Uma Rosa para Rosa
1 Capítulo Único - Uma Rosa para Rosa
Notas iniciais
Boa leitura!
Beijos de Mel ^^
Minha Querida Rosa,
Eu sei que não possuo o direito de chamar-lhe de minha, mesmo que nas minhas mais profundas fantasias você pertença apenas aos meus braços e nada mais.
Eu a amo demais para tomar a sua liberdade tendo-a como minha, por mais que meu coração queira você para mim.
Sou um criminoso, um pecador. Já roubei, matei e fiz muitas coisas do qual me arrependo amargamente. Talvez, Deus tenha me punido por todos os sacrilégios e atrocidades que cometi durante a minha vida. Sempre me disseram que Deus era justo, e acredito que isso tenha se aplicado a mim.
Mas justamente com a mais formosa das flores, a mais preciosa das rosas, Ele foi impiedoso.
Por que, Senhor? Por que apagar o brilho singelo da vida daquela que conquistou meu coração gelado e o aqueceu com o fogo gentil da sua alma?
Apenas um olhar bastou para que eu me sentisse irremediavelmente apaixonado. Você me desejou uma boa tarde com tal graça e doçura que senti cada um dos meus pecados pesando na minha consciência, diante de tamanho pureza.
Você era uma simples floriculturista; vendia e cuidava de suas flores com esmero e amor, e todas eram tão perfumadas quanto seus cabelos sedosos. Despertado pelo desejo de vê-la, meu coração não se aguentava em agonia até vislumbrar seu rosto delicado, e então todo o meu ser se acalmava.
Com um sorriso brincalhão dançando nos lábios, você me perguntava o motivo da minha frequência na sua loja. E enquanto você pensava que eu era um cavalheiro romântico comprando flores para uma namorada imaginária, eu me arrependia cada dia mais. Minha covardia que reprimiu meus sentimentos foi minha ruína, creio eu.
Ou apenas o fato de eu me apaixonar por alguém que eu nunca mereceria nessa vida tenha sido crime o suficiente para receber a pior das penitências. Em uma mera sombra de desconfiança de que você poderia ser infeliz, eu abri mão da minha própria felicidade.
Deixei escapar algo infinitamente mais precioso que o diamante mais bonito e delicado do mundo por entre os dedos, como quem tenta segurar a chuva. Eu não sou e nunca fui o único que percebeu o quão especial você era, Rosa. Aquele cavalheiro elegante, galanteador e incrivelmente rico também percebeu.
Não foi difícil se apaixonar, não é, Rosa? Nas noites que se seguiram, eu tinha pesadelos com os mesmos efeitos inebriantes que você produz em mim passando pelo seu corpo, mas não por minha causa. Eu me torturava pensando no seu coração acelerado, no seu estômago recheado de borboletas, cada vez que o via. Que via ele.
Mas o meu sofrimento, meu martírio, ao ver a mulher que eu amo ser beijada por outro, era extremamente insignificante perto da sua felicidade. Por mim, se você estava feliz, apaixonada, nada mais importava nesse mundo nem nos outros.
Por acaso existe em todo o Universo tortura mais doce que o amor?
Ah, minha Rosa. Eu me lembro do dia que eu descobri que o mundo perdeu a cor, se tornando tão cinzento e sem vida quanto uma rocha no deserto. O sorriso que iluminava a face mais escura da lua se apagou, e a graça e inocência da alma mais vívida e alegre dentre todas as outras foram reprimidas e cruelmente mortas.
Eu vi quando seus olhos pararam de brilhar, quando a pele, antes imaculada, se tornou suja, e quando o seu corpo se tornou a tela para uma pintura macabra. Quem iria imaginar que o jovem mais viril e educado da região, que parecia tão apaixonado, teria deixado a sua frágil máscara de porcelana cair e quebrar, revelando o pior lado do ser humano? Que homem cruel e desumano seria capaz de cometer o pior dos pecados, e macular a alma e corpo da mais preciosa de todas?
Depois de realizar seus desejos doentios e sádicos e brincar com seus sentimentos, ele simplesmente desapareceu de vista. Todos estavam revoltados; nem consigo imaginar a dor da sua mãe, que eu vi, desamparada, acionando a polícia na delegacia. Mas o estrago já estava feito. A antes tão alegre e virtuosa moça, que espalhava cor e perfume para esse mundo sem graça, passou a ser um cadáver ambulante. Inexpressiva, pálida, vidrada.
E eu? Não sabia como agir. Clamava a Deus para que me levasse desse mundo, por um pouco de misericórdia por todos os meus pecados, e apenas me libertar. Eu já não suportava tanta aflição ao assistir, impotente, a mais linda Rosa morrer dia após dia, suas pétalas viçosas murchando e as folhas ficando ressequidas e amareladas.
Minhas preces incluíam o expurgo da sua dor. Você, minha Rosa, é a criatura menos merecedora de sofrimento na face da Terra, mas Deus impôs sobre seus ombros um castigo, uma angústia, muito grande. Ver toda aquela inexpressividade, toda aquela morte no seu rosto quase me fez morrer. A única coisa que me mantinha de pé, vivo e respirando, era a frágil esperança de ver seu sorriso brilhante mais uma vez, e do seu espírito voltar a preencher o seu corpo.
Por fim, Rosa, Ele aliviou a sua dor. Deu-lhe coragem para encerrar seus dias em busca da vida e felicidade eterna.
Você está feliz? Valeu a pena trocar seu delicado pingente de prata por um colar rústico de corda? Se sim, meu sofrimento é tão importante quanto um grão de areia no deserto. Minha vida se tornou vazia, sem significado, sem rumo, sem direção, exatamente como um viajante sem bússola. Mas isso é insignificante perto do seu alívio.
Quando você foi velada, pronta para deixar o terreno e adentrar o espiritual, custei a acreditar que aquele corpo frio, um mero receptáculo enfeitado e maquiado para parecer com você, era a minha Rosa. Ou, ao menos, um pequeno pedaço do que costumava ser em vida.
Agora, vou selar essa carta. Essa é a minha confissão e o prelúdio do meu último pecado. Antes, a minha missão na Terra não era evidente, mas agora está tão clara quanto cristal. Deixo essa carta e uma rosa, a mais bela que a natureza pôde dar — por mais que ela não seja mais que um mero vislumbre da sua beleza radiante — sobre seu túmulo, para que, talvez, antes que o Tempo dê conta da matéria, todo o seu significado chegue do Outro Lado.
Deixo uma rosa para Rosa como a prévia do meu último ato de amor. A justiça será feita. Eu o encontrarei, Rosa. E arrastarei o monstro dos monstros para o inferno, e como não suportaria viver em um mundo sem você, irei junto com ele.
Com amor
Eu
Notas finais
Beijos de Mel ^^
Fale com o autor