Uma cena apenas...
1 Uma cena apenas - Capítulo único.
Notas iniciais
Uma cena apenas...
— Corta. Obrigado aos nossos dois astros, vocês foram maravilhosos, aplausos. – E assim termina a nossa participação, juntos. Fim de cena, e já sinto falta dele.
Quantos papeis já fiz? Nem me membro mais direito, mas é a primeira vez que me sinto assim. Quantos atores com quem atuei e gostei de atuar, mas ele, é diferente. Era para ser mais um entre tantos outros, mas não é, ao contrário, desde o início, ainda na leitura, já me sentia assim, foi pôr meus olhos nele, era a primeira vez que o via pessoalmente e gostei dele, apenas gostei, quantas vezes o via em revistas, ou postagens na internet, até mesmo em filmes, e era fã de seu trabalho, mas nada de excepcional, afinal de contas, antes de ser uma atriz reconhecida, sou uma pessoa como qualquer outra e gosto de ver colegas atuando, com que tenho desejo de atuar, mas ele, não me lembro se tinha tal desejo antes de conhecê-lo pessoalmente, apenas o via.
— Os dois foram ótimos, este filme vai estourar como o anterior, tenho certeza. Vocês são ótimos juntos. – Diz o diretor todo animado.
— Tomara. — Ele disse, com sua voz aveludada e sorri timidamente.
— Querida, você está linda demais, você foi tão magnífica neste papel, acho que é o melhor que já fez. – O diretor me abraça deixando sem jeito.
— Imagina. – Digo timidamente também. Não quer repetir esta cena?
— Não é necessário, o material que temos já é mais que o suficiente. Estou feliz com os resultados, nossa, os dois juntos, vocês têm química.
— Trabalho, meu caro. – D. diz ao diretor. E eu apenas o observo enquanto ele lança um olhar doce para mim.
— Com licença, vou para o meu trailer. – Digo.
— Não se esqueça que a noite temos uma festa para comemorar o final das gravações, no hotel, quero te ver lá. – Como nosso diretor está animado. Queria ter esta animação, pois apenas estou triste porque sei que agora não o verei com tanta frequência.
— Não vou esquecer, eu vou. – Digo.
— E você?
— Também vou, mas não vou ficar muito tempo, amanhã cedo tenho um voo, quero voltar para casa e ver minha família. – D. diz.
— O bom moço. – Diz o diretor lançando um sorriso a todos.
— Com licença. – Digo, retirando-me. Ele volta amanhã para casa. Sinto uma ponta de inveja. Vou a festa, apenas para vê-lo.
À noite, todos se confraternizam, a festa rola solta, mais um trabalho praticamente encerrado, e a única coisa que penso é que não o verei tão cedo, afinal de contas, nada que não possa ser feito sem a presença dos dois juntos. Pela primeira vez sinto-me pesarosa com o final de um trabalho, normalmente, eu terminaria com a sensação de dever cumprido e que venha o próximo, mas agora, sinto saudades. Tolice minha, porque não houve nada, absolutamente, nada. Fomos profissionais como deveríamos ser, mas, em algum momento, eu comecei a olhar para ele de outra forma, eu o conheci melhor durante estes meses de trabalho, aliás, passamos mais temos juntos destes últimos 6 meses que com nossas respectivas famílias. Mas vida de ator é assim, quando trabalhamos é muito trabalho, cenas e mais cenas, textos e mais textos a decorar, trabalhos com coach, espera e mais espera. Para quem não sabe, o trabalho do ator consiste em mais esperar que atuar, sem contar as repetições até ficar a contento do diretor. Ensaios, cenas, esperar e assim por diante. Gosto do meu trabalho e dei duro para chegar aqui, não é fácil se manter no topo, quantos querem um lugar nesta indústria maluca, mas altamente fascinante e competitiva? Eu estou aqui, sou reconhecida onde vou e por causa deste trabalho, posso fazer o que bem entendo. Recebo muito, muito mais que uma pessoa comum receberia uma vida inteira. Meu trabalho custa caro e os estúdios sabem disso e pagam, afinal de contas, eu sou altamente lucrativa para eles. Mas, reconheço que este trabalho, o teria feito sem receber nada, não me importava em trabalhar de graça porque estaria ao lado dele, pode parecer loucura, mas não é, apenas me apaixonei por um homem que eu não posso ter. Sim, sei de casos que atores que se apaixonaram durante as filmagens e até ficaram juntos. Por um momento desejei que meu caso fosse assim... Mas é meu coração apaixonado que sonhava com isso. — Tolice moça, digo a mim mesma, você é uma mulher adulta, não sonhe como uma adolescente.
Lá está ele, com uma taça de champanhe na mão, conversando animadamente com o diretor de fotografia. Assim que me vê dá um aceno e pede licença e vem mansamente para o meu lado.
— Então, feliz com o resultado? – Sorridente.
— Acho que ficarei realmente feliz quando vê o resultado na tela. – Digo.
— Você foi ótima, estou orgulhoso de você.
— Apenas não quis fazer feio. – Falo humildemente. — Você foi muito bem, acho que fazemos uma boa dupla.
— Com certeza. – Outro sorriso afetuoso. – Estou feliz com o papel.
— Gostei muito da sua atuação.
— Obrigado. O papel ajudou e a companheira de cena mais ainda. Obrigado por facilitar as coisas. Nem sempre encontro atores tão dedicados ao trabalho. Nesta profissão o ego de muitos é gigantesco, ao ponto de ser maior que o talento.
— Nem me diga, eu já contracenei com atores que em cena eram razoáveis, mas pessoalmente pareciam que tinha o rei na barriga, queriam mais mostrar a própria estampa do que o papel. Realmente é uma gigantesca batalha de egos.
— Mas, se me permite, eu gostei muito de atuar ao seu lado, foi tão fácil, agradável mesmo. Obrigado.
— Eu que agradeço, você foi uma grata surpresa.
— Confesso que levo daqui a sua amizade.
— Minha amizade?
— Sim, quer dizer, se me permite falar assim, gostei muito de conversar com você, apenas gostei. Minha esposa também gostou muito de você. Espero ser seu amigo, se quiser é claro.
— Sério? Amigos?
— Quem sabe podemos marcar um jantar de casais quando voltar para casa.
— Quem sabe?
— Vai tirar férias...
— Sim, tenho planos de viajar. Mas logo terei outro longa para filmar.
— Algum lugar exótico?
— Não, quero viajar, mas nada de lugar exótico, quero descansar apenas, sem imprensa, paparazzo ou qualquer coisa parecida. Férias como uma pessoa normal.
— É o que desejo, não vejo a hora de rever minha família. Abraçar as crianças e minha esposa.
— Nada como o lar. – Digo.
— Nada como o lar, amo minha família. – Outro sorriso. Deveria sentir inveja, mas fico feliz por ele, apenas feliz porque vejo o brilho de seu olhar ao se referir a família.
— Daqui há alguns meses começa a divulgação, teremos que viajar muito para isso...
— Nem me diga, sabe que para mim é a parte mais chata do meu trabalho.
— Acredite, ninguém melhor do que eu sei disso. Amo atuar, mais a parte de divulgação... Responder as mesmas perguntas para uma infinidades de jornalistas... Será que eles sofrem do mesmo mal, falta de imaginação??
— Ou algo bem parecido. Mas tem um lado bom disso.
— Qual?
— Sei que podemos conversar durante uma entrevista e outra, será um prazer revê-la.
— Sim, talvez desta vez seja mais fácil.
Apenas nos olhamos, não sei por quanto tempo, apenas nos olhamos e era como se não houvesse outras pessoas ali confraternizando, perdi-me em seu olhar, foi um momento apenas, meu coração parecia que iria parar. Senti um aperto no peito porque por um instante eu percebi que... Será?
— Tenho que ir. Meu voo sai cedo. – Ele desvia o olhar e toma um gole de seu champanhe. – Adeus.
— Adeus. – Repito e o vejo sair, andando, um olhar rápido para trás, onde eu estou e segue seu caminho, rápido e ele se foi.
Volto para minha casa no dia seguinte também, trabalho realizado, mas um vazio, e o pior é que havia meu namorado, que também estava fora da cidade a trabalho, será que conto que havia me apaixonado por outra pessoa? Alguém que não posso ter, mesmo que desejasse? Eu não o traí, não fiz nada de errado ou do que possa me arrepender, apenas me apaixonei por outra pessoa, e agora? Olho o horizonte pela janela da minha casa, uma linda vista da cidade, o crepúsculo, a parte mais bela do dia para mim.
O celular toca, é o meu namorado, ele está animado porque mais uma semana e estará de volta, o trabalho dele também está chegando a final e não vê a hora de voltar para casa... É claro que fico feliz por ele, mas, quero ficar sozinha e decidi que estes dias, ficarei sozinha, até a sua volta. Quem sabe eu possa o vê novamente com o mesmo olhar do início de namoro. Somos uma espécie de casal sensação, os paparazzos gostam de tirar fotos nossas, onde fomos o que fazemos vira notícia. Tabloides sensacionalistas sempre inventam que estamos prestes a casar ou então que estamos em crise, mas não é verdade, apenas curtimos a companhia um do outro, pelo menos era assim, até agora.
Vou até o banheiro, abro a torneira da banheira e coloco alguns sais, desejo um banho longo, em seguida vou para a cozinha onde preparo uma xícara de chá, nada como tomar chá enquanto vejo a rápida passagem do crepúsculo para a noite, e as luzes da cidade cintilantes, abaixo de meus pés. Volto ao banheiro e a banheira já está quase cheira, fecho o registro e tiro a minha roupa e me aconchego na água quente, mergulho por uns instantes e volto a superfície, como precisava disso.
Os dias passam rápido e meu namorado chega finalmente, eu o busco no aeroporto, e dele recebo um doce abraço, um beijo apaixonado e seu olhar. Por que eu não estou feliz, era para eu estar feliz com ele, mas me apaixonei por outra pessoa e desde que isso aconteceu, é no outro em que penso. Quando abro meu computador e vejo alguma matéria sobre ele, abro a página e leio, quero saber dele, mesmo tendo seu número, não tenho coragem de ligar, mas preciso saber dele, mesmo que seja pelos sites de notícias de celebridades. Às vezes vejo fotos dele com a família, ou ando apenas com a esposa, ou mesmo sozinho, com barba por fazer, ou participando de algum evento promocional, como eu já fiz várias vezes. E lá está ele, bem, com seu belo sorriso, com seu olhar meigo, sendo simpático, é ele e é nele em que penso ao acordar, ao dormir e ao sonhar. – Droga.
Pela primeira vez espero ansiosamente o lançamento de um filme, porque sei que teremos que fazer a divulgação juntos e será quase dois meses inteiros juntos, ou até mais, viajando por nem sei onde. Mas será ele que estará comigo. E para meu contentamento ainda teremos que passar por isso mais uma vez. Meu Deus, que loucura, deveria esquecê-lo, mas os meses passam e nem por um momento o esqueço, mesmo longe, mesmo sem falar com ele. Penso em terminar com meu namorado, não é justo com ele, mas não tenho coragem porque, de certa forma, ele me traz um equilíbrio, é como um porto seguro, mas não acho justo com ele, não fez nada de errado, quem faz algo errado aqui sou eu, não tenho coragem de terminar, mas não o amo como ele merece ser amado, dedico-me a ele, mas sempre o outro em meu pensamento, tenho medo de falar seu nome, mas, graças a Deus, eu nunca cometi tal gafe, seria horrível demais.
Mas o tempo passa, e os preparativos para o lançamento começam e minha ansiedade aumenta, vejo que minha agenda está repleta de ensaios fotográficos, entrevistas e viagens, com ele, serão dois meses convivendo juntos novamente, vejo-me ansiosa para que comece logo, apenas para estar junto a ele. Meu agente já traz o personal style para escolhermos as roupas que terei que usar durante o lançamento, uma penca de roupas, horas e mais horas escolhendo roupas, fazendo combinações, não deixa de ser chato, escolho roupas que sejam elegantes, mas sexy, afinal de contas, tenho uma imagem para vender, ainda bem que não sou Marylin Monroe, se as pessoas soubessem que minhas roupas favoritas são os pijamas de flanela nada glamorosos. Tantas roupas, imagem, quero ficar bonita, mais bonita ainda, para ele.
E começa a nossa maratona, sessões de fotos, entrevistas e mais entrevistas, horas e horas dentro do avião, ao menos é um jato particular, é bastante cansativo, já deveria está acostumada, mas não estou, é a parte chata do meu trabalho, amo atuar, mas fazer a divulgação de um filme, sei que faz parte do pacote, e que pacote, você precisa vender a imagem de que está tudo bem, a vida perfeita, pura enganação. Como é um grande lançamento, tudo se torna maior ainda, mas o que realmente em importa é saber que ele está lá.
E lá estamos nós, de frente a uma centena de fotógrafos, confesso que apenas de já ter passado por isso por tantas vezes, ainda me sinto bastante desconfortável, as luzes dos flashes, o som dos clicks é como uma música desconexa. Sorrio e faço pose, mas sinto-me exposta por um lado, mas do outro é apenas uma personagem, a atriz, e nada melhor do que estar com um belíssimo vestido verde e de chiffon, a la Grace Kelly em “Ladrão de Casaca”, uma belíssima armadura, eles conhecem a imagem e não a pessoa, e, de repente, lá está ele, laçando minha cintura como o seu abraço, sinto-me segura, ele vira seu rosto para mim e sorri, devolvo como se agradecesse, e uma moça nos pede para nos posicionarmos para mais à direita e ele pega na minha mão, puxando-me e seguio-o. Quantos flashes, até me cegam por um momento, poses e mais poses, sorrisos, gritos de fãs, pedidos de autógrafos, vamos até a grade que nos separam dos fãs, alvoroço, mais gritos, fotos, fotos, selfies e mais selfies, com os dois, com um de nós. Acenos com as mãos. Abraços, palavras de carinhos, gritam nossos nomes. Novamente somos levados ao red carpet, diante do imenso cartaz promocional do filme, uma foto nossa. Mais uma vez sinto seu braço transpassando minhas costas carinhosamente, ele chega em meu ouvido e diz:
— Você está belíssima, este vestido ficou ótimo.
— Obrigada. – Agradeço. — O senhor, também, não está nada mal. – Ele está elegantemente vestido, custome completo azul marinho com gravata de seda cinza clara. Perfeito em seu corpo. Se os homens soubessem o quanto ficam sensuais vestidos assim... Sem contar o perfume, o aroma dele tão agradável.
Durante semanas é assim, obviamente que não estamos sozinhos nesta maratona, os outros colegas nos acompanhavam também, mas como somos os principais, as atenções eram para nós, entrevistas, os programas, as sessões de fotos e houve uma sessão em especial que eu gostei muito porque durou o dia inteiro. O trabalho em si é cansativo porque são várias trocas de roupas, mas ele estava lá o tempo todo ao meu lado, era para o editorial de uma revista, páginas e mais páginas conosco. E eu amei tirar cada foto com ele, em especial uma em que ele está atrás de mim, abraçando-me e eu seguro sua face com a mão e beijo a outra e ele sorri timidamente. E por coincidência nosso último dia de trabalho voltaríamos para casa, era o meu aniversário, estar com ele já era meu presente, pode parecer tolo, bobo até. Sinto-me com uma adolescente, mas apenas desejava estar perto dele e ele estava ali comigo, em um jatinho particular, a vantagem de não ter que enfrentar voos comerciais, um avião para nós dois e mais o diretor que ronca lá na frente. Atravessando o Pacífico, estou sem sono, as luzes estão parcialmente apagadas, mas observo a imensidão pela pequena janela. Ele está sentado na poltrona ao lado, talvez dormindo... Quero olhar para ele, mas cadê a coragem. Ao me virar, lá está ele.
— Ainda acordada? – Fala baixo e me assustando.
— Pensei que estivesse dormindo.
— Apenas de olhos fechados, cansado, e você não consegue dormir?
— Sem sono. – Respondo no mesmo tom.
— Deveria dormir, o dia amanhã será longo, nosso último dia do lançamento. Ou será o penúltimo? Não me lembro mais. – Sorri.
— Eu sei como é, também não sei mais, estou perdida no tempo e no espaço, mas não consigo evitar. – Sorrio.
— Eu também não consigo evitar, mas é preciso dormir moça.
— Obrigada pela preocupação. Mas está além de mim, adoraria dormir, mas eu apenas não consigo.
— Algo a incomoda?
— Acho que tem a ver com Jet Lag.
— Sei com é... A propósito... Parabéns.
— Parabéns?? Pelo quê?
— Pelo horário oficial, hoje já é o seu aniversário. – Ele olha o próprio relógio.
— Obrigada, estou tão cansada que nem me lembrava. Quantos anos estou fazendo mesmo??? Não lembro. – Brinco com ele.
— Eu tenho um presente para você... – Pegando a mochila que estava no chão.
— Presente para mim, não precisava... – Ele tira de dentro de uma mochila uma pequena sacola vermelha onde se lê Cartier. Aí meu Deus.
— Por favor, aceite, eu não aceito não como resposta.
— Mas... – Será que ele não reparou que é um presente vindo direto da Cartier.
— É um presente, por favor, abra. – Eu olho para ele e tiro de dentro da pequena sacola uma caixa, da mesma cor, sinto falta de ar ao abrir, é uma linda joia... Uma gargantilha em ouro branco com um solitário, um diamante azul.
— Mas é uma joia... – Minha nossa, um colar lindo.
— Sim.
— Mas eu não posso aceitar. – Não se dá um colar desses em vão.
— Gostaria que aceitasse, por favor, não me faça esta desfeita. Achei muito delicado e lembre de você assim que o vi. Por favor, aceite. – Lançamento um olhar meigo.
— Mas eu...
— Eu não vou levá-lo de volta, ele é seu, um presente pela nossa amizade e somos amigos e amigos se presenteiam, às vezes, eu acho... – Dá de ombros.
— Mas com um diamante azul? – Questiono-o.
— É só um solitário, um diamante azul, simboliza a eternidade. Não é uma gargantilha cravejada de diamantes e esmeraldas. – Irônico. – É um colar simples, singelo e quando o vi, achei perfeito para você. – Meigo.
— Mas eu...
— Por favor, não me ofenda recusando-o. É só um colar.
— Mas com um diamante azul. – Retruco.
— Sem mas, você está fazendo aniversário, e estou muito feliz, apenas o aceite. – Aquele olhar que me deixa sem rumo.
— Feliz? Ficaria feliz se eu o aceitar? – Não é um presente usual.
— Sim, feliz. Fizemos um ótimo trabalho juntos, estou feliz com o resultado, com as críticas, com a repercussão. Estamos no auge moça, merecemos, trabalhamos duro, estou feliz e você me ajudou muito neste processo...
— Se for assim, deveria dar um destes a cada um que trabalho no filme, do diretor à moça do café... – Debocho.
— Engraçadinha. – Sorri. – É o “SEU” aniversário... – Dando ênfase ao “seu”.
— Pensei que estivesse feliz com o trabalho. – Ainda debochando.
— Sim, formamos um belo par, na tela, há química, foi um trabalho agradável de fazer, sinto-me orgulhoso. Por favor, aceite, é seu aniversário e me fará feliz em aceitar esta pequena lembrança.
— Pequena lembrança?? – Qualquer garota gostaria de ganhar um desses.
— É um presente, apenas isso, um presente....
— Um diamante azul, sabe o quanto custa isso? – Agora falo sério.
— Claro que sei, paguei por ele, mas não é pelo valor monetário, é mais, é por muito mais, estou feliz. Olha, eu não saio por aí comprando diamantes azuis, mas há pessoas tão especiais que merecem presentes muito especiais, é um presente para levar pela vida afora e sempre que olhar para ele, sempre que usá-lo, sei que se lembrará de uma época muito feliz de nossas vidas, por favor, aceite. – Seus olhos brilham.
— Mas... É um presente que se dá para esposa, mãe, filha... – Questiono-o.
— E para uma amiga especial. — Ele completa.
— Uma amiga especial?
— Sim, eu gosto de nossa amizade, sei que não é usual dá um presente assim, não há segundas intenções, mas há carinho e eu fui muito feliz trabalhando ao seu lado. Não creio que aconteça novamente e, também, não sei se terei outra chance de trabalharmos juntos. J, por favor, aceite. – Ele fala de uma forma mansa, como se tentasse me explicar o significado de seu gesto.
— O fará feliz se aceitar?
— Sim. Você não imagina o quanto...
— Mas está consciente que não é um presente que se dá a uma amiga. – Insisto.
— Talvez, mas prefiro achar que sim. Apenas aceite, por amizade. – Aquele olhar novamente.
— Amizade?? – Olho novamente para o solitário.
— Sim, gostei muito de conhecê-la, foi uma grata surpresa. Você sabe como é difícil nossa profissão e o como é o jogo de ecos. Você parece não fazer parte disso, foi muito bom trabalhar com você, gostei muito, é difícil encontrar alguém que não se ache o máximo o tempo todo. Você é normal. Sabe com quantas atrizes tive a oportunidades de trabalhar e que eram, simplesmente, insuportáveis?? Se achavam gostosas, lindas, talentosas, presunçosas, mas não eram nem um terço disso? Sem contar as milhares de exigências que faziam. Conversar então? Nem pensar, e quando o faziam, definitivamente, mostravam porque eram melhores de boca fechada. E olha que nem estou falando das dietas malucas, não posso comer isso, não posso comer aqui, uma vez ofereci um bombom a uma atriz que fazia meu par, ela quase me fuzilou com os olhos, parecia que eu tinha a xingado de todos os nomes ruins, nem me atrevi chegar perto depois disso, só quando tínhamos que trabalhar. Você não, você é normal com isso, sem paranoia. Você é diferente, é normal, é inteligente, curiosa, linda por dentro e por fora. Alguém que se tem vontade de conversar por horas e passaria dias e mais dias conversando com você, pelo prazer da sua companhia, não é metida, conversa com todos, é disponível, sem contar que é... – Respira fundo, mas se cala. – Apenas gostei de você e de trabalhar com você, e não vejo nada de mais em dá um presente para você, sem contar que é seu aniversário. Por favor aceite. – Olho novamente para o colar, delicado, simples e belo. Deslizo meu dedo pela gargantilha até chegar ao pequeno diamante azul, reluzente.
Apenas o olho, ainda com a caixinha nas mãos.
— Por favor, aceite-o. – Ele me olha de um jeito. Como ele está bonito ali, seu olhar é lindo. Engulo em seco. – Eu só quero que aceite, por favor, aceite. Só aceite. – Quase suplicando.
Fecho os olhos por um momento, respirei fundo, olhei novamente para ele e depois para o colar que ainda estava na pequena caixa Cartier.
— Obrigada, é lindo. – E assim aceito seu presente. Se ele soubesse o que sinto por ele, mas é uma lembrança, uma doce lembrança de alguém que jamais terei. Se é certo aceitar ou não, não sei avaliar, mesmo que o bom senso diga para não aceitar, mas é uma lembrança física.
— Eu que agradeço por ter aceitado. – Ele ainda me olha daquele jeito. – Agora a senhorita pega esta colcha e tente dormir, ainda vai demorar para chegarmos. – E me entrega a colcha e eu me cubro fechando os olhos.
E assim termina nosso lançamento, pelo menos até à parte final da trilogia que será lançada no próximo ano. Despedir-me dele não foi fácil, ele partiu para encontrar sua família. É estranho, não houve nada que justificasse me apaixonar por ele, nada, mas aconteceu. Aliso a gargantilha que está em meu pescoço, sei que não foi correto aceitar, também sei que não é correto usar, obviamente, que ninguém mais sabe o significado ele, na realidade dou mais significado ao presente do que ele deve ter dado, afinal de contas, como ele mesmo disse, foi um presente de aniversário para uma amiga. Um presente bem caro, diga-se. Eu quero retribuir, mas ainda não sei como.
Mesmo com o passar do tempo, quem disse que eu o esqueço, o filme já havia até saído de cartaz em boa parte do mundo, mas quem disse que eu o esqueço, provavelmente já esteja no Netflex. Carrego-o comigo e não há como não lembrar dele. Meu namorado voltou de sua turnê alguns meses depois, era bom estar em casa, era bom reencontrá-lo. Mas o que me surpreendeu foi a surpresa que ele me preparou, algo que não esperava, um pedido de casamento, outro solitário...
— Casar?? – Assustada.
— Sim, aceita casar comigo J.? – A animação dele não condiz com o que eu sinto. Se fosse em outra época, pior, se fosse outra pessoa.
— Por quê?? – Questiono-o. Droga. Não era o momento. Nem sei quanto será.
— Por quê?? – Ele me repete assustado. – Por que nós nos amamos... – Não compreendendo a minha reação.
— Ainda acha cedo. – Tendo dizer qualquer coisa que possa justificar.
— Cedo?? Namoramos a mais de três anos. – Retruca-me.
— Eu sei... É que... – Meu Deus.
— O que tem acontecido a você nos últimos tempos J.? Acha mesmo que eu não notei? Eu não sei bem o que é, mas sei não é mais a mesma. Está distante, aérea, quieta demais... Cadê aquela menina que eu amo? – Parece que vai explodir.
— Apenas tenho trabalhado demais, só isso... – Tento disfarçar.
— Será?? – Não parece acreditar em mim. — Sabe J. Eu te amo, amo muito. Mas você... Não é mais a mesma, está diferente.
— Eu gosto muito de você também... – Tento convencê-lo disso.
— Gosta??
— Sim... Sim eu gosto muito de você.
— Reparou que usamos verbos diferentes??? – Quase sarcástico.
— Não entendi... – Engulo em seco.
— Eu usei amar, você usou gostar, são diferentes. – Bravo.
— São sentimentos, não vejo muita diferença. – Dou de ombros.
— É sério mesmo o que você está me dizendo? – Desnorteado, e com razão. — Droga J. Eu estou aqui, todo romântico, dizendo que te amo, que quero me casar com você e é assim que você reage? – Raiva.
— Desculpa, eu não estava preparada... – Quase me rendendo.
— Não é de hoje que você está distante, diferente... Você se apaixonou por outro, ou acha mesmo que eu não percebi??
— O quê? – Assustada.
— Acha que eu não reparei... Eu vi as fotos do lançamento daquele filme que fez com aquele cara, seu olhar para ele...
— O que você está dizendo??? – Por Deus, eu não acredito nisso.
— O quê? O que o mundo todo diz... Já viu os vídeos que criam para vocês no youtube?? As torcidas para que fiquem juntos?? Até comparações entre ele e eu. – Eu não acredito que ele tem visto este tipo de coisa. — Páginas e mais páginas em todas as redes sociais que falam de vocês dois, dedicadas a vocês dois, acha mesmo que eu não percebo?? — Raivoso.
— Sabe que isso é comum hoje em dia, mas fazem isso com qualquer um o tempo todo, nada de mais, e nem é para a gente, mas para os personagens, sei lá, uma brincadeira de fã, nada de mais, não acredito que realmente leva a sério este tipo de coisa. Ninguém leva isso a sério. – Meu Deus, eu não acredito que tenha se dado o trabalho de ver este tipo de coisa. Tento amenizar.
— J, por favor, não insulte a minha inteligência, sei que os fãs fazem este tipo de coisa o tempo todo, eu mesmo não ligo, mas eu vejo, eles também veem, seus olhares, um para o outro, não são personagens, são um homem e uma mulher, acha mesmo que não notei os olhares, o brilho do seu olhar ao fitá-lo?? O olhar que eu quero para mim, que esperei por todo este tempo e tenho esperado. Eu vi você lançar para ele e não foi uma ou duas vezes, eu vi, seus fãs viram também... A imprensa vi, todo mundo viu. Pelo Amor de Deus!!!! – Parece quase enlouquecido.
— Por favor querido, não imagine coisas... Se tinha algo no meu olhar era felicidade por um trabalho bem feito, pelo sucesso dos filmes só isso, nada demais. Pare de imaginar coisas, você é um homem inteligente, não se deixe levar por isso. Pelo amor de Deus.
— Quantos filmes você fez neste meio tempo e eu não vi tanta “felicidade” assim? Sei que é trabalho, mas não me refiro a isso... Eu quero me casar com você... E você está apaixonada por outro homem.
— Quer casar comigo, mas me acusa de estar apaixonada por outro homem... – Vai entender, apesar de que ele tem razão.
— Eu não quero perder você. Mas estou.
— Eu estou aqui. – Exaspero-me.
— Está??
— O que você está dizendo??
— J, por favor, olhe em meus olhos e diga-me, você me ama?
— O quê?
— Isso não é bom. Diga, olhando em meus olhos que me ama?
— Eu adoro você, sabe disso. – É verdade.
— Outro verbo, adorar... – Ele fecha os olhos.
— O que você está dizendo? – Meu Deus.
— Sabe que outro dia vi uma entrevista do seu amigo, interessante quando foi perguntado de como foi ter trabalhado com você e sabe o que eu notei??
— Eu não entendo, não estou te entendo. – Confusa.
— O Olhar dele, o carinho com que ele falou de você. – Quase um lamento.
— Eu ainda não entendi onde quer chegar.
— O que você sente por ele?
— Como assim?
— O que sente por ele?
— Gosto dele, se tornou um bom amigo, apenas isso...
— Um bom amigo?
— O que quer que eu diga?
— O que você sente por mim? – Mais uma vez questiona-me.
— Eu gosto de você. É isso que importa, esquece o que digam e pare e dá ouvidos a esta conversa fiada. Eu gosto de você, eu gosto muito de você.
— Não é o que eu quero ouvir.
— Então o que quer ouvir? – Estou exasperada.
— Por Deus, J, você é uma mulher inteligente, eu amo você, eu quero me casar com você, eu quero que diga que me ama, eu quero o olhar que você lançou a ele, aquele olhar, eu a vejo agora, está diante de mim, e eu não consigo ver aquele olhar. Eu quero o seu amor, e sei que o seu amor é dele, eu não sei o que aconteceu entre vocês, a vontade que tenho é de ir lá e socá-lo. – Respira fundo. — Mas sei que você não é a mesma desde quando se conheceram. Você mudou.
— Você está enxergando em algo que não existe. – Sem sucesso.
— Diga olhando para mim, olhe em meus olhos, diga que me ama apenas isso, deixe que eu veja aquele mesmo olhar que lançou a ele todas aquelas vezes. – Ele me encara.
— Eu... Eu... – Por Deus.
— Não consegue, não é??
— Eu não posso. Desculpe-me. – Sinto as lágrimas se formarem em meus olhos. – Eu não posso.
— Eu sabia. – Diz decepcionado comigo. – Quase incrédulo.
— Por favor, não faça isso conosco.
— Eu amo você, J. Eu amo você.
— Eu estou aqui, aqui, com você... Não estou com ele se é o que quer saber. Eu estou aqui, aqui!!
— Talvez o fato dele ser casado tenha contribuído para você esteja aqui agora. – Sarcástico.
— Não faça isso, por favor, não faça isso... – Não consigo controlar as lágrimas.
— Acho que é melhor esquecer o pedido de casamento. – Diz.
Eu tento dizer algo, mas não consigo. E, também, não consigo conter as lágrimas.
— Vocês dois...
— Nada, não houve nada se é o que quer saber, e nem haverá, e estou aqui agora, nem tudo é para ser como se deseja, a vida não é um filme, nem sempre o final feliz é o que acontece. – Explodo.
— Eu vou para o quarto de hospede esta noite, eu não tenho condições de... – Ele me olha. – Amanhã eu arrumo as minhas coisas. – Eu nunca o vi tão triste. Parabéns J, você estragou tudo.
— Por favor, não faça isso. – Tento enxugar minhas lágrimas, com as palmas das mãos.
— Não fui eu que fiz, foi você... Sabe o que é mais cômico nesta história toda??
Digo que não, apenas balançando a cabeça.
— Eu amo você, mas via os sinais... Antes você estava junto a mim, depois, mesmo que fosse carinhosa comigo, atenciosa, eu percebi que não era mais a mesma coisa, que, de alguma forma, você não era mais minha, eu percebia que estava perdendo você por entre os meus dedos. – Ele olha para as mãos, quase resignado.
— Eu não estou com ele, se é o que quer saber. Nunca houve nada, nada, nem promessa, nada, eu estou aqui, só fizemos um trabalho juntos, você mesmo já trabalhou com outras atrizes e nem por isso... Não houve, não há e nem haverá nada. Eu estou aqui, ele lá com a família dele, sem esperança, sem sonhos, sem nada. Esquece ele.
— Sei que não... Mas se ele, um dia, largasse tudo e viesse para você... – Deus do Céu, que homem é este.
— Isso nunca vai acontecer, nunca, eu tenho consciência disso, a escolha dele foi feita há muito tempo, não sou eu, nunca será eu, esquece esta história, vamos viver a nossa vida... – Jesus.
— Não há mais nossa história J, sabe disso, muito antes que eu me desse conta. – Eu não acredito que ele está terminando comigo.
— Que história é essa? Você está terminando comigo? – Apenas nos olhamos, sinto-me tão cansada física e mentalmente. É o fim, eu sei.
Eu o vi sair da minha frente, seu semblante era de alguém que havia lutado muito, estava fragilizado e emocionalmente abatido, e eu havia feito isso a ele, destruído seus sonhos, ele queria casar comigo, como eu poderia, amando outro, ele sabia e mesmo assim estava disposto a ficar comigo. Jesus, estraguei tudo.
Vou para o meu quarto, agora o meu ex- está no quarto de hospede. Eu ainda não havia visto a entrevista de D, nem saiba, não vejo televisão, nem tenho tempo para isso. Mas meu ex-namorado, viu e me contou, obviamente que fui atrás assim que tive uma oportunidade, na calada da noite, não queria que ele me ouvisse assistindo, coloco o headphone. E lá estava ele, belo, sorridente e amigável e a conversa rolava solta e finalmente o apresentou perguntou como foi, para D. trabalhar comigo. Ele abriu um sorriso e começou.
— Sempre é bom encontrar pessoas que estão na mesma sintonia que você e com J. não foi diferente, ela sempre estava disposta a conversar sobre o trabalho, conversávamos muito, trocávamos ideias entre nós e o diretor também. Foi ótimo.
— A química entre vocês era visível. – Diz o entrevistador.
— Sim, temos química juntos e é bom quando acontece porque dá mais verdade ao trabalho, no nosso caso não foi diferente. Acredito que contribuiu muito para o sucesso dos filmes até agora. Trabalhar com J, foi uma grata surpresa, espero que se repita algum dia.
— Houve boatos que vocês poderiam estar juntos...
— Não, nada mais falso. Sou casado e bem casado, J. tem um relacionamento sério de alguns anos pelo que eu saiba, nosso relacionamento foi profissional e respeitoso. Ficamos amigos, é uma amizade que quero levar para a vida. Boatos como estes são maldosos, mas, talvez, tenham surgidos por causa de nossa convivência que foi muito longa e boa durante todo trabalho. Mas, também, boatos assim surge o tempo todo com pessoas que tem uma exposição como a nossa.
— Muitos fãs torcem para que fiquem juntos. — Retruca o entrevistador.
— Acho que é natural que haja uma confusão entre nossas pessoas e os personagens que interpretamos, mas são personagens, é uma estória, se vendemos isso como uma verdade, se as pessoas acreditaram, então, é porque fizemos bem o nosso trabalho. Entendo os fãs, mas eu, assim como J. temos nossas vidas, cada um segue com a sua, somos amigos e é uma amizade que faço questão de levar pela vida, como disse antes, sei que isto é recíproco, mas apenas isso, uma bela amizade que nasceu de um belo trabalho.
— Foi um belo filme.
— Obrigado.
— E você D. acredita em uma história de amor assim, como viveram os personagens de vocês?
— Posso de contar uma história real? – Um tanto animado.
— Sim, por favor, temos tempo.
— Quando eu era adolescente, eu perdi minha avó, vi o sofrimento de meu avô com a perda dela. Mas tempos depois ele me conta uma história que havia acontecido com ele. Quando jovem, ele teve a chance de trabalhar com uma moça por quem acabou se apaixonando, mas ele já era casado com minha avó e já tinham filhos juntos. Mas meu avô se apaixonou mesmo assim. E durante o tempo em que trabalharam, um era muito cortês e educado com o outro, meu avô conversava bastante com ela, e via nela uma moça adorável, agradável e muito inteligente, e cada vez mais ele se apaixonava ainda mais por ela. Segundo ele, esta moça, mesmo que mostrasse algum interesse, ela sempre era muito correta com ele, pois sabia perfeitamente que ele era casado e com filhos. Ele contava as horas para poder, novamente, está ao lado dela, mesmo que fosse apenas para vê-la. Ele também me disse que se pudesse passaria a vida apenas a contemplando. Se pudesse tinha deixado tudo de lado para seguir esta mulher.
— Mas seu avô não foi legal com sua avó. – O apresentou faz uma cara de decepção.
— Calma, eu não terminei a história. – Ele diz todo paciente. — Enfim, meu avô amou esta outra mulher, e realmente, ele até pensou em se separar, deixar tudo para trás. Mas tinha um porém, ele, também, amava minha avó e o que tinha construído com ela, sua família. Ele gostava da companhia da minha avó, amava os filhos e tinha uma vida feliz, mesmo se apaixonando por outra pessoa, pode acontecer a qualquer um, ninguém está livre disso. Ao conversar com meu avô, ele me contou e, a princípio, pensei como você, mas foi através dos anos é que eu o entendi finalmente. Hoje eu o entendo perfeitamente. Meu avô tinha uma vida muito boa com minha avó, a amava do seu jeito, sempre a respeitou, mesmo que à primeira vista pareça o contrário. Meu avô me contou que se houvesse conhecido aquela moça ainda quando estava solteiro, ele teria feito de tudo para se casar com ela, mas a vida não a colocou em seu caminho no momento certo, mas colocou minha avó, que, também, era maravilhosa e ele se apaixonou por ela.
— Não sei não, ainda eu acho que seu avô não foi legal com sua avó. – o apresentador parecia decepcionado.
— Entendo você, o que eu quero dizer é... Ninguém controla por quem se apaixona, apenas acontece e aconteceu com meu avô, ele me disse que se pudesse teria vivido com esta moça, mas já era casado, tinha uma vida boa com minha avó, amava estar com os filhos, com a família, se esta moça tivesse aparecido antes do que minha avó, ele queria ter feito tudo isso com ela porque a amou verdadeiramente. O que eu quero dizer é, houve uma escolha, então. Como ele havia feito uma escolha, uma escolha antes de conhecê-la e esta escolha era minha avó. E posso te garantir, o tempo em que convivi com eles, eu sempre vi o tanto que meu avô era dedicado a minha avó, atencioso, amoroso, companheiro, amigo e apaixonado. É claro que meu avô não era perfeito, eles tinham os problemas deles, como todo casal tem, mas ele preferiu seguir em frente com a minha avó, mesmo carregando o amor que sentia por esta moça através dos anos. Ele me disse uma coisa que me comoveu bastante depois, se houvesse um jeito de unir estas duas mulheres, em apenas uma, seria a mulher perfeita a sua vista, mas não foi assim, a vida não é assim e tive que escolher, e optou em continuar a sua história com a minha avó. Meu avô amou duas mulheres que ele considerou maravilhosas, ele as amou verdadeiramente e teve que abrir mão de uma... Mas ele se deu conta que havia aberto mão desta moça muito antes de conhecê-la, quando ficou com minha avó, quando se casaram. Ele tinha uma vida boa e nada que justificasse uma separação. Então fez o que achou melhor, guardou este amor para si, e foi viver a vida com a minha avó, da melhor maneira que poderia e fazia de tudo para que ela fosse feliz. Ele não traiu a minha avó, não teve um relacionamento fora do casamento, não era o perfil dele, apenas se apaixonou por outra, e pode acontecer a qualquer um, quantas histórias assim vemos por aí, muitas pessoas preferem desfazer seus casamentos e seguir seus instintos, meu avô não, ele preferiu ficar e viver a história dele com a minha avó e foi uma história de amor, ele foi dedicado, amoroso. Quando eu perguntei a ele se ainda pensava nesta outra mulher, sua resposta foi surpreendente... Sim, ele me disse tranquilamente, eu a amo muito ainda, mas ela não é para mim, eu sempre soube disso. Por que não, perguntei. Hoje ela é casada, tem sua família e sei que vive feliz com seu marido e sei que também me amou, mas soube respeitar isso.
— Nossa...
— Quando o trabalho deles terminou, eles continuaram amigos, mas cada um seguiu sua vida. Meu avô me disse que no último dia de trabalho juntos, ele deu a ela uma pequena lembrança, uma flor azul, acho que uma rosa, mas sei que não existe naturalmente na natureza, mas não tenho certeza se foi uma, ou outra flor. Foi a única vez que se abraçaram e ele fez um pedido a ela.
— Um pedido, qual?
— Que fosse feliz, muito feliz. E entregou a ela uma flor azul.
— Uma flor azul?? – Questionou.
— Sim, por ser rara. Depois fui pesquisar o significado, por ser rara, significa mistério, o inalcançável, o amor eterno e profundo e ele a deu a ela. Meu avô amou minha avó verdadeiramente e amou esta mulher, ele fez a escolha dele, foi fiel e apenas amou. Nunca a traiu, nem foi canalha, ao contrário, hoje vejo que ele foi muito correto com ambas, a minha avó, ele deu sua vida, a esta moça apenas uma flor azul, que significa o eterno. Hoje eu compreendo perfeitamente meu avô e o admiro muito por isso. Ele é apenas um homem que amou profundamente duas mulheres, amar não é uma escolha, acontece, mesmo que você tenha uma certidão de casamento. Quantas pessoas passam pela vida sem saber o que é verdadeiramente isso, amar alguém, vivem pulando de um relacionamento em outro sem saber o verdadeiro significado do amor. Meu avô soube e me ensinou isso, agradeço a ele.
— E a sua avó, nunca soube?
— Não sei dizer, o que posso dizer é que ela foi feliz com ele, e era apaixonada por ele, ela tinha aquele olhar que as pessoas que amam verdadeiramente têm... Aquele brilho inexplicável que não vemos muito por aí... E foi assim até partir.
— Que história.
— É uma história de amor verdadeiro, um amor eterno, acredito nisso hoje. Entendo perfeitamente meu avô. Foi correto, escolheu, e seguiu em frente.
— Pensando por este lado, é uma bela história, mesmo com final nada convencional.
— Mas o amor não é convencional, ele é apenas da forma que é... O casamento dos meus avós foi cheio de amor, mesmo ele carregando consigo o amor que sentia por outra mulher.
Não prestei mais atenção na entrevista, na realidade acabou logo depois. Desligo o computador segurando o solitário azul em meu pescoço que havia sido dado por ele alguns meses antes, praticamente, não era apenas um presente de amizade, mas algo mais, algo que ficou apenas na promessa que nunca foi feita e nunca será. Um sentimento guardado e que sempre será assim. Apenas observo a tela desligada do computador, e sentido o diamante azul entre meus dedos, uma pedra muito valiosa e eterna, símbolo do eterno, do amor... Será que a história do avô é verdadeira, é uma bela história, e que talvez esteja sendo revivida, apenas com outros personagens, nós... Ele me pediu para ser feliz, assim como o avô pediu a moça, da mesma maneira. Ele fez sua escolha, antes mesmo de me conhecer e eu sempre respeitei isso... Não era justo, não é justo, por mais que eu o amasse. Meu ex-namorado percebeu. — Minha Nossa!! Ele percebeu, meu Deus, droga.
— Seja feliz, só quero que me prometa que vai ser feliz. – Lembro-me de D. me pedindo ao me abraçar no final do lançamento. – Prometo. – Sentido o seu perfume.
Afundo-me no sofá macio, sinto-me pequena não por causa de D. mas por causa de meu ex-namorado, ele queria se casar comigo. Não sei se é uma boa ideia, nunca cogitei, ele não merece, mas e eu?? Não é justo casar, mas prometi ser feliz... Mas ser feliz é casar com o meu ex-?? Adoro meu ex-, mas o magoei demais, mas... talvez seja melhor seguir em frente... E D.? Queria ter tanto o conhecido antes de se casar, será que se tivesse o conhecido antes, para que pensar nisso?? Uma história que ficou no ar, nunca realizada, e eternamente sonhada. É melhor guardar as lembranças dos dias em que estivemos trabalhando juntos, as conversas, ou mesmo o silêncio.
Praticamente fiquei o dia inteiro em meu quarto, apenas o vi quando veio se despedir de mim, o que dizer nestas horas, nada. Eu o magoei muito. Eu desci e o vi colocar as últimas malas no carro, fui até onde ele estava. Não sei bem o porquê. Foram mais de três anos juntos.
— Tem certeza? – Foi a única coisa que pude disse. Sinto-me pequena, fragilizada.
— Eu não quero discutir com você. Estou, olha eu nunca imaginei que fosse terminar, principalmente, assim.
— Não quero que vá, eu acho que podemos... – Tento remediar, mas consciente que não muda nada, sei que não posso dar a ele o que deseja. Merda.
— Podemos o quê? Você não me ama, eu não vou ficar aqui como se fosse apenas sendo mais uma peça da mobília e muito menos para aparecer em capa de revista mostrando uma felicidade que não existe. Eu quero mais J, você e capaz de me dá? Droga, eu queria me casar com você. Eu queria uma vida com você e agora acabou. Você acabou com tudo, droga J, o que pensa? Acha que tem algum futuro? Se nem nós temos um futuro.
Eu não conseguia dizer nada.
— Aqui estão as chaves da casa. – Ele me entrega o molho de chaves.
— Lamento. – É a única coisa que consigo dizer. Ele apenas me olhar e entra no carro e parte.
Volto para dentro de casa, parecia maior agora, tudo parece maior agora, sinto-me pequena. Uma vez alguém me perguntou como era ter tudo? — Eu não tenho tudo disse, ninguém tem tudo, por mais que se tenha. – Eu não tenho nada, eu sozinha em uma casa grande, e ainda magoei quem não devia, e pior, por mais que tentasse, eu não queria ter magoado, ele não merecia, mas por outro lado, ele tem razão, eu não o amo, mesmo que o adore, mas não o amo. Talvez seja melhor tentar curar as minhas feridas, sozinha. Dois homens, um eu nunca tive e nem terei, o outro eu tive, mas perdi e não o terei mais, sei disso. A vontade que tenho é de dar uma gargalhada insana, tenho pena de mim mesma. – Estúpida. — Digo. Vou a geladeira e pego uma garrafa de vinho branco seco e sento na cadeira do balcão.
Não o procurei, não devia, mesmo que desejasse, mas não podia, a notícia de nossa separação não demorou muito a sair, por mais que quisesse manter em sigilo, engraçado, como a dor dos outros se tornam nota de jornal e de sites na rede, todos comentam, fazem fofoca, obviamente, houve associações entre meu nome e o nome de D, mas, nestes casos, o melhor é manter o silêncio, a distância e deixar até o próximo escândalo estourar. Sem notas à imprensa, era a minha dor, não é de domínio público. E nada melhor que tentar trabalhar e já que não quero ficar muito em casa, sinto-me como se tivesse solta no mundo, viajar, ficar longe de tudo. Esquecer, como se fosse possível. Seguir em frente. Continuo a pensar nele, impossível não pensar, mas sei que não é o meu caminho.
Ao ouvir do toque do celular, e vejo o seu número, do nada sinto meu sorriso se formar, atendo.
— Quanto tempo moço... – Estou feliz em apensar por saber que era ele.
— Estou no outro lado do país, tenho algumas entrevistas para dá, um novo filme, desta vez salvo o mundo, e você algum trabalho novo? Queria ter ligado antes.
— Acabei de gravar um filme onde sou a mãe solteira de um menino especial e que luta para ele ter tratamento adequado, uma bela e triste estória, mas não vou contar o final, terá que assistir. Mas o trabalho não para, já tenho a leitura de um novo, desta vez uma comédia romântica, bem água com açúcar. Por que acham que o amor ainda dá uma boa estória?
— As pessoas gostam de estória de amor, sem contar que ainda dá um bom lucro, apesar de acreditar que, hoje em dia, há mais lucro com filmes de super-heróis. – Rimos. — Com certeza, vou privilegia-la, trabalhar é sempre bom. Então, a senhorita estará na cidade nos próximos dias? Que tal jantarmos, ou tem algum compromisso?
— Teve sorte, voltei ontem, também tenho compromisso aí, mas só daqui alguns dias. E como vai a família?
— Graças a Deus todos bem. As crianças estão cada vez mais espertas e agitadas, será que isso é normal?
— São crianças, não seria normal se ficassem quietas, e lembre-se, quando uma criança fica muito tempo quieta e não está dormindo, certamente, está aprontando algo, pelo menos é o que diz a sabedoria popular..
— Nem me diga, os meus quando ficam quietos demais tenho até um frio na espinha. Outro dia, o mais velho apareceu todo sujo de talco, eu não sabia se ria, ou se dava uma bronca.
— E sua esposa? Como ela está?
— Bem, e correndo atrás das crianças. Ela está bem. – Silêncio. — Soube que seu namoro terminou, lamento muito. – Bem direto.
— Eu também lamento, ele não merecia.
— Eu queria ter estado aí, mas...
— Só iria piorar o que já estava ruim. Fez bem em não vim.
— Estava tão preocupado e sinta-me impotente porque já associavam meu nome... – Silêncio.
— Fez bem. A imprensa veio com um abutre, mas o melhor foi manter o silêncio, e esperar a poeira abaixar.
— Difícil... – Sai como um lamento.
— Bastante, mas já estou melhor, trabalhar sempre é o melhor remédio, sofra, mas siga em frente, sempre.
— Entendo.
— Outro dia vi uma entrevista sua no youtube, uma que deu há alguns meses.
— Qual delas?
— A que você falou dos seus avôs.
— Sei qual é.
— Bela história, mas é real?? – Desconfiada.
— Claro que sim, não tem porque mentir. – Silêncio. – Sabe que durante muito tempo eu não entendi o meu avô. Pensava que ele tinha, de alguma forma, traído a minha avó, hoje sei que não.
— É mesmo?
— Sim.
— E quando o compreendeu?
— Quando conheci você. – Silêncio incomodo. – Nunca pensei que um dia fosse compreendê-lo, até surgi você. Sei o que meu avô sentiu, sei que será assim para sempre, a história se repete.
— Por que não uma rosa azul? Já existem...
— Diamantes são eternos, não é o que dizem? Um diamante azul, além de eterno, é raro. – Um suspiro, buscando o ar. — Houve uma parte que eu não contei.
— O quê?
— Algum tempo depois, meu avô soube que ela havia enviuvado, foi fazer uma visita e conversaram durante um bom tempo, tomaram chá, e no momento eu que ele começava a ir embora, ela pediu licença e foi até o quarto, de lá veio com um pequeno embrulho nas mãos, um papel de seda velho e manchado. Ela o abriu e lá estava a flor azul, ressecada pelo tempo, e guardada por sei lá quantos anos. E ela se virou para ele e disse que foi feliz, ela cumpriu a promessa que havia feito a ele, décadas antes. Meu avô morreu pouco depois disso, ele dormiu e não acordou. Depois daquele encontro, nunca mais se viram, mas ela foi ao seu funeral, eu a vi.
Não tenho o que dizer, fico em silêncio e a única coisa que posso, busco o ar.
— Conversei com ela por um tempo, ela o amo a vida inteira, foi bom ter a conhecido, falar com ela. Mesmo que não tenham ficado juntos, eles se amaram, foi uma história de amor, nada convencional. – Silêncio.
— Por isso que quer me ver feliz?
— É o que mais desejo. – Silêncio longo.
— Talvez seja melhor deixar nosso jantar para outro momento. – Sinto meus olhos marejarem.
— Talvez seja. – Ouço um suspiro. – Volto para casa na quinta. Foi bom ouvir sua voz. Sempre é muito bom ouvir a sua voz.
— Também foi bom ouvir você.
— Outra coisa... Obrigado pelo presente, mas é muito caro. – Sinto um leve sorriso.
— Não pensei no valor monetário, um presente de uma amiga para seu amigo especial.
— Um Patek Philippe com caixa em ouro branco com pulseira de couro?? É um presente que se dá a um pai, um irmão, esposo... – Esta conversa não me é estranha.
— Ou a um amigo muito especial. Um relógio especial, para um amigo especial, precisa equivaler a um diamante azul. Achei Rolex tão banal, tão jogador de futebol em ascensão. – Debocho. – Quem vai lembrar de um Rolex? Mas de um Patek, inesquecível. – Mudo até meu tom de voz, brincando com ele.
— O diamante azul tem um significado, qual é o do Patek? – Sinto que sorri do outro lado da linha.
— O tempo, é um relógio de gerações, para nunca se esqueça. Seu tataraneto ainda o estará usando, velhinho. Não é eterno como um diamante, mas durante por muito tempo. – Brinco.
— Obrigado, já é meu favorito. Sempre vou guardá-lo comigo. – Mais um longo silêncio. — Você vai ficar bem?
— Vou. – Outro silêncio. Ainda bem que ele não pode ver as lágrimas se formando em meus olhos.
— Eu... eu... – Mais um silêncio.
— Eu preciso ir, obrigada por ligar.
— Até mais, J. – Um suspiro.
— Adeus. D. – E desligo o telefone, e sem perceber seguro com força o pendente azul, desejando que um dia esta história possa ter um outro final.
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