Uma Volta ao Passado
1 Capítulo 1 - Único
Notas iniciais
Estava em um trem, na grande São Paulo, à caminho de alguma oportunidade de qualquer trabalho, fiz vinte anos recentemente, no trajeto, me recordava dos tempos de mais jovem, o início da adolescência, quando havia conhecido ela, a mais bela, pobre em melanina, dos olhos verdes, cabelo loiro cinzento, que brilhava do satélite mais distante do nosso planeta, um rosto fino, única covinha do lado esquerdo do rosto, lhe dava o ar de tão fofa, ingênua, mas sempre se mostrará segura. Foi minha primeira paixão, decadente naqueles olhares, quando conversavamos, era como se fosse ativada a câmera lenta daquela cena cinematográfica, mas que era real, e eu sentia cada momento. Quando chegava atrasada, fechava os olhos e andava mais depressa, passos médios, pernas finas, aquele sapatinho vermelho, suas mãos apertando firme os cadernos que ficava no colo de seu braço, o cabelo voava que chegava a metade das costas, a franja longa formada pela ondulação perfeita, chegava na fila de nossa sala, sem querer chamar a miséria de qualquer atenção, ela não conseguia, dos meninos que desejavam te-lá, das meninas que invejavam, dos adultos que admiravam. Houve um dia em que ela se machucou, estávamos jogando vôlei, há sempre aqueles alunos atrapalhados que esquecem a própria força, neste caso foi o peso, ela era tímida em esportes, tinha sempre medo de ir, ficava com receio de errar ou ser chamada a atenção negativamente, mas desta vez ela tomou atitude, quando não deveria, invadiu a área errada, defesa do amigo, que queria salvar seu time de qualquer maneira e a empurrou sem querer, com o impulso ela foi jogada na parede e caiu. Saí correndo para ajuda-lá, lhe perguntei aonde machucou, peguei no colo e corri até a enfermaria, nem tanto, pois ela também tinha peso (kk), o cabelo preso que se soltou, os olhos que seguravam algumas lágrimas, de ardência, e as mãos que levemente foram colocadas em meu ombro, um pouco raladas. Ela foi cuidada, e eu fiquei na entrada, encostado e de braços cruzados. Na festa de final dos estudos, todos ficavam com alguém, na verdade, a maioria, eu estava bem só, fui para o andar de cima, quando vi minha bela garota beijando um cara, na época, o que eu odiava profundamente, se achava melhor, enganava as pessoas, passava a perna nós próprios amigos, e ainda era visto como o mais popular. Foi atordoante, desci de lá correndo e chorando, algumas pessoas viram, e a notícia se espalhou por toda festa até chegar nela, como toda hora havia um casal subindo e outro descendo, ninguém sabia o que ou quem teria me deixado naquele estado. Estava sentado na calçada da rua da outra esquina, ela foi andando um tanto rápido até mim, era muito tarde, estava frio, ela passava aos mãos em seus braços, se apoiou aos próprios pés, ajeitou seu vestido amarelo, sua corrente e pingente batia contra teu peito, com o vento forte os cabelos dela, tão lisos aquela noite, voavam muito, ela piscava, tentava manter os olhos abertos, passou as mãos por minhas costas, beijou minha testa, limpou meu rosto e me abraçou, aconchegando-se, fazendo meu ombro de seu travesseiro. Talvez ela soubesse que tinha me magoado, possivelmente me visse apenas como um amigo, sabia da importância que ela tinha na minha vida, e não queria me fazer sofrer, queria me ter para o resto de tua vivência, mas não me imaginava ao seu lado. A última vez que nos vimos, foi no acampamento de férias, se perdeu o mascote da turma, era um labrador, não era um filhote, já estava um pouco crescido, mas mesmo assim, era dócil e ingênuo, afastando-se da nossa área, nosso próprio guia afirmou que havia perigos, ali perto se iniciava a reserva, já estava à escurecer, e neste horário os animais saíam de seus "confortos" para caçar ou beber água. Em quanto todos os alunos tentavam resolver como se separar, minha paixão, estava sentada numa rocha, com flores e cogumelos do lado, ela estava com o cabelo preso, uma mão sobre a perna e outra na cabeça, olhando para o chão, preocupada, ela me disse que era a vez dela de passear com o cão, e alguém não tinha o deixado preso, ela precisou ir ao banheiro e nem conferiu se ele estava lá, eu a acalmei, ela me pediu para que fossemos separados da turma e eu concordei, pois até eles se decidirem, talvez seria tarde demais, peguei lanternas, comida, água, cobertas, minha mochila e uma faca. Estávamos em direção à montanha, aquela altura já teriam dado conta de nós, e agora eram três desaparecidos, eu, minha bela e o nosso mascote. Andávamos e andávamos e nada, não sei se passaram horas ou minutos, tudo parecia demorar mais, e não ter saída para lugar algum, ela estava cansada, segurava nos meus braços com as duas mãos, quase sendo carregada, precisávamos parar e descansar, estava ficando muito frio, até que ouvi algum choro, era o nosso querido cachorro, estava machucado, com alguma ferpa no pé, estava muito aliviado por acha-lo, o problema agora, era ter alguém para nos achar. Estávamos deitados, lado a lado, cobertos, o totó estava dentro da mochila, ela colocou a mão sobre meu rosto e me perguntou " E se não sairmos mais daqui? ", falei o que achei que nunca sairia da minha boca, foi por impulso, não sei, oh meu deus, não pensei antes de falar, me entreguei, me declarei. — "Eu só quero que saiba que te amei", ela me beijou, incrivelmente, eu estava espantado sem saber o que fazer, numa situação tão preocupante, ela me deu o que eu menos esperava, que eu achava que lutaria a vida toda pra conseguir, abri os olhos logo que ela parou e tomei atitude , puxei teu corpo, com a mão em sua cintura e continuei, os lábios macios, vermelhos, o narizinho fininho e empinadinho se batia com o meu, nossas mãos, nossos olhares, nosso calor, nosso medo, era tudo tão intenso, logo depois, dormimos. Bom, após algumas horas, nos acharam, estava amanhecendo, levaram o cão a um veterinário e fomos embora para casa, no ônibus, contava que havíamos visto animais, reflexos, barulhos e a galera se animou, alguns mais pervertidos até perguntaram se eu teria "aproveitado o momento", disse que ela era especial demais e eu não era como eles. Desci no metrô, não me lembro nem o por quê destes pensamentos, talvez pela causa que eu não tivesse me apaixonado novamente nunca mais por ninguém. Enfim, subia as escadas do centro de transportes públicos, para ir à minha entrevista, quando me recordei que precisava perguntar no centro de informações, aonde que ficava o edifício de jornalismo investigativo, por aquela imensa cidade, quando dei meia volta, avistei alguém muito semelhante, por passos lentos, desci a escada. Meu deus, era ela, loira, com um casaco vinho, calça preta, uma bota marrom, de uma das marcas mais caras aqui conhecida, mexendo em seu tablet, com os cabelos maiores, óculos de grau que dava um amplo ar de conhecimento ao teu rosto, uma touca preta feita a mão de qualquer material possível, lindo, cada roupa se encaixava bem, combinava, ela virou rapidamente o rosto para o trem que acabará de chegar, entrou nele em um delize, sai correndo, atropelando todos à minha volta, com meu sobretudo voando, fazendo um barulho horrendo com o sapatenis, tropecei e cai em cima de uma mala de uma senhora muito assustada, ela me perguntou se estava bem e me acalmava. A tão bela mulher, virou-se para a janela para ver o que todos riam e comentavam, e se surpreendeu, boquiabeta me olhou por segundos, levantei-me e lhe acenei, ela piscou com os dois olhos e assentiu, sorrindo, formando a covinha que me dava certeza de quem eras, e lá partiu-se seu trem, me deixando ali, paralisado e sóbrio.
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