152 dias antes.

Luana não foi para a aula o resto da semana, nem atendeu as ligações das meninas o que as deixou muito preocupadas mas ela precisava de um tempo para ela mesma. Disse ao pai que ia dormir na casa de uma amiga e voltava no dia seguinte. Pegou uma mochila, encheu de comida e roupas e foi em direção ao bosque nos limites da cidade, aquele em que costumava passar o tempo com as duas melhores amigas quando alguma delas queria fugir de algo. Mas ao invés de ficar no lago, se embrenhou no meio da mata.

Para uma pessoa inexperiente, seria perigoso andar por aquele local mas não para Luana. A garota tinha desenvolvido um sistema próprio, um jeito de andar por qualquer lugar em segurança. E no meio do bosque tinha achado há alguns anos uma casa na árvore abandonada, decidiu transformar aquele local no seu refúgio pessoal, um lugar só dela e de mais ninguém. Trocou as madeiras velhas, reformou o telhado, fez uma nova pintura, encheu com seus objetos pessoais e secretos como diários e CDs feitos por ela mesma e conseguiu criar algo que parecia a sua cara. Nunca contara a ninguém sobre esse lugar, nem mesmo para as amigas. Luana achava algo reconfortante na solidão e, no momento, era tudo que precisava.

***

—Estou preocupada – Rafaela comentou durante o almoço em um restaurante duvidoso, estava sentada com Marina, Guilherme e Tiago (o garoto com que saíra nas férias e todas as pessoas pareciam querer empurra-la para ele).

—Eu também, ela não foi suspensa então não tem motivos para faltar às aulas – Marina comentou –Fiquei sabendo que o diretor só teve uma conversa com ela, já que não tem provas. Não entendo porque ela não está vindo...

—Ora, ela é louca, isso já é motivo o suficiente – Guilherme disse entre uma colherada da nojenta sopa de feijão, Marina cutucou ele com os ombros –Sabe que é verdade, amor. Sabe também que ela adora dar essas sumidas e fazer um mistério básico. Não deveriam gastar o tempo de vocês se preocupando com ela...

—Olha – Tiago comentou timidamente –Não vou dizer que concordo com o Guilherme mas sabem que nunca acontece nada de ruim com a Luana por mais que ela busque isso. Vai ficar tudo bem.

—Guilherme só fala isso porque está com raiva por causa do jogo. Vocês iam perder de qualquer jeito, Luana só deixou tudo mais interessante para todos que estavam assistindo – Rafaela protestou com raiva.

Guilherme a encarou um pouco surpreso e comentou:

—Está passando tempo demais com essa garota, até está começando a falar como ela...

—Chega! – Marina chamou a atenção de todos –Sei que você não é muito fã da Luana, Gui, grande parte dessa escola também não, mas não significa que ela não mereça um pouco de preocupação.

—Ok, ok, desculpa – Guilherme apertou a mão da namorada gentilmente.

—Mas o que acham que pode ter acontecido? – Tiago perguntou curioso.

—Vamos descobrir – Marina falou.

***

Luana comia calmamente um dos sanduiches que tinha preparado. Era um sanduiche com pão, peito de peru, queijo e requeijão. O pai era fã desses sanduiches então ela deixara alguns na geladeira para ele para se redimir de toda preocupação que causava o tempo todo. A garota não lamentava ser diferente mas sabia que poderia causar menos problemas se esforçasse-se para isso.

Ela olhava o céu com admiração. Não havia uma nuvem sequer, era tudo tão limpo e calmo que a assustava. Sentia-se em paz sempre que estava ali e às vezes gostaria de ter essa sensação mais constantemente do que podia.

“E se a minha dose violenta de qualquer coisa for isso? Um pouco de calma e sossego?”, pensou sozinha. Mas rapidamente chegou a conclusão que não, essa paz era boa por um dia ou dois mas o que mais a atraía era o risco, o perigo, a imprevisibilidade e a possibilidade de algo totalmente surpreendente acontecer a qualquer instante.

Ela acharia isso um dia? Torcia que sim...

***

—Mas e se ela não estiver em casa? – Tiago perguntou.

—Não custa nada perguntar – Guilherme comentou enquanto os quatro caminhavam em direção à casa de Luana, faltavam apenas alguns quarteirões.

—E se ela tiver saído escondida e o pai não saber que ela saiu? – Rafaela perguntou –É bem possível, se tratando de Luana.

—Tem razão – Marina fez todos pararem –Vamos acabar arrumando mais problemas para ela se fizermos isso...

—Então, o que faremos? – Tiago perguntou.

Marina e Rafaela se encararam e, com apenas um olhar, pareceram pensar na mesma coisa. O único lugar onde ela poderia estar era o lago no bosque. E Luana odiaria se elas levassem Guilherme e Tiago até lá, aquele lugar era delas.

—Vamos procura-la sozinhas, é melhor – Marina disse com o apoio de Rafaela.

—Tem certeza? – Guilherme parecia chateado. Apesar de não gostar de Luana, sempre estava por perto o máximo que podia, não queria deixar a namorada sozinha com aquela garota.

—Sim, vai ficar tudo bem – Marina deu um beijo rápido no rosto do namorado para convencê-lo a deixa-la ir.

—Não vão se meter em encrenca, não é? – Tiago perguntou se virando para Rafaela e a fazendo corar.

—Claro que não – Rafa respondeu envergonhada.

Os garotos ainda tentaram insistir para que fossem juntos visto que não sabiam em que tipo de confusão Luana tinha se metido mas as meninas foram firmes e os fizeram ir embora. Elas logo começaram a andar em direção ao lago.

***

Luana ficou um tempo examinando a casa e pensando. Seus cadernos, nos quais escrevera sobre acontecimentos e pessoas ao longo dos anos, estavam todos espalhados pela mesa de madeira. Ela lera um por um e sentia-se exausta, como se tivesse vivido todos aqueles anos novamente em apenas algumas horas. Estava deitada na cama improvisada no canto da casa e comia devagar um pacote de salgadinhos que trouxera consigo. Ela se sentia bem, apesar de tudo.

Era reconfortante o cheiro da madeira antiga, as fotografias na parede. A maioria eram de Marina e Rafaela mas havia muitas de seu pai, alguns amigos antigos e até mesmo da mãe em uma época mais feliz, antes dela fazer todas as merdas que fez e destruir sua família. Antes de abandonar seu pai pouco antes dele descobrir que tinha câncer.

Luana, incomodada demais com os pensamentos ruins que voltavam mais uma vez, decidiu dar uma caminhada até o lago mais tarde. Quem sabe um mergulho à noite faria bem para sua cabeça.

***

Marina e Rafaela levaram bastante tempo para chegar até o lago, elas pareceram ficar desanimadas depois que os meninos foram embora. Nenhuma disse uma palavra até chegar ao lugar. Marina suspirou quando chegaram e viram que ela não estava lá.

—Ótimo, ela sumiu e vamos acabar achando-a aos pedaços por aí – a loira se sentou na beira do lago e abaixou a cabeça.

—Ela vai ficar bem – Rafa se sentou ao lado da amiga e tocou seu braço com delicadeza –Não existe ninguém mais esperta do que ela nesse mundo.

—Então por que ela insiste em se colocar em perigo? – Marina encarou a amiga com olhos tristes –Sabe que nós duas sentimos a mesma coisa em relação à Luana: medo. Tenho medo de acordar e ver que ela sumiu pra sempre ou foi morta ou coisa pior...

—Para com isso, Marina – Rafa tremeu com as insinuações da amiga –Nada nunca vai acontecer, se tem alguém que sabe como se virar esse alguém é ela!

—Eu sei, só fico preocupada. Sabe que me preocupo demais com ela – Marina jogou pedrinhas na água e as observou afundar –Ela é muito inconsequente, só cuido para que ela não cometa nenhuma loucura.

—Eu também, Marina, sabe que eu também – Rafa comentou olhando para o chão.

—Às vezes não parece, você tem a apoiado bastante – Rafaela olhou para a amiga um pouco confusa –Naquele dia você quis ir para a boate, depois ficou aqui com ela a noite toda, ajudou Luana a acionar o alarme de incêndio. Ela é nossa amiga mas você não pode esquecer o quanto ela sabe nos manipular e nos convencer a fazer exatamente o que ela quer.

—Faço as coisas que quero, Marina, e ela não tem nada a ver com isso – a garota respondeu um pouco magoada –Posso não concordar com as escolhas dela mas a amo mesmo assim.

—Eu sei – a loira suavizou sua expressão percebendo o quanto deixara a amiga chateada –Eu também a amo e sei que ela nos ama apesar de tudo.

As duas amigas olharam para o céu e viram que já estava começando a escurecer.

—Acho melhor irmos – Marina se levantou e limpou a grama que havia sujado seu short.

—Quero ficar um pouco aqui – Rafaela pediu sem olhar para a loira.

—Rafa, não quis te deixar chateada... – Marina começou mas foi interrompida pela amiga.

—Não estou com raiva, só quero ficar sozinha. Tudo bem?

Marina a encarou por um segundo e depois sorriu tristemente.

—Tudo bem, me liga se precisar de alguma coisa – e foi embora.

Rafa permaneceu sentada até o bosque começar a ficar escuro. Ela estava tão preocupada com a amiga que não ouviu os passos se aproximando por trás dela.

***

Luana se surpreendeu quando viu Rafaela sentada na beira do lago. Ficou parada entre as árvores esperando a amiga ir embora mas, ao ver o quão triste e preocupada ela parecia estar, decidiu ir falar com ela.

—Já está tarde pra ficar sozinha no meio do bosque – ela disse e sorriu ao ver a amiga se virar assustada. Rafaela a encarou por alguns segundos e correu para abraça-la.

—Onde diabos você estava? – ela perguntou baixinho com os braços apertando a cintura da amiga.

—Andando por aí – Luana sorriu ao se afastar e encarou profundamente os olhos de Rafa –Por que todo esse drama?

—Nós ficamos loucas de preocupação! – a amiga começou a falar rápido demais –Você faltou aula e nós ligávamos para seu celular mas não conseguíamos falar com você, pensamos em ir na sua casa mas você podia ter saído escondida e não queríamos alertar seu pai então nós...

—Quer nadar no lago? – Luana perguntou distraída olhando para o nada, Rafaela a encarou como se ela estivesse louca.

—O que?

—Nadar no lago – a loira fixou os olhos cinzentos na amiga –Tipo um banho espiritual, pra lavar tudo de ruim que tem acontecido. Um novo começo, sabe?

—Você tem lido os livros que eu te indiquei? – a loira concordou com a cabeça –Talvez você devesse parar de lê-los.

Luana riu e puxou a amiga até a margem.

—Vamos – a loira tirou a blusa e isso deixou Rafaela desconcertada que procurou não olhar mas era impossível.

Havia um magnetismo em Luana que nenhuma outra pessoa no mundo teria e seu corpo era lindo de olhar. Rafaela observou a cintura fina e bem desenhada da amiga com inveja, ela faria de tudo por curvas como aquelas. Luana tinha uma tatuagem na escápula que Rafa adorava olhar, era um lobo e, para ela, tornava a loira ainda mais linda e misteriosa. Ela tirou o short e deixou à mostra um bumbum sem uma celulite ou imperfeição, com formato perfeito. Pernas longas e coxas grossas pareciam se encaixar perfeitamente naquele conjunto que era o corpo de Luana.

—Vai ficar olhando ou vai entrar comigo? – a loira perguntou rindo.

Rafaela, sob o olhar intenso de Luana, tirou a roupa também mas não se sentia sexy como Luana deveria se sentir e se odiou por isso. Ela era magrela e tinha bem menos curvas, procurou se despir o mais rápido possível para entrar logo na água.

A loira de olhos cinzentos a puxou pela mão e as duas mergulharam na água gelada apenas com as roupas de baixo.

Rafaela tremia mas Luana parecia se divertir indo até o fundo, ficando vários segundos embaixo d’água e assustando a amiga ao emergir.

—Você se assusta muito fácil – ela comentou rindo, os cabelos loiros grudados na nuca.

—Você também ia se assustar se eu ficasse um tempão embaixo d’água e depois aparecesse atrás de você.

—Claro que não – Luana protestou jogando água na cara de Rafa.

—Para com isso! – ela devolveu a provocação.

Logo as duas se sacudiam rindo sem parar enquanto espirravam água uma na outra. Quando ficaram cansadas demais para continuar com a brincadeira, juntaram suas coisas e foram para a casa de Rafa. Luciana estava mais um dia de plantão então elas comeram, riram e beberam até se sentirem tontas e desmaiarem de cansaço na cama de Rafaela.

***

151 dias antes.

Luana sentiu os raios de sol queimarem seus olhos e sentou-se. Tinham esquecido a cortina aberta na noite passada. Demorou um tempo para lembrar onde estava.

Olhou para o lado e viu Rafaela dormir tranquilamente. Ela estava com uma daquelas blusas largas que deixam qualquer garota horrorosa mas ela não estava feia, pelo contrário, ela estava uma graça. Luana sorriu e se deitou novamente ao lado dela. A loira colocou um dos braços em volta da cintura da amiga e a sacudiu de leve.

Rafaela abriu os olhos devagar e sorriu.

—Acha que eu sou louca? – Luana perguntou baixinho e o sorriso sumiu do rosto de Rafa imediatamente.

Se a loira estivesse rindo ou com um de seus sorrisos sarcásticos no rosto, a garota talvez respondesse que sim mas ela parecia enfrentar um conflito interno e necessitava de uma resposta urgente. Rafa descansou a cabeça no ombro dela e respondeu:

—Loucos são os que não gostam de você.

—Não perguntei dos outros, perguntei de mim – ela insistiu.

—E por que isso seria ruim? Você é melhor do que a maioria das pessoas, sendo louca ou não – Rafa disse, a loira beijou a testa da amiga delicadamente.

—Às vezes eu acho que você é a única pessoa que me conhece de verdade...

—É porque você não consegue se esconder de mim, Luana – ela sorriu –Tenho uma mente aguçada que percebe tudo.

A loira olhou para o relógio no criado-mudo e se sentou.

—Pena que sua mente aguçada não percebeu que é hora de eu ir...

—Já? Posso pedir para minha mãe ir te deixar quando ela voltar.

—Ela passou a noite no hospital de plantão, não seria justo – Luana respondeu, ela não queria carona pois ainda tinha que passar na casa da árvore para pegar suas coisas.

—Ok, então. A gente se vê na escola amanhã? – os olhos de Rafa pareciam suplicar.

—Com certeza – Luana sorriu.

—E você vai me contar porque sumiu? – a garota parecia implorar por uma resposta.

—Talvez.

—Luana...

—Relaxa, não é grande coisa – ela se aproximou da amiga e deu um beijo rápido no rosto dela –Tchau.

—Tchau – Rafa colocou a mão no rosto depois que a amiga saiu, ela ainda sentia o contato muito depois dela ir embora.