Uma dose violenta de qualquer coisa
42 Culpa
3 dias depois.
Marina observava os alunos entrando pela porta principal do colégio, a maioria estava rindo e conversando pelos corredores como se nada tivesse acontecido há apenas alguns dias, como se uma das alunas daquela escola não tivesse sido despedaçada e jogada na beira da estrada.
A loira estremeceu ao pensar nisso. “Esquartejada”, pensou, “Nunca uma palavra pareceu tão horrorosa”. Se alguém lhe dissesse que as consequências por ter ido embora da festa daquele jeito seriam essas, ela nem teria ido para aquele maldito lugar.
—Ei – Eli se aproximou por trás de Marina devagar, o garoto tinha olheiras debaixo dos olhos mas a loira imaginou que ela deveria ter também –Como você está? Sinto muito não ter ido te ver ontem, fiquei sabendo que te interrogaram e imaginei que talvez quisesse ficar sozinha por um tempo...
—Não precisa se desculpar, Eli – ela se virou para o garoto, algo parecia incomodá-lo e estar preso na sua garganta –Sei que as coisas não estão sendo fáceis pra você também...
—É, eu amava aquela louca – ele respondeu olhando para o chão.
—Eu amava também... – Marina concordou.
—Sabe, eu... – Eli passou a mão pelos cabelos brancos –Eu queria me desculpar pelo que fiz na festa, por ter ido embora que nem um garotinho inseguro, como você disse...
—Eli – Marina o interrompeu –Você não é um garotinho inseguro e eu faria qualquer coisa pra apagar o que eu disse.
—Mas não é só sobre o que você disse – o garoto continuou, seus olhos escuros fixos nos olhos azuis de Marina –Se eu não tivesse ido embora primeiro, talvez nada daquilo tivesse acontecido, talvez Luana não tivesse...
O garoto abaixou o olhar novamente, a loira sentiu toda a dor e culpa que ele sentia em sua voz. Marina odiou isso, Eli não deveria ser responsabilizado, fora ela que começara a discussão, fora ela que fizera tudo dar errado, ela era a responsável pela morte da amiga.
—Eu que comecei com aquilo, você não tem que se desculpar por isso! – a loira sentiu os olhos encherem de lágrimas e sua voz falhar, tocou o braço de Eli gentilmente o que fez com que ele voltasse a olhá-la nos olhos –É culpa minha, não sua...
—Você é uma idiota se acha que eu vou te deixar assumir isso sozinha – ele disse com os olhos marejados também –A gente tinha que proteger ela, Marina. Eu não consigo acreditar em como a gente conseguiu falhar tão feio!
—Eu também não, Eli. Eu... – uma lágrima escorreu pelo rosto de Marina, a loira a secou rapidamente mas outras vieram e logo sentiu toda aquela angústia apertar seu peito novamente –Meu Deus, não fazem nem três dias e eu sinto tanta falta dela...
—Eu também, Nina – o garoto a abraçou e sentiu quando as lágrimas de Marina molharam o tecido de sua camisa, as pessoas em volta começavam a encarar os dois e as risadas no corredor morreram aos poucos –Quer ir embora daqui? A gente pode ir atrás da Rafa, matar aula e ir para o lago.
—Não posso voltar lá, não agora – a loira respondeu –Não consigo voltar lá sem ela e a gente teria que passar pelo lugar onde... Onde encontraram o corpo. Não posso passar por isso agora!
—Tudo bem – ele esfregou as costas de Marina e deu um beijo no topo de sua cabeça –Vamos pra aula então.
Marina secou as lágrimas e caminhou com Eli, abraçou sua cintura enquanto os braços do namorado envolviam seus ombros.
***
Rafaela não conseguira dormir nada na noite passada, passara a madrugada pensando nos últimos dias. Por isso, nesse momento, não conseguia prestar atenção na aula de Religião que estavam tendo, não parecia ter importância quando lembrava de tudo que acontecera nos últimos dias. Rafa só desejava que o dia acabasse logo.
Olhou para o outro lado de sala e viu Eli olhando alguma coisa pela janela, ou talvez ele não estivesse olhando nada de verdade, talvez estivesse apenas como ela, tentando se teletransportar para uma outra realidade, uma realidade onde Luana estivesse viva. Gostaria que isso fosse possível...
Marina, por outro lado, parecia prestar atenção demais no professor. A loira provavelmente queria qualquer coisa para se distrair do que aconteceu, alguma coisa que a fizesse se esquecer da culpa por alguns instantes. Rafaela sentia-se mal quando pensava na culpa que Marina carregava, a verdadeira culpada não fora a loira...
A garota lembrou-se daquela noite, daquele último dia que teve com Luana. Em como tudo se resolvera e ao mesmo tempo se perdera para sempre. Lembrou-se de como estava chateada sozinha naquele quarto mas logo a loira entrou e consertou tudo. Lembrou dos beijos... Meu Deus, como faria qualquer coisa pra ter dado um último beijo nela! Se soubesse que aqueles seriam os últimos... Lembrou de como Luana pediu para que ficassem no quarto, para que continuassem se beijando, Rafa queria tanto ter feito isso! E depois se lembrou das coisas que falou antes de ir embora atrás de Marina:
—Rafa...
“Luana me chamou depois que Marina saiu irritada”.
—O que foi?!
“Eu respondi com tanta raiva”.
—Podemos ir agora?
“Ela só queria ir embora, sabia que tinha errado e se sentia culpada”.
—E deixar Marina sozinha do jeito que ela está? Nem pensar, vou atrás dela.
“Me arrependo tanto agora, queria ter ido embora com Luana”.
—Vou com você...
“Luana queria consertar as coisas, ela tinha dito antes que estava cansada de fazer merda. Ela tinha dito na noite em que me beijou pela primeira vez...”.
—Não. Você já fez o suficiente por uma noite.
“Eu não queria ter soado tão amarga, deveria ter sido mais compreensiva. Talvez fosse culpa da vodka que tinha bebido”.
—Mas...
“Oh, Luana...”.
—Mas nada! Tenho que ir atrás dela resolver a merda que você fez, como sempre...
“Por que eu não fui mais compreensiva?”.
—Rafa...
“Luana contava comigo”.
—O que foi?
“Eu deveria ter sido melhor, ela merecia isso...”
—Achei que você tinha dito que não ia me deixar sozinha.
“Eu realmente tinha dito isso”.
—Isso foi antes de saber o que você fez.
“O que eu esperava que ela tivesse feito? Guilherme a tinha chantageado, talvez ela estivesse tentando ajudar Marina do jeito dela. Nós sabíamos que ela tinha um jeito diferente de fazer as coisas”.
—Não posso ir com você?
“Ela só queria ir comigo, por que não deixei?”
—Não. Depois eu te procuro.
“Mas eu não fiz isso. Não achei Marina então fui embora. Por que eu não a procurei depois?”
Rafaela sentia falta de ar, encarou o caderno com as anotações do quadro tentando se concentrar em algo que não fossem os próprios pensamentos. Sentia tantas coisas ruins e confusas dentro dela que não saberia como começar a explicar: raiva, tristeza, culpa, tudo junto e misturado... Ergueu cabeça e olhou para o quadro, as anotações que o professor havia feito pareciam rodar em frente aos seus olhos tornando impossível que fossem lidas.
—Então, de acordo com o Budismo, o nirvana seria um estado de libertação. Alguém aqui tem uma ideia de como poderíamos alcançar esse estado? – o professor perguntou para a turma.
—Drogas! – alguém gritou do fundo da sala fazendo todos caírem na gargalhada.
—Não, nada de drogas – o professor revirou os olhos e cruzou os braços –Alguma ideia? Alguém?
Um silêncio tomou conta da turma por alguns segundos. Até Letícia levantar a mão e ser encorajada a falar:
—Bom, talvez a morte seja uma libertação?
—E por que você acha isso, Letícia? – o professor perguntou curioso, a atenção de toda a sala, inclusive de Rafaela, estava voltada para ela agora.
—Bom, a gente pode usar como exemplo o que aconteceu com Luana... – Marina e Eli se remexeram desconfortáveis em suas carteiras, Rafa não conseguia acreditar no que estava ouvindo, o tom que Letícia usava para falar era tão falso que causava náuseas nela –Todos sabemos a vida difícil que ela levava, talvez agora ela tenha conseguido a paz que ela merecia...
Os outros alunos olharam para ela como se o que tivesse dito fosse digno de aplausos, Rafa sentiu nojo de tudo isso, de como todos agiam como se a vida de Luana fosse importante para eles. Marina e Eli olhavam para Letícia com um vazio tão grande no rosto que dava dó, mas Rafaela era puro ódio.
—Talvez ela tivesse conseguido a paz que merecia se você e seus amigos de merda não fodessem com a vida dela o tempo todo – Rafa disse com calma e todos os olhares se voltaram para ela, o professor a olhava de boca aberta pois a garota nunca abrira a boca para falar nas aulas daquela disciplina, muito menos para falar algo tão ofensivo –Você pode pegar seu falso luto e sua falsa empatia e enfiar no rabo. Aliás, todos vocês podem fazer isso!
—Rafaela, eu acredito que... – o professor tentou amenizar a situação enquanto a turma olhava o que estava acontecendo sem reação, Marina e Eli pareciam congelados.
—Ah, é? – Letícia se virou para a garota –E por acaso você ajudou a vida dela de algum jeito? Tudo que eu via você fazendo era passar a mão na cabeça dela e incentivar as idiotices que ela queria aprontar...
Rafa sentiu como se tivessem dado um soco no seu peito, um daqueles socos tão fortes que te deixam sem ar. Ela simplesmente pegou suas coisas, levantou da cadeira e saiu da sala antes que alguém pudesse ver as lágrimas descendo pelo seu rosto.
Ouviu a porta da sala se abrir logo atrás dela mas não se virou, queria sair daquele lugar o mais rápido possível. Mas não demorou para que sentisse uma mão agarrando sua mochila e a parando, começou a soluçar quando viu que eram Marina e Eli.
—Como eu vou fazer isso?! – ela sentou no chão do corredor enquanto meio gritava meio chorava –Como eu posso continuar vivendo sabendo o quanto eu fui inútil?!
—Rafa... – Marina sentou ao lado dela e a abraçou, Eli a imitou.
—A gente sempre cuidou bem dela, o que deu errado?! – a garota perguntou com o rosto entre os ombros dos dois amigos –Eu tinha prometido que não ia deixar ela sozinha...
—Eu sei, Rafa – Eli disse –Mas a gente tem que... Tem que ter calma, vamos pensar nas coisas e resolver tudo juntos. A gente não pode se desesperar desse jeito.
—Eu tenho tanta raiva – Rafa confessou cerrando os dentes –Tanta raiva dessas pessoas fingindo se importar, como eles conseguem não se sentirem culpados?
—Rafa – Marina se afastou um pouco para poder olhar a amiga nos olhos –Não vai adiantar a gente pensar assim... Sinto muito, não podemos fazer nada.
Rafaela viu toda a tristeza que Marina sentia com esse fato estampada em seus olhos, Eli também a encarava com uma expressão parecida. A garota tentou respirar fundo e se acalmar, sentia a cabeça doer.
—Vem, vamos te deixar em casa – Eli ajudou Rafa a se levantar, a loira envolveu os ombros da amiga enquanto o garoto segurava seu braço gentilmente –Você pode descansar por hoje. Amanhã é outro dia.
***
4 dias antes.
Rafaela acordou com o barulho do celular tocando, ainda nem havia amanhecido e suspirou ao lembrar de que teria que ir à escola em algumas horas. Olhou o nome na tela e atendeu:
—Oi, Marina.
—Sinto muito ter te acordado mas achei que você deveria saber por mim...
—O que foi? – a garota sentou na cama sentindo-se subitamente desperta, o medo tem esse poder sobre as pessoas.
—O corpo da Luana foi liberado pela polícia, vão fazer o funeral no final de semana. No domingo, se não me engano. Ouvi meu pai no telefone com o pai da Luana. Enfim, eu e o Eli vamos...
Rafaela ficou em silêncio por alguns segundos, nem tinha pensado no maldito funeral. Como se não fosse o suficiente o que estivera chorando nos últimos dias, agora tinha que ver fecharem a amiga morta em um caixão e a enterrarem pra sempre debaixo da terra...
—Não sei se consigo...
—Eu também não sei, mas vou mesmo assim. Talvez tudo fique mais claro se eu ver... Ela enterrada, sabe? – a loira suspirou.
—Marina?
—Oi.
—Como vão fazer isso? Quero dizer... – Rafaela se embolou com as palavras –Como vão colocar ela em um caixão para todos ficarem olhando sendo que ela foi... Você sabe.
—O caixão vai estar fechado – Marina respondeu, Rafa prendeu a respiração –Honestamente, agradeço por isso. Não sei se ia aguentar vê-la toda costurada dentro daquele negócio, não sei se aguentaria vê-la dentro de um caixão de qualquer jeito na verdade...
—Sim, eu também não – Rafa fechou os olhos, toda vez que mencionavam a forma como Luana tinha morrido imagens do seu corpo despedaçado vinham à tona em sua cabeça, a garota detestava essas imagens mas teria detestado ainda mais ver isso ao vivo –Mas não sei se vou, não sei mesmo.
—Tudo bem – a loira a tranquilizou –Só quis perguntar mesmo. Até depois.
—Até.
—Rafa – Marina fez uma pausa um pouco longa demais –A gente vai ficar bem no final, você vai ver.
—Eu espero – Rafa disse sem convicção.
—Eu te amo – a loira disse com a voz falhando.
—Eu também te amo, Marina – Rafaela respondeu com um nó na garganta.
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