- Um dia eu estava mudando de canais e aí eu vi um vídeo de uma banda maneira tocando uma música maneira… Eram os Antarctic Monkeys… Foi, tipo… Amor à primeira vista, sabe? Por que foi naquele momento que eu descobri o que era música de verdade e comecei a ouvir essas bandas desconhecidas e diferentes…

Joan assentiu com a cabeça, enquanto ouvia a banda que Matt acabara de colocar para tocar. Não eram os Antarctic Monkeys, eram os Silly Corners, um duo de música indie com uma sonoridade mais eletrônica. Tocava uma música cheia de sintetizadores que não combinava com o visual bucólico da casa onde Matt vivia. Uma casa de madeira de dois andares, próxima à entrada da fazenda de sua família.

- É… É legal essa banda! — disse Joan, sentadas com as pernas cruzadas na cama do irmão mais novo de Matt.

Do outro lado do quarto havia um armário que pertencia à seu irmão mais novo e acima do armário o espaço da janela. Do lado esquerdo, havia um armário grande que Matt dividia com seu irmão mais velho e do lado direito o beliche que ele dividia, também com seu irmão mais velho.

- Eu nunca fui muito de ouvir música… E de descobrir bandas novas também… — Disse Joan — Até que conheci uma amiga minha… Ela me emprestou um CD do Lewi’s Park e aí eu decidi meu gosto musical… Foi demais… Eu comecei a procurar mais bandas como aquela, com sons mais eletrônicos, mas também com guitarras e baterias, sabe?

Matt fez que sim com a cabeça.

- Aí eu comecei a ouvir mais música eletrônica… Mais por que todo mundo estava ouvindo e não por que eu gostava mesmo, sabe? — continuou Joan — Só agora é que eu tô voltando a ouvir essas bandas… Com sintetizadores e tal…

- É, eu também! — disse Matt, ajeitando-se em sua cadeira e colocando mais uma música para tocar.

O rapaz ouvia bandas mais voltadas ao rock, no entanto, naqueles dias, ele estava descobrindo novas músicas, com uma sonoridade diferente e com uma pegada mais eletrônica. Ele tinha um gosto musical muito eclético e era a primeira vez que ele conhecia uma menina com um gosto musical, no mínimo, parecido com o seu.

Joan era morena, magra (até demais para o gosto de Matt), com o rosto esguio, olhos cinzentos e um visual peculiar. Ela andava sempre de munhequeiras, quando não estava com alguma blusa ou uma camiseta de manga longa, mesmo no verão. As más línguas diziam que os pulsos de Joan viviam cortados e que ela fazia isso simplesmente pelo prazer de ver o sangue jorrando.

Matt não acreditava nisso. Pelo menos não inteiramente. Ele tinha que confessar que se interessou por isso. Afinal o que ele podia fazer? Ele tinha uma queda por almas problemáticas. No entanto, era difícil acreditar em histórias daquele tipo quando se conhecia Joan. Ela era simpática, de certo modo engraçada e bonita, principalmente quando colocava o cabelo para trás de uma só orelha.

Já havia acabado uma música e começado outra quando ele percebeu que ninguém falava mais nada. Não existe nada pior quando o silêncio interrompe uma conversa que você está tendo com uma pessoa que gosta muito. E já tinha dado trabalho para tirar Joan da cidade e convencê-la a ir passar uma tarde, conversando e ouvindo música na fazenda dos Fontaine.

- Então… — ele disse vagamente — Você quer ficar ouvindo só música mesmo ou nós podemos escolher um assunto para conversar dentro da minha caixa invisível de assuntos!

Matt estendeu suas duas mãos, abertas uma contra a outra, como se ele estivesse segurando uma caixa mesmo.

Joan olhou e não conseguiu segurar o riso.

- Vamos! É só colocar a mão aqui dentro e puxar um papel invisível com o tema escrito nele! — encorajou-a Matt, sorrindo.

- E como eu vou ler se é invisível? — indagou Joan, entrando no joguinho do adolescente espinhento. Os dois tinham a mesma idade e só não estudavam na mesma classe por uma inconveniência do maldito sr. Destino.

- Aí é que está a graça! — retrucou Matt — Somente o dono da mão que entrar na caixa, poderá ver o que retirar da mesma, sem exceções, sem inclusões.

Joan colocou a sua mão entre as mãos de Matt. O garoto pensou em fazer alguma brincadeira, mas decidiu esperar. Ela fingiu que tirava um papel, depois fingiu que o desenrolava por alguns momentos.

- Vamos… Não tem como um papel tão grande caber nessa caixa! — disse Matt, voltando a se aconchegar na cadeira e colocando suas mãos em cima das pernas.

Joan riu e, por fim, disse:

- Pessoas!

- O que? — perguntou Matt, achando que não entendera direito o que ela falara e virando a orelha esquerda na sua direção.

- Pessoas… Esse é o tema da nossa conversa agora! — respondeu Joan, sorrindo sinceramente.

- Você desenrolou um papel de meio metro pra ler uma só palavra nele? — indagou Matt em um tom de deboche.

- Hey! — disse Joan, fingindo indignação — É uma palavra no plural, tá bem?

Matt assentiu sorrindo, enquanto Joan ria dele.

- Tá legal… Tá legal… — disse ele, fincando pensativo de repente, mas só estava fingindo — Eu gosto de pessoas… Pessoas são legais!

Joan assentiu com a cabeça e desviou o olhar quando Matt a encarou, olhando profundamente em seus olhos cinzas.

- E você… O que me diz das pessoas? — ele perguntou, após alguns momentos do mais profundo silêncio.

- Para mim elas podiam deixar de existir! — respondeu ela, em tom de desabafo.

Matt riu. Joan o acompanhou.

- Não é sério… — ela continuou — Pessoas não prestam… São tão burras… Com seus objetivos e jogos e trapaças…

- Como assim? — perguntou Matt — Todos tem seus objetivos na vida… É por isso que vivemos… Para alcançá-los e sermos felizes…

Joan balançou a cabeça, rindo do pobre mortal à sua frente que acreditava nisso.

- Não… — ela falou — Não é assim…

Fez-se alguns segundos de silêncio mortal e, por fim, ela continuou, sorrindo e olhando infantilmente para Matt:

- Minha teoria é que… As pessoas procuram a felicidade em seus objetivos e vivem para eles, como se elas… Nós tivéssemos que subir uma escada… Uma longa escada que irá nos levar ao topo de alguma coisa, esperando encontrar a felicidade lá, como se no final da subida existisse uma espécie de cálice sagrado com toda a felicidade, o conhecimento e a riqueza do mundo… Mas a felicidade não está lá no final da subida… A felicidade está na escalada… Está nos perigos dos degraus, na aventura de subir as escadas, dando um passo a cada dia… Lentamente em direção ao final… Mas nós não podemos chegar ao final, por que quando chegamos lá, descobrimos que não existe cálice… Não existe felicidade, nem conhecimento, nem riqueza nenhuma a mais da que já existe nos degraus da escada…

Matt parou para pensar naquilo e Joan estava cada vez mais longe, como se sua mente tivesse alcançado algo além do que é possível compreender nesse mundo.

- É como num jogo, sabe? — ela continuou, sorrindo — Repare nas crianças… Elas jogam, trapaceiam, discutem e até brigam para saírem vencedoras de alguma coisa… Algum jogo, alguma brincadeira e quando elas ganham… E descobrem que a brincadeira acabou, elas ficam tristes… Não por que perderam, mas por que o jogo acabou. E geralmente, quem ganha fica ainda mais triste que quem perde, por que o grupo dos perdedores é maior que o dos ganhadores, onde só existe um jogador… Os perdedores ainda têm uns aos outros… O ganhador só têm ele mesmo… No entanto, pra elas é fácil… É só apertar um botão ou correr pra prateleira de jogos ou pegar alguns brinquedos diferentes e o jogo começa de novo… Na vida não é assim… Conosco não é assim…

Matt assistiu ela ficar cabisbaixa de repente. Ele sabia o que ela, possivelmente, passou, mas não sabia o que fazer ou dizer por ela.

Começou a tocar uma música mais rock do que as outras e também mais antiga. Era de um dos artistas favoritos de Matt e que, infelizmente, ele nunca poderia ver um de seus shows ao vivo, pois o cara morreu após uma overdose de drogas. Nada mais clichê.

Joan ainda estava cabisbaixa e distraída. Quando ela levantou a cabeça, ficou surpresa ao receber um delicioso beijo na boca daquele moleque de quatorze anos e cheio de espinhas no rosto. Após a surpresa, ela ficou um pouco extasiada. Era um beijo gostoso, afinal, por que não deixar-se levar por alguns momentos?

As mãos de Joan passaram pelo cabelo de Matt e os dois foram caindo, caindo até que o garoto estava em cima dela. E os dois ficaram assim por um certo momento. Curto demais para quem estava assistindo, mas longo o suficiente para os dois, até que suas bocas se desgrudaram e ofegantes, se encararam.

Como sempre, alguém começou a barulho dentro de casa e Matt soube que seus pais haviam voltado da cidade. Ele levantou-se de um salto, seguido de Joan.

- É… Acho melhor eu ir… — disse Joan, esforçando-se para colocar o sapato no pé direito, mas como suas mãos estavam bambas não conseguia acertar o calcanhar.

Antes que Matt pudesse dizer qualquer coisa a menina colocou um sapato no pe, depois o outro e em menos de um segundo saiu do quarto. Ao aparecer no corredor, ela teve a impressão de ver uma sombra ao lado da porta, mas provavelmente era algum efeito do sol ou uma ilusão de ótica ou somente Rosemary, a mãe de Matt, subindo as escadas e dizendo:

- Olá… Joan, né? Eu já ia chamar vocês dois… Eu comprei croissants… Venha comer conosco!

- Ah… Eu não sei, não… — disse Joan, sem jeito — Eu preciso mesmo ir embora, sabe?

No entanto isso não foi o suficiente para convencer Rosemary e sua costumeira hospitalidade interiorana. Hospitalidade que até sobrava, na opinião dos seus filhos mais velhos.

- Vamos, não se acanhe! — insistiu ela, passando o braço em volta do braço da menina — Venha comer conosco! Venha você também Matt…

O garoto suspirou e decidiu seguir a mãe e a sua garota. Havia uma mesa redonda na larga varanda da casa, onde o garoto comeu croissants na companhia da garota, na companhia de seus pais e de sua irmã mais nova, que estranhamente descera as escadas logo atrás dele.

Após a agradável refeição, Joan despediu-se de Matt com um beijo na bochecha e pegando carona com o pai dele.

Fora uma tarde agradável, afinal.

Naquela noite, Matt pensou em ligá-la, mas não o fez. Ele sentiu um frio na barriga durante toda a noite e durante todo o final de semana que se seguiu, sem sair da fazenda, mas se divertindo o máximo que podia, esforçando-se para não pensar em Joan.

Teria sido melhor se ele tivesse ligado.

No domingo Matt ligou para Joan três vezes, em três momentos do dia. Ela não atendeu o telefone.

Na segunda, ele não a encontrou na escola e nem as suas amigas, que eram muito poucas, na verdade.

Na terça-feira, ele viu uma das amigas de Joan. Nenhuma das amigas dela eram mais novas ou da mesma idade que Joan. Todas eram mais velhas e aquela menina não era exceção. Matt a conhecia só de vista, mas decidiu fazer uma pergunta:

- Oi, tudo bom?

- Oi… Tudo sim… — respondeu a menina, com cara de mandona, mas um pouco melancólica naquela terça-feira nublada.

- Você é amiga da Joan, né? — indagou Matt.

A menina o olhou como se ele tivesse xingado-a do pior palavrão que existe no mundo, mas enfim, passado o estranho choque, assentiu com a cabeça.

- Você sabe onde ela está? Eu queria falar com ela! — continuou Matt.

- Você não soube? — indagou a menina, como se a resposta fosse a coisa mais óbvia do mundo.

- Soube do que? — perguntou Matt, dando uma risada sem-graça, mas sentindo a tensão crescer no ar.

- A Joan morreu! — respondeu a menina, quase sussurrando, após um longo suspiro — Acharam ela morta no banheiro da casa dela no sábado de manhã, com os pulsos cortados e uma carta nas mãos, tão cheia de sangue que nem dava para ler o que ela havia escrito, se é que ela havia escrito alguma coisa na carta…

A menina disse mais algumas coisas, mas Matt não conseguiu prestar atenção. De repente, ele sentia o ar faltar nos pulmões e respirou profundamente, pela boca e nariz ao mesmo tempo.

- Quem é você, afinal? — indagou a menina, após uma breve pausa.

Matt já estava se distanciando dela, levando a mão à testa, quando respondeu vagamente:

- Eu só… Só sou o responsável da classe… Eu faltei ontem e… Não… Não sabia… Olha… Obrigado, viu… Obrigado mesmo!

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