoa que pegou Luana estivesse atrás dela?
“Assassinos não batem na porta, você está sendo ridícula!”, pensou.
—Rafa? – ouviu Marina chama-la e sentiu o alívio tomar conta dela mas reparou que a voz da amiga parecia estranha.
Correu até lá embaixo enquanto secava as próprias lágrimas, ao abrir a porta deu de cara com a loira soluçando. Ambas se encararam por um segundo, as duas com o rosto marcado pela tristeza. Eram como um espelho.
Rafa chorava. Marina chorava.
Rafa deixou a preocupação que sentia pela amiga cruzar seu rosto. Marina deixou a preocupação que sentia pela amiga cruzar seu rosto.
Rafa estendeu os braços para abraçá-la. Marina estendeu os braços para abraçá-la.
E ambas ficaram soluçando, uma nos braços da outra.
***
Marina e Rafaela encaravam o teto em silêncio, ambas deitadas uma do lado da outra na cama do quarto de Rafa. As lágrimas já não caíam, depois de falarem e chorarem por vários minutos tudo que restou foi o cansaço. E aquela maldita tristeza que não passava.
A loira sentia-se uma completa idiota pelo que fizera mais cedo, simplesmente explodira e sabia que não era culpa da mãe o que estava acontecendo. Ela tinha uma doença e, ainda que sua depressão não pudesse ser medida fisicamente, era totalmente real e incapacitante. Marina suspirou.
Rafa segurou uma das mãos dela, não sabia o que dizer para a amiga. Não conseguia cuidar dela mesma, muito menos de outra pessoa, mas faria o possível para transmitir confiança, faria tudo que pudesse para Marina sentir que podia contar com ela. A ideia de perder outra amiga a aterrorizava, seria insuportável.
—Acho que você tinha razão – Marina começou hesitante, Rafa apenas esperou que ela continuasse ainda encarando o teto –Quando disse que a polícia dessa cidade é inútil e que nós mesmas teríamos que buscar a justiça que Luana merecia. Demorei pra enxergar isso mas entendo agora...
Rafa ficou quieta por alguns instantes, pensando no que acabara de ouvir. Por fim, respondeu:
—Me sinto tão cansada, não consigo fazer nada! Mas ainda estou tentando ter esperanças – a garota fechou os olhos e suspirou –Se em uma semana aqueles merdas não prenderem alguém, vou virar essa cidade de cabeça pra baixo até eu mesma encontrar alguma coisa.
Marina ficou quieta mas concordava totalmente com a amiga.
***
24 dias depois.
Rafaela pedalava, suas pernas queimavam mas ela não pararia por nada. Não conseguia dormir então decidira sair à noite para dar uma volta, suas noites insones estavam começando a ficar cada vez mais frequentes. Sentia como se estivesse deixando escapar alguma coisa, como se tivesse uma chave para entender o que aconteceu com Luana mas essa coisa continuava escapando. Não teria uma boa noite de sono até descobrir o que era essa sensação horrível.
As árvores passavam apenas como borrões por ela, a garota mantinha toda a sua atenção na estrada. Tinha medo de que, enquanto sua mente dava voltas e fazia perguntas a ela mesma, um carro acabasse a acertando na noite. Se bem que não deveriam haver muitos carros rodando a cidade às 3 da manhã....
Rafa avistou o trecho da estrada que tanto a apavorava, o trecho em que o corpo de Luana fora encontrado. A garota foi diminuindo a velocidade aos poucos até parar ao lado do local, jogou a bicicleta na grama e sentou no meio fio. Encarou o ponto onde a grama era um pouco mais alta, o ponto onde os pedaços da amiga foram abandonados. Era estranho como não havia nenhum indício de que um assassinato horrível ocorrera ali, centenas de pessoas deveriam passar por aquela estrada todos os dias mas nenhuma dessas pessoas sabia que uma adolescente teve sua vida encurtada ali, ninguém sabia que aquele lugar era responsável por tanto sofrimento...
Ninguém além dos que conheciam Luana, claro.
Rafa suspirou e apoiou o queixo em seus joelhos, ainda era tudo muito surreal para ela. Como um sonho ruim, como uma pegadinha. Mas os dias passavam e ela não acordava e ninguém aparecia pra dizer que era só uma brincadeira de mau gosto.
“Eu te perdoaria se isso fosse só uma brincadeira, Luana”, a garota pensou, “Juro por Deus, queria que fosse só mais uma das suas merdas idiotas...”.
A garota abaixou a cabeça, não queria mais olhar para aquilo. Tudo que conseguia imaginar nas últimas semanas era a amiga chorando, implorando por sua própria vida, sufocando com o próprio sangue... Faria tudo para apagar essas imagens e substituir por outras mais agradáveis como as vezes em que Luana sorriu depois de dizer algo engraçado, em como ela segurava sua mão quando elas tinham que fugir correndo de alguma coisa, em como ela a beijou naquele quarto antes de tudo começar a dar errado...
Rafa levantou a cabeça e voltou a encarar a cena do crime. Seus olhos pareciam queimar, as lágrimas queriam sair.
“Quem foi?”, pensou, “Qual deles teria a coragem pra fazer uma coisa assim?”.
***
Marina acordou com o toque insistente do seu celular, suspirou ao olhar pela janela e ver que ainda estava escuro.
—Alô? – perguntou com a voz cheia de sono e os olhos fechados.
—Tive um sonho horrível com ela – Eli disse entre soluços.
Marina se sentou na cama imediatamente, de repente pareceu se sentir muito desperta.
—O que houve?
—Foi horroroso – o garoto tinha dificuldades pra falar, ele parecia engasgar –Ela estava toda... Toda cortada e suja de sangue... E... Ela ficava pedindo a minha ajuda... Ela pediu a minha ajuda, Marina! E eu não conseguia... Não conseguia fazer nada... Eu...
—Você precisa se acalmar, Eli – Marina sentia seu peito apertado, como ela queria poder fazer todos esses sentimentos ruins que as pessoas próximas a Luana sentiam desaparecer. Queria ter a capacidade de aliviar o sofrimento de todos eles –Por favor, respira.
A loira escutou o namorado tentar controlar sua respiração, no começo foi horrível para ela ter que escutá-lo engolir o próprio choro e sufocar enquanto procurava se acalmar mas à medida que os minutos passavam, ele parecia ficar mais calmo.
—Eu estou aqui, eu estou sempre aqui – ela dizia, o ritmo da respiração de Eli se tornava menos desesperada a cada segundo –É tudo muito ruim, eu sei. Também sinto falta dela, também tenho pesadelos terríveis mas nada disso é a Luana de verdade, a gente tem que se lembrar de quem ela era de verdade.
—Nem sei mais como fazer isso... – ele confessou com um suspiro.
—Sabe sim, só tem que procurar lá no fundo – a garota o encorajou –Lembra no seu primeiro dia na nossa escola?
—Claro que lembro.
—Então me conta, isso vai ajudar você a se lembrar. Conta com o máximo de detalhes que você se lembrar...
—Ok – ele fez uma pausa antes de começar –Fui até a secretaria para descobrir onde era a minha sala, só tinha o supervisor lá então ele mesmo me levou até a sala. Tentei não encarar nenhum aluno quando cheguei lá, não queria chamar mais atenção do que já chamava. Então ele mandou eu me sentar e acabei sentando em uma cadeira perto dela. Lembro quando nossos olhares se encontraram, ela me reconheceu na hora e me deu um sorrisinho. Não um daqueles sorrisos que ela abre quando quer ficar com um cara, um sorriso sincero e isso me deixou feliz. Nunca quis ficar com Luana, achava ela linda e tudo mais mas sempre a vi como uma amiga e tentei ser um amigo tão bom quanto achei que ela merecia. Mas eu falhei...
—Não foi sua culpa, eu também falhei – a loira o interrompeu.
—Podemos fazer isso pra sempre, Nina – ele suspirou de novo –Todos nós falhamos.
Marina deitou na cama ainda com o celular na orelha. Apesar de não querer admitir isso, sabia que o namorado tinha razão. Todos tinham errado, isso a fazia pensar que todos eram responsáveis pelo que tinha acontecido.
E se todos eram responsáveis, então todos eles eram assassinos.
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