Uma Sapatilha para Sophia
2 Capítulo 1- Primeiro ato
Notas iniciais
“Venha me pegar com seu amor novamente
E minha alma dançará
Nas asas do eternamente(...)"
Hillsong United— Touch The Sky
Santa Luzia 16 de Junho de 1994
Lá fora a chuva cai fina e preguiçosamente, como se não houvesse pressa para encharcar o solo. Pessoas com capa de chuva e guarda-chuvas multicoloridos andavam apressadas pela calçada, um casal dividia um guarda-chuva minusculo o que fazia com que os dois se molhassem. Da janela de um velho casarão caindo os pedaços um garotinha observava tudo aquilo, com seus enormes olhos curiosas de quem quer descobrir o mundo.
Enquanto isso dentro do velho orfanato da vó Piedade, as crianças corriam de um lado para o outro inquietas. No auditório uma visitante inesperada as aguardava.
—Quem será? A Ana Beatriz diz que viu a moça no corredor antes de entrar na sala da Dona Piedade… diz ela que a moça é linda! Será que veio adotar alguém? -Marina uma garota magricela de nariz arrebitado matracaveava sem parar- Sophia! Você nem me dá bola!
—Se ela fosse adotar alguém porque chamaria a todos no aúditorio? — A garota apenas suspirou- Deve ser só mais uma tia querendo dar sermão sobre bom comportamento.
Marina suspirou exasperada como quem disse-se “Pirralha de pouca fé!” Arrumou o rabo de cavalo com altivez e marchou em direção ao auditório, deixando uma Sophia preguiçosa para trás.
—Sophia?- Dona piedade chama da porta, diretora e fundadora do orfanato, uma mulher na casa dos sessenta anos, roliça e de cabelos tingidos de um gritante vermelho, que de piedade não tinha nem o menor dos fios do cabelo… Dona impaciência lhe cairia melhor como nome- Não irá para apresentação? Anda garota! Não tenho o dia todo! Já está começando!
Dona Piedade puxou a garota pelo braço impaciente e a arrastou pelo corredor. Sophia já estava acostumada com aquele tipo de tratamento. O orfanato não era um dos piores lugares de se morar, porém era o único do qual se lembrava de estar. Pelo que soube viera parar ali ainda bebê, e agora aos 9 anos de idade, desconfiava que o fato de ter pele escura a impedia de ser adotada.
Agora tudo que lhe restava era uma melhor amiga, magrela e emburrada, e seu colar de bailarina, que estava com ela desde… Bem, desde sempre! Sophia achava que aquele colar a levaria de volta para a sua verdadeira família.
Andou mais alguns metros (Se andar se consisti-se em ser arrastada por uma velha endemoniada...) até chegar ao auditório de onde podia ouvir uma música muito suave de violino, que a princípio era lenda e doce, mas aos poucos, como uma brisa que aos poucos se torna vendaval a música se tornou urgente, exigente e ainda mais bela.
Sophia ficou extasiada, encantada, como se descobrisse algo incrível. Soutou-se do aperto forte da diretora e logo adentrou no auditório, e o que viu a deixou ainda mais sem ar. No palco velho e meio rachado, uma linda mulher rodopiava com as pontas dos pés no ritmo da música. Saltava, e movia-se com liberdade por todo o palco (Ela é um anjo...) Sophia pensou ainda encantada (É assim que quero me sentir… Livre!).
E foi assim por meia hora seguida, enquanto o anjo de vestes brancas e sapatilhas vermelhas, flutuava pelo palco, uma menina de cachos rebeldes e pele morena encantada. E assim a música chegou ao fim, o anjo e curvou e em agradecimento e dois pares de olhos enormes olharam na direção das crianças sentadas.
—Eu achei realmente encantador- Marina diz enquanto caminham de volta para os dormitórios- Foi muita bondade dessa moça nos doar todos aqueles livros e alimentos! E ainda oferecer aulas de ballet! — A garota rodopiou de empolgação- Sophia não está animada?
—Viu os olhos dela?- Sophia murmurou pensativa- Não acha que se parecem com os meus?
—Ah eu já ouvi essa história antes! Você quer que ela te adote! Mas acho quase impossível por você ser…- Sophia a olhou emburrada- Ah deixa pra lá! Vou ver se a Margaret devolve minha blusa.
E assim a garota magricela sai corredor a fora, como uma gatinha anêmica a procura de leite. Sophia não tirava da cabeça o lindo som do violino, a bela sapatilha vermelha e, eh claro, um par de olhos verdes esbugalhados. Algo dentro da menina a incomodava, algo a dizia que nada mais seria como antes… Não sabia ela como estava certa.
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