Uma adolescente nada normal
6 Eu o desejo também..
Notas iniciais
Eu estava muito assustada com o que tinha acabado de presenciar. Vinícius tinha enfiado uma faca na altura do estômago de Paulo, que por um lado mereceu, acho que se ele não tivesse feito aquilo quem sairia machucada era eu. Mas eu também queria uma explicação, porque ele fez aquilo? Porque estava no mesmo local que eu? Estranho, não?
– Você me deve uma explicação!- Gritei puxando meus braços dele e parando assim que estávamos distante do que tinha acontecido.
– Você tinha que me agradecer, garota!- Ele sentou encostado no muro de uma residência.
– Ok, se aquilo não tivesse acontecido quem poderia se machucar era eu.- Falei abaixando na frente dele.- Mas porque você estava lá? Foi você quem eu vi encostado na mureta da calçada. Você estava me vigiando, não estava? Porque você anda com uma faca, seu maluco?- Tive que pegar no rosto dele e levantar pra mim. Por incrível que possa parecer eu não estava com medo dele, mesmo depois de tudo que havia visto.
– Desculpa, eu só queria te proteger. Sabia que esse garoto não era uma boa pessoa assim que ouvi você e a Clara conversando na sala de aula. Quando ela falou que ele tinha feito mal pra você eu só pensava em encontrá-lo e acabar com a raça dele. Isso não é nada demais pra mim! E foi só isso que eu fiz, pela sua proteção. Eu não sou uma pessoa ruim, te juro. Me perdoe!- Os olhos dele se encheram de lágrimas.
“Isso não é nada demais pra mim!”, como assim? O que ele quis dizer com isso? Aquilo sim havia me dado medo, mas ele me pediu perdão, por quê? No fundo eu sabia que tinha sido por ter me feito passar por tudo aquilo, ver aquela cena, mas parecia ter outra coisa nesse pedido de perdão. Fiquei perdida em pensamentos ali, naquela rua escura, deserta, abaixada na frente dele, quando senti uma pressão na boca. Ele havia me beijado! Não estava acreditando, ele tinha feito aquilo mesmo? Acabei retribuindo e ele simplesmente foi deitando encima de mim, ali na calçada mesmo. Não sei o que ele queria com aquilo, só sei que eu estava cedendo, erradamente, eu admito.
– Eu desejo você, Margareth!- Ele soltou entre suspiros no meu ouvido.
Quando ouvi aquilo eu tremi! Ele me desejava! Será que do jeito que eu estava pensando? Eu era sim impulsiva e juro que queria o que ele queria, mas não o faria. Juntei todas as minhas forças e virei, ficando por cima dele. Logo depois, levantei.
– Vamos embora!- Não demonstrei nenhum tipo de reação, ele levantou um tanto confuso e me seguiu pelo caminho.
– Não vai dizer nada?- Ele disse depois de alguns minutos andando em silencio.
– Dizer o que?- Me fingi de desentendida.
– Sobre o que eu falei, Margo. Eu não queria te falar o que eu estava sentindo, mas não consegui segurar. Eu tinha que te dizer! E ai quando eu digo, você pouco se importa e não fala nada sobre..- Ele havia parado na minha frente.
– O que você quer que eu fale, Vinícius? Eu acabei de ver você enfiando a faca em um cara, tudo bem que foi em um cara que me machucaria, mas você pode ter o matado, sabia? Aí depois eu peço explicação e você admite, de um jeito torto, que estava me seguindo. Aí do nada me tasca um beijo, UM BEIJO e fala que me deseja, o que você quer que eu fale? Me diz!- Eu estava alterada, acho que gritando.
– Posso ter o matado não, eu o matei! Foi em um ponto que milagre seria se ele sobrevivesse. Não adianta me perguntar onde está corpo ou o cassete a quatro, polícia e esses mimimis, eu já dei um jeito dele sumir de lá. Ele não vai mais perturbar ninguém, fiz um favor. E eu te tasquei um beijo porque desejo você, desejo muito, eu já te falei. Desejei desde o dia em que a vi sentada no chão da escola. Não sou um maníaco, mas quando eu quero uma coisa, eu consigo. E eu vou ter você! Agora que está resumido, podemos ir embora? Vou te deixar em casa!- Ele estava gritando e com uma cara não muito boa.
Demoramos uns quarenta minutos pra chegar até minha rua, andando demorava, é claro. Só faltava ele querer me por deitada na minha cama, ficou falando que não iria me deixar ali na rua, queria me levar em casa, por causa do frio que estava não tinha gente na rua e era perigoso. Deixei que ele me levasse até enfrente minha casa e depois entrei, olhando pra trás percebi que ele estava parado esperando que eu entrasse.
Estava eu dentro daquele quartel novamente. E foi mal chegar na sala pra avisar que eu tinha chegado que mamãe já com toda sua ignorância foi falando que eu era uma pessoa irresponsável que não aprendia com as coisas que me aconteciam, que eu não tinha senso e que ela já estava cansada de tudo aquilo. O que, na verdade, não me abalou, eu já estava cansada de ouvir aquilo, o costume andava do meu lado naquela casa. Subi para o meu quarto depois de toda aquela falação, eu tinha que ligar pra Clara, eu tinha que contar o que aconteceu pra ela. Tia Rô deveria estar preocupada também.
Depois do segundo toque, Clara atendeu...
– Margo, cadê você? Está tudo bem? Demorou muito, liguei pra você e só chamava.- Ela falou assim que atendeu, não deixou nem eu falar direito.
– Eu to bem, só preciso te contar...- Contei a história pra ela que ficou assustada assim como eu, parecia ter ficado triste com o fato da facada no Paulo. Mas espera.. será que ele morreu mesmo? Vinícius estava falando sério? Contei também a parte do beijo, o que só fez ela falar sem parar de como ele era frio e sem coração, estava nervosa. Clara é minha amiga e não costumamos esconder nada uma da outra, ela havia me falado que não gostava mais dele desde o que aconteceu da última vez em que foi parar no hospital, mas sinceramente, depois da reação dela, eu tinha sérias dúvidas. Desliguei alegando que tinha que tomar um banho e tentar dormir, estava cansada e com um certo peso nas costas, preocupada.
– Eu preciso saber sobre Paulo, preciso saber se ele teve seu fim decretado.- Falei pra mim mesma me jogando na cama depois do banho. Eu precisava saber se o que Vinícius me falara sobre o "ponto da facada" era verdade. Perguntaria à ele na escola. Mesmo depois daquilo tudo, eu não tinha medo de Vinícius. Aquele jeito, aquela atitude, me atraía. Não conseguia parar de lembrar daquele beijo e não conseguia para de pensar o porquê de tudo aquilo ser comigo. Ele me desejava! Ele mesmo havia falado e eu acreditei, a voz dele soava verdadeira, o olhar mostrava desejo realmente. Por bem ou por mal eu descobriria o que ele era, eu descobriria porque comigo, eu descobriria que desejo era aquele.
Eu também o desejava!
Fale com o autor