Uma cinderela distraída

1 Uma Cinderela distraída


Jenny estava super atarefada com um relatório para entregar e adiou por achar que não estava perfeito o bastante. Chegou o grande dia de fazer o envio, terminou tudo com muita luta e prometeu a si mesma que não iria mexer mais. Pensou estar livre agora, até o celular tocar e com ele uma notícia que mudaria seus planos para a noite.

Era sua amiga perguntando se estava tudo bem para o casamento. “Casamento? De hoje?” — pensou Jenny. Mas disfarçou bem, ao dizer que estava se arrumando, além disso, Jenny seria uma das madrinhas de casamento da amiga e não poderia falhar em hipótese alguma. Para sua sorte, tinha tudo organizado para o casamento. Encontrou suas roupas e sapatos, misteriosamente separados, e ela pensou consigo mesma: “Quando fiz isso?”

Não havia mais tempo para perguntas, Jenny se arrumou e foi para o casamento. Ainda pensava em como aquelas roupas e sapatos estavam separados como se ela estivesse preparada para esse evento. Mas ela não se lembrava até a amiga, a noiva, comentar sobre o quanto estava linda e teve certeza quando a viu provar o vestido semanas antes. Jenny percebeu estar deixando passar muita coisa por causa daquele relatório e precisava se livrar dele quanto antes e, para sua sorte, hoje seria o grande dia.

O prazo para envio era até as 23:00 da noite. Jenny só precisava chegar a tempo em casa e fazer o que tinha que ser feito e, para isso, costumava olhar para o relógio constantemente para não perder a hora. E é claro que isso a deixava sem aproveitar o momento como madrinha de forma plena. Então, Jenny propôs o seguinte: esse era o casamento da sua melhor amiga e não seria justo deixar passar isso despercebido também.

Mas uma hora ou outra ela olhava para o relógio a fim de ter maior controle e foi em um desses momentos que colidiu com um rapaz que passava no seu caminho. Eles quase caíram, mas se seguraram a tempo. Ainda bem que ela não tinha nada na mão com potencial para sujá-lo.

— Me desculpe.

— Tudo bem, acontece. — Ele riu. — Está fugindo de alguém?

Eles riram por um momento e começaram a conversar. Jenny foi se dando conta dos detalhes bonitos do rapaz, detalhes esses expressos na fala compassada, no sorriso tímido, na delicadeza dos seus gestos e na beleza dos olhos dele.

A conversa se estendeu para a mesa, acompanhada de um bom vinho. Ela estava adorando os salgados, mas algo começou a incomodar. Parecia se esquecer de algo, até que seus olhos bateram no relógio e ela se lembrou do relatório para enviar. O rapaz, Henrique, tinha ido ao banheiro e disse que logo voltaria, seria muito rude dela desaparecer do nada assim. Até que ele voltou, foi um alívio para ela, mas ela precisaria ir. Ele ficou surpreso e um pouco desapontado pela interrupção do clima bom que estava.

Ela, por sua vez, tentando ser educada, informou-lhe o motivo de sua ida. Os dois se despediram com um certo pesar. Não teve tempo para troca de detalhes e muito menos de um possível contato futuramente. Era certo que eles nunca mais se veriam. Jenny ficou extremamente chateada consigo mesma e por sua mania de não fazer as coisas a tempo.

Ele a viu partir. Percebeu que não a encontraria tão cedo novamente, já que não tinha muita informação sobre ela. Mas, para sua surpresa, avistou no chão uma bolsinha rosa cheia de brilho e lantejoulas. Essa era a bolsinha que Jenny amava. Ao abrir a bolsa, notou um crachá com a foto dela e um número de telefone. Ele tentou chamar a atenção dela para voltar, mas ela somente acenou.

Chegou em casa, nem trocou de roupa, foi direto para o computador. Olhava a todo instante para o relógio e viu que tinha chegado a tempo. Ela ficou muito feliz por conseguir. Se jogou na cama aliviada, mas se deu conta de algo um pouco triste, possivelmente nunca mais irá reencontrar aquele adorável rapaz do casamento de sua amiga.

Os dias se passaram e Jenny seguiu a vida, tendo a certeza de que tudo que aconteceu era o que deveria acontecer. Jenny tinha um outro problema, o sumiço de sua bolsa. Mas de uma coisa estava certa: nunca mais inventaria de deixar as coisas para cima da hora. Já ele, o rapaz, estava um pouco inseguro de tentar ligar para aquele número do cartão.

Ao decidir ligar, viu-se com grandes esperanças de um possível reencontro. No entanto, Jenny não atendeu. Os motivos eram muitos e um deles é que ela não costuma atender ligações de desconhecidos, assim pensou ele. Porém, ela estava extremamente cansada e dormiu muito, de modo que nenhum barulho era suficiente para acordá-la.

Como o que planejou não deu certo, o rapaz considerou outra opção: ir na empresa que supostamente ela trabalha para entregar a bolsa. Mas pensou em fazer isso o melhor possível, sem deixar margem para assustá-la.

Para Jenny era mais um dia comum em que iria para o trabalho, preencheria algumas planilhas, enviaria alguns emails como de costume. Para o rapaz, seria o dia em que ele iria ter a oportunidade de reencontrar aquela garota do casamento.

O rapaz ficou todo empolgado pela possibilidade de encontrá-la pessoalmente, mas infelizmente a garota não apareceu, Jenny dormiu demais e acabou se atrasando. Não havendo nada a mais a ser feito, o adorável Henrique fez por bem entregar a bolsinha na recepção informando o destinatário. Entretanto, antes de entregar totalmente, escreveu um bilhete para a garota.

Jenny apareceu minutos depois, porém Henrique não estava mais lá. A recepcionista chamou atenção de Jenny e ela já pensava ser devido ao crachá. A recepcionista informou sobre o grande achado. Jenny ficou extremamente aliviada por ter sua pequena bolsa de volta. Todavia, estava curiosa para saber como a tinham encontrado.

— Onde vocês acharam?— Perguntou Jenny, surpresa.

— Não achamos! — Disse a recepcionista. — Ela veio até nós por um tal de Henrique. Conhece?

— Henrique? Henrique…não conheço.

Então, Jenny ficou refletindo ao passo que entrou no elevador e se pôs a conferir a bolsa com mais minúcia, encontrou seu crachá e outros objetos, porém havia algo a mais lá, um bilhete deixado por Henrique. Ela, portanto, ligou os pontos e percebeu que tinha perdido a bolsa e conheceu Henrique — tudo no casamento da amiga.

Jenny ficou empolgadíssima, chegou em casa e não hesitou em ligar para o número deixado no bilhete. Confirmou no histórico de chamadas que ele havia ligado várias vezes ontem e isso doeu em seu coração, então não perdeu tempo, retornou rapidamente. Empolgados na chamada, os dois toparam se reencontrar de novo, agora sem pressão de relatório para enviar ou qualquer outra coisa, eram só os dois e nada mais para atrapalhar a boa conversa que teriam.


Você chegou ao fim do livro. Parabéns!