Uma Seleção com Rosie Ambers
72 Capítulo 66
Notas iniciais
Ilusão. Uma imagem do que é lindo e glamouroso nem sempre é a realidade que precisamos.
Era o que eu dizia repetidas vezes para mim, mas de algum modo permaneci olhando para aquela paisagem típica de Paris.
A torre Eiffel tinha um padrão de luzes brancas que piscavam junto a sua iluminação dourada a cada hora. E não apenas ela. Ao redor, as casas, as ruas, o Sena e a decoração de Natal eram um bom entretenimento para quem quisesse observá-los a noite inteira.
Era uma válvula de escape, eu sabia. Ainda assim, parecia exatamente o que eu precisava para esfriar a cabeça.
Tentei não deixar a melancolia vencer. Não pensar, não lembrar dos meses que passaram. Um tanto sem sucesso.
Ouvi risadas e olhei para baixo. Alguns dos convidados da festa da empresa Artois que deixavam o salão de eventos do hotel caminharam até seus carros.
Tia Margot, Dani, Isaac e Laura já dormiam há mais de meia hora, mas não consegui acompanhá-los no sono. Eu me virei para dentro, me perguntando que horas seriam.
Foi então que reparei no pequeno vaso de hortênsias brancas, no canto de uma das aberturas da porta de vidro da varanda. Meneei a cabeça, e me aproximei para tocá-las vendo que minha teoria estava certa.
Hortênsias não resistiriam ao inverno europeu. Se estavam ali, intactas, só podiam ser artificiais.
Essas eram as flores representativas da minha província, Columbia, as mesmas que me fizeram usar no cabelo, no dia em que viajei para o castelo de Illea.
Suki usou amarílis, de Ottaro; Lydia, lírios, de Carolina; Amelia, petúnias, de Hanspot.
As flores de Phoebe, de Labrador, eram violetas; Emma, de Summer, íris; Bridget, de Calgary, dálias;
Paige, de Zuni, gérberas ; Katie, de Clermont, margaridas; Ophelia, de Tammins, gardênias; Jade, de Likely, tulipas...
" Por acaso gravou as flores de cada província?"
Osten me lançou um sorriso provocativo no momento em que eu tentava fazer cartões de aniversário com desenhos das flores das províncias de Suki, Lydia e Amelia.
Expliquei que havia encontrado um livro sobre as flores de cada província na biblioteca do palácio e, sem perceber, acabei memorizando algumas. Ele achou graça do mesmo jeito.
Enquanto Osten ria, eu estava em pânico com nossa proximidade.
Ao tentar ler os recados, ele apoiou um braço de cada lado da mesa de sua escrivaninha, onde eu estava sentada, criando uma espécie de mini abraço que fez minha mente quase derreter.
Porque dias antes ele tinha me beijado, eu o beijei de volta, e então ele admitiu estar apaixonado, porém disse que aceitaria minha amizade mesmo depois da minha rejeição.
Naquela época, mesmo que negasse, eu estava me apaixonando pouco a pouco por ele.
Eu só tinha medo de me envolver, pois temia que, caso terminássemos, ele se tornasse apenas uma lembrança. E eu não queria perder sua amizade.
"A verdade é que não sou mais uma selecionada. Essa não é uma opção para mim.(...)"
E simplesmente aconteceu. A Seleção, Illea, as selecionadas... Osten, todos eles se tornaram meu passado.
Com a minha resposta naquela entrevista, eu sabia que estava deixando uma realidade para trás.
Era sempre assim, seguir em frente, rumo ao desconhecido da vida.
...
"Rosie, como eu te falei, você e Laura não precisam se preocupar se Brian veio para Paris. Eu tive pouco contato com aquele homem, mas deu pra entender que ele gosta de ser notado, e digamos, temido. Como ontem. Algo me diz que ele só quer dinheiro, mas ele pode tentar algum sequestro para conseguir isso. Eu, Allan, Osten e Madeline previmos isso antes de você vir para a França. Só não imaginamos que ele fosse te aparecer em pessoa."
Assenti para tia Margot.
"Por isso toda essa gente."
Estávamos no corredor do hotel. Ela me chamou ali, porque, dali em diante, além da minha segurança habitual, tinha oficialmente contratado uma nova equipe.
Todos foram apresentados, mas decorei na hora o nome do chefe da equipe, Étienne, um homem de meia-idade.
Assim que eles se afastaram, conversando entre si, reparei nos dois guardas posicionados próximo ao elevador.
"Kou, Ted... podem vir aqui?" acenei.
"Claro, Rosie."
"Então... eu queria agradecer. De verdade. O trabalho de vocês, de toda a equipe, foi muito importante para mim nesses dias aqui na França. Mas acho que agora que a minha família já está providenciando novos seguranças, e também pelo fato de eu ter saído da Seleção, não tenho muita justificativa para continuar sendo escoltada por guardas de Illea."
Ted trocou um olhar com Kou.
"Rosie, querida, está falando sério?"
"Sim, tia. E não é menosprezando o trabalho de vocês, de forma alguma, só que.."
"Entendemos o que quis dizer."Kou disse. "Mas agora, mais do que nunca, a senhorita não precisa de toda segurança que conseguir?"
"Sim, a situação ficou meio tensa ontem, mas acho que... ter gente do palácio seria estranho agora, seria até mais evidente para o Brian de que estamos desconfiados dele."
"É um bom ponto."Ted assentiu. "Mas temos ordens do príncipe Osten, e até o momento ele não nos chamou de volta, então..."
"Você deveria tratar disso com ele primeiro." Kou sorriu de leve."Apesar de que, conhecendo o chefe, não acho que você vai se livrar tão fácil da gente..."
"Sim, pode esquecer."Ted riu.
Suspirei.
"É... o Osten é meio neurótico mesmo. Mas eu vou falar com ele. De qualquer forma, eu só queria agradecer a todos vocês."
"Passaremos o recado para o restante da equipe. Estamos à disposição."
Abri a porta, sorrindo de volta para eles, e minha tia me seguiu, fechando-a atrás de nós.
Dani e Isaac terminavam o café dentro do quarto de hotel, acordaram mais cedo por terem aula. Laura disse apenas que não iria na sua quando tentamos despertá-la e continuou a dormir.
Assim que minha tia e meus primos saíram, aproveitei para descansar mais meia hora no sofá, até minha irmã me acordar.
Laura estava, sem dúvidas, melhor do que na noite anterior, mas ainda não tínhamos tocado no assunto Brian e sua breve aparição na festa da Artois.
Em vez disso, ela estava me contando sobre as apresentações onde ela, Bernard e outros colegas de sua sala estavam sendo chamados para tocar.
"Restaurantes, festas oficiais... tudo isso é muito bem pago, o que é ótimo. Esses grupos só nos contrataram depois de nos verem nos projetos de caridade que a academia promove. Eu já ajudei no orfanato onde você e o Bernard participam da cantata, mas as crianças de lá me odiavam." Fez uma careta. "Eu não tenho esse jeito carismático de vocês. Só substituí o Bernard em alguns ensaios este ano. Agora, minha ajuda fica mais nas aulas que dou para o abrigo de mulheres."
Balancei a cabeça.
"Você se precipitou. Elas te adoram. Já ouvi elas perguntarem para Bernard várias vezes se você apareceria de novo para dar aula."
"Ele vive dizendo isso também."Revirou os olhos." Mas são poucas as crianças dali que tenho simpatia. A maioria é um bando de pestinhas, se deixar."
Eu ri.
"Você devia vir no dia da cantata, só para ver que está errada quanto..."
"Ah, mas eu vou estar. Eu sempre assisto, é a coisa mais linda."sorriu."É uma das únicas festividades de fim de ano que eu amo. O restante é insuportável. A festa da Artois já foi um show de aparências e ainda tem as últimas atividades com as debutantes e a festa em Versalhes..."
"Nossa, sim, mal posso esperar." respondi com um suspiro pesado, e ela achou graça.
"Tô me lembrando da sua 'animação' no dia em que provamos o vestido para o baile. Nunca tinha visto alguém odiar tanto usar o vestido dos sonhos."
Engoli em seco com um sorriso amargo, me recordando do momento em que saí do provador.
O vestido era branco, com um brilho prateado a cada movimento que eu fazia e tinha uma saia em camadas.
A admiração estava estampada nos rostos de Danielle, Marie, tia Margot, Laura, sua avó Sara e até das vendedoras.
Ouvi Dani questionar se era um vestido de noiva e Marie dizer que ele facilmente se passar por um, e que isso o tornava perfeito para o baile.
"Era um sonho mesmo..." suspirei." Mas era exagerado. Brilhante demais, volumoso demais. Sem condições de eu usar aquilo numa ocasião em que não sou uma das convidadas de honra. Iria parecer uma tentativa de roubar a atenção das debutantes."
" Iria roubar, com certeza. Foi o que eu pensei na hora. A última coisa que você precisa é de Marie projetando uma imagem sua de princesa em uma noite que não é sua."
"Exato. Obrigada mais uma vez por me ajudar a substituir."
"Ah, não foi nada." deu de ombros com um mini sorriso.
Enquanto as mulheres elogiavam sem parar, Laura se levantou com um olhar avaliativo e argumentou com Marie que seria mais marcante se eu passasse uma imagem mais sóbria e refinada.
Ela foi em direção aos fundos da loja, e voltou com outros vestidos.
Por consenso, ficou definido um longo tom de vinho marsala, que, pela minha impressão, era uma mistura de vinho, rosa e marrom, com ombros caídos, saia de caimento leve e que até era coberto por brilho, mas de forma sutil.
A opção muito agradou Marie, e ficou num meio termo ótimo para mim.
Sem dúvidas, Laura tinha um gosto impecável. Não me surpreendia que sua avó Sara tivesse confiado a ela a escolha do visual: um vestido longo verde-esmeralda cintilante, com alças finas, decote na medida certa para valorizar sua silhueta e uma fenda na altura dos joelhos.
"Rosie..." Ela me chamou atenção enquanto eu organizava os pratos que terminamos na mesa.
"Sim?"
"Sei que isso não tem nada a ver comigo, e se não quiser falar sobre isso, eu paro aqui. Mas... você odeia ser vista, comentada... Não sei se saiu da Seleção só por causa do Osten ou se a rotina lá também te fazia mal. De qualquer forma, acho que você já percebeu que saiu de um mundo de aparências só pra cair em outro."
"É... percebi sim."
Marie não me deixaria em paz por um bom tempo.
" Se precisar de ajuda, ou quiser conversar sobre isso, eu estou aqui. Talvez eu não saiba lidar com escândalos de imprensa, mas sei muito bem o que é ter uma família se aproveitando da minha imagem."
"Obrigada." Assenti.
"E...sabe, não foram só meus avós. A sua mãe também fazia isso comigo. Sempre que vinha da Itália, me trazia presentes, me tratava super bem. Eu achava que era carinho, e que talvez ela via a melhor amiga dela em mim."
Franzi a testa.
"Pode até ser, "Laura continuou. "Mas ela parecia obcecada, como minha avó, em me fazer ser uma dama da corte perfeita, e me chamou várias vezes pra fazer comerciais da Artois depois que começaram a elogiar minhas apresentações."
"...Entendi... E você acha que a Marie sente falta da sua mãe? Mesmo depois de tudo... dela e do Brian?"
"Acho. Ou ela tinha uma consideração muito grande por minha mãe, ou um sentimento de culpa por ter procurado o Brian. Não sei definir. Já tentei descobrir quem estava por trás da morte da minha mãe, e suspeitei bastante dela, mas cheguei a conclusão de que os problemas no parto apenas aconteceram."
Eu iria questionar, mas a campainha soou, sobressaltando não só a mim. Laura puxou o ar, e foi checar pelo olho mágico.
"É um cara da guarda. Tá na hora de ir embora."
...
Quando comentei, a caminho da casa de Laura, que estava na hora da minha aula de violino, Laura disse que estava curiosa por me ver tocar e perguntou se podia assistir. Concordei e fomos juntas para casa da tia Margot.
Meu avô Marcel estava numa das mesas do jardim de entrada, rindo provavelmente de um golpe no xadrez, enquanto Phil, o mordomo, avaliava o tabuleiro com o cenho franzido.
" Meninas." Marcel nos chamou ao nos ver." Está na hora da nossa aula, não é, Rosie?" me questionou.
"Está, mas podem terminar a partida."
Laura se aproximou da mesa, inclinando-se para observar o tabuleiro.
"Não acredito que caiu no velho truque do bispo sacrificado do Marcel, Sr. Phil."
Phil fez uma careta insatisfeito, tentando argumentar, enquanto meu avô só ria. Nesse momento, a porta da frente se abriu, e Allan saiu apressado.
Segui em sua direção até o carro.
"Bom dia!"
"Bom dia, Allan!" repeti mais alto me aproximando dele, que parou diante de seu carro.
"Ah, Rosie. Bom dia!"sorriu. "Estava com a mente ocupada pensando nos problemas do trabalho. Está um caos na embaixada italiana, e a cada dia pior..."
"Sério? Isso tem algo a ver com... uma possível guerra?" Questionei depois que minha mente processou um tanto rápido a teoria. Ele era um diplomata que lidava com questões de guerra como Osten, e se estava saindo tão atordoado... "Desculpe. Sei que vocês não tem permissão para saírem dizendo isso..."
"Não, tudo bem.Acredito que você já tenha ficado sabendo de muita coisa quando estava na Elite. Mas com essa nova da Rússia..."
" Rússia?! O conflito não era entre a Noruécia e a Nova Ásia?"
"Isso mesmo."Concordou, deixando os pertences que levava no banco de carona." A Rússia saiu da posição de neutralidade quando anunciou uma posição ao lado da Noruécia ontem."
"... Sério?! Eu não vi... Não estava acompanhando muito os noticiários até então, achei que vocês estavam tendo sucesso na pacificação..."
Desde o início da viagem, um dos principais objetivos era promover a paz entre a Noruécia e a Nova Ásia, e convencer a Rússia a não entrar nisso também.
Osten tinha me dito que estavam conseguindo avançar nas negociações e tinham o apoio dos russos, mas isso há dias.
"Infelizmente, as coisas desandaram. A viagem da delegação de Illea à Rússia acabou sendo um fracasso,e isso nos fez aconselhá-los a vir para a França logo. Os russos passaram a impressão como se quisessem paz com o encontro, mas na realidade só queriam que todos pensassem que Illea estava do lado deles." Meneou a cabeça."Foi uma cilada na qual eu acho que teria caído também. Ninguém desconfiava. Não havia muitos sinais, mas sempre há interesses econômicos com essas guerras."
Minha mente deu uma pane momentânea.
Iminente guerra. O quanto Osten tinha trabalhado para aquilo não acontecer...
"Quando eles... Osten e a Elite chegam a França?"
Achei que eles só chegariam para o baile de debutantes em Versalhes...
"Partiram de madrugada. Devem estar chegando ou já chegaram para a mesma reunião que eu... " Ele parou e pediu um momento para o motorista, fechando a porta. Me encarou com um suspiro pesado." Nós dois nunca conversamos sobre isso. E aqui nem é o melhor lugar, mas depois dos eventos de ontem, acho que... Enfim, sei que suas tias abriram o jogo com você sobre... Bom, sua mãe, Brian e... tudo."
"...Sim."
Finalmente ele estava falando sobre.
"Eu estava distraído demais para ver que aquele desgraçado, me desculpe a palavra, que aquele sujeito teve a audácia de aparecer na festa. Sua tia Margot é quem tem me atualizado melhor sobre a segurança de você e Laura... Só peço que você e sua irmã tomem cuidado."
"Não se preocupe, vamos sim."
Ele me deu um abraço.
"Desculpe não estar muito presente nos últimos dias, tive a minha viagem urgente, mas assim que resolver essa questão, vou passar minhas funções para alguém e tirar umas férias para passarmos um tempo em família."
"Claro." Sorri. "Vai ser ótimo."
Ignorando a presença de Marie e Oliver, a de Allan valeria a pena. Acenei de volta antes dele fechar a porta.
Quando o carro sumiu de vista, avisei meu avô de que eles podiam jogar outra partida com a Laura sem pressa. Eu ainda precisava falar com Marie antes da aula de violino.
"Bom dia." Disse ao entrar na sala de estar.
"Sua entrevista ontem foi interessantíssima." Disse Marie, levantando os olhos de sua revista para mim assim que me sentei no sofá em frente a ela. "Se veio se justificar por ter falado demais..."
"Não vim. Eu já estava fora há muito tempo, e você já contava com isso."
Ela fez uma cara de desgosto.
"Sim, contava. Mas ainda esperava uma reviravolta. Agora que você anunciou sua saída da Seleção, não tenho mais como esperar uma declaração pública do príncipe Osten de que você ainda é parte da Elite."
Um riso irônico me escapou.
"Ah, sim... Isso é impossível, mas prometo seguir nosso acordo. E não, não vou dar mais nenhuma declaração pública que te faça querer minha cabeça. Mas..."
"O que você quer, Rosie?"
Puxei o ar discretamente, ignorando seu tom de irritação.
"Eu quero passar um mês, no mínimo, em Columbia. Sinto falta dos meus pais, da minha família inteira. E, como não estou mais na Seleção, estava pensando em marcar uma data, quando possível. E também... se eu for me mudar para a França, quero vê-los pelo menos uma vez por ano." Suspirei. "No mais, é só isso. Ah, e vou usar a minha parte da herança para pagar minhas passagens."
Naquele momento, me veio à cabeça a briga com Oliver, quando descobri que minha imagem de selecionada estava sendo usada para promover a empresa Artois, e eu acabei dizendo que ele podia ficar com toda a minha parte da herança.
Ainda bem que ele levou como blefe e não me pediu para assinar nada, porque eu não teria de onde tirar o dinheiro tão cedo.
Marie me encarou em silêncio por um bom tempo, antes de confirmar com a cabeça.
"Está bem. Não se esqueça de cumprir suas obrigações, inclusive a de hoje. Como sabe, está dispensada da aula de francês."
Assenti, vibrando internamente.
"Pode deixar."
Depois da última conversa que tivemos sobre o assunto do 'noivado vazado' de Osten e Ophelia, senti que ela começou a se desfazer da ideia de me ver como princesa e seguir com um plano B para se aproveitar da minha imagem pública.
Nosso combinado foi claro: ela disse que não iria acusar meus pais adotivos de me sequestrarem quando recém-nascida, em troca da minha colaboração em eventos do seu círculo social.
A ideia é que eu me tornasse uma socialite, ou seja, eu deveria seguir suas ordens e me manter como uma figura de destaque na mídia, enquanto terminava o ensino médio na França e me preparava para uma futura carreira musical.
...
Apoiei o violino no ombro, enquanto Laura foi para o piano para fazer a entrada da música. Marie ainda estava na sala de estar e disse que também assistiria à aula.
Segurei o arco, lembrando de todas as horas que passei treinando aquele solo, desde que comecei a aprender violino.
Não fiz uma performance profissional, longe disso. Ela foi adaptada ao meu nível, algumas passagens foram simplificadas, outras prolongadas para que eu conseguisse manter o controle.
Desde as aulas com America até as que tive com meu avô Marcel, foram semanas de insistência, mais de um mês, para que eu conseguisse tocar sem errar. Deu certo.
"Ela está pronta." ele disse ao final.
"Também acho. Aliás, ótimo trabalho, pai."
"Do que vocês estão falando?"
"Da audição para a Académie des Arts Sonores." respondeu Marie. "Acontece amanhã, e nós te inscrevemos."
Encarei todos eles, minha irmã e meu avô tinham sorrisos nervosos.
"...Oi? Que audição?"
"De transferência," disse Marcel. "Todo ano surgem novas vagas no ensino médio e superior, porque alguns estudantes da Academia saem em intercâmbio ou se mudam depois do início das aulas. Eles aceitam alunos de qualquer lugar. Isso inclui você, que já começou o último ano em Illea. Dessa vez são seis vagas. A concorrência é grande, mas eu te preparei bem. A música que você começou a treinar com America Singer é perfeita para o teste."
Eu ainda encarava os dois como se aquilo fosse uma piada.
Eu esperava terminar o ensino médio numa escola comum da França, não tentar já entrar nessa escola de música.
Foi com esse objetivo que meu avô veio me dando aulas teóricas e práticas de música todo dia pela manhã?
"A gente demorou a te contar pra não gerar ansiedade ou pra evitar que você se recusasse a se preparar." Continuou Laura. "Nem sabíamos se aceitaria ir hoje... mas você meio que terminou de cortar seus laços com a Seleção ontem ao vivo na TV, então... está dentro?"
"...Olha, eu... nem falo francês fluentemente. Como iria sobreviver nessa academia?"
Minha irmã revirou os olhos. "Tem vários candidatos intercambistas que só falam seu idioma. Isso é o menor dos problemas, Rosie."
"E não estou pagando aulas à toa pra você." acrescentou Marie."Sei que vai evoluir. Suas aulas de francês continuam, ajudam nas primeiras semanas."
"Eles são bem compreensivos com quem ainda se acostuma ao idioma."disse Marcel." O único problema vai ser o teste. Costumam ser bem rigorosos com quem é parente de funcionário ou ex funcionário, mas se conseguir entrar é por mérito seu." Sorriu." Dê uma chance. É o seu sonho estudar música, não é?"
Assenti.
"É... é sim..." respirei fundo. Eu realmente tinha dado um passo adiante em direção aos meus próprios sonhos ao sair da Seleção. "Obrigada pela ajuda. Só me expliquem como tudo vai funcionar."
...
Laura almoçou com a gente, mas voltou para casa para se arrumar, pois iríamos ao mesmo evento no Palácio de Versalhes: a sessão de fotos das debutantes francesas, marcada para o início da tarde.
Cerca de uma hora depois, cheguei ao ponto de encontro, um salão de preparação no centro de Paris, acompanhada de Marie e Dani.
Assim que entramos, Marie se afastou em direção às amigas, enquanto eu percorri o ambiente com o olhar, sem conseguir localizar minha irmã.
"On s'assoit là-bas?" ("Vamos sentar ali?") Sugeri a minha prima, e ela concordou.
Assim que nos acomodamos, Dani balançou as pernas, observando as meninas.
Eu estava encarregada de cuidar dela, já que a tia Margot tinha ido assistir à competição de skate do Isaac, em um ginásio.
Dani insistiu em vir, porque queria muito ver a sessão de fotos das debutantes francesas no Palácio de Versalhes.
"J'ai tellement hâte d'avoir quinze ans... " (Eu quero fazer quinze anos logo") Dani disse com um bico dramático.
Ri, acompanhando seu olhar.
À nossa frente, as jovens se revezavam diante dos espelhos. Algumas finalizavam os penteados, outras conferiam unhas e maquiagem com os funcionários ou entravam e saíam dos vestiários para checar o visual.
Eram vinte garotas no total, entre quinze e dezessete anos, e obviamente de famílias ricas. Elas se arrumavam desde cedo para a sessão fotográfica.
Por mais que tudo aquilo parecesse um pouco fútil à primeira vista, ver a alegria nos olhos delas me lembrou que eram apenas sonhos comuns.
Era como sonhar com o baile de formatura no último ano da escola. Fofo, e fazia sentido dentro da realidade delas.
O debute francês, afinal, não se resumia a um único evento. Ao longo do ano, as meninas participavam de ações beneficentes, encontros sociais e compromissos formais.
Em dezembro, os encontros giravam em torno delas e a apresentação oficial à sociedade francesa seria no baile promovido pela família real.
"J'ai trouvé Lavinia et Desirée ! Là-bas !" (Achei Lavinia e Desirée! Ali.")
Acenei para elas também, quando Dani as chamou.
Eu conhecia Lavinia e Desirée havia poucos dias, desde o leilão beneficente, e depois as vi nos outros três encontros sociais que Marie me obrigou a ir.
Tinham dezesseis anos e estudavam em um internato francês. Pelo que eu percebia, apreciavam tradição, regras e os modos herdados de suas famílias.
Lavinia Fontaine, irmã de Bernard, baixa e morena, com pouco mais de um metro e meio, era do tipo falante e impossível de ignorar a presença no ambiente.
Já Desirée Levefre, prima de Jules, muito parecida com ele, porém o oposto dele e da amiga em personalidade. Ela era reservada, e vivia sorrindo suavemente para tudo e todos, observando e ouvindo sempre antes de dizer alguma coisa.
Eram elas o motivo de Laura ter voltado a participar daqueles eventos, desde seu debut, aos dezesseis anos. Minha irmã aceitara o pedido delas de ser uma das dez ex-debutantes que, a cada ano, acompanhavam duas novas debutantes cada uma.
"Dani, Rosie, bonjour" Vieram nos abraçar.
"Vocês estão lindas."Lavinia usava um vestido rosê, e Desirée vestia um lilás do mesmo estilo princesa.
"Obrigada!" Disseram em uníssono. "A Laura já chegou?"
"Acho que não."respondi."Mas já deve estar perto, marcamos chegar aqui no mesmo horário..."
Trocamos sorrisos simpáticos. Eu não tinha muito assunto com elas, e parecia recíproco. Laura era o elo que sustentava qualquer conversa entre nós.
"C'est la Selection?" (É a Seleção?) Dani apontou para a revista nas mãos de Desirée, e assim que essa lhe deu passou a folhear empolgada."Regarde, Rosie, c'est toi et ton prince!" ("Olha, Rosie, é você e seu príncipe!").
"Ah, ...Oui."
Eu me lembrava daquele momento no dia do casamento da tia de Osten, no resort.
Um sol causticante, e Osten preso dentro de um terno azul claro, posando com todas as Selecionadas.
Eu usava um vestido rosa-salmão e tinha zombado dele por estar praticamente de castigo, repetindo o mesmo sorriso várias vezes, inclusive nas fotos com as mesmas Selecionadas, até que ficassem perfeitas para elas.
Nós dois tínhamos sorrisos despreocupados, o que me fez pensar no quanto era fácil estar ao seu lado.
"... Gente, ela não sabe que eu saí ontem..."disse ao notar a confusão de Lavinia e Desirée.
"Como assim? Por que não contaram para ela?"Lavinia questionou, indignada, e com razão.
"Eu quis contar, mas tia Margot disse que ela vai ficar chateada quando souber e preferiu explicar tudo depois. A Dani já teve uma crise quando ouviu que Ophelia e Osten estavam noivos. Minha tia precisou dizer que a televisão costuma exagerar e... enfim. Agora a Dani acha que a mídia mente sobre tudo, então não vai ser tão simples convencê-la."
"Rosie, Rosie." Dani me chamou tocando no meu braço."Tu avais le collier de grand-mère."("Você estava usando o colar da vovó.")
"Oui, Dani." Encarei o colar de dois passarinhos, que não usava fazia um bom tempo.
"Eu não concordo com isso de não falarem para ela." disse Lavinia. "Ela vai acabar triste de qualquer jeito...mas tudo bem."
Em seguida, se abaixou para interagir com Dani, passando a comentar as fotos das outras selecionadas com Osten.
"Meu coração apertou quando você disse que ia sair." Desirée me lançou um sorriso triste. "Você era a minha preferida... Mas deu pra ver que você estava cansada daquelas mentiras sobre você. Eu também ficaria..."
Apenas assenti.
"Lavinia, Desirée." olhamos para o chamado da namorada de Oliver. "Ils vous appellent à l'entrée." ("Estão chamando vocês na entrada.")
Juliette (que infelizmente também fazia parte do grupo de ex-debutantes) me analisou de forma desdenhosa, sem se dar ao trabalho de disfarçar, e eu apenas segui as meninas.
Sara e Laura estavam ao lado Jules e Bernard na recepção, e esses dois seguravam capas para frio que as meninas iriam precisar para sair. Entendi que estavam só de passagem.
Com a confirmação de que Lavinia e Desirée estavam prontas, Sara entrou para chamar Marie.
"Onde vai ser a sessão de fotos lá no palácio?!"
"No Salão de Espelhos."Lavinia disse a Jules.
"Sério? Sabiam que o Tratado de Versalhes foi assinado nesse salão, do fim da Primeira Guerra Mundial?!"
"Ah, minha nossa. Mas ele é um emocionado, não? Vocês tinham que ver esse sujeito quando fomos conhecer o palácio com a escola. Ele conhece a história de cada canto daquele lugar."
"Também, não apela, Laura."
"Você corrigiu o guia até ele ficar sem graça!"
Rimos com o comentário dela, e Jules apenas deu de ombros resignado.
"Foi mesmo..." disse Bernard, que olhou para mim com um sorriso." Laura nos contou agora da sua audição. Já é amanhã, né?"
"Sim... decidi de última hora.Vai ser bem na hora do ensaio das crianças, e desculpe. Eu prometi estar presente pra ajudar nos últimos ensaios antes das apresentações, mas..."
"Eu explico para elas que a audição é importante pra você. Vão entender. Só vai lá e conquiste sua vaga."
Sorri de volta.
"Obrigada."
" Boa sorte, Rosie."Jules disse também."Vai conseguir, com certeza!"
"Valeu, Jules."
Ele deu uma piscada."Dito isso, vamos?" Encarou Bernard, e esse assentiu."Estou atrasado para uma reunião e vou dar carona até o orfanato para o Bernard."
Eu tinha quase certeza de que Jules, como estagiário em uma embaixada, iria para a mesma reunião em que Osten e a Elite.
Mas não fazia muito sentido estender aquele assunto só por curiosidade.
Esperamos Sara e Marie aparecerem para irmos aos carros. Enquanto caminhávamos, Lavinia me cutucou.
"Sabe, Rosie... eu assisti à festa da Artois na TV ontem. E, desde que me entendo por gente, sei que meu irmão não tem perfil nenhum para pedir alguém para dançar, viu? Ele é a pessoa mais fria que conheço. Ficou pior depois do fora que levou. Mas com você..."sorriu." Acho que finalmente começou a derreter."
"Lavinia, para!"Desirée chamou a amiga em tom de alerta."Você está deixando a Rosie sem graça."
Laura deu apenas de ombros quando olhei para ela em pânico e entrou no carro estacionado à frente, onde seguiriam Lavinia, Desirée e Sara. Entrei no carro de trás com Dani e Marie.
Na hora, eu só queria ter tido tempo de responder, mas concluí que tentar convencer aquela garota do contrário só lhe daria ainda mais motivos para teorizar.
...
"Parle plus lentement, Dani." ("Fale mais devagar, Dani")
Eu dizia aquela frase sempre que minha prima empolgava falando e, durante o percurso, perdi a conta de quantas vezes. Marie dormiu por boa parte do tempo.
Foram uns quarenta minutos de carro entre Paris e a cidade de Versalhes, onde ficava o palácio mais deslumbrante de que eu já tinha ouvido falar, e que era a residência oficial da família real francesa.
O estranho pra mim foi reconhecer um certo "padrão" na nossa chegada. O pessoal da mídia na entrada do portão externo, os guardas e os criados nas escadas a nossa espera, os carros chegando um após o outro em fileira.
Juliette passou por nós com as duas debutantes que acompanhava, enquanto aguardávamos ajudarem Marie a sair do carro.
Oliver não apareceu ao lado da namorada, havia viajado para resolver algum assunto na filial italiana da Artois.
Ainda assim, Marie me encarou e disse para irmos na frente, pois os funcionários guiariam ela e Sara até uma entrada lateral, onde teriam acesso a um elevador.
Eu segui com o restante das meninas por outra porta adiante.
Deixamos os casacos e sobretudos mais quentes com os funcionários no saguão. Senti alguém segurar na minha mão.
"Rosie, veux-tu savoir un secret ?" ("Rosie, quer saber um segredo?") Dani pediu que eu abaixasse e sussurrou no meu ouvido que tinha trazido o Ratatouille na mochila, mas que não era para contar a Marie.
Eu já sabia.
"Marie vai ter um ataque quando ver que Dani trouxe o furão dentro da mochila." disse para Laura quando ela nos olhou."Eu desconfiei, porque Dani não tirou a mochila do colo no carro por nada e deixou ela com uma brechinha aberta. Eu depois vi ela dando uma ração do bolso pra ele por ali."
Laura riu.
"Furões são bichos um tanto silenciosos, mas fala para Dani esconder isso, se não as debutantes não confundir ele com um rato. E é capaz da Marie dar um fim no bichinho se ele der problema."
"É por isso mesmo que eu não denunciei."
Assim que chegamos ao fim do primeiro lance de escada e fizemos a curva para o segundo, parei de andar por um instante.
Mas era minha mente pregando uma peça. Quem estava de perfil era o rei Ahren.
Repeti mentalmente mais uma vez que Osten estava em uma reunião diplomática e esse seria o seu compromisso: em Paris.
Ahren parou de falar com um guarda quando notou nossa chegada para nos dar boas vindas.
Ele estendeu a mão para cada uma de nós, fazendo um rápido cafuné no topo da cabeça de Dani e me perguntou sobre minha o resto da minha familia.
"Estão todos bem, obrigada. Mar... Minha mãe está chegando."
"Tudo bem. Vocês vão ser direcionadas pelos funcionários para o Salão de Espelhos, estão servindo lanches por lá. Fiquem a vontade." deu uma piscada.
Continuamos andando por vários cômodos em sequência, a maioria com decoração semelhante a uma sala de estar.
" Está tudo bem com você?" Olhei para Laura, que me observava de um jeito preocupado." Desde que entramos..."
" Uhum, é só uma sensação bizarra de deja vu, sabe?"
"Ah, entendi."sorriu de lado.
Paramos atrás de uma fila de debutantes e ex-debutantes, ainda em uma sequência de salas decorativas.
A rainha Camille estava logo à frente, em um ambiente pequeno em forma quase circular, rodeados de janelas grandes para os jardins do palácio.
Quando chegamos mais perto, vi que atrás dela tinha um cômodo muito maior em comprimento com muitos lustres em sua extensão.
Não houve tempo de observar muito. Chegou nossa vez.
"Bienvenue ! " ("Bem vindas ! ") dizia a todas que entravam. Ela estava radiante, visivelmente empolgada com o evento." Nossas lindas debutantes, Lavinia e Desirée, estou correta?!"
"Sim, Majestade!"
"Ah, bem. Estava tentando decorar os nomes de vocês com as fotos. "Sorriu" E olha só quem voltou! Srta. Laura Blanchet, achei que tinha nos abandonado..." ela deu um passo a frente para abraçar a minha irmã também.
"Tem um tempo sim, Majestade. Perdão."
Eu observava a cena, meio perdida.
"Da última vez que pisou aqui foi no seu debut, há o quê? Quatro anos?"
"Por aí." Laura riu."Nada contra vocês, é o ambiente que não combina comigo."
"Eu entendo, querida."Camille assentiu com um sorriso, desviando a atenção para mim."Oi, Rosie! Que bom que veio..."
Recebi um abraço antes de pensar em fazer qualquer reverência. Me assustei, pois não tínhamos proximidade para um cumprimento tão caloroso.
Da primeira vez que nos falamos, na recepção das famílias reais em Illea, trocamos apenas um cumprimento rápido. Jade e eu estávamos mais ocupadas recebendo as italianas. Depois disso, só me lembro de ter acenado para ela de longe, na festa do casamento de May. E só.
Talvez eu não devesse estranhar tanto. Camille sempre foi conhecida por seu carisma irresistível.
"Giselle e as amigas não veem a hora de tocar violino de novo com você."continuou."Por sua causa, elas se animaram a fazer aulas oficialmente."
"Nossa, fico feliz que elas tenham gostado... Onde elas...?"
"Logo devem chegar, estavam no quarto desde cedo assistindo a alguma série.Sintam-se em casa, meninas. Se precisarem de qualquer coisa, é só me avisar." disse fazendo um sinal quando a chamaram, para que esperassem. "E... Rosie."
"...Sim?"
"Eu ouvi comentários e já repreendi algumas damas da corte sobre a sua presença e a de sua mãe por aqui. A fofoca é o mal de qualquer ser humano" Rolou os olhos. " Não quero, de forma alguma, que alguém te deixe desconfortável. Antes de tudo, Marie sempre fez parte da nossa comissão. E você já é parte... " Travou por um instante e sorriu." Bom, já é conhecida. Uma amiga da nossa família. E sempre será bem-vinda aqui."
"...Obrigada, Majestade."
Marie e eu éramos convidadas especiais de Sara Blanchet, que era uma das organizadoras das atividades com as debutantes francesas.
Na prática, isso nos colocava em uma posição estranha: não éramos exatamente parte daquilo, mas também não estávamos ali por acaso.
Se eu tivesse feito algo realmente relevante para ajudar as debutantes, talvez me sentisse menos deslocada.
No máximo, ajudei Desirée quando deixou uma bandeja cair durante um café da tarde. Ela levou uma bronca por isso, e eu apenas mostrei como equilibrá-la melhor, algo que aprendi desde pequena, dando uma força de vez em quando no restaurante da família do Tyler.
"Não sabia que era tão próxima da rainha."Sussurrei para Laura quando saímos em direção ao cômodo seguinte. Ela ergueu uma sobrancelha.
" Olha quem fala. Só faltou ela te chamar de cunhada." riu." Tá, foi mal, mas sim. Odeio a corte da Rainha, mas amo ela. Ela simplesmente não deixa o poder subir à cabeça."
Eu só pude concordar.
"Esse é o Salão de Espelhos, certo?"questionei.
Porque se aquele ambiente que tinha vários espelhos numa só parede não fosse, não sabia mais o que poderia ser.
"Hum? Ah, é ele mesmo."
Ali, os fotógrafos explicavam sobre poses a uma das debutantes.
Do lado oposto aos espelhos, havia uma sequência de janelas com vista, intercaladas por paredes com esculturas.
"Mas, sabe... sobre a Camille", Laura disse de repente. "Eu só comecei a ver o lado bom dela na minha época de debutante." Soltou um risinho irônico. "Eu estava lá por chantagem da minha avó, então obviamente odiei cada segundo. No dia do baile, larguei meu par no meio de uma das danças, e, no intervalo da música, pedi licença ao pianista da orquestra. Toquei parte da música certa e mudei para uma peça mais agressiva como Rachmaninoff, o prelúdio 23, se não me engano. "
"... Você não fez isso."
Ela deu de ombros."Teve gente que aplaudiu. Consegui tocar até bastante, antes de me tirarem dali. Minha avó quase teve um ataque, mas a Rainha não levou como afronta. Pelo contrário. Depois, numa conversa bem tranquila, ela me fez perceber, sem precisar dizer, o quanto aquilo tinha sido desnecessário."
"...Nossa."
"É meio vergonhoso de lembrar. Na hora eu achei que estava causando... Pelo menos serviu pra minha avó concordar em não me obrigar a ir em mais nessas festas contra minha vontade."
Meneei a cabeça. "Dava de tudo pra ter visto, mesmo assim."
Vi Marie num cômodo semelhante ao que saímos, porém do outro lado. Ela conversava com Sara, a antiga rainha Daphnee e sua mãe Aimée.
"Tu étais essentielle à tout, Aimée..." ("Você foi essencial, Aimée...") disse Marie, agradecendo à avó de Camille por reconhecer, em Illea, o colar da família Artois que eu usava.
"Je suis si heureuse de les voir réunis. Je n'aurais jamais imaginé que mes 85 ans de mémoire serviraient à quelque chose d'aussi précieux !" ("Estou tão feliz de vê-las reunidas. Nunca pensei que aos meus 85 anos minha memória iria servir para algo tão bom!")
As mulheres ao redor riram.
Eu sabia que Marie tinha crescido e debutado na corte francesa, e inclusive ajudado em várias edições do evento antes de se mudar para Roma, na época de meu sumiço e seu acidente.
Dava para perceber que ela fazia questão de ser notada novamente, até porque nos últimos anos ela estava dedicada a se destacar na corte italiana.
Porém, com o término de Oliver e Delfina, provavelmente a França era sua garantia.
Olhei para os lados quando uma voz infantil me chamou.
Era a princesa Giselle que vinha na minha direção com suas outras amigas, Valerie e Corine. Abaixei para um abraço coletivo.
Elas comemoraram quando Dani abriu a mochila para mostrar Ratatouille.
"Estamos fazendo aulas de violino. Quer ver a gente tocar depois?"Valerie perguntou.
"Claro, vou sim."
Elas voltaram a conversar com Dani e a chamaram para o quarto de Giselle.
"Espera,Dani! Danielle. Attention. Ei!"
Foram muito rápidas, já estavam a vários passos de mim. Perdi elas de vista quando subiram mais um andar pelas escadas.
"Rosie, calma,"Olhei para Laura, que me seguiu."Sei que está preocupada em tomar conta da Dani. Mas não tem como algo acontecer num lugar tão vigiado como esse."
"É... Tem razão. "
...
Por causa do tamanho limitado dos espaços de espera, dividiram as debutantes em dois grupos, um em cada salão que ficava nas extremidades do Galerie des Glaces (Galeria ou Salão dos Espelhos).
Fiquei sabendo que esses ambientes tinham nomes: Salon de la Guerre (salão da Guerra) e Salon de la Paix (Salão da Paz).
Laura e eu fomos desde o início da sessão para o Salon de la Paix, junto de Lavinia, Desirée, outras oito debutantes e quatro ex debutantes.
Dani, Giselle, Valerie e Corine retornaram algum tempo depois, mas ficaram apenas por um curto período. Ainda assim, Dani conseguiu assistir a parte da sessão, espiando pela porta do Salão de Espelhos.
Não estava fácil acompanhar, já que, com frequência, os fotógrafos pediam que quem estivesse nas portas se afastasse, dependendo dos ângulos das fotos.
Pelo menos havia mais crianças para distraí-la, pois, quando avisaram que as primeiras imagens seriam individuais, tive a certeza de que aquela tarde seria longa e marcada por um tédio completo.
"Eu ainda não te agradeci pela ajuda de ontem... Por sua paciência comigo quando eu quase perdi o controle."
Encarei Laura incrédula pela abordagem repentina do assunto.
Pelo canto do olho, observei Lavinia e Desirée buscarem algo para comer no salão vizinho. O espaço estava com uma mesa de café da tarde e era ali que se encontravam as mulheres da família real, Marie, Sara e as demais organizadoras do evento.
"Não tem que me agradecer por nada. Estamos juntas nisso, você sabe."
"Sim."deu um meio sorriso."Eu só queria que esse homem dissesse logo o que quer de nós, ou simplesmente evaporasse. Não aguento mais esse silêncio e joguinhos dele de aparecer pra gente."Ela puxou uma fotografia da bolsa tiracolo."Quando fui para casa, busquei isso. Encontrei no meio das coisas que minha mãe deixou."
O retrato era de um homem loiro de olhos azuis em frente a uma fachada de um comércio.Era espontânea. Ele ria tentando alcançar a câmera.
"...Esse..."
"Esse é o Brian. Aí é ele com uns 20 anos. Agora está um pouco diferente, mas... Queria que você também soubesse como é o rosto dele para reconhecê-lo quando ele aparecer outra vez... Porque com certeza ele vai."
"Ele tem o mesmo tom dos seus olhos."comentei.
"Mas você é mais a sua cara dele do que eu. Na verdade, ouso dizer que você é a mistura perfeita dos seus pais. Olha os traços do queixo, boca, sua expressão facial lembra muito a dele. Eu só puxei os olhos claros."
"Laura, precisamos de você aqui."
Minha irmã se juntou novamente a Desirée e Lavinia, uma delas pelo visto era a próxima a ser chamada.
Voltei a observar a paisagem lá fora dos jardins.
Eles estavam cobertos pela neve que caía. Ao redor do lago artificial congelado, havia pequenos campos, com caminhos circulares e semicirculares, contornados por arbustos.
Perto dos grandes vasos de plantas, as quatro pequenas passaram correndo, e estava começando a nevar novamente.
Tia Margot tinha enfatizado para que eu tentasse evitar justamente isso, porque era um passo para Dani adoecer.
Avisei Laura e me dirigi à entrada do palácio para pegar meu casaco e o de Dani. Aproveitei e levei as capas de Lavinia e Desirée emprestadas, caso Giselle, Valerie e Corine também não tivessem bem abrigadas.
Ao sair pelo pátio externo, percebi que o percurso mais fácil tinha sido o interior do palácio.
Desci uma pequena plataforma de poucos degraus, passando entre dois lagos artificiais.
Minha intenção era alcançar a extremidade da plataforma para procurá-las do alto. Os jardins estavam em dois níveis, um no mesmo plano do térreo, e outro mais abaixo, acessível por uma escadaria à esquerda.
Torci para encontrá-las logo, uma tempestade começou a se formar.
...
"Por que vocês foram tão longe nesse frio?" perguntei, puxando melhor a capa sobre os ombros de Corine. Estávamos quase de volta à entrada.
Eu as encontrei depois de optar por descer a escadaria. Giselle e Valerie trocaram um olhar rápido antes de responder.
"A gente perdeu o Ratatouille..." explicou Valerie."Ele gosta de ficar se enterrando na neve."
"Ele estava perto do lago congelado lá de baixo." Corine disse.
"Depois a gente fez guerra de neve... e anjinhos." completou Giselle.
"Essa parte eu sei bem..." Ri.
A cena que eu encontrei foi todas deitadas na neve, de braços abertos e o furão correndo em círculos ao redor delas.
Agora, Dani abraçava o bichinho para aquecê-lo com o próprio corpo.
"Obrigada, Rosie." Giselle me devolveu meu sobretudo quando passamos pela porta. Vesti-o outra vez com urgência.
"Papa! Tu es de retour de voyage! ("Papai! Você voltou da viagem") Valerie disparou à frente quando passamos pela porta e correu em direção a um grupo de homens que conversavam naquele corredor.
Eram diplomatas franceses, o pai de Valerie se dirigiu a mim perguntando o que fazíamos lá fora.
Meu sotaque saiu um pouco mais carregado do que eu gostaria, mas consegui explicar, de forma breve e um pouco nervosa que as meninas haviam escapado para o jardim atrás de um animal de estimação.
Percebi tarde demais que seu questionamento foi só uma tentativa de puxar assunto do que cobrança, pois ele parecia mais é de bom humor por rever a filha do que incomodado.
"Rosie?"
Dessa vez não me enganei. Foi realmente Osten, que saiu de uma sala mais a frente com Ahren e mais dois homens.
"Oi..." dei um rápido aceno."Estou aqui acompanhando o ensaio fotográfico das debutantes com minha mãe e umas amigas. Achei que você e a Elite estariam numa reunião em Paris, era agora a tarde pelo que Allan me disse."
Ele adiantou o passo até nós, enquanto eu me lembrava, de um modo amargo, que da última vez que nos falamos foi ao telefone, há uma semana, quando fui grossa, desliguei na sua cara e não respondi mais às suas ligações.
"Nós viemos direto, na verdade. Estamos tentando manter um encontro diplomático entre os países em Versalhes depois dessa confusão. A reunião em Paris seria para tratar do problema em si."
"Ah, entendi... Bom te ver." Estendi a mão por impulso. Só então notei que os braços dele, que se ergueram levemente, retornaram à posição inicial. Ele aceitou o cumprimento."Desculpe."
"Tudo bem." respondeu da mesma forma, mantendo um sorriso." Sua mão está fria, mas pelo menos você está com luvas dessa vez."
"...Sim, necessário."
Franzi a testa ao avaliar seu rosto quando ele deu um riso baixo. Acabei não perguntando sobre como ele estava lidando com os assuntos do seu trabalho.
Não era um bom momento.
Ele agachou para abraçar as meninas, logo sendo apresentado para Ratatouille por Dani. Segui estendendo as mãos para cumprimentar os dois últimos diplomatas.
"Osten, tu laisses Rosie aller patiner avec nous à Noël ? Et ensuite, elle va au bal de l'Élite et elle se marie avec toi."
("Osten, você deixa a Rosie ir patinar com a gente no Natal? E depois ela vai para o baile da Elite e casa com você.")
O pior é que foi alto o suficiente os diplomatas que seguiam Ahren para outro cômodo ouvissem.
"Desculpe, Osten. Olha, a Dani não está muito atualizada sobre a real situação."
"Sem problemas."ele disse apenas, brincando com o furão, que se remexia sem parar no seu colo.
"Tu n'as pas besoin de me le demander. Bien sûr que Rosie patinera avec toi?" (Não precisa me pedir. Claro que a Rosie vai patinar com você.)"
"Et vous êtes également invité" ("E você também está convidado!)"
Ele riu.
"Merci." ("Obrigado)." Devolveu Ratatouile e se levantou"Vocês precisam subir e se aquecer perto de alguma lareira."
"Onde está o resto do pessoal da viagem?" Questionei.
"A maioria chegou e já foi para os quartos. Mas Jade, Paige, Ophelia e Katie subiram, assim que acabou a reunião para ver a sessão de fotos. Podem ir na frente. Eu já vou para lá em alguns minutos."
...
A sessão de fotos estava em pausa quando chegamos. A Elite estava no Salão de Espelhos rodeada por debutantes curiosas. Jade e Paige foram as primeiras a reparar na minha presença.
"Oi, gente!"
" Pelos céus, Rosie! Você combina completamente o estilo burguesa!" Jade disse ao me abraçar, e me fez dar uma volta completa inspecionando meu visual.
Eu estava com uma blusa preta de mangas compridas, uma saia marrom combinando com a meia-calça do mesmo tom e botas pretas de cano alto. Por cima, um sobretudo escuro, e uma pequena bolsa bege.
"Casual, mas absurdamente chique. Típica herdeira." comentou Paige, me abraçando também." Esse laço no seu cabelo ficou tão fofo...."
"Admito que Paris te fez bem..."disse Jade, cruzando os braços ainda me avaliando. "E, sério, eu adorei as botas."
"Obrigada. Vocês também estão lindas."
Estavam com um visual padrão: vestidos midi de mangas longas, sobretudos, meias-calças e saltos de bico fino nos pés.
Tudo elegante, alinhado, do jeito que eu lembrava e até achava uma graça. Naquele momento, porém, aquilo me lembrava de modo sutil que eu já não estava mais entre elas.
"Ei, Rosie..."Ophelia e eu demos um abraço breve, meio desajeitado. Em seguida, me virei para Katie, que fez isso a contragosto.
Jade e Paige vieram comigo quando fui para onde iriam providenciar bebidas quentes para Dani e suas amigas.
"Eu descobri uma coisa que vai te deixar com ódio da família real inglesa."disse Jade quando sentamos em um sofá."Especificamente daquela vaca da Victoria. "
"Quê?"
" A princesa Victoria." explicou Paige."Foi ela que armou pra você, combinou com aquelas modelos Prudence e Thalia no desfile de Londres."
"Mentira."
"Me parece bem crível."
Lavinia e Laura estavam paradas em pé ao meu lado, assim como Desirée.
"Ah, essas são..."
"Já nos apresentamos, Rosie." Laura me cortou."Por favor, informação completa, Jade Bennet."
Rolei os olhos com isso.
"Sim, senhora." Jade disse com um riso, e olhou para mim." Lembra que Victoria nos ficou perguntando sobre a Bridget lá no jardim de Windsor?"
" Hum, vagamente..."
"Ela é fã da Bridget, e você já tinha feito aquela entrevista falando contra ela. No começo, achei que o príncipe Noah tinha armado pra gente, já que foi ele que me acusou. Mas pelo que soubemos, até aquele ser desprezível achou absurdo o que a irmã fez!" Jade riu sarcástica. "Eu fui completamente ingênua, e não desconfiei antes porque eu que perguntei pra Victoria dos eventos de moda em Londres. A culpa do que aconteceu com você acabou caindo sobre mim, afinal. E aquela avó dela, como era mesmo o nome?"
"Jude."
"Isso, Jude. Ela ligou e contou para o Osten depois de ouvir a neta comentar algo. Ele ficou possesso. Eu estava doida pra ver o circo pegar fogo. Eadlyn me disse que, quando criança, ele era um verdadeiro terror com vinganças. Mas essa Jude é idosa, com certeza ficou com medo de ele descobrir por outra pessoa e pediu que deixasse pra lá, e o Osten acabou se compadecendo."
Olhei para elas processando.
" E eu te pergunto."continuou Jade."O que podemos fazer quanto a isso? Nada. Mas ainda assim, achei que você tinha o direito de saber."
Assenti agradecendo. Já estava farta daquela história, o melhor pra mim seria esquecer aquele acontecimento.
Não foi preciso muito tempo para que os dois grupos de mulheres se misturassem.
Aproveitei o momento em que Lavinia e Desirée explicavam para Jade sobre como foram feitos seus vestidos da temporada para ir até Ophelia, assim que ela terminou de falar com a Rainha.
"Ei." Sorri. Ela pareceu surpresa com minha abordagem.
"Oi, Rosie..."
"Recomendo provar aqueles croissants.E não é só porque estamos na França. Esses daqui são surreais de bons."
"Obrigada...."ela sorriu pegando um."Olha, Rosie, eu sei que o Osten já deve ter te explicado o que aconteceu naquele dia, mas eu queria me desculpar, se te fiz pensar que... " hesitou" Aquilo foi um mal-entendido. A aliança só caiu porque ele se assustou, mas ele só estava me mostrando..."
"Eu sei, Ophelia. Ele me mandou uma carta explicando tudo. E, sinceramente, nem foi tão difícil deduzir o que aconteceu."
Vi que o que eu disse aliviou, em parte, sua expressão tensa.
"... Não quero que pense que eu estava me aproveitando da situação para..."
"Não, eu sei que não." garanti, suspirando."Mas não se culpe. Existiam problemas muito mais complexos entre eu e o Osten, e não, o centro não foi você. Relaxa. Já estávamos mal de qualquer forma."
Ela assentiu, e eu pedi licença para seguir o restante das meninas para o Salão de Espelhos, por conta do silêncio que se fez entre nós.
Me arrependi assim que saí de não ter tentado puxar assunto sobre livros, ou qualquer coisa, como antes.
Percebi que a sensação de estranhamento entre nós agora era muito semelhante à que acontecia entre eu e Suki.
E doeu. Ophelia sempre foi uma ótima amiga.
...
"O príncipe não para de te encarar, Rosie." Desirée sussurrou pra mim.
Não foi preciso o aviso dela.
Eu sentia o olhar de Osten me alcançar onde quer que eu estivesse naquele salão. Eu sabia o que ele queria: uma conversa.
E eu também queria. Mas qualquer início de diálogo a sós entre nós ali certamente atrairia curiosos dispostos a ouvir, e, se saíssemos do salão para isso, o assunto daria ainda mais o que falar.
Acho que ele entendeu o momento, depois que neguei com a cabeça de forma discreta alguns minutos antes.
Suspirei quando nosso olhar se cruzou mais uma vez pelo reflexo de um dos espelhos. Por um segundo, pensei que ele sustentaria, mas Osten desviou.
Caminhou alguns passos até uma das janelas e passou a observar o jardim. Minha consciência pesou.
Ele estava sozinho, e eu ali, ignorando-o, como se estivesse querendo atingi-lo com isso. E eu sabia que, se não aproveitasse aquele momento, talvez não tivesse outro tão cedo.
"Achei que não conseguiria falar com você." Ele respirou fundo e me encarou quando parei ao seu lado." De qualquer jeito, eu só queria te agradecer por ser receptiva. Depois de tudo..."
"... Me agradecer pelo quê?! Olha, Osten, me desculpa. Sei que só queria se explicar esse tempo todo, e eu só ignorei suas ligações essa semana."
"Tudo bem. Você estava no seu direito, eu entendo."O tom dele era sereno, senti uma leve mágoa ali.
" Eu sei que fiz parecer que não queria nenhum contato com você, mas eu li a sua carta, Osten. E..."
"Eu sei que leu."Assentiu sorrindo. "Sei pelo que respondeu naquela entrevista..."
Fechei os olhos.
"Sinto muito. Eu estava com tanta raiva dos repórteres cercando eu e Laura quando ela estava mal... Quando vi já estava saindo da Seleção ao vivo. Sem conversarmos primeiro sobre isso."
Ele balançou a cabeça.
"Deixa isso pra lá. Você sabe que o importante pra mim é a sua honestidade."Uma pausa."E quanto ao Brian..."
"Você sabia esse tempo todo. E da minha irmã, também, né?" Seu rosto se contorceu quando confirmou."Ok, não estou com raiva de você por isso, antes que pense o contrário. Inclusive, eu estava falando com Kou e Ted mais cedo. Ter a Guarda de Illea e o pessoal contratado pela tia Margot o tempo todo ao meu redor é um pouco demais para mim. Acho que é pior passar a mensagem de que desconfiamos dele."
Como esperado, a expressão de Osten não foi muito boa, mas vi que ele ponderou.
"Se você aceitar que não tenham guardas, mas alguns seguranças extras contratados para circularem pelo perímetro que você e Laura estiverem, por mim... Acho melhor também."
"... Fechado."
Ele assentiu. "Ok, vou providenciar."
"Obrigada."
"Por nada."Sorriu."Esse é o mínimo que posso fazer. Tenta se cuidar, Rosie. Por favor."
"Você também."
Ele piscou duas vezes."Como assim?"
Suspirei.
"Não da sua segurança, mas da sua saúde. Você está com olheiras, Osten. Eu já te disse que te invejava, porque você nunca teve, mesmo dormindo tarde por costume. E não é só isso que eu estou vendo em você. Está exausto. Com certeza tem virado mais noites do que deveria nesses últimos dias, não?"
"...É."Franziu a testa."Fiz isso, umas duas ou três vezes...Mas estou tentando dormir um pouco mais a cada vez que tenho oportunidade. Eu fiz isso no voo, e vou fazer mais tarde de novo. Garanto."
"Acho bom." Sorri de volta, mas meu humor e o dele não duraram muito tempo enquanto nos encaramos.
"É possível conversarmos em outro lugar?" perguntou.
"Agora, não acho que vá ser possível. Só olhar ao redor. Já despertamos curiosidade suficiente de todos aqui, e sabe, tem câmeras, não vai demorar até algum curioso nos seguir pra gravar nossa conversa ou tirar uma foto comprometedora. Eu acho melhor voltar até as meninas, por enquanto. Por mim já deu de escândalos."
"...Tudo bem." ele concordou." Mas, espera,.. " Segurou meu braço de leve por um instante, me atraindo atenção com sua pergunta." O que você vai fazer no Natal?"
"Hã?"
"Porque Ahren e Camille vão fazer uma festa por aqui, e eu vi que sua família não confirmou presença, mas se puderem aparecer..."
"...Bom, pelo que sei Marie e Allan programaram de passar com alguns amigos... Vou estar na casa dos embaixadores de Illea, Theodore e Harper. Acredito que conheça eles."
"... Claro."Assentiu.
"E também vai a família da Laura, e mais algumas pessoas."Fechei os olhos." Onde eu quero chegar é que... Não acho que elas vão desmarcar isso, caso seja feito algum evento em Versalhes com sua família. E nesses dias tenho o compromisso no orfanato e planos com meus primos e minhas tias..."Respirei fundo."Mas nos vemos com certeza, no baile."
"Mas não é..."
"Foi mal, Osten, estão te chamando."
Apontei para a porta, onde Benjamin pedia que viesse até ele com urgência.
"Droga." ele disse voltando a me olhar."Eu ainda queria conversar com você sobre..."
"Nós vamos ter tempo. Parece importante, e você sabe muito bem que te entendo quando precisar ir."
"Rosie."
"Só vai, Osten. E boa sorte por lá." Sorri, não sendo retribuída.
"...Obrigado. Eu já volto..."
Percebi enquanto ele ia que Benjamin também fez um sinal para as demais integrantes da Elite.
Katie e Ophelia se levantaram na mesma hora, mas, Jade e Paige apenas olharam para Benjamin. Elas estavam, na verdade, rindo de algo com Laura, Lavinia e Desirée.
E aquele homem não insistiu.
"Rosie, você vai gostar de ouvir isso." Paige disse quando me aproximei delas." Lembra que a Katie estava se envolvendo com aquele duque inglês, amigo do príncipe Noah?"
"O... Gilbert?" questionei.
"Ele mesmo. As criadas que estavam com Katie nos disseram que foi para tentar deixar o Osten com ciúmes. Ela deixou o Gilbert no enrolo quando foi pra Rússia."
"...Coitado..."
"Pois é! Ele ligou várias vezes pra ela. O que torna tudo melhor é que ela não tem nenhuma chance com Osten, ele não deu a mínima pro caso dela..." O sorriso da Paige foi morrendo quando olhou para Jade. Por um instante, me encarou como quem pede desculpas. "Mas... sabe, eu não consigo ter tanto ranço da Katie. Ela nem se compara a Bridget por exemplo..."
"Posso falar com você por um segundo?" Jade sussurrou, me puxando para o outro lado. Deixamos Paige atualizando Laura, Lavinia e Desirée sobre outros acontecidos no palácio de Illea.
"O que foi isso?"
"Nada, ela só empolgou. Queria te contar mais uma coisa." Andamos pelo Salão de Espelhos, até o mais longe possível das debutantes circulantes."Paige e eu vamos embora depois do baile das debutantes. E pelo modo que o Osten conversou com a gente, eu entendi que não vai ser uma eliminação. Acho que ele vai anunciar o final da Seleção nesse dia... E o que eu queria saber é... Se você realmente saiu, ou..."
Balancei a cabeça.
"Não existe ou, Jade. Eu saí mesmo."
Ela demorou um tempo me avaliando.
"Ok... Sendo assim, se Osten fosse escolher alguém para um casamento de conveniências, não seria louco de escolher a Katie. Então, te pergunto, vai deixar ele ficar com Ophelia?"
"...Com quem ele quiser." dei de ombros, encarando meu reflexo no espelho." Você mesmo me disse que um relacionamento não sobrevive a caminhos distintos..."
Jade ficou em silêncio por um instante.
"Rosie, desculpa. Eu não fazia a menor ideia que estava te atingindo isso!"
"Sem problemas, não pense dessa forma."
"Não, eu sinto muito..." segurou meus ombros." Olha, Rosie, eu torço por vocês, e não vou deixar de fazer isso. Mas eu entendo e apoio sua decisão... Já passei por isso que você está passando e... Digo que não é o fim do mundo."
Assenti. "Valeu, Jade."
...
O quarto de Giselle ficava no último andar. Tinha uma vista para os jardins, mas sob um ângulo diferente dos salões.
Giselle, Corine e Valerie tocaram Minueto em Sol Maior, de Bach. Estava lindo.
Me sentei na cama para ouvi-las junto com Dani, ao passo que minha prima mais dava atenção para o conjunto de pelúcias da princesa.
Ratatouille aproveitava a falta de atenção de Dani geral para brincar. Corria pelo tapete, se enfiava debaixo da cama, reaparecia do nada e tentava atacar as próprias sombras.
"Osten!" Olhamos para a porta, com o grito de Corine, que foi a primeira a interromper.
Eu não estava surpresa, sabia da chance dele aparecer no meio tempo em que a Rainha Camille quis rodar por mais alas do castelo para tirar fotos coletivas das debutantes.
"Não parem." Ele se sentou ao meu lado.
"Vamos ter que começar do zero."disse Valerie.
Toquei seu ombro. Osten retribuiu meu sorriso por um instante e prestou atenção nas meninas.
Ele estava saturado. Arrasado. Decidi não perguntar sobre o que aconteceu na sua última reunião.
Frustrante era pensar que eu não poderia fazer muita coisa para ajudá-lo. Nem se ainda estivéssemos juntos. Eu esperava que ele aceitasse o meu conselho sobre descanso, para o bem da sua estabilidade mental.
"Sua vez, Rosie!" Giselle me entregou o instrumento quando terminaram."Toca alguma coisa pra gente, por favor!"
"Tá... toco sim."
Eu pensei por um momento em tocar o repertório da audição, mas desisti.
Acabei escolhendo o Prelúdio em Mi menor, de Chopin, que era mais curto. Era uma música que eu tocava desde sempre, quando estava cansada das peças mais difíceis.
Encarei o pôr do sol, com o céu tons de azul, laranja e rosa. Os sons eram melancólicos, mas de um jeito muito bom. Por quase três minutos, consegui me concentrar apenas naquilo e esvaziar a mente.
Estava quase no fim, quando escutei a porta bater. Troquei um olhar confuso com Osten com o barulho da tranca.
"Não se preocupe."ele disse, enquanto as meninas riam lá fora." Eu já esperava por essa, então fui atrás disso."
Osten tirou do bolso do terno um molho de chaves.
"...Como você sabia que...?"
"Digamos que eu ouvi elas comentando o plano com a Dani... e percebi que tinha algo errado quando a Giselle e a Corine vieram falar comigo para vir te ouvir. Isso tem a mão da Kerttu, pode ter certeza".
"...Claro..."
" Expliquei a situação para meu irmão e por sorte ele tem isso. Não estamos presos."
"Mandou bem, obrigada." Guardei o violino na caixa.
"Mas, antes que você vá embora, ..."Ele olhou novamente para o bolso do casaco, e tirou dessa vez um papel amassado."Tem mais uma coisa que não expliquei naquela carta. E já faz um tempo que tenho isso guardado..."
Estreitei os olhos. "O que é isso?"
Ele hesitou em me dar. "Uma carta sua."
Franzi a testa. "Minha?"
"Para o Tyler. A Bridget me deu no dia em que ela foi embora," esclareceu. "Disse que encontrou no hotel em que vocês ficaram hospedadas em Angeles, para aquele concurso de culinária. Provavelmente achou que eu terminaria com você por me sentir traído, mas eu entendi na hora o jogo dela. Eu e você estávamos cada vez mais próximos. A carta com certeza era muito mais antiga, e eu sabia que você não gostava mais do Tyler. Bridget só deve ter guardado como um último recurso pra nos separar..."
'Querido Tyler...
(...)'
Osten parou de falar, quando comecei a ler.
"Foi aí que a minha paranoia começou. "Continuou quando ergui os olhos."Você escreveu que sentia certa inveja do seu amigo por ele ter o 'amor' e também estar realizando os sonhos. Eu me dei conta de que talvez você ainda pudesse se sentir assim... e estivesse escondendo essas dúvidas de mim, ou até ignorando por nossa causa."
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Encarei-o, sem palavras, e ele meneou a cabeça.
"O resto você já sabe. Por favor, me desculpe por ter adiado tanto o momento de te perguntar sobre isso..."
Assenti.
" ... Osten, "comecei, sentindo minha voz falhar. "Eu já te disse que sou grata por você ter me feito enxergar que eu estava mentindo para mim mesma sobre o que queria para meu futuro. Mas... sabe o que mais doeu nisso tudo?! Mais do que pensar que você pudesse sentir algo por Ophelia, ou estar inseguro sobre o que sentia por mim, foi entender que se afastou por escolha. Desistiu da gente bem antes de me perguntar se era isso que eu queria, tudo porque deduziu qual seria a minha resposta."
Ele abriu a boca, como se tivesse algo pronto, mas nada saiu. Apenas fechou os olhos e concordou. Quando os abriu de novo, havia um brilho úmido ali.
"Sim, eu me arrependo por ter sido tão pessimista. Pensei que você, se não estava se arrependendo, logo iria se arrepender de se casar comigo. Me desculpe por não ser claro. Você não deveria ter nenhuma dúvida de que eu faria de tudo para que fosse feliz ao meu lado."
Com um passo à frente, ele diminuiu o espaço entre nós. Tocou meu rosto, deslizando o polegar devagar.
"Rosie, eu amo você. Eu deveria ter dito isso antes, muito mais vezes, e ter provado com minhas atitudes. Mas eu falhei."
Meus olhos, minha garganta, ambos arderam.
Qualquer palavra de minha parte não era possível naquele instante. Tudo o que consegui fazer foi tentar estabilizar minha respiração, enquanto sentia seus braços me envolverem.
"Eu sei que estraguei tudo, e que o que você decidiu é seguir em frente... Só quero que saiba que estou feliz por você. Por te ver dar uma chance para o que queria. Boa sorte amanhã, na audição."
Encarei-o, enquanto me afastava.
"Então você também sabia dela."
"Sim." Deu um breve sorriso." Sua família me passou o recado há alguns dias."
"Entendi... Obrigada."sorri." Seu apoio é muito importante para mim..." Apontei para as chaves." Vou voltar, porque está tarde, daqui a pouco está na hora de ir embora..."
Ele assentiu e fez questão de ir abrir a porta.
"Eu só não te perguntei uma coisa." falou, depois de girar a chave. Estudei seu olhar, havia uma certa determinação ali." Se afastar de mim, é o que você quer, de verdade?"
Nos encaramos sem palavras por um tempo que não sei mensurar.
"...Não. Não é o que eu quero." Respirei fundo." Mas preciso só por mais um momento. Depois, disso, não quero perder sua amizade por causa de um melodrama. Nós... prometemos não perder contato um com o outro caso..."
"Sim..." assentiu com um sorriso sem vida."E, sendo assim, se também quer manter contato, eu poderia..."
"Não vou te ignorar no baile, se me ligar ou em qualquer outra situação, se é o que acha. Agora... vou indo na frente. Está tudo bem, é sério. "
"Sim... Certo."
Consegui sustentar as emoções até me ver sozinha no corredor.
O meu subconsciente me alertou que, em teoria, tínhamos acabado ali, mas eu sabia (e tinha certeza que ele também sabia) que isso tinha terminado há muito mais tempo.
Já tínhamos sofrido o bastante. Não valia a pena seguirmos em frente com rancor ou mágoa um do outro. Então fizemos o certo em não terminar de um jeito tóxico.
Mesmo assim, não fui honesta comigo, nem com ele.
Ainda não estava tudo bem. Mas iria ficar.
...
A diferença de fuso horário de Paris para minha província em Illea era de 9h.
Sendo assim, me levantei alguns minutos mais cedo do que precisaria para me arrumar, a fim de conseguir pegar o início da noite de Columbia, horário onde meus pais com certeza teriam chegado do serviço.
Meu pai atendeu o telefonema preocupado comigo, pois nos primeiros dias na França, quando ele e minha mãe me questionaram se eu tinha saído da Seleção, eu havia negado.
"Relaxa, pai. Eu... tô lidando bem com tudo, prometo." Respirei fundo. "Eu tô ligando pra contar umas novidades... mamãe tá por aí?"
"Ah, sua mãe? Não. Ela saiu mais cedo para fazer compras no centro e ainda não voltou. Vou dizer que ligou e mandar o abraço..."
"Não se preocupe. A novidade é que logo, logo, vou passar um mês com vocês, ainda estou definindo a data, mas vou avisar."
Expliquei pra ele sobre minhas pequenas 'férias'.
"Que bom, filha! Estou com tanta saudades..."
"Eu também..."sorri.
"Ah, claro... seu presente de Natal vai chegar aí em Paris, bem a tempo. Eu e sua mãe estamos preparando essa surpresa há mais de um mês, espero que goste."
"Vou enviar o de vocês também... Mas com um pouco de atraso, desculpe." Ri fraco, com um suspiro."Pai, diz pra mamãe que... eu vou fazer um teste agora, muito importante pra mim..."
...
Meu avô e tia Margot me deixaram em frente à Académie des Arts Sonores pontualmente.
Caminhei até o grupo de candidatos, que começou a ser guiado pelos corredores da instituição.
Como havia imaginado quando estive ali para o recital, a música ressoava pelo corredor, vinda das salas onde grupos ensaiavam por conta própria ou aulas extras aconteciam à tarde.
Em certo momento, um grupo de alunos passou por nós, todos vestindo uniformes cinza xadrez: blazers, saias ou calças, camisas brancas e gravatas escuras.
Subimos as escadas até um pátio interno e fiquei em pé junto a uma janela de vidros escurecidos observando o movimento da rua até que um assento ficasse disponível.
Apoiei a caixa do violino e o caderno de partituras no colo.
Pensei se teria sido uma boa ideia levar os óculos de sol que Audrey trouxe para a França.
No dia em que entreguei o formulário da Seleção e tiraram minha foto, minha mãe usava os dela, o que fez com que quase ninguém na fila reparasse nela.
Eu sentia os olhares, mas até agora ninguém havia me abordado.
Ouvi alguém dizer que era injusto eu estar ali,uma vez que meu avô era um dos professores da academia.Tentei não me deixar abalar. Se eu ligasse para tudo o que falavam, nunca faria o que queria.
Mas a verdade é que eu estava hiperventilando. A cada chamado, uma pontada no estômago.
Minhas mãos, quase instintivamente, passaram pelos pingentes de violino no pulso e do meu colar em forma de R.
Era um consolo silencioso, a lembrança de alguém que sempre acreditaria em mim, mesmo de longe.
...
"Bon après-midi à tous " ("Boa tarde a todos")"
Eles me responderam em francês, e só aí me lembrei de que poderia falar em meu idioma.
"Meu nome é Rosie Ambers, sou de Illea, da província de Columbia."
A luz sobre a sala era intensa, como em um estúdio fotográfico. O branco predominava nas paredes, no chão, na superfície da mesa atrás de onde os avaliadores se sentavam... Eles se apresentaram como Eli, Lea e Alex.
Lea, que estava no meio, me perguntou sobre meu interesse em música, quantos instrumentos tocava, se tinha experiência com canto e qual seria meu repertório.
Tentei não tropeçar nas respostas.
Soava muito sem graça dizer que, desde a infância, após ir a uma feira de profissões e ver uma apresentação de violino, e que só tocava esse instrumento e não tinha experiência com canto, mas estava aberta a novas possibilidades.
Quis morrer por esse floreio, mas foi o melhor que consegui na hora.
Uma parte de mim quis sair correndo ali mesmo, e desistir, porque vários outros candidatos deveriam tocar no mínimo uns três instrumentos, para começar, e muito melhor.
"Meu repertório escolhido é uma adaptação de Chopin — Nocturne in C Sharp Minor." Assim que terminei de responder essa última pergunta, um dos homens, acho que Alex, fez um sinal para um jovem sentado em frente, provavelmente um estudante da academia.
"Ela vai precisar de uma entrada. Rosie, trouxe a cópia extra que solicitamos nas regras?"
"Sim, claro." Andei até o jovem para entregar, agradecendo mentalmente a Marcel por deixar tudo certo.
"Está em Dó sustenido menor. Só dê o sinal." Ele me encarou.
Concordei, voltando até a posição onde ficava o suporte de partituras para ajeitar minhas folhas e abrir a caixa de violino. Notei pela primeira vez a câmera apontando para mim, a audição estava sendo gravada.
Meu coração obviamente estava em um surto. Inspirei e expirei, segurando o arco do violino com força quase exagerada, como se ele pudesse escapar das minhas mãos.
Assenti para o jovem e quando as primeiras notas do piano soaram, tentei me concentrar e não deixar o nervosismo atrapalhar meu raciocínio.
Mesmo falhando, não queria me arrepender de não ter tentado.
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