Uma Segunda Chance
3 Capítulo 3 - As lembranças de Regina
Notas iniciais
Por fim abriu os olhos.
A imagem que surgia não era nítida. Não dava para ver direito o que havia ao seu redor. A luz incomodava demais.
Piscou várias e várias vezes. Ouviu uma voz. Uma voz de tom um tanto estranho, porém direto. Direto o suficiente para não ser percebida. Aquilo fora o suficiente para arrancá-la de sua própria inconsciência, mas não o suficiente para fazê-la entender quem eram todas aquelas pessoas ao seu redor.
— Regina, você me ouve? Se sim, pisque os olhos duas vezes.
Gold solicitou, ao notar a dificuldade da morena em abrir os olhos, que o quarto fosse escurecido um pouco. Pensou que a dificuldade poderia ser devido a claridade. Uma das residentes imediatamente atendeu ao pedido do médico chefe.
— Regina, tente abrir os olhos.
Ela o fez. Abriu os olhos dessa vez sem se sentir muito incomodada. E pela primeira vez ela percebeu o quanto a sua cabaça doía. Tentou levar umas das mãos à cabeça.
— Você pode me ouvir, Regina.
O médico sempre falava o nome da paciente ao chama-la. Era comum isso. Precisava saber se a paciente estava consciente. Em seguida, o homem pediu para que ela não se mexesse.
Naquela cama, que mais parecia um concreto frio, ela não conseguia se sentir confortável. Percebeu por fim que estava em um hospital.
Olhou ao redor e viu vários rostos conhecidos. Eram seus amigos do hospital. De repente se viu com o olhar fixo em uma pessoa. Uma loira era alta, os cabelos estavam assanhados e tinha o queixo levemente arrebitado sem ser fino, com um discreto furinho. Os olhos eram verdes escuros e pareciam cansados. Era a única pessoa que não estava de jaleco. Era também a única pessoa que Regina não conhecia.
— Regina, você está me ouvindo? Se sim, pisque os olhos duas vezes.
O médico tornou a pedir. Os demais permaneciam quietos. Esperavam que Gold a examinasse. Ele sempre tinha esse poder de manter os funcionários a sua volta em silêncio. Todos respeitavam muito o médico. E as coisas sempre ocorriam exatamente do jeito que ele pedia
— Não sou surda, Gold.
O homem magro, de rosto fino e cabelos lisos sorriu. Regina sempre foi a única corajosa o suficiente para dar-lhes respostas não muito benvindas. Pediu para que a amiga de trabalho não tentasse se mexer ao percebê-la querendo se levantar.
— Bem, eu vou colocar uma luz próxima ao seu rosto e preciso que você a siga com os olhos. — ele continuava com a consulta.
— O que estou fazendo aqui? – a mulher não havia recordado o que acontecera – A minha cabeça dói.
Nesse momento Emma se aproximou de Regina e segurou sua mão. Sabia que aquilo não iria fazer a dor de sua mulher passar, porém queria que ela soubesse que estava ao seu lado.
— Dr. Gold, não há nenhum remédio para passar essa dor? – disse interrompendo-o quando ia responder a pergunta da paciente.
Foi a primeira vez que a loira se pronunciou desde que o médico começara a consulta pós-cirurgia.
— Ela já está medicada com os melhores remédios, Sra. Swan.
Gold não era conhecido por ser delicado. Era um dos melhores neurocirurgiões do país. Sempre era direto em suas respostas. Mesmo quando essas eram para dar notícias duras e ruins aos pacientes ou familiares.
Regina... Ela não se sentia muito confortável com a aproximação da estranha. Não sabia quem era aquela mulher. Aos poucos foi tirando a sua mão da daquela mulher. Emma por sua vez pensou que a esposa ainda estava magoada com ela. Não iria forçar o contato.
— Respondendo a sua pergunta, Regina. – o homem voltou a se pronunciar, enquanto se aproximava da paciente e conferia pressão, batimentos e verificava os movimentos das mãos e dos pés – Você sofreu um acidente e bateu muito forte a cabeça. Teve alguns cortes no rosto causados por cactos de vidro. Eu e minha equipe tivemos que conter os sangramentos, pois o traumatismo craniano foi muito grave. Pode-se considerar que você nasceu de novo. É minha cara alguém lá em cima te deu outra chance para viver.
Enfim a mulher se recordava do acidente. E percebendo que não estava se sentindo tão confortável com o toque daquela estranha. Aos poucos foi retirando a sua mão da daquela mulher. Emma por sua vez pensou que a esposa ainda estava magoada com ela. Não iria forçar o contato. Com uma sensação nada boa a morena perguntou.
— Gold, onde está minha família? – perguntou em um fio de voz e com uma sensação nada boa. – Eles estão bem?
O médico recebeu aquela pergunta sem entender muito o motivo do tom de voz da amiga. E com um pouco de receio, pois Emma também estava no quarto.
— A Sra. Swan está bem aqui – respondeu, enquanto com um gesto, pedia para que a outra se aproximar mais da cama. – O Henry, até onde sei, está com a sua irmã... O hospital não é um dos melhores lugar para uma criança.
— Quero saber do meu marido e da minha filha, Gold – Regina disse sem entender muito a razão dele ter falado aqueles dois nomes.
O médico começou a desconfiar o que estava acontecendo. Emma o olhou assustada. O homem se aproximou mais da paciente.
— Regina, você sabe onde você está? – perguntou com a voz tranquila
Ela refletiu um pouco sobre a pergunta antes de responder.
— Em Portland.
— Sim. Isso mesmo. E você sabe em que ano estamos?
— 2001.
Margareth que estava na sala o tempo todo notou a filha olhá-la apreensiva. Elas sabiam que o ano de 2001 fora o ano que Regina perdeu a filha que tivera com Daniel. Mas, aquela já tinha acontecido há 16 anos.
— Quem é o presidente?
— Eu quero saber da minha família, Gold. – disse já impaciente com aquelas perguntas, em sua cabeça, idiotas.
— Eu sou seu médico agora, Regina – disse duro – E quero que você me responda.
— George W. Bush.
— Qual o nome dos seus pais?
— Cora e Henry.
Emma tentava se convencer de que as respostas dadas sobre o ano em que estavam, quem era o presidente e sobre como falava do marido e filha no presente, era apenas uma confusão momentânea da mente de sua esposa. Quando ouviu a mulher que amava falar corretamente o nome dos pais se sentiu mais tranquila. Mas, aquela tranquilidade acabaria com a resposta dado a próxima pergunta.
Gold parou alguns instantes, tentando refletir sobre como faria aquela pergunta. Por fim, questionou.
— Quem é a sua família?
— Ora, que pergunta é essa?
Regina estava incrédula daquela pergunta, visto que Gold e Daniel eram melhores amigos. E o homem era padrinho de sua filha.
— Por favor, diga os nomes da sua família, Regina. – pediu educadamente, mas firme.
— Daniel e Alice.
Emma teve certeza de que todos poderiam ouvir os batimentos de seu coração quando ouviu aquela resposta. As lágrimas desciam seu rosto. Sua esposa não se lembrava dela, sequer lembrava que estava magoada. Sua esposa não se lembrava do filho que tinham. E o pior, Regina ainda não sabia da perda da filha Alice. Não sabia que, mesmo Daniel tendo tentando bastante que o casamento desse certo, após a perda da filha eles foram incapazes de fazer dar certo. “O que ela faria agora.”
Gold tentou novamente.
— Não, Regina, pense com calma. Quem é a sua família?
Emma pedia silenciosamente a Deus para que Regina lembrasse. Mesmo que estivesse chateada com ela. A morena levantou uma das sobrancelhas, mas desfez o gesto quando sentiu um pouco de dor... Tinha um corte no lado direito do lábio superior e alguns arranhões no rosto.
— Gold, eu quero saber como estão Daniel e Alice... – dessa vez sua voz era dura e imponente.
Ela não aguentava mais não saber sobre eles. Alguém precisava falar alguma coisa. Olhou para David como se suplicasse uma resposta.
David, que até aquele momento havia ficado quieto, falou.
— Gold, eu posso ficar a sós com Regina.
O médico entendeu o que David iria fazer. E assentiu com a cabeça sabendo que o amigo seria muito melhor com as palavras difíceis que precisavam ser ditas a morena. Em seguida, pediu para que todos se retirassem.
A que não se retirou foi Emma. Ela queria estar lá para a esposa. Sabia que aquilo ia machucar muito Regina. E também sofria por isso.
— Filha – o homem a abordou falando baixo – Eu sei que você quer ficar ao lado dela. Mas, talvez nesse momento, não seja o melhor para ela.
Ele falava com tranquilidade, a fim de deixar Emma o mais calma possível. Mesmo sabendo que quilo estava longe de acontecer.
— Pai, eu só que...
— Eu sei – David não deixou que a filha continuasse – E ela vai ficar bem. Tudo isso vai passar
Disse beijando a testa da filha. Ele se voltou para Regina assim que viu Emma saindo. Sentou ao lado da morena e, assim como deu um beijo na testa da loira, beijou também a beijou.
— Como você está se sentindo? – perguntou – Você me deu um belo de um susto
Ele falava tentando amenizar o ambiente.
— Eu preciso saber deles, David.
Apesar de Regina ter aquele homem com um pai. Ela não o chamava assim.
— Eu sei. Eu preciso que você seja forte.
Ele preferiu iniciar a conversa explicando que eles não estavam mais em 2001 e sim em 2017. Explicou que ela não era mais casada com Daniel, que eles haviam se separado há muito tempo e que agora ela era casada com uma mulher. Preferiu não mencionar de quem se tratava a mulher, não naquele momento.
Ela estava se sentindo atônita com tantas informações. “Como assim já havia se passado 16 anos”, pensou.
O homem continuou a falar. Explicou que ela estava no hospital por causa do acidente de carro.] e não por causa do acidente na barca que havia ocorrido em 2001. Disse que aparentemente ela tinha perdido a memória parcialmente. E para quebrar um pouco todos aqueles acontecimentos ruins falou sobre o filho que tivera com a esposa. E ao falar isso, retirou o celular do bolso mostrando uma foto. Ela sorriu.
Na foto estavam David, Margareth, Emma e o menino bem próximo dela. Ele tinha os cabelos lisos, castanhos claros, com um sorriso sapeca no rosto. Na foto ela estava olhando a mulher – aquela era a loira e que estava no quarto e ela não reconheceu – e com uma mão sobre o ombro do garoto.
— Ele é meu filho? – perguntou confusa, mas com um sorriso no rosto.
Regina tinha vontade de ter outro filho. E saber que aquele sonho ela tinha realizado, mesmo que sem lembrar de nada, trouxe certa felicidade ao seu coração.
— Sim, ele é lindo não é? – ele também olhava a foto sorrindo – Tem a sua inteligência.
Ela balançou a cabeça afirmando com um sorriso singelo no rosto. David diante todos aqueles acontecimentos sabia que, Era Henry quem traria algum conforto e força para Regina.
Ela não quis perguntar sobre a mulher. No fundo soube, ao olhar aquela foto, ao notar como ela a olhava, parecia hipnotizada, que aquela era sua esposa. Mas, não sabia explicar como se sentia. Era tudo muito difícil de entender. Havia um vazio dentro de si e muito medo.
Tudo que ela sabia era que: havia se separado de Daniel – mas, como se ainda o amava -, era casada com uma mulher e elas tinham um filho. E nem se quer se lembrava da esposa. Também não lembrava do filho, porém quando olhou aquela foto tudo que pode sentir foi uma paz em seu coração. Era bom saber que tinha um filho. E por mais que não se lembrasse dele, se sentia feliz.
— A Alice deve estar enorme – perguntou olhando-o nos olhos – Onde ela está? É triste não me lembrar de parte da infância dela.
Ela queria ver a filha. Precisava ver como ela estava. Tentava imaginar isso. Notou que a expressão de David mudou. Ficara triste. Ela sentiu os músculos retesar. Teve uma sensação ruim.
— Regina, eu...
Percebeu que o tom de voz de David não era mais tão tranquilo. Teve medo de saber. Ela não era mulher de sentir medo. Mas, nesse momento sentiu. Porém, precisava saber.
— Onde está a Alice, David? – praticamente gritou
— No dia do acidente na barca...
David não sabia como dizer aquilo. “Como podia ela ter que passar por aquela dor duas vezes.”, o homem se questionava.
— Fala, David – gritou mais uma vez.
— Ela, ela... – puxou o ar... Precisava criar forças para dizer aquilo – No dia do acidente na barca Alice chegou aqui muito mal. Ela tinha ficado muito tempo sem respirar e...
As lágrimas desciam o rosto de Regina. Soluçava. Nunca havia sentido uma dor tão forte. David a abraçou.
— Alice. Alice não. Ela não pode ter... – ela não conseguiu terminar aquela frase.
— Sinto muito. Eu sinto muito – ele falou. – Nós não pudemos fazer nada.
Ele tentava reconfortá-la, mas isso era impossível.
Emma que estava no corredor, ao lado do quarto. Observou tudo pelo vidro da janela do quarto. Se pudesse arrancaria toda aquela dor que Regina sentia. Ver a esposa passando por tudo aquilo era demais. Encostou a cabeça no vidro e fechou os olhos. Também chorava. Tantas coisas haviam acontecido. Se sentia culpada.
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