Uma Viagem Perfeita
9 Capítulo 9 - Doce, Guerreira e Corajosa.
Notas iniciais
Apolo acordou cedo, a luz suave do sol atravessando a parede de vidro e dando-lhe oi, como um grande amigo. Hoje, não se levantou rapido, como sempre ocorria, por sempre haver o que fazer. Do jeito que havia caido no sono acordara, e por um segundo muito curto pode ficar sem lembrar-se do fato que ocorrera na noite anterior, naquele mesmo sofá. Fora o melhor modo de acionar sua memoria e ter a vontade de sumir do mundo. Estava cedo demais, e provavelmente Artemis dormia, suspirou de alivio. Desta forma, não teria de encará-la. Precisava primeiro de um tempinho para digerir aquilo e planejar como agir. O deus girou no móvel e viu dali, uma Artemis entregue a Morfeo, delicada e sem qualquer temor. O que estava ocorrendo consigo mesmo para que agisse de tal modo? Nunca, em toda a sua existência, havia perdido a concentração em seus poderes. Pelos deuses, precisava voltar a ser quem era antes. Ele cobriu com um braço seus olhos, mas só o que conseguia fazer era pensar na deusa do outro lado do cômodo.
Artemis escutava-o mexer no sofá, impaciente igualmente fazia quando era mais novo e estava ansioso com algo. Como uma sombra, a deusa tocou seu pescoço, os dedos delicados a se movimentar pelo hematoma das mordidas de seu irmão impulsivo. Afundou o rosto no travesseiro. Como podia ter deixado isso ocorrer?
Como?
Ela assustou-se com o toque de mensagem do seu celular, praticamente ativando um sinal de "estou acordada" para Apolo, e o apanhou para ver. Apos ler, nem recordava de ter prometido passar o dia com George. De alguma forma, sabia que era o melhor. E por outro lado, seu peito pedia para ficar com seu irmão. Logicamente, ignorou os seus sentimentos e correu para o banho, sem deixar espaço para nem mesmo um "bom dia".
Fora rápida, George havia dito que chegaria logo, de modo que pudessem ir tomar café da manha junto. Terminava de colocar a tiara em seus cabelos quando a culpa afundou como uma ancora em seu estomago. Por mais que essa viagem toda consistisse nela arrumar um homem para sua vida, não pode deixar de ficar um pouco para baixo ao recordar que Apolo tomaria café da manha sozinho. Sabia que o deus, assim como a si própria, não estava acostumado a fazerem as refeições sem ninguém à mesa. Não lhe agradou ter trocado a família por um homem. Mas, desmarcaria com George por isso?
- Está linda — sussurrou uma voz que vinha de um homem muito bonito encostado casualmente no batente da porta, um sorriso fofo em seu rosto. A deusa saiu de seus pensamentos e automaticamente sorriu até tudo se passar em sua mente. Ele pareceu notar o clima tenso, também. — Vai sair
- Com George — por alguma razão onipresente, falou baixo, sem encará-lo. — Vamos passar o dia juntos.
"Ah" fora sua resposta. Ela nem chegara a notar a sua saída e, cada vez mais, a culpa a engolia. Seu reflexo brilhava, bonito. Com uma mão, puxou o lenço em seu pescoço e tocou uma das marcas. Culpa. Culpa. Era tudo o que sentia.
Apolo sentou-se de volta em seu sofá, os cotovelos apoiados em seus joelhos, as mãos nos cabelos.
George! Ela iria sair com George! Ficariam o ultimo dia ali em Paris juntos. Nem mesmo se entendo, Apolo sentiu-se extremamente sozinho, um buraco estranho e atormentador que prometia come-lo e torturá-lo em seu peito. O que era esse sentimento? Forçou-se a pensar... Não era dor, nem vergonha, nem fome, muito menos, tristeza, ainda que houvesse um pouco dessa envolvida neste novo sentimento. Era uma sensação de... Seus olhos abriram em compreensão. Conhecia aquilo, mas em uma escala menor. Era a sensação de ser... trocado. Era isso que sentia? Artemis o trocava? Sim, era exatamente isso. E por que sentia isso? Por quê?
Olhou ao lado a tempo de ver a dita cuja em um vestido azul de mesma cor dos seus olhos e isto só aprofundou ainda mais a sensação nova. Ainda havia algo a mais a descobrir. Em um pulo, ergueu-se e andou até ela.
- Artemis — chamou-a, baixo, olhos ao chão. Agora, ele entendia e compreendia a complexidade de ser trocado, ou ao menos era assim que seu coração reagia. Ela virou-se, ficando de frente a ele. Rápido e sôfrego, ele a abraçou com força, o rosto a se esconder em seu cabelo negro. Era aquele cheiro de floresta e flores selvagens que o aquecia. Por um segundo, ficou assim a ela, até tudo voltar à realidade. — Curta o ultimo dia aqui — sussurrou a ela, colando um beijo demorado em sua têmpora, os olhos fechados, só sentindo.
- Você também, Apolo — rebateu com suavidade, retribuindo de leve o abraço.
E então a magia havia acabado.
Ela se fora.
Apolo cutucou uma vez mais a comida disposta a sua frente, sem vontade alguma de comer, nem mesmo um leve roncar de seu estomago. Com um suspiro, deixou-se pensar em sua irmã de uma vez por todas e fitou o céu sem nuvens, extremamente azuis enquanto a imagem de Artemis lhe era refletida em sua mente. De fato, estivera muito bonita hoje, com aquela roupa e aqueles olhos. Chegara até mesmo ver, curvado na pilastra da sacada, lá embaixo, George pegar sua mão, aos sorrisos, ao encaminhá-la para um conversível. Fora tão normal que lhe deram náuseas. E uma enorme vontade de impedi-la de segui-lo para seja lá o maldito inferno que a levaria. Mas, seus atos de irmão o prenderam, deixando a beirada da cena, somente a assistir. Outra vez, respirou fundo. E esta solidão que o invadia ao não ver a cadeira dela ocupada por aquela garota chata e extremamente fechada que era a sua irmã? Sinceramente, não se compreendia. Talvez estas fossem ciúmes de irmãos deuses. Não haveria outra explicação para tais ações. Não havia!
E se ficasse ali, provavelmente teria mais dores de cabeça, alem das usuais que o atacaram segundos depois de Artemis entrar e sumir pelo elevador. Como desejava ter aquelas mãos geladas massageando-lhe as têmporas! Mas, era tarde demais, ela estava com George.
Fez uma careta e levantou-se, já a procurar o caminho para o quarto. Poderia ocupar-se arrumando as malas dos dois de modo que gastassem menos tempo para embarcarem. E ao lembrar-se disto, recordou também da proposta da noite anterior, quando deixara que convidasse George a segui-los na próxima cidade.
Claro, tinha de ser Veneza!
Enrugou o nariz com as memórias de esta ser a cidade mais romântica do mundo, alem da própria Paris, de acordo com os humanos. Não gostava nem um pouco de segurar vela. Mentalmente, implorava para que ela não o convidasse. Mas, para sua tristeza, a recordação de Afrodite e o porquê desta viagem lhe afogavam. Às vezes, era uma merda ser o irmão mais velho.
Procurando loucamente uma saída para canalizar tantas coisas que atormentavam seus pensamentos, que começou pela sua bolsa a organizar as malas. Manter as mãos ocupadas era um ótimo modo de não permitir-se cair em devaneios. Eram poucas roupas as suas, só o suficiente para esses seis dias que vagueariam entre Veneza e Paris, pois ao chegar à casa de praia alugada na Califórnia, teria um closet completo. Dobrou algumas blusas suas que estavam esparramas pela pressa de arrumar uma que ficasse bem para sair, enrolou umas três calças jeans e jogou seu perfume de qualquer jeito por cima, não sem antes retirar uma muda para usar depois de tomar banho. Assim que fechou o zíper, pousou-a sobre a mesa da sala, ao lado das passagens para Veneza, e retornou ao quarto, agora para arrumar as coisas de sua irmã. Abriu a mala de couro e de primeira notou que não teria muito que fazer. Artemis era extremamente organizada. Só duas roupas estavam emboladas. Um casaco de frio e uma blusa comum eram estas. Dobrou primeiramente a maior, encaixando-a entre dois vales de roupas e voltou-se para a t-shirt a sua frente. Era o mesmo azul de seus olhos e tinha um símbolo da paz em prateado. Isso fez o deus sorrir. Muito irônico e divertido. Era só dobrar e pronto. Tudo estaria em seus devidos lugares para a viagem.
Mas, o que aconteceu foi o mais imprevisível. Lentamente, Apolo ergueu a roupa e tocou o nariz na mesma. Havia aquele cheiro inconfundível e único de sua irmã, que notara abaixo do perfume doce espalhado no tecido. Era aquele conforto de uma floresta noturna embalsamada com a suave e fria brisa que varria o cheiro de impares flores selvagens que nem mesmo os humanos encontravam na mata mais fechada. Fechou os olhos, aumentando as percepções com o tato e o olfato. Doce, guerreira e corajosa. Fora isso que conseguiu definir melhor entre tantos adjetivos que sua mente dera a Artemis.
Foi então que o balde de água fria o acordou. Outra vez, o celular que levava em um dos bolsos vibrou e teve de atendê-lo. Nem mesmo olhou para ver quem seria, e o colocou sobre a orelha, agora terminando de fechar a bolsa de couro.
- Alo? — falou com o silencio que a conversa inclinava-se.
Som de risos ao outro lado.
- Apolo.
Era Artemis.
- Aconteceu algo? — perguntou-lhe, preocupado, as roupas momentaneamente esquecidas. Artemis não costumava ligar e isso soou extremamente confuso a ele. Mas, com a sua risada, todo o medo desvaneceu e o alivio prevaleceu.
- Não, nada — sua voz abaixou um pouco tímida — Só liguei para saber se deseja almoçar conosco.
Só com a idéia de George e amigos juntos já o pediam a negar.
- Mas...
- Vem, por favor, Apolo. Algumas pessoas vão vir a casa dele, alguns amigos e provavelmente quero companhia. Já sei que ficarei sozinha. — quase pode ver seu sorriso.
Apolo suspirou. Como negar?
- Acho que vou ter que negar o pedido, mana. Estou sentindo muita dor de cabeça e acho melhor ficar pelo hotel mesmo, devo almoçar no restaurante. — Não era totalmente mentira. De fato, sentiu dores, mas eram chiados fracos agora. Teria como ir ao tal almoço, mas ficar ao mesmo lugar que George? De longe era seu desejo. — Sem contar — acrescentou — Que aposto que George não lhe deixara sozinha. É um cara legal e gosta de você, jamais faria tal coisa.
- Está bem, Apolo? — perguntou, visivelmente ignorando todas as demais palavras depois de "muita dor de cabeça". Algo acendeu em seu peito ante sua preocupação.
- Outra vez, nada que precise de alarde, passara. — prometeu.
- Da ultima vez, praticamente quebrou o vidro do elevador. Sem duvida que é algo bobo.
Ele sorriu de sua ironia.
- Fora só aquela vez. Eu havia acabado de acordar e as visões viram um perfeito momento para me atormentarem.
- É, mas ontem a noite também sentiu dores. Isso está se tornando rotineiro, Apolo!
E lá estava aquela preocupação louca!
- Relaxe, Artemis, estou em ótimas condições.
Escutou sua exalação forte e indignada.
- Vou voltar mais cedo e veremos o que fazemos. Precisamos que esteja bem para a viagem.
- Já disse que to bem, mas se você teima, né... — suspirou — Curta o dia, mana.
- Se cuide.
Assim, ele desligou, um pouco mais feliz. E nem mesmo sabia o porquê da exaltação. Afinal, ela nem estava ali e muito menos lhe dissera algo divertido que o fizesse rir. Só aquela doce e estranha preocupação.
Por fim, jogou a bolsa dela em cima do sofá e foi para o banho. Teria 300 canais para zapear a vontade até arrumar o que fazer. Longo dia.
Notas finais
Deixeem rewis, amo passar horas lendo-os (fato!)
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