Uma Vida - Inacabada
4 Capítulo 4
Humana
''Mas eu sou só humana
E eu sangro quando caio
Eu sou só humana
E eu me despedaço e eu me quebro''
(2014 — Christina Perri)
****
Abro meus olhos e a luz do dia cega minha vista por alguns segundos, eu me sinto tonta tudo está rodando sem parar que chega a me causar dor de cabeça, suspiro aos fechar meus olhos, e a primeira coisa que noto é a janela o céu está tão azul lá fora, sorrio de canto e observo o teto pintado de branco. Olho que estou cheia de fios conectado na minha pele fios que eu não consigo nem contar, mas logo minha mente reflete tudo o que aconteceu e quando me dou conta eu estou passando mal, minha respiração acelera junto com meu coração. O monitor cardíaco já está apitando descontroladamente por causa do meu coração que a cada segundo acelera mais. Logo já começo a perceber a falta de ar aparecendo observo minhas mãos que tremem sem parar. O medo me invade completamente e eu começo a olhar em volta na esperança de encontrá-la de novo, na expectativa de ouvir sua voz para enfim me acalmar, mas ela não está aqui. O médico aparece no quarto e tenta tocar meu ombro, porém eu me afasto quase caindo da cama e berro quase sem ar:
— Não me toque!
O vejo suspirar pensativo e o mesmo comenta:
— Se acalme tudo vai ficar bem Nádia, não vou machucá-la.
Ele tenta me tocar, porém quando sinto seu toque eu afasto meu braço de perto dele o vejo abaixar a cabeça e suspirar e esclarece:
— Não vou machucar você...
— Okay. Tudo bem... Eu... — tento pensar no que falar. — Não da, por favor.
Ele concorda com a cabeça e novamente ouço meus batimentos aumentarem, eu deito minha cabeça no travesseiro sentindo lágrimas brotarem em meus olhos e eu pergunto quase sem voz:
— Cadê ela? Onde ela esta?
Eu sei qual será a resposta dele, mas eu ainda acredito que ela está viva achar que ela está viva é a esperança que ainda tem em mim. Ele olha para minha mãe e comprime os lábios tentando não demonstrar certo incomodo:
— Ela não sobreviveu aos ferimentos causados. Sinto muito.
Começo a chorar ao perceber o quanto as palavras que sai da boca dele me machuca, o quanto saber que a única pessoa que ficou comigo por todos esses meses foi tirada de mim de maneira tão brutal. Que toda a esperança dela de voltar para casa e rever a família nunca irão acontecer. Debato-me enquanto o médico tenta segurar meus braços para que eu tente me acalmar, eu grito desesperadamente a dor é insuportável grito sem parar. Ouço-o chamar por uma enfermeira pedindo para que me dope com algum tipo de tranquilizante. Sinto os toques da minha mãe em meu rosto, mas recuso-os afasto sua mão de mim eu tento parar de chorar por ela, porém quanto mais eu tento mais eu quero chorar e gritar. Sinto as batidas de meu coração sossegar noto a enfermeira sussurrar em meus ouvidos:
— Você vai descansar agora. Vai ficar tudo bem.
Minha respiração suaviza meus olhos começam a ficarem pesados como o resto do corpo e por fim eu fecho os olhos voltando à escuridão de onde eu não quero mais sair.
Eu acordo meio sonolenta reconheço a mão de alguém apertando a minha e lá está ela, minha mãe que tanto imaginei como ela estaria durante todo esse tempo que fiquei sumida. Seus cabelos ruivos estão curtos, não está mais àqueles cabelos longos que batiam nos ombros, agora está bem curto batendo no queixo e pintado de castanho-escuro. Ela me observa com seus olhos brilhando, porém estão tristes, portanto ela inicia quase em um sussurro:
— Oi?
— Olá. — respondo quase sem conseguir ouvir minha própria voz eu tento sorrir, mas não consigo.
Ela beija minha mão acariciando delicadamente e eu ouço dizer:
— Senti tanta sua falta.
— Eu também senti. — sorrio de canto fingindo não querer voltar a chorar.
— Eu te amo tanto, eu sofri tanto sem você meu amor. — ela tenta beijar minha mão, porém eu tiro antes de sentir o toque de seus lábios.
Eu recuso com a cabeça e a vejo ficar meio sem jeito na cadeira — o que é uns dos detalhes que demonstra o tremendo desconforto que ela sente agora. Eu sei como fui rude com ela em recusar o seu gesto carinhoso, porém não estou preparada para carinhos depois de tudo que passei. Ela um dia entendera isso.
— Eu sei que me ama muito mamãe, eu vejo isso. — digo.
— Você ficará bem? — pergunta com esperança que evidentemente eu diga um sim, mas ela sabe que eu nunca ficarei bem.
— Eu não sei. — falo deitando minha cabeça no travesseiro. — Estou com muito sono, mamãe.
— Eu sei. — ela fala sorrindo de canto. — Você pode dormir querida. Está segura aqui dentro.
Observo-a se levantar tentando oferecer um selinho em minha testa só que eu recuso novamente e a mesma volta a se sentar na poltrona olhando-me enquanto eu tento fechar os olhos e revoltar a dormir, porém demorei um bom tempo para resolver fechar os olhos e dormir sem me preocupar com os pesadelos que me atormentam.
***
Vejo-me segurando uma linda flor em minha mão, uma flor suave, perfumada que de certo modo me transmite paz. Quando vemos flores em cemitério sentimos que de alguma forma elas nos consola. Perfume e cor para amenizar a dor, a tristeza. E quando ela está em nossas mãos, sorrimos por que sabemos que o mundo é muito mais lindo do que nossos olhos notam.
Observo o caminho a minha frente, porém eu não movo um músculo se quer fico encarando algo que está muito longe de mim que quase não consigo ver o que é só sei que é luminoso e parece usar alguma espécie de roupa branca. Sorrio de canto ao ver outra luz branca aparecer do lado da mesma e ambas voam para cima se perdendo completamente no céu profundamente azul. Eu largo a rosa branca no chão e suspiro sentindo cada batida do meu coração, que está descansado, percebo que estou sorrindo de canto vendo a luz atrás de mim, começar a se manifestar e eu sei que é hora de eu voltar para casa.
Abro meus olhos e fito à janela em meu quarto, eu inclino a cabeça observando uma borboleta voar por perto da janela, por um segundo penso que é a mesma borboleta que estava comigo e com Camila no galpão aquele dia, mas eu vejo que não é a mesma já que normalmente as borboletas só vivem algumas semanas. Olho para a porta e vejo que está fechada, porém posso ver médicos passando pelo corredor alguns deles carregando pastas nas mãos. Suspiro enquanto vislumbro meus punhos enfaixados que ainda tem hematomas das correntes, tento não me lembrar daquele lugar terrível, porém é inevitável quando a marca não é só mentalmente, mas também fisicamente. Tiro o lençol do meu corpo e levanto da cama notando que já estou sem aqueles montes de fios conectado em tudo que é parte do meu corpo, provavelmente eu estou perto de ganhar alta já que faz semanas que estou nesse hospital, esperando alguma noticia de que posso enfim ir para casa tentar recomeçar, como a maioria das pessoas faz.
Ouço a porta atrás de mim se abrir, eu suspiro fundo enquanto abro a janela para respirar o ar de fora, a brisa está leve quase não dar para perceber que venta. Encosto-me a janela durante o tempo que ouço os papeis que ele ler atentamente, sua voz soa calma:
— Nádia como se sente?
— Estou melhor.
— Eu sou o Dr. Derick Queiroz estou aqui para conversar com você.
Viro-me para ele e sento-me na poltrona no momento em que o noto chegando mais perto de mim encostando-se à beirada da cama.
— Você poderá ganhar alta... Mas eu lhe colocarei você em um grupo de apoio para poder fazer um pouco de terapia, aceita?
— Tanto faz. — respondo sem interesse algum pelo assunto.
— Vou chamar sua mãe para enfim vocês conversarem enquanto faço o seu papel de alta.
— Ok.
— Seja bem-vinda de volta Nádia.
Eu o encaro por alguns segundos e quando o vejo sair pela porta eu não consigo resistir à tentação de sorrir de canto. Bem-vindo de volta ao mundo dos vivos ao mundo de dor e sofrimento, a única coisa que me deixa feliz nisso tudo é que minha família não desistiu de mim e eu sei que a família da Camila também nunca desistiu dela. Minha mãe pousa sua mão em meu rosto limpando algumas lágrimas que insistem em cair e a mesma fala:
— Vamos para casa?
— Sim. — respondo pensando em meu pai o que me faz sorrir novamente.
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