Entrei na biblioteca para ver se achava mas filme para minha câmera. Procurei, procurei e procurei. Onde meu pai havia enfiado aquela caixa? A caixa que continha milhares de filmes, todos lacrados e intactos. Eu puxei meu pai nesse vício. Minha mãe me disse uma vez que, na época da Seleção dela, o meu pai tirava foto de todas as concorrentes, e todas ficavam lindas, que provavelmente eu tinha herdado este talento dele.

Suspirei. A Seleção. O meu estômago revirou só de pensar na conversa que tive com meus pais. Não queria encontrar um marido, não queria abandonar tudo o que gosto e simplesmente fazer isso. Meu pai me disse que não queria na época, porque não imaginava que conheceria alguém tão especial como minha mãe. Mas quem me garantia que eu realmente conheceria alguém de quem gostasse? Quem garante que eu não precisaria me casar com qualquer cara porque ele simplesmente foi o único que "restou". Aquilo me dava arrepios.

De repente, ouvi algo. Deixei a caixa de filmes cair no chão. De repente, Peter estava em minha frente. Soltei um leve gritinho, mas saciei quando vi quem era.

"Você está maluco?! Quase morri de tanto susto!"

Ele riu. E sua risada eram como sinos para meus ouvidos. Pareciam uma leve maré de verão batendo na beira da praia.

"Sabia que você ia se assustar. Soube da notícia?"

Soltei um sorriso e o abracei com a maior força do mundo. Senti seus braços em minha cintura e sorri.

"Quando minha mãe me disse que poderíamos voltar a ser amigos..."

"Na verdade, essa não é a notícia que eu vim te dar..."

"Ah ta. Desculpe. Me precipitei. Animação, sabe, voltar a ver o melhor amigo, chamá-lo pelo nome de novo e..."

"Não podemos mais nos ver" ele disse, olhando para seus sapatos

Eu comecei a rir. Gargalhar. Assim que vi sua expressão, fiquei séria novamente:

"O quê? Como assim, a gente ia voltar a se ver agora, é tanta coisa que preciso lhe dizer..."

Senti uma lágrima escorrer dos meus olhos. Aquilo não era possível.

"Eu vou me casar!"

Desviei os olhares dos meus saltos, e olhei para ele. Ele sorria. Senti um pouco de tristeza em seu olhar.

"Com quem?" tentei parecer o mais feliz possível.

"Acho que você não a conhece... Trabalha aqui no palácio. Célia, fica mais na cozinha e..."

"A CÉLIA?!"

Me lembrei dela chorando de alegria. De seu sorriso, como era lindo. De sua delicadeza e graciosidade, do seu modo tímido de falar.

"Achei que fosse ficar feliz com a notícia..."

"Peter, eu nunca mais poderei te ver! Agora, que finalmente consegui a permissão dos meus pais para voltarmos a ser amigos, e vou ter que me separar de você! É tudo o que tenho!"

"Por favor, você é a princesa e..."

"Sabe do que eu estou falando."

Ele se calou. Sabia que eu tinha motivos para estar triste. Óbvio que eu estava triste. Imagine uma situação: você ganha na loteria, uma quantidade de dinheiro muito grande, e você tinha tantos planos-de como gastá-lo de uma forma correte, que fosse trazer benefícios e de repente.... Você é assaltado, roubam o dinheiro de você, e de repente, se sente pobre, sozinho, supérfluo.

Eu estou me sentindo assim.

"Anna, sei que é difícil, mas..."

"Eu estou apaixonada por você Peter! Apaixonada!

Ele empalideceu. Seus olhos brilharam, e eu percebi o que tinha falado. Meu corpo estremeceu, e eu botei as mãos na boca. Eu tinha acabado de falar pro meu amigo, melhor amigo, que estava noivo, de uma menina linda, que eu estava apaixonada por ele. Peter me olhou, me secou como nunca havia feito na vida, e botou seus olhos nos meus. Entrei em pânico. Pânico.

"Peter eu..."

E ele me beijou. Me beijou. Graças á Deus a biblioteca era fechada, e ninguém conseguia nos ver. Ele me soltou, e eu recuperei o fôlego.

"Você definitivamente é maluco"

Ele sorriu.

"Eu também"

"Também o quê?" tentei me controlar ao máximo para não chorar.

"Também sou apaixonado por você. E acredite, isso vem de muito tempo."

Soltei um sorriso de orelha a orelha. Não acredito, mas de repente ele se desfez.

"Peter, você vai se casar. Não podemos ficar juntos. E ainda tem A Seleção"

"O quê? A Seleção? Você vai ter isso?" ele parecia mais irritado do que curioso "Por quê? Você virou fútil assim, Anna? Achei que era melhor que isso..."

Agora eu me irritei

"Como assim? Fútil? Minha mãe está me obrigando, para o meu próprio bem. Quer dizer, eu já teria um marido se esse não estivesse noivo. Você sabe, por mais que as castas tenham sido dissolvidas, não podemos. As pessoas são cruéis, Peter. Eu te amo, mais do que tudo, mas..."

"Chega Anna. Não pensei que um dia ouviria você falando assim. Tão esnobe. Posso terminar meu noivado com Célia e..."

"Não!" eu o alertei, ignorando os comentários anteriores "Não pode fazer isso! Eu conheci ela, e é muito legal, apesar de um pouquinho menos depois das circunstâncias..." senti seu sorriso, mas o ignorei também "Não faça isso."

"Pare de agir assim Anna! Pare de ser algo que não é! Sei que quer que termine meu noivado!"

"Agir como?!" me controlei para não gritar "Eu sou uma rainha! Tenho que pensar nos outros antes de mim!"

Peter saiu andando, como se eu não estivesse falando nada.

"Ei, eu não acabei!"

Enquanto ele andava rapidamente para o fim do corredor, eu reparei em suas costas: ele trajava uma camiseta preta, e vi um fragmento da corrente escrita "LEGER" com letras grandes e visíveis. Seu cabelo estava bagunçado, apesar de curto, e vi um pequeno corte saindo da gola da camisa, que não estava lá antes.

"Não importa. Pensei que você era diferente, Singer."

"Como assim, Leger?" nos chamávamos pelos sobrenomes quando estávamos bravos um com o outro, porque essas eram as regras dos guardas.

"Como uma Um."

Ele se retirou da sala, e a primeira coisa que fiz foi tirar aquele saltos. estavam me matando!

Mas então, acho que deveria tirar Peter do meu coração: ele estava me matando...