Uma antiga canção de Sinatra
1 UMA ANTIGA CANÇÃO DE SINATRA
“Play. The Be Good Tanyas, Waiting Around to Die. The Walkmen, Red Moon. J.J.Cale, Anyway The Wind Blows. Nancy Sinatra, It's Such a Pretty World. Massive Attack, Paradise Circus”.
Sou um edifício em construção ou um castelo de cartas esperando um espirro. Procuro em janelas, solos e tetos o que não vejo em fotos. O significado de tudo ressoa fluidificado nos meus pensamentos, sei que a eternidade doí feito um canivete cego rasgando uma folha em branco. Ouço a melodia, tento conectar frases, a aleatoriedade dispara através dos cantos. Minha ânsia por descoberta, enquanto grandes expedidores procuravam as Índias, meus indígenas queimavam matagais a procura de uma alma amiga.
Encontrei cabelos fúnebres, uma face jogada sobre a outra, cobrindo o Sol com uma peneira. Não havia um sorriso ali, uma pedra em perfeito desatino com a minha ilusão, uma certeza despertada com o pôr do Sol, trazia o arrebol com um trago ao diabo e um colchão ao mais nobre mendigo. “Deixe-me dormir”, ele dizia, todavia a tormenta sussurrava: “ela está vindo por você”. Entretanto o racionalismo esbravejava truculências, “ela não existe, ela não virá, quem é você para dizer o contrário? O assassino? O estuprador? Aquele que abandona e diz ‘abandonado’?”.
Raspe minha cabeça com uma Gillete, não confunda a lixa com o meu pulso. Encaro tristes olhos e tento adentrar o universo esperando ser descoberto, em cada indivíduo, há um código Morse, uma alma frágil, tímida, que nega batendo no peito, porém consente com o olhar: “Sim, eu quero que alguém se importe comigo”.
Ponha a bata, mas não se esqueça da tiara. Por trás do singelo costume, há uma lingerie vermelha. O dinheiro não grita e não há um “foda-se o capitalismo” nos outdoors, somos pedras no abismo esperando ser chutadas para logo esbravejar ideologias nulas, nos sentimos grandes e queremos mostrar grandiosidade, na nossa altivez sentimos o cheiro do inferno e o terno é manchado de uísque e amores roubados de parceiros que nem lembram os nossos (codi)nomes. Composto. Simples. Composto. Em desordeira harmonia com o equilíbrio.
Leio trechos, leio tua alma, intrigo-me e deixo a ventania tornar-se ciclone, não me importo que a descoberta leve-me para logradouros vertiginosos e gélidos que beirem as profundezas frias e penumbrosas de um túmulo. Abro um sorriso “quando eu te olho pelo espelho”. Enxergo uma figura obsoleta, que duramente ecoa real.
De Nirvana a Chopin, pronunciando errado Bach, derrubando o chá. Compondo rimas raríssimas, abafando o som dos pensamentos com as mãos, a impossibilidade é uma doce ilusão. Durma com o seu próprio cafuné, imagine que estou na possessão de suas mãos. O amor é tão belo. Sagaz.
Uma página de diário deturpada pela ocasião, um folhetim trazendo as últimas notícias de um casal além de um amontoado de células. Um circo no paraíso é um ataque massivo.
“Amigos não. Mas, por enquanto, des-conhecidos reconhecidos?”. Disse o plagiário plagiando a “doce” plagiada. (Nas entrelinhas ele queria dizer muito mais, todavia lembrou-se do que aconteceu em tudo que tocou verdadeiramente). Morreu. Findou. Desapareceu.
S
U
M
I
U
...
FIM
30/11/2014
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