Uma dose de Petra
1 Recomeçar
Eu estava sóbria há dois meses e tudo o que eu pensava todos os dias era em como iria sobreviver sem o calor da vodka descendo por minha garganta por mais um dia.
Minha mãe não largava do meu pé. Toda hora ela vinha perguntar se eu estava bem e se queria alguma coisa. E eu ficava tipo “quero você fora daqui, mãe”.
Eu tentava ser legal com ela porque afinal isso tudo era minha culpa.
Eu comecei a beber com catorze anos. Inicialmente eu bebia socialmente em festas ou coisas do tipo. Até que um dia, meu pai, por algum motivo que na época me era desconhecido, deu uma surra em minha mãe e ela perdeu o que teria sido meu irmãozinho. Eu fiquei completamente sem chão. Então lembrei que meu avô quando era vivo sempre dizia que para afogar as mágoas nada melhor que álcool. Então eu bebi, bebi muito. Desde então eu sempre escondia uma garrafa no meu armário para beber a noite, mais tarde descobri que não conseguia esperar todos os dias até a noite para beber, e então, bebia escondida todo o tempo que podia. Até que um dia eu fui levada para casa por um amigo do trabalho de meu pai que me encontrou inconsciente e vomitada em um bar sujo.
Quando meu pai descobriu que sua única filha de dezesseis anos estava alcoólatra, ele pirou. Deu-me uma surra, gritou com minha mãe e jogou toda a culpa em cima dela, três dias depois disso, ele colocou todas as suas coisas em uma mala e foi embora com uma ruiva que deveria ter pouco mais de vinte anos e que dirigia uma BMW vermelha.
Mamãe chorou por mais de um mês. Depois começou a fazer terapia e a usar antidepressivos. Eu tinha muita pena dela, mas o álcool era a minha saída piscando em letras gritantes. Eu bebia e todos os problemas desciam junto com a vodka pela minha garganta. Tudo virava nada e só o que importava era o agora.
Minha mãe estava cada vez pior, até que um dia no meio da madrugada ela me acordou.
-Precisamos de um recomeço. Nós duas. –dissera ela. –Vamos para o Rio de Janeiro.
Eu estava com muita pena dela, então achei melhor ficar quieta e fazer o que ela quisesse.
Então lá estava eu. Em um apartamento minúsculo e calorento em Botafogo tendo que aturar minha mãe perguntando sobre minha sobriedade a cada três batidas de coração, e sem bebida. Era o inferno com 38,3º.
O apartamento, apesar de pequeno, não era totalmente horrível.
Dois quartos, sala, uma cozinha e um banheiro que, graças aos céus, tinha uma banheira de mármore, caso eu quisesse me afogar um dia desses.
Meu quarto tinha uma enorme janela, do chão ao teto, que dava para as ruas botafoguenses. Eu amava sentar no chão de frente para a janela e observar as pessoas. Um homem barbudo que passava em frente a meu prédio todos os dias às 11 horas, uma senhora que levava o cachorro para passear junto com uma garotinha diariamente pela manhã... Era tão tranquilizante observar a vida das pessoas pela janela.
-Petra, querida, está bem? –minha mãe perguntou pela centésima vez no dia.
Revirei os olhos para ela e fingi estar me enforcando com as mãos.
Ela riu.
-Vá dormir, amanhã é o primeiro dia de aula e quero que faça amigos. –ela disse com uma euforia, como se no dia seguinte ela fosse para a aula e não eu.
-E dormir cedo me traria amigos por quê...? –perguntei.
-Por que dormindo cedo, se pode dormir mais e assim você estará amanhã: sem olheiras e mais disposta para um novo dia cheio de novas amizades. –ela disse sonhadoramente como se estivesse em um filme da Disney.
Fiz uma careta.
Ela me cobriu como se eu ainda tivesse seis anos e me plantou um beijo na testa.
-Amanhã é a sua chance de ser uma nova Petra, querida. –ela sussurrou, sorriu e saiu fechando devagar a porta do quarto.
“uma nova Petra”?
O que havia de errado com a antiga Petra? Exceto meu vício cada vez maior por álcool, eu não era uma garota má. Andava com algumas pessoas totalmente piradas, tipo viciados e vadias? Sim, eu andava. Mas afinal, andar com “más companhias” faziam de mim uma pessoa ruim? Eu realmente precisava ser uma “nova Petra”? O pensamento voou em minha cabeça até que de repente o bip do despertador me fez pular da cama assustada no dia seguinte.
-Merda de despertador. –falei jogando aquele treco pela janela.
Ouvi um homem gritando um palavrão lá de baixo e ri.
Tomei lentamente um banho que foi atrapalhado por minha mãe gritando para eu não me atrasar.
Coloquei a horrível blusa cinza e azul da escola nova, um jeans escuro e meu All Star preto.
Minha mãe deu um gritinho quando me viu.
-Petra, você penteou esse cabelo? –ela me repreendeu.
Lancei-lhe um olhar suplicante que foi recebido com um olhar irritado.
Arrastei-me para o banheiro e me encarei no espelho. Meu cabelo realmente parecia feno.
Preguiçosamente passei a escova nele até que estivesse aceitável.
-Passa um gloss e um rímel. –minha mãe falou atrás de mim me encarando pelo espelho.
-Mãe.. –comecei a objetar.
-Sem ‘mãe’. Só faça o que eu disse. –ela mandou e saiu.
-Filha obediente, mãe feliz. Filha obediente, mãe feliz. –repeti para mim mesma na frente do espelho enquanto me transformava em uma versão de palhaça gótica com esse rímel preto e esse gloss vermelho.
Pensei em como seria bem vinda uma garrafa de qualquer coisa que houvesse qualquer conteúdo alcoólico.
-Você está tão lind..
-Palhaça. – interrompi minha mãe. –Me sinto uma palhaça fazendo uma estreia no circo.
Ela me deu um beijo na bochecha.
-É uma bela palhaça então. –falou.
Minha mãe cantarolava alegremente enquanto dirigia para meu novo local de tortura.
Estacionou na frente de um enorme portão aberto com dezenas de garotas e garotos.
Parecia ser bem grande. O gigantesco muro pintado de cinza e azul tinha arame farpado no alto, havia uns seis seguranças no portão e aquela multidão de pessoas com o mesmo uniforme.
Senti como se estivesse entrando na prisão.
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