Uma Viagem Sem Bênção
2 Capítulo 2 - Não me dou bem com Brasileiros!
Ao ser chutado para fora do ônibus depois de uma discussão nada amigável, Connor viu-se sozinho em meio aquela selva. Da mesma forma que sentimos o frio ao entrarmos em uma sala com ar-condicionado, o menino sentiu a hostilidade pesar em seus ombros ao sair do veículo. Os rapazes mal-encarados o olharam dos pés a cabeça; Connor não se importou. Apenas pensava em como sair dali e ver seu irmão, Travis, mas não por saudade, e sim por que ganharia a aposta e queria passar em sua cara o quanto era melhor.
— Apesar do Robert ser explosivo e cabeça-dura, ele tem razão em relação ao transporte – Uma voz masculina e suave chamou a atenção de Connor. Era Carl, o homem que estava dentro do ônibus, assistindo o show que Robert havia dado. – Se você não possuir dinheiro – Falou essas três últimas palavras com um tom estranho, insinuando que tinha quase certeza que Connor estava na pior, o que era verdade – ...posso acolhê-lo em minha casa – Seu sorriso era cheio de bondade.
Connor era astuto e sabia que um semideus não deveria confiar em qualquer um e, tendo isso em mente, aceitou o pedido. Na pior das hipóteses, o garoto havia aceitado o pedido de um monstro. Fique de olho nos inimigos e mantenha-se perto,era esse o pensamento que o movia. Sabia bem criar oportunidades e fugir, caso fosse necessário. Em emergências, continuava com sua adaga, que estava embainhada em uma tira de couro por baixo da calça, que era de moletom tamanho GG, o que facilitava estratégias ardilosas desse tipo.
- Então, o que estamos esperando? – Em um sorriso, concordou com o homem, que o conduziu ao seu carro, um Camaro 78 em ótimo estado. A julgar pelo brilho da pintura, o homem era extremamente ordeiro, o que Connor guardou em mente. Teria de ser cuidadoso com tudo, assim que entrasse na casa de Carl.
Carl acelerou o carro e os conduziu até sua residência. No caminho, entretanto, passaram por uma série de grupos formados por jovens (ou não) muito mal-encarados. Um até chegou a dar o dedo médio para Connor, mas Carl havia dito para ignorar.
- Só vai te atrair mais problemas, sério. Não esquenta. Uma vez, um primo meu confrontou esse tipo de gente e...- Como podem ver, o homem era do tipo que fala muito, é só dar-lhe um tópico que o homem perde as estribeiras. Connor sentiu-se melhor pelo fato do homem estar mais aberto, mas ele ainda era um adolescente com TDAH; ouvir um homem de meia-idade falar sobre coisas triviais o enlouquecia mais do que tudo!
Tamborilando os dedos na coxa, o menino sentiu um impulso travesso de fazer uma piada ou pegadinha, mas estava estressado demais devido ao falatório.
Finalmente, haviam chegado em uma rua minúscula onde algumas mães estavam em suas portas, sentadas em cadeiras de balanço, enquanto seguravam seus bebês. Algumas eram adultas, outras, muito jovens.
O asfalto molhado denunciava a chuva da noite anterior, coisa que surpreendeu Connor, que estava dormindo na hora do acontecido. A pequena rua parecia uma vila, pois as casas pareciam ter uma forma padrão: pequenas caixas de concreto, com uma porta da frente e uma janela, diferenciadas apenas pelas cores, onde a tinta estava descascada na maioria das paredes. Dois garotos corriam de lá para cá, sem camisa e pingando de suor, o que deixou suas mães revoltadas. – Garoto, ou você entra agora e toma um banho, ou pode esquecer que sou sua mãe! – Palavras aparentemente duras, mas a mulher parecia divertir-se com o menininho. A outra mãe limitou-se a cruzar os braços, fechar os olhos e balançar a cabeça negativamente, rindo da outra mulher. Pareciam ser boas e velhas amigas...Mães, vai saber!
Connor não gostava de lembrar de sua mãe. Afastou esses pensamentos, mas logo teve de parar de pensar em tudo, pois um barulho familiar havia trazido o garoto ao mundo real.
- Última casa a esquerda, lá vamos nós – Enquanto saia do carro, Carl usava uma flanela para limpar o vidro e a maçaneta com cuidado. De onde a flanela havia saído? Connor não fazia ideia!
Andaram em silêncio até a casa do homem. Algumas meninas, mesmo segurando seus bebês, deram piscadelas a Connor; o garoto não entendia o motivo da paquera, pois pensava que seu estado era deplorável demais para ser cortejado. As garotas, por outro lado, eram feias aos olhos do menino, por isso não ligou muito e as ignorou, continuando a caminhar.
O ruído da porta deu calafrios no menino. O ambiente era quente e, quando a porta foi totalmente aberta, música (Blues, para ser específico) alcançou os ouvidos de Connor, que foi acompanhada de um cheiro estranho, que invadiu o nariz do garoto e fez seu estômago roncar de fome.
- O que...–
- Cuscuz – Carl respondeu a pergunta antes que o garoto terminasse de formulá-la, e adiantou-se novamente – É uma comida típica do Brasil, mais precisamente do nordeste de lá. É, eu e minha esposa nascemos e moramos lá até os vinte anos. Depois de uma reviravolta esquisita, viemos parar aqui e estamos com a renda lá embaixo – Fez um sinal negativo com o polegar para baixo — A propósito, o cuscuz foi trazido por familiares nossos, que voltaram para o Brasil recentemente. – O homem falava muito, até demais; mas dessa vez Connor não se importou, apenas assentiu calmamente, ouvindo a história do rapaz, fascinado. Só ouvira falar do Brasil a respeito de sua grandiosa seleção de futebol ou sobre a grande, densa e fascinante Mata Atlântica, por isso estava tão interessado que mal percebeu o falatório.
Adentrando a casa, Connor passou o olho por tudo e gostou do que viu pequeno, humilde, porém limpo e bem arrumado, cheirando a comida típica de um país tropical.
Carl estava um pouco triste por seu hóspede ser tão quieto e reservado. Um fato que ele não sabia era que Connor falava bastante também, mas Carl o abafava, respondendo todas as suas perguntas antes mesmo de elas serem formuladas. Mal sabia o homem que o menino mudaria sua atitude ao conhecer sua família. Mal sabia...
- FIQUE LONGE DE MIM, MONSTRO! – A primeira coisa que Connor viu pela frente(uma miniatura de barco a vela, feito de madeira, com os dizeres “Aracaju — SE, Brasil” em sua base), usou-a para arremessar contra a filha mais nova de Carl. Como sua mira era ótima, não errou, o que provocou o choro da menina, atingindo-a bem no meio da testa que, imediatamente, insinuava um galo no local – VOCÊ SABE O QUE ESTÁ CRIANDO EM SUA CASA? – Connor aponta o dedo acusadoramente para a filha de Carl enquanto arregalava os olhos. O homem, tomado pelo instinto paterno, segura o menino pela camisa e, sem cerimônia ou drama, soca o rapaz na bochecha, fazendo uma mistura de baba e sangue jorrar, com o ruído abafado do impacto.
- Você...sabe o que...o que está...dizendo, rapaz? – Assustadoramente calmo, Carl flexiona a mandíbula e contrai todos os músculos do corpo, revelando o quanto era forte; ideia essa reforçada pelo soco firme no rosto do menino. O homem estava com várias palavras entaladas na garganta, prontas para atingirem o menino e mata-lo com seu veneno. Contudo, o homem, impacientemente, colocou as mãos em concha no rosto; talvez tentando conter sua fúria, ou não olhar para a expressão de horror que estava estampada no rosto de sua mulher, ou até mesmo evitando encarar sua filha chorando, sendo abraçada pela mãe.
Babando sangue, Connor, que foi mandado contra a estante de livros devido ao soco, alterna olhares entre a menina e o homem enfurecido. Olhando Carl, pôde ver, pelo canto do olho, o cabelo da garota mudando de cor, tornando-se escarlate; ao olhar diretamente para ela, porém, nada via de anormal, apenas uma menina de cabelo encaracolado extremamente negro, preso por uma fita azul.
O filho de Hermes também estava tomado pela fúria, pois estava tentando defender aquela família, mesmo que agindo de forma espalhafatosa e extremamente amadora. Olhou nos olhos do seu anfitrião, que havia pousado as mãos na coxa, revelando seus olhos negros, agora duros como aço, e recebeu a mensagem clara: Vá embora.
Isso não abalou o rapaz, pois no seu estado atual, queria mais que aquela família inteira morresse e que seu cuscuz apodrecesse. Talvez esse fosse seu fardo: nunca criar raízes em um lugar, afinal, era filho do deus dos viajantes.
Exatamente quando o garoto começou a habituar-se com o ambiente, algo apareceu, forçando-o a continuar sua jornada viajando sem nada fixo. O menino riu a própria sorte e deu uma cusparada no chão, cheia de escárnio.
Enquanto saía daquela casa, pôde ouvir o ecoar em sua mente: Semideus, está azedando minha refeição, vá embora!
O menino, pensando estar no fundo do poço, coisa que não era verdade, decidiu jogar tudo para o alto e gritar:
- CALA A BOCA!
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