Uma dose violenta de qualquer coisa
13 Por que você voltou?
116 dias antes (ainda).
Eli limpava o sangue coagulado do rosto. A camisa suja de sangue e rasgada estava no lixo, ele estava sozinho em casa. O rapaz não conseguia relaxar, ele imaginava que Marina nunca mais olharia ou falaria com ele. Tudo bem, ele tinha sido provocado e estava tão machucado quanto Guilherme mas o olhar no rosto da garota era o de alguém que nunca vira tamanha violência.
“Que se foda, não vivemos em um mundo perfeito. Uma hora ela ia ter que ver a vida do jeito que ela é. Melhor que eu mostrasse isso à ela do que aquele namorado nojento!”, pensou consigo mesmo.
Ele estava com uma aparência péssima. O nariz estava roxo, tinha um corte logo embaixo do olho esquerdo, seu lábio estava inchado e o queixo tinha escoriações. Provavelmente Guilherme estaria bem pior...
Eli olhou para o punho. O nós dos seus dedos estavam inchados e roxos, em algumas partes a pele até havia se aberto. Ele bateu tanto no garoto que a sua mão estava dormente, imaginava como estaria o rosto do outro...
Assustou-se quando ouviu a campainha. Poderia ser um dos amigos de Guilherme querendo terminar o que eles haviam começado. O pensamento fez seu sangue gelar, ele já se sentia mal o suficiente por ter feito o que fez e não queria continuar machucando as pessoas. Respirou fundo e caminhou em direção à porta do apartamento. Ficou surpreso ao ver Marina parada lá.
Ela tinha pequenas manchas de sangue na blusa, provavelmente de Guilherme, um olhar triste e parecia não saber o que falar para Eli.
—Por que você está aqui? – ele perguntou sério mas sem ser rude.
—Eu só queria... – ela começou relutante –Ver como você estava.
—Agora que já viu, pode ir – ele se preparou para fechar a porta na cara dela mas a loira deu um passo a frente e ficou no caminho entre a porta e o batente.
—Espera! – Eli congelou –Eu fiquei preocupada de verdade. Em um minuto eu estava levando Guilherme pro carro depois, quando me virei pra te ajudar, vi que nem você e nem seu carro estavam mais no lugar...
—Eu não preciso de ajuda – ele respondeu.
—Não faça isso – ela pediu irritada –Não banque o garoto mau, sei que você não é!
—O que você sabe sobre mim?! – ele perguntou devolvendo a irritação dela, Eli cruzou os braços no peito e a encarou –Todo mundo não diz pra você ficar longe de mim? Por que não obedece a eles?
—Porque eu não faço o que as pessoas mandam. Eu tenho direito de escolher o que quero e se eu quiser ficar perto de você isso é problema meu e de mais ninguém! – ela respondeu e entrou no apartamento, Eli deu passos para trás procurando manter distância dela –Escuta, eu posso não te conhecer mas sei de uma coisa: você é igual a Luana! E o que posso dizer com certeza é que você tenta afastar as pessoas de você porque acha que vai ser melhor assim mas uma hora, assim como aconteceu com ela, você vai ver que tem algumas pessoas que merecem confiança. Só não espere ser tarde demais e essas pessoas já terem ido embora pra baixar sua guarda...
Eli continuou em silêncio por alguns segundos, ele não sabia o que falar para ela. Talvez Marina tivesse razão. O garoto disse:
—Eu só não quero causar problemas pra você.
—Por que você causaria problemas para mim? – ela perguntou confusa.
—Foi por minha causa que Guilherme estava atrás da gente, ele achava que eu estava tentando ficar com você.
—Pode deixar que eu vou ter uma conversinha com ele quando melhorar – ela acrescentou –Então... Estamos bem?
Eli a olhou. Aqueles olhos azuis fixos nos seus, o cabelo loiro emoldurando o seu rosto delicado, as roupas sujas do sangue do namorado, a pele branca que estava mais pálida hoje talvez por medo de tudo que tinha acontecido... Tudo isso parecia a transformar em um sonho e ele não queria destruir aquele sonho mas sabia que, agora que se permitira sonhar um pouco, não iria querer ficar longe dela. E se odiou por ter se permitido ser fraco.
Marina também o encarava admirada, ansiosa por uma resposta. O rosto dele, que apesar de parecer tão agressivo às vezes era ao mesmo tempo delicado, estava coberto de machucados, os olhos escuros a encaravam sem esboçar nenhuma reação, os cabelos brancos estavam bagunçados e a cicatriz no pescoço era totalmente visível agora que ele estava sem camisa. Ela conseguia ver seu começo, logo abaixo da orelha, e todo o percurso que fazia até terminar no seu peito. Ela se perguntou como ele conseguira uma cicatriz daquele tamanho.
—Sim – a voz dele a fez tremer por dentro, estavam quietos há tanto tempo que ela esquecera que fizera uma pergunta –Estamos bem.
Por um segundo, Marina achou ter vislumbrado um pequeno sorriso se formar nos seus lábios. Ela sorriu timidamente, se virou e saiu do apartamento.
Foi para o hospital, onde pretendia passar a noite com o namorado.
***
—O que você pensa que está fazendo? – Luana praticamente rosnou para a mãe mas a mulher não parece se abater, ela conhecia a filha melhor do que ninguém e já esperava esse tipo de reação.
—Você ainda é minha filha, tenho direito de vir ver como você está... – ela respondeu.
—Até parece que você se importa – Luana comentou e depois se virou para o pai –Por que não me contou que ela vinha?
—Eu ia, Luana – ele falou, parecia sincero –Ela viria no fim de semana mas decidiu passar aqui antes...
—Achei que quanto mais cedo resolvermos isso mais rápido eu poderia voltar para a minha vida normal onde eu não tenho que receber ligações do diretor da sua escola me falando sobre os problemas que você tem arranjado! – sua mãe interrompeu a fala do ex-marido –Você quer chamar minha atenção? Tem jeito mais fácil de fazer isso...
—Pode ter certeza que eu não quero nada de você – Luana a parou antes que ela dissesse mais alguma besteira –Então é isso que te incomoda? O diretor de uma escola de merda ligar para lembrar que você tem uma filha problemática, deixar sua consciência pesada e lembrar que sua vida não é perfeita? Depois eu sou a egoísta...
—Luana! – ela gritou –Você criou essa ilusão de que todo mundo te odeia e faz as coisas pra te prejudicar mas só estou tentando cuidar de você aqui.
—E que ótimo trabalho você faz tentando cuidar de mim – a loira se enterrou no sofá, o pai se limitava a escutar a discussão das duas calado.
A mãe de Luana suspirou antes de continuar:
—Não vou mais perder meu tempo com suas besteiras mas é óbvio que seu pai não pode ficar cuidando de você sozinho, você não o respeita e ele realmente acredita nas coisas que você fala. Talvez você consiga enganá-lo mas a mim você não engana! Chega de arrumar problemas, entendeu? Ou você para de fazer essas coisas ou vou te levar pra morar um tempo comigo, quem sabe assim você não se ajeita...
Luana olhou para a mãe aterrorizada. O pai permanecia calado encarando o chão, ele parecia não ter ideia do que falar ou fazer. A loira de levantou e se aproximou da mãe, poucas vezes havia sentido uma raiva que se comparasse ao que sentia agora. Disse rangendo os dentes:
—Meu pai não vai ficar nessa merda de cidade sozinho. Só tenta me levar com você, faço da tua vida um inferno!
A mãe a olhou assustada, Luana saiu pela porta da frente derrubando o que encontrava pelo caminho.
***
Rafa encarava o teto distraída. Luciana devia estar dormindo pesadamente no quarto, a médica estava fazendo tantos plantões nos últimos dias que a garota estava com medo dela ter algum tipo de derrame ou ficar louca. Mas ela sabia que tudo o esforço que a mãe adotiva fazia era com o objetivo de fazê-la ter uma vida confortável, e não tinha um dia em que não era grata por isso.
—Rafa! – escutou um sussurro que parecia vir do lado de fora, abriu a janela e viu Luana parada lá embaixo.
—Pode entrar, a porta está aberta. Luciana já está dormindo, não faz muito barulho...
A loira balançou a cabeça concordando e sumiu no escuro. Rafa se sentou na beira da cama e esperou até que ela entrasse em casa. A amiga demorou bastante pra subir, Rafa já estava pensando em ir atrás dela quando a loira entrou no quarto com metade de um sanduiche que estava na sua geladeira nas mãos.
—Desculpa, tive que parar na cozinha – a loira disse dando uma mordida –Estava morrendo de fome...
—Não comeu em casa?
—Não – a loira se apoiou na mesa de Rafaela –A minha mãe fez eu esquecer de comer...
—Sua mãe?! O que ela fez dessa vez? – Rafa perguntou.
—Decidiu aparecer pra uma visita surpresa e me falar um monte de bobagem... – Luana mordeu o sanduiche com força, sentiu seus dentes baterem um no outro com violência mas não estremeceu.
Rafaela arregalou os olhos ao ouvir isso:
—Não... Que merda ela falou pra você?!
—O que todos sabemos – Luana encarou a amiga rindo –Que eu sou um desastre, só trago problemas e tenho que ser consertada... Ah, ela também me disse que vai me levar pra morar com ela se eu não sossegar. Como se isso fosse possível... Só se ela me levasse amarrada!
—E em um carro de zoológico – Luana riu ao ouviu a amiga comentar isso –Só Deus sabe o que você faria na vida daquela mulher se ela conseguisse te levar embora.
—É por isso que eu te amo – a loira sorriu para a amiga.
—Lu... – Rafa continuou com cuidado, medindo cada palavra –Sei que nós estamos naquela nossa busca pela nossa dose violenta de qualquer coisa mas não acha que devemos pegar mais leve?
Luana encarou Rafaela, a garota se arrependeu do que disse no momento em que aquelas olhos cinzentos a fuzilaram. Rafa baixou a cabeça e torceu para Luana deixar pra lá o que ela dissera mas a loira se levantou e ficou parada na frente dela.
—Eu não posso parar – Rafa levantou o olhar até encontrar o dela novamente, ela não conseguia decifrar a expressão da amiga –Eu não tenho nada! Sei o que você vai falar: que eu tenho você, Marina, meu pai, muitas outras pessoas... Mas não é verdade! Um dia vocês vão se cansar dos meus problemas e eu vou ficar na merda então eu tenho que achar alguma coisa que me sustente e eu não posso pegar leve, Rafaela... Não posso, mesmo que eu me foda por isso.
—Bom – Rafa disse –Então vou ser uma boa amiga e me foder com você.
O sorriso que Luana deu foi tão lindo e genuíno que Rafaela achou que nunca mais fosse esquecer.
***
Marina estava encarando todos os médicos que passavam no corredor esperando que algum fosse falar com ela mas isso parecia não acontecer.
Depois que saiu da casa de Eli, Tiago e o garoto que acompanhava ele, cujo nome era André, ainda estavam na recepção esperando por notícias de Guilherme. Eles disseram rapidamente que um médico veio avisar que levaram ele pra fazer um raio-x da cabeça e alguns outros exames de nomes mais complicados e que ela não tinha ideia de para que serviam. Depois de algumas horas, ela percebeu o quão cansados os garotos estavam e falou para irem para casa, ela ficaria ali e daria notícias assim que pudesse.
Não tivera coragem de conversar com nenhum deles direito, ainda estava tão confusa. O que diabos eles estavam fazendo seguindo ela e Eli? Por que essa paranoia toda? Será que todo esse ciúme de Guilherme era uma coisa exagerada ou realmente fazia sentido? Ela não sabia nada sobre Eli e, quando ele perdeu a cabeça, viu um lado dele que realmente a assustava. Mas às vezes ele era tão doce e calmo que duvidava que ele fosse capaz de fazer mal a qualquer pessoa. Não sabia em que acreditar...
—Marina Duarte? – um homem de jaleco branco parou na sua frente –Está aqui pelo Guilherme?
—Sim – ela respondeu se levantando depressa –Como ele está? Está tudo bem?
—Sim, sim – o homem sorriu tranquilamente –Aliás, ele está perguntando por você. Venha comigo, por favor.
Marina afastou todos os pensamentos confusos e se preparou para passar a noite ao lado do namorado.
Fale com o autor