Uma Segunda Chance
12 Capítulo 11
Notas iniciais
– Posso fazer uma coisa antes? — implorei enquanto Edward acelerava ainda mais pela rua vazia. Ele não parecia estar prestando nenhuma atenção na rua a sua frente. Sim, sempre soube que não deviam ter lhe dado uma carteira de motorista, acho que ele drogou ou subornou alguém para conseguir. Concordei com minha V.I. Edward no volante era um perigo constante.
Balancei minha cabeça negativamente. Tinha a certeza que essa conversa seria um marco em meu instável relacionamento com Bella. O Antes e o Depois dessa Conversa decidiria nosso futuro. Seria engraçado chamar de a.C. e d.C. como os humanos marcaram a mudança de uma era. Não consigo imaginar meu estado de nervos, meu “eu” do diário não tem noção que Bella já sabe toda a verdade, deveria estar quase tão desesperado como eu estava nesse momento que já sabia que Bella tinha o conhecimento do monstro que era. A pior parte era que mesmo tento acesso aos seus pensamentos Bella ainda era impossível de ler ou prever seus movimentos. Se fosse tentar adivinhar seus pensamentos, apostaria que ela estaria apavorada comigo e não com minhas habilidades no volante.
Ele suspirou.
– Que coisa? – parecia que estava em dúvida sobre o meu pedido. Como se tivesse receio em simplesmente dizer “sim” e optado pela resposta que fosse possível saber o que eu queria sem se comprometer.
Tive que sorrir com isso. Era engraçado notar que Bella era a leitora de mente de nossa relação, enquanto eu percorria verdadeiro e complexo labirinto para ter qualquer conhecimento sobre os pensamentos e ações de Bella ela simplesmente andava em linha reta e me via através de meus motivos. Lógico que estava me corroendo de curiosidades sobre o que Bella gostaria de fazer, mas não poderia dizer sim. E se ela quisesse voltar sozinha para casa? Ou pior, fazer com que me afastasse para sempre dela? Não, jamais aceitaria uma coisa dessas.
– Posso comer a sobremesa? Acho que não vou aguentar esperar até chegar em casa. – pedi com olhos implorativos. Desde que saímos do restaurante estava desejosa de provar a sobremesa de morango.
Claro, Bella jamais deixaria de me surpreender. Todas minhas preocupações voltadas para nossa conversa e sua preocupação relacionada somente a comida. Tão humana.
Pude ouvir um curto riso saindo de sua boca, podia jurar que ele murmurou “Tão humana”, mas não tenho certeza.
– Vá em frente. – nem deixei que ele terminasse direito a frase e já estava abrindo a sacola, dentre da sacola tinha uma pequena embalagem com um material mais firme, acho que era um tipo de isopor, que protegia a sobremesa, provavelmente para não amassar, tudo isso enrolado diversas vezes em um papel-filme grosso. Ah, pelo amor de Brad Pitty por que não colocam logo um cadeado com 100 chaves para aumentar a minha agonia? Completamente sem paciência tentei rasgar o papel e a embalagem com raiva exagerada, quando notei não estar obtendo muito sucesso. – Precisa de ajuda? – perguntou com um pequeno sorriso ao ver meu dilema.
Gargalhei alto sendo acompanhado com risadinhas dos demais. Era simplesmente absurdo pensar que Bella teria dificuldade com um simples papel-filme. Até sua espécie não precisaria de força, uma criança conseguiria sem muitas dificuldades. Notei Esme ficar emocionada e não entendi o motivo.
“Você só começou a rir desse jeito depois que esses diários chegaram.”, pensou.
Revirei meus olhos, não era a primeira vez que eu gargalhava. Era? Pensamento melhor, jamais rir tanto em toda minha existência, nem quando era humano, segundo minhas memórias falhas, como no momento que encontrei esses diários. Minha pequena humana era o motivo de meus risos junto com sua vadia interior, Esme estava completamente certa.
Dei língua para ele como uma criança mimada, o que só aumentou seu sorriso. Idiota!
– Acho que Bellinha e eu concordamos em muita coisa. – Ignorei Emmett, por algum motivo meu sorriso só aumentou ao ouvi-la me chamar de “idiota”. Sua raiva era engraçada. Jamais poderia imaginar uma humana frágil e indefesa xingando um vampiro forte e imortal sem se importar, como se fossemos iguais. Isso me fazia sorrir, porque Bella me tratava como igual, como se eu fosse um humano qualquer que a teria irritado e ela xingaria do mesmo modo, sem receio.
Ouvi que ele limpou a garganta antes de voltar a falar. — Não me distraía. Você tem que me falar qual sua nova teoria.
Teoria não, Bella já sabia da mórbida história de terror sobre o que eu era. Como ela reagiria?
Maldita embalagem! Estava mais difícil do que achar ponta de Durex no escuro.
Claro, Bella ainda não tinha conseguido abrir a embalagem e seu único pensamento seria voltado para comida. Frustrante, como ela podia gostar de algo tão repulsivo? Isso só devia aumentar minha angustia.
– Bella.
– Shiii... – pedi silêncio. – Estou tentando me concentrar.
– Você não pode fazer isso enquanto responde minhas perguntas?
– Minha torta, minha prioridade. – resmunguei quando só consegui rasgar mais um pequeno pedaço da embalagem.
– Quer ajuda?
– Você esta dirigindo. – falei o óbvio.
– E? – como ele consegue falar como se isso não tivesse a menor importância?
– Se você já dirige mal com as duas mãos ao volante, imagine fazendo outra atividade.
– Eu não dirijo mal. – apontou ofendido, como se o que eu acabasse de falar fosse o absurdo do século.
Claro que era um absurdo. Dirigia perfeitamente bem como qualquer um da minha espécie, tínhamos reflexos melhores do que humanos, fora a visão, audição, ou seja, todos os sentidos mais apurados. O que me fazia um ótimo, na realidade, excelente motorista.
– Hurrum... continue se iludindo. – falei com um pequeno sorriso por finalmente estar tendo algum progresso com a embalagem.
– O que te faz pensar um absurdo desses? Eu nunca levei uma multa sequer. – apontou como se isso comprovasse sua teoria.
– Diga isso para as dezenas de motoristas de Port Angeles que até agora devem estar buzinando e xingando até a quinta geração de um motorista maluco que ultrapassa sinais vermelhos e não obedece ao limite de velocidade.
– Então quer dizer que você acha que eu... – interrompi o que quer que ele fosse falar com um pequeno grito. – O que aconteceu? – perguntou preocupado.
Imediatamente fiquei atento. O que aconteceu para Bella gritar? Será que finalmente ela lembrou o que sou e se assustou?
– Consegui. – falei pulando no banco do carro.
– Conseguiu o quê?
– Abrir. – apontei para a embalagem finalmente aberta na minha frente. – Acho que eu devia ter falado para o garçom que a sobremesa era para mim. Ele deve ter achado que era para você, por isso deve ter feito isso, sem dúvidas ele não foi com sua cara.
– Como se eu tivesse ido com a dele. – murmurou. – Agora que conseguiu abrir a embalagem, você poderia me falar qual sua teoria?
– Não tenho uma teoria. – estava procurando o garfo dentro da sacola. A sobremesa estava com uma cara ótima.
– Não? – perguntou surpreso. – Então como...
– Eu sei o que você é. – tive vontade de rir com sua cara de total descrédito.
– Tenho tanta pena de você menino Ed. – nem precisava de meu dom para notar que a cara de Emmett era de total falsa piedade.
– Posso saber por quê? – tentei manter o máximo de indiferença em minha voz.
– Você nem vai saber o que lhe atingiu. – ouvi os outros acompanharem no riso.
Tentei imaginar como seria meu “eu” do diário. Sem ter noção dos pensamentos de Bella, para piorar meu estado já crítico, sem ter o menor conhecimento que Bella já sabe o que sou. Sim, podia imaginar o estrago que isso faria. Bella seria minha ruina ou minha salvação. Torcia mentalmente para que fosse a última opção.
– E posso saber como você descobriu?
– Não. – falei rapidamente. Jacob me pediu segredo, então não poderia contar para ele.
Como Bella pode me torturar dessa maneira? Se não soubesse de onde Bella descobriu meu segredo, sem dúvidas enlouqueceria. Estava começando a imaginar que seria a primeira opção. Minha ruina.
– Como não? – sua voz estava além da incredulidade e frustração. Imaginando que não poderia ler minha mente, podia supor o quanto era difícil para Edward não souber alguma coisa. Era só fazer a pergunta e a resposta aparecia na mente das pessoas. Quase senti pena dele. Quase.
– É segredo.
– Mas eu contei meu segredo para você. – falou um pouco ofendido.
– Não, você apenas confirmou o que eu já sabia. Se eu não soubesse você provavelmente continuaria me enrolando.
– Eu disse que tinha pena de você Edzinho. – tinha a impressão que até o final do diário já teria perdido meu autocontrole e batido em Emmett.
– Não.Me.Chame.De.Edzinho. – falei entredentes.
Ouvi seu suspiro de raiva. – Certo, então me diga Srta. Sabe-tudo o que eu sou? – não aguentei, tive que rir com isso. – O que foi? – sua voz soava cada vez mais raivosa.
– Achei que o grande Sabe-tudo era você. – apontei.
– É verdade, Edward sempre foi prepotente. – comentou Rosalie me deixando indignado.
– Mas a Bellinha disse bem. Era. Passado. Não é mais. Acabou. Bye-bye. Adeus EX-grande-sabe-tudo-Ed. Vamos fazer uma lápide e colocar “Aqui jaz um dia o sabe-tudo, hoje um sabe-nada” o que vocês acham? – como minha família achava graças das besteiras que Emmett era um mistério para mim.
– Bella, por favor, agora quem está enrolando é você. O que você acha que eu sou?
– Eu não acho, eu sei.
– Estou começando a achar que você está somente me enrolando. Você não tem a minha ideia do que sou. – percebi certo alívio em sua voz.
– Um vampiro. – respondi comendo a sobremesa, que estava simplesmente maravilhosa. Já estava chegando à metade da torta quando reparei que não estava mais ouvindo a voz do Edward. Olhei em sua direção e sua expressão variava de absoluto choque para raiva extrema. Sua boca estava um pouco aberta, seus olhos furiosos, suas mãos seguravam firmemente o volante. Será que vampiro come sobremesa? Se comesse tenho certeza que a torta melhoria seu humor, teríamos que voltar ao restaurante para pegar outra, porque eu não iria dividir a minha com ele.
Sem dúvidas minha ruína. Como ela joga a verdade na minha cara dessa forma? Um sorriso amargo se formou em meu rosto. Bella tinha dito essa mesma frase para mim. Quando Bella falou que se vingaria de um vampiro só pude rir desse pensamento, agora de fato vejo do que essa humana é capaz. Enquanto meu comentário foi simplesmente uma constatação de seu apetite, ela jogou o maior segredo de minha vida, ou melhor, existência, de uma forma absurdamente casual, como se tivesse acabado de descobrir que o céu era azul. Seria o primeiro vampiro da história a entrar em choque. Bella deve ter parado meus pensamentos.
– Quer torta? – perguntei por fim. Acho que poderia dar um pedaço para que ele saísse do choque, um pedaço pequeno, minúsculo. Afinal, perdi a conta de quanto tempo ele estava naquela posição. Depois de esperar alguns minutos finalmente ouvi sua voz.
– O que disse? – sério que ele me faria repetir? Será que ele nunca ouviu que comida não se oferece duas vezes?
– Quer torta? – perguntei a contragosto.
– Você pode repetir o que disse? – ele é surdo? Achei que tinha uma mega-hiper-audição. Pelo visto minha suposição não mostrava estar tão certa. – Não sobre a torta. – acrescentou rapidamente. – Sobre o que eu sou... – falou baixinho. – Como você sabe? – sua voz tinha um tom que não consegui entender.
– Já disse que não vou lhe contar.
Bufou com raiva. – O que você está fazendo aqui então? – perguntou confuso, raivoso e frustrado.
Podia entender meus sentimentos. Confuso por não imaginar como Bella sabia a verdade e estar ao meu lado. Raivoso por estar perdendo Bella, agora que sabia a verdade ela iria me deixar. Frustrado por tudo ter fugido de controle. Quando isso aconteceu e não percebi?
– Comendo torta? – respondi com uma pergunta.
Ele revirou seus olhos. Sorri com isso, Edward ficava absolutamente fofo revirando seus olhos. Vi seu franzi de cenho quando viu meu sorriso.
Bella me chamou de fofo? Ela acabou de falar que sou um vampiro e está me chamando de fofo? Desde o começo desse diário espero um elogio e recebo na hora mais imprópria.
– Quero dizer o que esta fazendo aqui sabendo o que eu sou. – sua voz era de quem acabava de perguntar o óbvio.
– Não entendi.
– Você devia estar com medo de mim. – falou com um pouco de raiva.
– Você vai roubar minha torta? – falei segurando o pedaço um pouco longe dele. Sim, sem dúvidas seu revirar de olhos era bonitinho. Acho que pediria para ele tomar cuidado, com a quantidade de vezes que Edward revirou seus olhos para mim era capaz de ficar estrábico.
Fofo e bonitinho, ela está descrevendo um vampiro ou a porcaria de um bicho de pelúcia?
– Eu não me alimento de comida humana Bella. – falou um pouco impaciente.
– Azar o seu, sorte a minha. – comentei terminando a sobremesa rapidamente, só por via das dúvidas, vai que ele está blefando e quer pegar minha torta.
Apertei minhas têmporas com meus dedos completamente frustrado. Como ela conseguia estar preocupada com um maldito pedaço de torta? Jamais ia querer algo tão repulsivo, principalmente com Bella ao lado para comparar.
– Você não está com medo de mim? – perguntou genuinamente interessado.
– Deveria?
– Sim. – respondeu com um tom de tristeza na voz.
– Por quê? – senti um aperto no meu peito por sua tristeza e não entendi o motivo. Apenas não queria que ele sofresse.
Fiquei emocionado com isso. Algum sentimento que ainda não tinha experimentado antes tomava conta do meu peito. Era diferente, mas bom. Nenhum ser humano nunca se preocupou comigo, na realidade, apenas minha família. Jamais tive um amigo depois que fui transformado e saber que Bella sentia qualquer preocupação comigo era reconfortante. Saber que alguém de fora da sua família se importa com seus sentimentos era incrível. Não que desprezasse os sentimentos de meus familiares, apenas era diferente. Família se preocupa com a família, nem que seja por mera obrigação. Enquanto um desconhecido não tem nenhum vínculo com você, é uma escolha própria, não uma imposição no dia do nascimento ou unida por um laço de sangue.
– Eu sou perigoso para você.
– O que quer dizer? – não estava preocupada com o fato de Edward ser perigoso, e sim com a tristeza e amargura que senti em sua voz. Eu desviei o olhar do seu rosto pela primeira vez, tentando encontrar as palavras. Aí eu olhei para o velocímetro. – Pela minha coleção de todas as minhas Box das temporadas de Friends – gritei. – Sua casa está pegando fogo?
Com o rosto confuso respondeu duvidosamente. – Não? – saiu como uma pergunta.
– Seu pai está na forca?
Ele me olhou como se eu tivesse problemas mentais. – Não.
– Então diminua a droga do carro! – falei exasperada. – Você está indo a quase duzentos por hora! — ainda estava gritando. Eu olhei cheia de pânico pela janela, mas estava escuro demais pra enxergar. A estrada só era visível até onde os faróis alcançavam. A floresta dos dois lados da estrada pareciam paredes negras e seriam duram como paredes de aço se nós batêssemos nelas a essa velocidade.
– Claro um vampiro ao seu lado sem problema. Agora andar a 200 km/h nem pensar. – Jasper estava tão impressionado como eu. Nem meu poder de ler mentes e o seu de sentir emoções conseguiam acompanhar os sentimentos ou pensamentos de Bella. Era completamente fora do padrão.
– Relaxe, Bella. – Ele revirou os olhos, ainda sem reduzir.
– Você está tentando nos matar? – perguntei. – Ou melhor, está tentando me matar já que se você bater o Volvo e transformá-lo numa sanfona, provavelmente você vai se levantar e sair dele alegre e saltitante enquanto eu... – parei e respirei fundo – Bom vamos dizer que já sofri um acidente de carro uma vez e não estou nenhum um pouco interessada em sofrer outro.
Vi que seus olhos cintilaram a menção do meu acidente. – Sim, pagaríamos um preço diferente se batesse o carro. Você tem seu ponto.
Abaixei a cabeça envergonhado de ter esquecido o acidente. Como posso ser tão estúpido? Bella tinha traumas ainda do acidente, sua aversão a sangue era um fato gritante. Não tinha dúvidas que andar em alta velocidade não era muito fácil. Precisava me controlar ao volante, pelo menos quando Bella estivesse ao meu lado. Se estiver ao meu lado, pensei com amargura.
Ele suspirou e eu observei mais aliviada enquanto observava o ponteiro baixando gradualmente. – Feliz?
– Quase.
– Eu odeio dirigir devagar — ele murmurou.
– Isso não é devagar. Quando você chegar ao limite de velocidade será “normal” e se você dirigir abaixo do permitido aí sim será “devagar” – falei com sarcasmo.
Ficamos em silêncio por um momento.
– Bella... – falou hesitante. Olhei em sua direção. – Quando você sofreu um acidente de carro? – sua voz era baixa e suave. Apertei meus lábios em uma linha fina, debatendo internamente se deveria ou não contar. – Se não estiver à vontade em falar, não precisa dizer nada. – acrescentou rapidamente, não antes que eu notasse o tom de mágoa em sua voz. Edward estava sendo sincero comigo essa noite, confiança é uma via de mão dupla, se ele estava disposto a confiar em mim, eu confiaria em Edward.
Levantei minha cabeça rapidamente. Bella confiaria em mim? Apenas por eu ter confiado nela? Isso era... Não tinha palavras para expressar. Eu queria ser digno de confiança, tentava há décadas merecer a confiança que Carlisle depositou em mim sem merecer. E essa humana, confia em mim, por apenas afirmar aquilo que ela já sabia. Era surreal. Era incrível. Ganhar a confiança de quem mais queria nessa vida.
Além disse, fiquei interessado em finalmente saber mais detalhes do acidente. Tinha poucos detalhes de como aconteceu.
– Aconteceu há mais de um ano. – falei baixinho. – Não lembro direito como aconteceu, estava dormindo. – fiz uma careta ao lembrar. Passei muito tempo me punindo por isso. Pensava “se” tivesse ficado acordada, “talvez” nada disso teria acontecido. Precisei de um bom tempo para tirar o “se” e “talvez” do meu vocabulário. Não importava em quantos “se” pudesse imaginar, resultaria em vários “talvez”, sempre daria no mesmo resultado. Jamais poderia mudar o que aconteceu. Não estava mentindo para Edward quando disse que já fui uma eterna pessimista, isso só me tornou uma pessoa amarga e infeliz. Foi um processo lento e doloroso para que eu tivesse permitido o otimismo voltar a minha vida.
Ninguém teve coragem de comentar os pensamentos de Bella. Todos já tinham passado por isso. “Se” tivesse feito isso, “talvez” não estaria aqui. Perdi a conta de quantas vezes lamentei meu destino criando formas de tentar fugir do meu destino. E agora, aqui estava eu, tento o poder de ler mentes, vida eterna e continuando a me lamentar e lá estava a Bella, com 16 anos e superando uma fase que até hoje nem eu e minha família conseguimos. Sua maturidade era surpreendente.
– Como foi? Quem estava dirigindo o carro ia rápido demais? Por isso você repreendeu tanto o fato de que eu ultrapasse o limite de velocidade? – parecendo sentir o quanto o assunto ainda me abalava Edward mantinha o mesmo tom de voz, tentando passar conforto.
– Steve, que era quem estava dirigindo o carro estava no lado correto da pista, sobreo e dentro do limite de velocidade. – vi a confusão em seu rosto e acrescentei. – O outro motorista estava embriagado e ia a mais de 200 km/h. Acho que ele dormiu ao volante e perdeu o controle do carro saindo de sua pista e vindo de encontro com o nosso carro. – falei baixinho e o ouvir sugar o ar. – Steve ainda tentou desviar, não rápido o suficiente, devido à velocidade que o outro carro se encontrava, bateu na lateral fazendo com que Steve perdesse o controle do carro e capotasse. – ainda conseguir ouvir um rosnado em seu peito antes que Edward tentou manter a expressão tranquila, mas seus olhos eram ferozes.
Não era o único furioso na sala. Nós podíamos nos dar ao luxo de dirigirmos em uma velocidade acima do normal, não dormimos, não podemos ficar bêbados, tínhamos ótimos reflexos e sentidos, uma lista de qualidades que nos proporcionava poder ter o luxo de dirigir dessa maneira. Enquanto os humanos não tinham isso, facilmente podiam perder a direção, perdi a conta de quantos acidentes vi em jornal, por o motorista ficar distraído apenas colocando um CD no carro. Como os humanos eram tão displicentes com sua vida? Pior ainda, com a vida dos outros? Bella sofreu um acidente seríssimo e ainda perdeu alguém sem ter culpa de nada. Era muita injustiça. Esperava que o outro motorista tivesse morrido ou sofrido um mal pior que de Bella.
– Quem é Steve? – já tinha ouvido esse tom de voz. Era de raiva contida, não entendi o motivo.
– Ciúmes. – Toda minha família falou em alto e bom som. Se eu pudesse corar, sem dúvidas minhas bochechas estariam vermelhas. Era ridículo ter ciúmes de Steve, ele era como um pai para Bella, pena que meu “eu” do diário ainda não sabia disso.
Mordi meus lábios em nervosismo. Falar de Steve ainda era difícil. – Ele é... – como descrever aquele que foi o homem mais importante na minha vida durante 15 anos? – tudo. – acrescentei baixinho. Notei o quanto seus punhos ficaram tensos no volante.
– Edward. – a repreensão na voz de Esme era clara. O que só fez aumentar minha vergonha.
– Eu não sabia. – tentei me defender. – Imagina ouvir da pessoa que você ama que outro homem é “tudo” – fiz aspas no ar com a última palavra. Ouvi o arfar de todos quando falei “ama”. Revirei os olhos, todos já sabiam que estava apaixonado por Bella não entendi o motivo de tanto espanto. Era fácil a amar. Fácil como respirar. Sem a conhecer pessoalmente já tinha se tornado a pessoa mais importante da minha vida. Mudar da fase de apaixonado para amando era simples como dá um passo a frente.
– Como assim? – a raiva aumentou em sua voz. Franzi o cenho confusa em sua direção.
– Porque está com raiva? – sua reação era completamente estranha, tinha esquecido como era suas oscilações de humor.
– Responda a pergunta Bella. – o nervosismo em sua voz ainda era evidente. Desistir de tentar entender o Sr. Temperamental e tentar chegar o mais perto da verdade com palavras. Descrever sentimentos não era uma tarefa fácil.
– Steve... – como colocar em palavras a verdade? Achei melhor resumir um pouco a história para tentar faze-lo entender. – Acho que tinha uns 4 anos quando o conheci. – comecei incerta, seu aperto no volante permanecia da mesma maneira. – Minha mãe trabalhava no mesmo lugar que ele. – fechei meus olhos lembrando o dia que nos conhecemos.
...
Depois de mudarmos de algumas cidades nos estabelecemos na ensolarada San Diego. Minha mãe começou a trabalhar em uma renomada faculdade, trabalhava como secretária e como funcionária conseguiu uma bolsa de estudos para concluir um ensino superior.
Foi lá que o conhecemos, Steve, um professor de música, sua especialidade era o piano.
Na época eu tinha por volta dos 4 anos. Minha mãe me levava para trabalhar com ela, junto com um caderno de colorir e uma caixa de lápis de cor. Lembro-me que Renné estava ao telefone atendendo alguém e eu ouvir um som muito distinto longe. Como qualquer criança curiosa eu segui o som. Andando pelos grandes corredores eu só seguia o som que a cada passo ia ficando mais claro. Chegando a uma grande porta pude ouvir um som muito distinto tocando, era uma linda melodia, já tinha ouvido antes, minha mãe sempre tocou música clássica em casa e fiquei admirando o senhor sentado em frente a um grande piano preto.
Fui me aproximando sem nem perceber e quando vi já estava ao lado dele. Quando ele me viu ficou surpreso e parou de tocar. E ali, foi nossa primeira conversar.
E assim começou uma amizade que passou para formar um vínculo tão forte como de um pai para uma filha. Steve me ensinou a tocar piano, me ajudou com minhas aulas e cuidava de mim como ninguém. Renée sempre foi mais uma amiga do que uma mãe. Passei várias noites na casa dele, assistindo filme e desenhos, ele nunca se importou. Acho que devo a ele grande parte da minha infância. Ele sempre me tratou como uma criança, enquanto a minha mãe sempre pensou em mim como uma idosa no corpo de uma criança.
Tinha um sorriso emocionado no rosto. A relação dos dois começou de uma maneira tão simples, tão pura. Queria repreender meu “eu” do diário, por ser tão tolo a ponto de ter ciúmes de Steve. Ele seria uma pessoa que gostaria de conhecer.
Sai de minhas lembranças e narrei de forma resumida a forma que conheci Steve. Notei que seus punhos e sua postura relaxaram quando terminei de contar a forma que o conheci, deixando de fora apenas a parte em que ele me ensinou a tocar piano.
– O que aconteceu depois do acidente?
– Com o motorista do outro carro? Ele teve um corte na testa que precisou de uns pontos. – lembro que isso me revoltou por muito tempo.
Ficamos indignados com isso. Era muita injustiça. O sujeito do outro carro que estava errado. Ele que tinha que sofrer as consequências. Não Bella e Steve. Queria esganar esse sujeitinho.
– Bella. – falou suavemente. – E você e Steve? – essa era a pergunta que não queria responder. Respirei fundo para falar à verdade que ainda me machucava profundamente.
– Ele morreu. – uma lágrima lentamente desceu do meu rosto. Olhei para o outro lado da janela para ele não vê. Foi um esforço inútil, pois senti seus dedos gelados em minha pele delicadamente a secando.
Meu peito apertou ao saber que Bella chorava. Não devia ter trazido um assunto tão doloroso à tona.
– Eu sinto muito. – a sinceridade em sua voz era clara.
– Eu também. – tentei evitar sentir a dor que isso ainda me causava.
– E você? – voltou a perguntar. Achei que ele teria esquecido esse detalhe. – Se machucou? – apenas balancei a cabeça confirmando. – Bella, por favor, fale comigo. – falou em seu tom de voz implorativo e agoniado.
Suspirei. – Quebrei a perna, algumas costelas, desloquei meu ombro. – fui fazendo rapidamente a lista dos meus machucados mais graves, o resto era mais brando. – Basicamente isso. Ah, tive uma concussão e fiquei um tempo em coma também. – acrescentei.
Achei interessante sua mudança de expressão ser tão rápida. Primeiramente, vi seus olhos cintilarem com a incredulidade da forma casual que falei. Depois, um olhar de compreensão misturado com pena? Para num piscar de olhos a raiva impregnar em sua face.
– Espero que esse irresponsável assassino esteja atrás das grades essa hora. – falou com raiva clara.
Dei de ombros. – Não sei.
– Como não? – gritamos todos. Como Bella não verificou que esse assassino ficaria preso por toda sua maldita vida? Estava revoltado com isso. Iria contratar o melhor advogado do mundo para garantir isso.
– Como você não sabe?
– Fiquei muito tempo internada no hospital, nutri raiva por tempo o suficiente, desejando tudo de pior para aquele que acabou com a minha vida e de Steve. – suspirei. – Assim que acordei do coma e soube do ocorrido fiquei fechada na minha dor e sofrimento. Queria punir o responsável por isso. – sorri amargamente com a lembrança. – Quando o rapaz veio ao hospital pedir perdão, você sabe o que eu disse? – perguntei retoricamente, mesmo assim Edward balançou negativamente a cabeça. – Para ele pedir perdão para Deus, pois o meu ele não teria nunca e que iria acabar com a vida dele da mesma forma que ele acabou com a minha. Pedi para minha mãe contratar um bom advogado para que o responsável passasse o maior tempo possível atrás das grades, usaria todas as minhas economias para ajuda-la a pagar.
Isso era o certo. Talvez Bella tenha perdido o interesse depois de tanto tempo, podia a ajudar para ter certeza que ele nunca sairia de lá.
Ficamos em silêncio por um bom momento. Edward estava absorvendo tudo que tinha lhe contado. Depois voltei a falar.
– Você sabe que bem isso me trouxe? – senti seus olhos em mim. – Você olha para frente e eu continuo contando. – Fiz meus termos. Ele sorriu levemente e voltou a olhar para a estrada. – Nenhum. Saber que não se pode mudar o passado é desesperador. Por mais e “se” e “talvez” que você pense nada pode mudar o que já aconteceu. Por isso mudei, pedi que o Estado cuidasse do caso dele e minha mãe descontratasse nosso advogado, não estava mais em minhas mãos o seu destino. Imagino que ele deve ter ficado preso um tempo, não sei qual foi sua pena, não queria ficar pensando se foi pouca coisa perto do que aconteceu. Preferia rezar para que ele tomasse consciência de seus atos. A morte de uma pessoa estaria sobre seus ombros para sempre, torci para que isso servisse de exemplo em sua vida para nunca mais ser imprudente. E se ele fosse um adolescente rebelde sem causa? O que aconteceu pode ter servido para lhe abrir os olhos. Não dizem que aprendemos melhor com nossos erros? – fiquei surpresa de ter revelado tanto dos meus pensamentos para Edward. Não sei o motivo, mas simplesmente confiava nele.
Estava boquiaberto. Como Bella podia pensar desse modo? Tenho certeza que jamais faria algo desse tipo. Somente por ele ter machucado tanto minha Bella já queria faze-lo pagar por isso.
– Isso é muito... nobre, eu acho. – falou depois que passamos um momento em silêncio. – Não sei se teria sua capacidade de levar as coisas dessa forma.
Sorri levemente com isso. – Não foi fácil. Precisei de um tempo para enxergar além da minha dor.
– Obrigado por me contar. – falou por fim.
Estávamos cada um imerso em seus pensamentos, quando sua voz quebrou o silêncio.
– O que você vai fazer agora? – perguntou com intensidade.
– Dormir? – respondi com um pergunta. Seu revirar de olhos seus dúvidas ia virar uma das minhas expressões favoritas.
– Quero dizer agora que sabe o que sou. – levantei uma sobrancelha indagativa para ele. – Sair correndo e gritando, por exemplo.
Tentei fazer minha melhor cara de indignada. – Você acha mesmo que eu sairia gritando e correndo ao saber o que você é? – ele não precisava saber que foi exatamente isso que eu fiz, não nessa ordem, enfim. Sim, você parecia uma louca histérica, fiquei com medo de você. Olha quem fala, retruquei para minha vadia. – Sou muito jovem para ser internada num centro psiquiátrico, fora que aquelas camisas de força engordam horrores. – brinquei, para em seguida ficar completamente séria. – Edward não me importa o que você é. – tinha certeza que ele ouviu a sinceridade da frase.
Todos os olhos de minha família estavam em minha direção. Essa reação era um sonho, não podia ser real. Bella não podia me aceitar de uma forma tão fácil. Estava começando a imaginar se esses diários eram fruto da minha imaginação. Essa reação era irreal, impossível. Perfeita. Se Bella me aceitasse seria o vampiro mais feliz do mundo.
Um tom duro, de zombaria inundou sua voz. — Você não se importa se eu for um mostro? Se eu não for humano?
– Não. Preferia que você fosse um E.T., mas aceito você mesmo assim. – ele me lançou um olhar incrédulo.
– Não me diga que você ainda pensa em voar de bicicleta? – o tom incrédulo de sua voz me fez rir.
– Qual o problema? Vai me dizer que você não acharia legal?
Ele apenas balançou a cabeça. – Você é inacreditável.
Sem dúvidas, inacreditável. Bella estava levando o assunto com uma leveza que jamais sonhei. Nunca desejei tanto que uma coisa se tornasse realidade, nem em meus mais otimistas pensamentos podia imaginar que fosse ocorrer dessa forma.
– Sua vez de responder perguntas. – sua expressão voltou a ficar cautelosa.
– O que quer saber?
– Como você pode sair no sol? – ele riu alto com isso. – O que nada de virar cinzas?
Gargalhamos com isso. A história Hollywoodiana não era muito real. Na realidade, era bem longe da verdade. Suas dúvidas seriam fácies de responder.
– Esses humanos inventam cada coisa. – Emmett balançou a cabeça ainda rindo.
– Mito.
– Alho e estaca?
– Mito.
– Ser convidado para entrar na casa? – seu corpo ficou tenso e respondeu rapidamente.
– Mito.
– Dormir em caixões?
– Mito. – hesitou por um momento e um tom estranho invadiu sua voz. – Não posso dormir.
Levei um minuto para absorver essa. – Nunca?
Fiquei resignado com a pergunta. Gostaria de voltar a dormir, ou melhor, voltar a sonhar. Desligar do mundo por alguns minutos já seria suficiente para mim.
– Nunca – respondeu em voz quase inaudível.
– Não sei se acho você sortudo ou se lamento por isso. – vi sua expressão de indagação e resolvi acrescentar. – Por um lado você não precisa acordar cedo, já que você não dorme. Particularmente detesto ser acordada, fico mal humorado até passar o sono. – ele sorriu levemente com isso. – Por outro lado, nunca dormir, não sei, acho que gostaria de uma folga para simplesmente não fazer nada, sem pensar, sem ver e ouvir, é bom entrar em um pequeno estado de inconsciência às vezes. Pelo lado bom, tempo livre é que não falta. – sorrimos cumplices.
Sim, concordava com cada palavra que ela falou. A única coisa que não conseguia imaginar era Bella mal humorada, tenho certeza que ela estava exagerando.
Ele voltou a olhar pra mim com uma expressão tristonha. – Você ainda não perguntou a coisa mais importante. — Sua voz estava dura de novo. E quando ele olhou pra mim, seus olhos estavam frios.
– E qual é?
– Você não está preocupada com a minha dieta? — ele perguntou sarcasticamente.
– Oh — murmurei. Olhei em direção de sua barriga. – Você não parece precisar de dieta. Ao contrário, talvez deva engordar um pouquinho. – falei com um sorriso. – Isso que dá evitar sobremesa.
Fiquei um pouco constrangido com seu olhar indagador em relação ao meu físico. Será que ela aprova minha aparência? Ou ela prefere alguém como Emmett? Infelizmente não poderia mudar isso.
Revirou os olhos mais notei que ficou um pouco constrangido com meu comentário. – Não dieta desse tipo. Estou perguntando se você não quer saber se bebo sangue?
– Ah, você podia ter sido mais específico. Você e sua família se alimentam de sangue animal, certo?
Ele olhou para frente, mas eu não sei dizer se ele estava olhando para a estrada ou não.
– Como você sabe disso? – murmurou, mas sabia que não responderia a sua pergunta, então completou. – Mas, não deixe isso te enganar. Nós ainda somos perigosos.
– Não entendo.
Essa era uma triste realidade. Por mais que ame essa pequena humana, não muda o fato que posso machuca-la a qualquer momento. Porque não poderíamos ser iguais? Seria tudo tão mais fácil se fosse um humano como ela. Ou que Bella fosse uma de nós... Jamais! Quase rosnei em pensar um futuro como esse para Bella. Como posso ser tão egoísta a pensar num absurdo desses. Isso nunca iria acontecer. Impediria de todas as formas Bella ter um futuro tão cruel como esse. Ela merecia apenas felicidade. Viver na luz, não na escuridão.
– Nós tentamos — ele explicou devagar. — Geralmente somos bons no que fazemos. Às vezes cometemos erros. Eu, por exemplo, me permitindo ficar sozinho com você.
– Porque isso é um erro? – fique triste em ouvir isso. Por isso ele se afastava de mim? Seria uma explicação para suas atitudes estranhas.
– É perigoso Bella. É um risco minha espécie ficar entre humanos, principalmente que eu fique perto de você. – murmurou.
Por maior que fosse o perigo não poderia me afastar de Bella. Ela era meu vício. Como conseguiria me manter longe?
Nós dois ficamos em silêncio depois disso. Eu observei os faróis virando com as curvas na estrada. Estava consciente do tempo passando rápido, como a estrada embaixo de nós.
– Me conte mais — pedi tentando o conhecer melhor. Queria entender Edward. Não o vampiro, não o homem, nem filho adotivo da família Cullen. Apenas conhecer o verdadeiro Edward.
Tinha certeza que estava boquiaberto. Bella queria me conhecer? Independente do que sou ou o que as pessoas acham. Isso jamais aconteceu, posso ter certeza disso, afinal posso ler a mente das pessoas. Geralmente se impressionavam com minha aparência, dinheiro e outras coisas supérfluas, depois se afastavam sentindo o perigo que emanava em nós. Diferente de todos, Bella queria conhecer meu eu verdadeiro. Estava emocionado ao pensar isso.
– O que mais você quer saber?
– O que quiser me contar.
– Pergunte o que quiser.
Pensei sobre um momento. — Porque você caça animais ao invés de pessoas?
Não era óbvio?
– Eu não quero ser um monstro. — Sua voz estava muito baixa.
– Mas animais não são o suficiente?
Ele parou. — Eu não posso ter certeza, é claro, mas eu acho que é como viver a base de tofu e leite de soja; nós nos chamamos de vegetarianos, nossa piada particular. Não sacia a fome, ou melhor, a sede. Mas nos mantém fortes o suficiente para sobrevivermos. Na maioria das vezes. – Seu tom se tornou obscuro. – Umas vezes são mais difíceis que outras.
Franzi o cenho com isso. Tofu era horrível. — Está muito difícil pra você agora? – perguntei. Esse era o motivo de sua conversa sobre ser perigoso?
Fiquei tenso imediatamente.
Ele suspirou. – Sim.
Será que isso iria finalmente assustar Bella?
– Hum... Sorte minha que você não está com fome agora. – falei sorrindo.
Franzi o cenho confuso. Como ela sabia disso?
– Porque você acha isso?
– Seus olhos. Eu disse que tinha uma teoria. Experiência própria, a maioria das pessoas é mal-humorada quando estão com fome. Quando seus olhos ficam negros, você é um pouco insuportável. Sem ofensa.
Até tive que rir com isso. Como ela me tem coragem de me chamar de insuportável?
Ele deu uma gargalhada. – Você é muito observadora, não é? – ainda sorrindo acrescentou. – Quer dizer que você fica insuportável quando está com fome? Tenho que lembrar sempre de lhe manter bem alimentada para o meu próprio bem.
Dei língua novamente para ele. Ainda não tinha ouvido sua gargalhada. Seus olhos fechavam e ficava com uma expressão mais serena.
Vi na mente da minha família quando ficava quando gargalhava e Bella tinha razão. Já tinha ouvido minha família reclamar por parecer carrancudo ou aparentar desinteresse.
Depois franziu levemente o cenho. – Você me acha insuportável?
Resolvi brincar com ele. – Prefiro me abster dessa resposta. – ele me olhou contrariado. – Você estava caçando com Emmett esse fim de semana? – acrescentei por fim.
– Sim – pausou por um instante, como se estivesse se decidindo entre me contar alguma coisa ou não. – Eu não queria ir embora, mas foi necessário. É um pouco mais fácil ficar perto de você quando eu não estou com sede.
– Porque você não queria ir? – estranhei sua colocação.
Para não ficar longe de você, gritei em pensamentos. Bella ainda não se deu conta da importância que ela tinha em minha vida?
– Me deixa... angustiado... ficar longe de você. – Seus olhos eram gentis, mas intensos. – Eu não estava brincando quando te pedi para ter cuidado na quinta. Estava distraído durante o fim de semana inteiro, preocupado com você. Você humanos são tão frágeis, quebráveis demais. Os acontecimentos de hoje só provam minha teoria. Jamais me perdoaria se algo lhe acontecesse, e somente em pensar na possibilidade de algo lhe machucar, fiquei atormentado o tempo inteiro enquanto estive fora. Foram três dias bem longos. Eu deixei o Emmett louco.
Ele sorriu pra mim como se estivesse se sentindo culpado.
– Nossa ainda bem que você sabe que Bella não irá vai se machucar, assim não terei que lhe suportar. – resmungou Emmett. Decidi ignora-lo.
– Três dias? Vocês não voltaram hoje?
– Não, nós voltamos no Domingo.
– Então porque nenhum de vocês foi para a escola? – indaguei confusa pela sua ausência. Não sabia que ele tinha hábito de matar aula.
– Bem, você perguntou se o sol me machuca, e não machuca. Mas eu não posso sair na luz do sol, pelo menos, não quando as pessoas estão olhando.
Droga. Ainda tinha isso. Bella jamais poderia me ver ao sol. Ela ficaria horrorizada.
– Porque não?
– Um dia desses mostro – prometeu.
O quê? Fiquei assustado, como teria coragem de correr tantos riscos de perder Bella? Meu “eu” do diário não devia estar pensando direito.
Li na mente dos meus familiares o quanto ficaram apreensivos por ter aceitado me expor dessa forma. Por mais otimista que quisessem aparentar sobre meu relacionamento com Bella, ninguém confiava em sua reação a me ver ao sol.
Nós estávamos na frente da casa de Charlie. As luzes estavam ligadas, sinal de que meu pai já tinha voltado.
– Nos vemos amanhã? – fiquei na dúvida já que ele passou alguns dias sem ir para escola.
– Sim. Nos veremos amanhã. – seu sorriso em resposta era radiante.
Notei que ainda vestia seu casaco e estava me preparando para devolvê-lo quando sua voz me impediu.
– Você pode ficar com ele, não quero que fique com frio, considere um presente. – senti que tinha mais em suas palavras e resolvi brincar.
Fiquei feliz em Bella com algo meu. Seria como uma lembrança. Uma forma de que ela pense em mim. Já que Bella não saia um minuto da minha cabeça, nada mais junto do que ela pensar nem que seja um minuto em mim. Queria ter algo dela comigo.
– Está me dando seu casaco? Como você adivinhou o tamanho que usava? – levantei meu braço para fazer meu ponto. Tive que enrolar as mangas varias vezes para conseguir achar minhas mãos.
Ele rio com isso. – Só bastante observador. – respondeu com uma piscadela.
– Até amanhã — estava ficando tarde, queria apenas cair na cama e dormir. Estava sentindo o cansaço em meu corpo.
– Até amanhã, então. – senti relutância em sua voz. – Bella? — Virei e ele estava inclinado na minha direção, seu rosto pálido, apenas alguns centímetros de mim. — Durma bem – Sua respiração soprou em meu rosto, quando senti seus lábios tocarem levemente em minha testa. Com delicadeza e um pouco de... Ternura?
Senti uma inveja imensa de mim mesmo. Queria que isso estivesse acontecendo comigo de verdade, não por relato. Por outro lado, estava tenso em saber a reação da Bella. Não queria que ela sentisse repulsa por meus lábios frios.
Fiquei surpresa com seu gesto, pelo visto ele também, que se afastou rapidamente. Tentei não ficar atordoada com sua proximidade.
– Boa noite Edward. – desci do carro e fiquei observando seu carro afastar.
– Oh que fofinho! Nosso Ed tá crescendo. – Sem dúvidas ia matar Emmett antes de terminar de ler esses diários.
– Emmett respeite seu irmão. – falou Carlisle.
– Vai disser que vocês não acharam a coisa mais fofa esses dois? Estou me sentindo em uma novela adolescente. – balancei a cabeça constrangido. É ruim ter sua família sabendo de cada passo seu. Principalmente quando nem você sabe o que vai acontecer.
Eu peguei a chave mecanicamente, abri a porta, e então entrei em casa.
Charlie me chamou da sala de estar. – Bella?
– Sim, pai, sou eu. — Eu entrei pra vê-lo. Ele estava assistindo um jogo de baseball.
– Você chegou cedo. – depois olhou em minha direção. – De quem é esse casaco? Não está um pouco grande em você?
Olhei em direção ao relógio, não eram ainda oito horas. – As compras demoraram mais que o previsto. – Esqueci meu casaco e um amigo me emprestou. – Charlie franzi o cenho e cruzou os braços.
– Sinto que alguém está em apuros. – Emmett estava feliz com isso. Fiquei preocupado por não ter pensando em seu pai.
– Que amigo? Achei que ia sair com suas amigas. – enfatizou a última palavra.
Segurei um revirar de olhos, pai sempre seria pai. – Sim, por acaso encontrei com um amigo pelo caminho. Agora vou dormir. Boa noite pai. – dei um beijo em suas bochechas e levantei.
– Boa noite.
Ainda o ouvi murmurar “ela não me respondeu quem é esse tal amigo”. Queria rir, mas estava começando a ficar esgotada. Engraçado quando você faz as coisas em modo automático, você não percebe nada ao seu redor, não foi até que senti a água quente embaixo do chuveiro, que percebi onde estava. Os acontecimentos da noite começaram a passar pela minha cabeça e apenas uma palavra me veio a mente. Quase. Foi por muito pouco que essa noite não terminou de uma maneira terrível. Não saberia se tinha forças para conseguir fugir daqueles sujeitos. Tremi violentamente por alguns minutos até que perdesse as forças nas pernas e caísse devagar. Fiquei sentada alguns momentos sem força para levantar, até os jatos de água finalmente relaxaram meus músculos rígidos.
Fique preocupado na hora. Bella estaria entrando em choque? O pior que ela estava sozinha. Queria estar ao lado dela para poder a abraçar e falar que não deixaria nenhum mal lhe acontecer.
Quando estava com um pouco de força, coloquei um roupão e enrolei uma toalha em meus cabelos molhados, tinha certeza que não conseguiria seca-los. Cai na cama e me enfiei embaixo do edredom, me curvando até ficar no formato de uma bola, me abraçando para manter o calor. Uns pequenos tremores passaram por mim.
Carlisle parou a leitura e olhou para nós. – Acho que ela entrou em choque. Um efeito atrasado da adrenalina que ela sentiu. Agora com a cabeça mais fria ela deve ter analisado o que aconteceu, ou melhor, poderia ter acontecido. É compreensivo, acho que Bella está reagindo muito bem apesar de tudo. Ela é uma menina muito forte.
Minha mente ainda estava rodando, cheia de imagens que eu não conseguia entender, e algumas lutei pra reprimir.
Depois de alguns minutos comecei a analisar o aparecimento de Edward em minha vida.
Senti uma apreensão ao ouvir isso. Saber o que Bella pensaria a meu respeito me deixava num caleidoscópio de sentimentos. Jasper estava ficando louco.
Sobre três coisas eu tinha certeza absoluta.
Primeira — Edward era um vampiro. Isso é um fato, provado e confirmado pelo próprio. As vezes você é tão óbvia. Ignorei minha V.I e continuei.
Segunda — havia uma parte dele que não sabia quão poderosa ela poderia ser que tinha sede do meu sangue. Esse pensamento não é muito legal, será que ele olha para você e te imagina como uma bolsa de sangue ambulante?
E terceira, Edward estava a cada dia tomando conta dos meus pensamento. Seja lá o que isso signifique.
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