Notas iniciais
"As pessoas entram em nossa vida por acaso. Mas é pela nossa vontade que elas permanecem."

Cameron’s POV:

Meu celular despertou às 5:30 na manhã seguinte. Preguiçosamente me levantei da cama rumo ao banheiro. Foi quando, de frente ao espelho, vi o curativo em meu rosto.

Só então eu me lembrei de tudo o que acontecera na noite anterior, dando uma espiada pelo corredor em direção à sala, vi o sofá montado e com um volume sobre ele enrolado em cobertores. Meu coração disparou, embora eu não conseguisse imaginar os motivos para tal ato. Me arrumei, precisava dar um jeito naquele arranhão e ir trabalhar.

Antes de sair, deixei um bilhete à ela, pregado no espelho do banheiro.

“Tive que ir trabalhar, fique a vontade, a casa é sua. Meu turno acaba às 17hs. Se precisar sair, deixe a chave embaixo do capacho, mas espero que esteja aí quando eu chegar.”

Olhei o bilhete, mordi o lábio inferior e risquei a última parte. O que eu estava pensando? Continuei escrevendo após a parte riscada.

“Tem café pronto, sei que vai precisar. Pode comer o que quiser. Não saia sem se alimentar.”

Risquei novamente a última parte, parecia que eu estava deixando um bilhete pro Henry. Decidi terminar por ali, assinando de uma vez. Saí, passando por ela em silêncio e deixando a porta fechada atrás de mim.

Treze’s POV:

13:42, foi a hora que eu acordei. A cabeça pesava mais do que meu corpo inteiro e ela girou quando me levantei, me deixando tonta.

Após algumas tentativas de me manter de pé, consegui me firmar e caminhar, quase cegamente, para o banheiro. Tentei fazer o menor barulho possível, não tinha noção do quanto era tarde.

Ao entrar no banheiro, a primeira coisa q fiz foi jogar água gelada em meu rosto, só depois disso me senti desperta o suficiente e acabei encontrando o bilhete rabiscado de forma apressada, cheio de correções.

“Tive que trabalhar, fique a vontade, a casa é sua. Meu turno acaba às 17hs. Se precisar sair, deixe a chave embaixo do capacho, mas #####aí#######hegar. Tem café pronto, sei que vai precisar. Pode comer o que quiser. N#####em#####entar. Se cuida. Emma.”

Aquelas frases inacabadas, riscadas como algo que foi escondido, me despertaram curiosidade. Virei a folha em seu verso e o coloquei contra a luz, me fazendo soltar um sorriso no canto dos lábios ao conseguir ler a verdadeira mensagem.

Voltei a sala, procurando o celular, me espantando com o horário. Já eram duas da tarde! Fui até a cozinha e vi, na pequena lavanderia do apartamento, minha roupa estendida, que provavelmente ela lavou a mão, para não me acordar. Sorri e me envergonhei por dar tanto trabalho. Lembrei de tudo que se passou na noite anterior e fiquei ainda pior. Olhei para a mão direita, testando-a, ficando aliviada ao notar que ela me respondia como deveria. Coloquei o indicador diante de meus olhos e o movi de um lado para o outro e pude vê-lo nas duas extremidades do meu rosto. Suspirei aliviada.

O café que Cameron havia feito estava forte, talvez forte demais para um gosto próprio, me fazendo considerar que era proposital para minha ressaca. Comi alguns bolinhos deliciosos que tinham sobrado da noite anterior, estavam embrulhados em um pacote escrito Granny’s. Onde eu tinha visto aquele nome? Tive uma vontade enorme de sair e buscar meu carro no bar, voltar para casa e cair na minha cama bagunçada com roupas e acessórios espalhados por todo o cômodo. Talvez fosse o certo, mas continuei ali.

Passei os olhos pela estante outra vez, me espantando com o número de livros de contos de fadas que existiam ali. Eu nunca tive o hábito de ler contos de fadas, mas um daqueles livros me chamou a atenção, talvez por estar mais escondido do que os outros, fino e empoeirado entre Pinóquio e a madeira grossa da estante. Puxei-o com cuidado, passando a mão pela capa e tirando uma fina camada de poeira, revelando o nome: “O Soldadinho de Chumbo”.

Deitei outra vez sobre o sofá cama e abri o livro, começando sua leitura, curiosa com a história. O sono pegou-me desprevenida na página 12.

Cameron’s POV:

Meu turno mal tinha acabado e meu pensamento já voava para casa. Assim que fui dispensada e me despedi dos outros médicos e enfermeiras, corri para o vestiário, pegando minhas coisas e, num instante, estava no carro, rumando ao apartamento.

Não tinha esperanças de encontrá-la ali, quando cheguei, silencioso como estava o apartamento. Só depois de olhar embaixo do capacho e não encontrar a chave que, testando a porta, tive a confirmação de que ainda permanecia aberta. Entrei em silêncio, a primeira imagem que tive foi Treze, adormecida sobre o sofá cama, segurando um de meus livros nas mãos. Sorri, um sorriso mais largo do que eu poderia me permitir para aquela ocasião.

Uma hora depois de eu ter chegado, ela despertou, me encontrou na cozinha, envergonhada.

— Eu não te vi chegar. Estou sendo um incomodo, não é?

— Não diga isso, Remy. Eu estou feliz que ainda esteja aqui.

Ela me olhou de um jeito inquisidor e mordi meu lábio inferior, a sobrancelha levemente erguida dela, me fazendo desejar ter falado menos. Ela se aproximou e, pela primeira vez, me tocou de forma consciente, com todo o cuidado.

— Como está o machucado? Olha, eu não tive a intenção...

— Tá tudo bem. – eu a interrompi. – Não foi nada, já está cicatrizando.

Ela recolheu a mão e apontou a roupa no varal.

— Não precisava ter feito isso, eu poderia ter lavado.

— Achei que já estava bom de bebidas para você, sabe, a ressaca.

Nós duas rimos. O restante do dia foi bem mais leve, conseguimos conversar bem mais do que em uma semana de trabalho no mesmo hospital.

Consegui convencer Remy a dormir outra vez na minha casa, ela hesitou de início, mas devido a minha insistência, acabou passando a noite. Ela tomou um banho rápido enquanto eu a aguardava com chocolate quente e os deliciosos bolinhos da vovó.

— De onde você tira esses bolinhos? Parecem, sei lá, mágicos. – ela disse enquanto se deliciava com uma mordida, cobrindo a boca com a mão.

— Eles são! Vovó faz maravilhas na cozinha.

Eu sorri, mas notei o quanto ela ficava confusa por eu chamar a senhora de vovó, porém não comentou nada. Assim que terminamos nosso lanche noturno, ambas colocamos os celulares para despertar e nos despedimos. Eu pude vê-la, do corredor, voltando a pegar o livrinho sobre a mesinha de centro para ler na fraca luz do meu abajur. Soltei um sorriso bobo sem notar e me recolhi ao meu quarto.

Notas finais
Espero que tenham gostado do capítulo. Os comentários são as vozes de vocês, então comentem sempre que quiserem que eu prometo "ouvir" todas elas. E obrigada pelo apoio. =)