Uma Realidade Diferente
8 Capítulo 7 - Sinfonia
Notas iniciais
Eu estive ocupada, novamente, esses dias e minha criatividade havia ido para o beleleu....
Sinfonia
A maciça porta de ferro da cela rangia audivelmente ao ser aberta, permitindo que V entrasse, este sempre de forma educada. Ele observou e, quando seus olhos encontraram Anna, sentiu um peso no coração, totalmente compadecido. Seu corpo paralisado, cada músculo tenso, e o rosto retorcido em tristeza atrás do sorriso de Fawkes, o faziam parecer uma estátua parada perto da porta, observando-a em um silêncio mórbido.
Anna estava sentada com as costas apoiadas contra a parede, a sua cabeça baixa que era impossível ver seu rosto do ângulo de V. As pernas bem esticadas e cheias de arranhões e cortes, os braços caídos ao seu lado com as mãos imóveis sobre o chão frio, as palmas viradas para cima. Qualquer pessoa normal pensaria que era uma defunta abandonada ali mas V sabia muito bem que ela estava viva e respirando mesmo que debilmente.
Só agora V notava os danos que aqueles malditos lá na fábrica fizeram com ela. Cada ferimento, cada corte, cada hematoma visível e alguns sangramentos de facadas não fatais aqui e acolá. Um estado totalmente deplorável.
Como isso poderia ter acontecido? V sentia um absurdo sentimento de culpa apertando seu coração por não tê-la impedido ou revelado que já sabia o que ela fazia às escondidas. Temia que isso viesse a acontecer novamente e que não fosse capaz de protegê-la. Incapaz de protegê-la e vê-la ela morrer. Oh, só de pensar nisso V curvou-se um pouco para frente como se tivesse levado um soco no estômago.
V recuperou a postura e suspirou, pesaroso, aproximando-se de Anna.
– Oh, Anna... – murmurou ele, a dor em seu intenso tom de voz. – O que fizeram com você...
Ele afagou o topo da cabeça dela com delicadeza e depois pousou a mão no ombro esquerdo dela, esperando alguma reação ou manifestação de vida.
Nada.
Preocupação tomou conta de V imediatamente por não haver respostas. Deixou o kit de primeiros socorros no chão e ergueu delicadamente o rosto de Anna pelo queixo usando o enluvado dedo indicador. V era sempre tão delicado e gentil em cada gesto e movimento.
Os olhos de Anna, que estavam fechados, abriram ao ter a cabeça erguida. Parecia olhar confusa, buscando foco de sua visão, e encontrou o olhar dos olhos negros e vazios da máscara de V. Era um olhar de culpa e arrependimento que golpeou de modo impactante o coração de V que devolvia o seu olhar de forma calorosa mesmo que ela não soubesse.
– V... – sua voz mal era um sussurro. – Eu...
– Não diga nada. Você não precisa dizer nada, somente permita-me de cuidar de seus ferimentos e garantir que tenha o devido descanso.
Anna levou uma trêmula mão até a bochecha da máscara. A mão dela ainda estava calçada com a luva de couro negro, a única diferença era que estava totalmente rasgada na região dos ossos dos dedos, e visivelmente em carne viva. Passara tanto tempo socando a porta de ferro que rasgara as luvas e sua carne.
V perdeu o ar em um suspiro silencioso, subitamente paralisado pelo toque.
– Obrigada... E perdoe–me...
Então ela baixou a cabeça novamente, fechando os olhos e voltando a dormir. Era a única forma de não sentir as terríveis e insuportáveis dores em várias partes de seu corpo, principalmente suas mãos.
V respirou fundo e puxou Anna delicadamente contra si em um abraço acolhedor e gentil. Seus braços ao redor dela de forma protetora e calorosa. Era tudo o que ele queria agora, ela em seus braços, protegida e bem cuidada, longe de qualquer mal ou pesadelo. Tudo o que V queria era cuidar dela... Para sempre. Todavia, ele se via como um monstro, não como um homem. O monstro cuidaria da bela, amaria-a, protegeria-a mas ela não deveria ser capaz de amá-lo, de cuidá-lo da mesma forma. Achava impossível um monstro como ele ser amado por alguém são.
Anna acordou em um ambiente parcialmente iluminado e seu corpo meio dolorido, as mãos ardiam como fogo em brasa. Remexeu-se inquieta sobre a cama macia ao qual se encontrava deitada e tentou se sentar. Sempre tão teimosa, queria sempre fazer o oposto do que era necessário para o seu bem... E, assim, sentou-se na cama e encontrou um V em pé logo a sua frente.
Ela simplesmente voltou a se deitar na cama pelo susto que levara.
– V! – resmungou ela, olhando-o com olhos arregalados. – O que eu disse sobre você aparecer do nada?!
O vigilante, sorrindo por trás da máscara, deu uma baixa e quase inaudível risadinha. Achava graça das reações de susto de Anna quando ele se aproximava sorrateiramente.
– Perdoe-me, nunca é minha intenção assustá-la dessa forma. – mentiu ele, gesticulando somente com a cabeça.
Anna lançou-lhe um olhar desconfiado, com certeza não acreditando em nenhuma de suas palavras, mas sorrindo no final para ele. Esperou que V se afastasse um pouco para que voltasse a se sentar na cama e verificar o estado de suas mãos e seu corpo.
Não ficou surpresa quando encontrou suas mãos enfaixadas por gazes brancas, um curativo de primeira linha, e vários outros em pontos aleatórios ao longo de seu corpo. Mesmo com a baixa iluminação, era capaz de ver perfeitamente os hematomas roxos em sua pele alva e delicada, das coxas, braços e abdômen. Essa visão de si própria a fez erguer o canto da boca em um meio sorriso sarcástico.
Eles me pouparam... Então o fato de eu ser uma mulher compadeceu seus imundos corações?
– Como se sente? – a pergunta de V despertou–a de seus devaneios. – Trouxe o seu café da manhã.
Aquele comentário direcionaram o olhar de Anna para a máscara sorridente de forma curiosa e surpresa. V, fingindo que não sentia o peso de seu olhar, trazia uma bandeja com ovos mexidos, um pão fresquinho, manteiga e um suco de laranja bem gelado para ela.
– É manhã?
– Certamente.
Um ronco baixo e tímido veio do estômago de Anna fazendo-a ruborizar com brutalidade e baixar a cabeça. A visão daquele rubor naquelas lindas maçãs fizeram V abrir um sorriso e observá-la com olhar sereno.
Anna pegou o pão e passou manteiga dentro, mordendo um pedaço e mastigando timidamente. V a observava e isso só a deixava nervosa. Era estranho ter alguém lhe observando enquanto comia, principalmente com as roupas que ela usava agora: um simples short jeans de malha de escura e um top negro escondia-lhe os seios. O resto era sua pele nua, marcada por hematomas ou com curativos. De fato, um momento desconcertante para ela, aliás, V não deixava de ser um homem.
O tempo que se sucedeu em completo silêncio estranho pareceu uma eternidade para Anna que, finalmente, terminara seu café da manhã e se sentia mais revigorada. V levara a bandeja, lavando a louça de forma rápida, e já estava de volta para o quarto, tomando seu lugar em uma cadeira posicionada bem ao lado da cama. Sua máscara fitava–a, podia até sentir o peso do olhar do homem por trás dela.
– Creio que seria uma boa hora para se explicar, jovem. – ele começou a falar, dizendo cada palavra de modo devagar e educada.
– Explicar o que? Não tenho nada para explicar.
– Ah, sim, você tem. Primeiramente, gostaria de saber se você realmente me usou para chegar até lá e depois gostaria de saber sobre o seu passado. – V cruzou as pernas e os braços, olhando–a. – Depois do que aconteceu, não acha que seria algo justo, minha cara?
Anna de repente ficou tensa e nervosa, desviando o olhar de V e dando-lhe as costas ao mudar de posição na cama. Não queria olhar para ele enquanto explicasse a verdade.
– Entendo... Sim, eu aproveitei de seus equipamentos para conseguir a localização daquele que desejo vingança.
Pelo barulho, Anna deduziu que V descruzara as pernas e curvara-se para frente ainda sentado na cadeira. Viu isso como um sinal se incentivo a continuar a falar.
– Eu nunca consegui algo bom o suficiente para isso e pensei que você tivesse. Por isso passei a segui-lo esse tempo inteiro, na esperança de alguma forma me aproximar e usar tudo a meu favor. Porém, como você deve ter notado, nada saiu conforme o planejado e caí em uma armadilha do crápula.
Saber que tinha sido usado fez doer o coração de V e um forte sentimento de decepção tomou seu peito. A pouca esperança de que ela sentisse algo por ele aos poucos se dissipava e dava lugar à solidão de antes. Estava arrasado, queria a todo custo se levantar e sumir dali e expulsá-la para nunca mais vê-la na vida porém ainda, de alguma forma, no fundo de seu âmago, havia esperança. Aliás, ainda não ouvira tudo.
– Esse maldito foi o responsável por tudo o que aconteceu comigo e com minha mãe. Eles nos entregou como ratos de experimentos em LarkHill e nunca mais o vimos desde então. Nem ousou me visitar no dia que mamãe morreu.
Oh, aquilo V não esperava e isso lhe explicava muita coisa sobre Anna. Via agora como ela havia sido capaz de suportar tantas balas e permanecer viva, como era ágil e forte demais para uma mulher comum, reflexos aprimorados e exímia lutadora em combates. Ela, assim como ele, foi submetida à experimentos em LarkHill.
– Mamãe não sobreviveu àquele inferno como eu sobrevivi cada dia, alimentada pelo ódio que corria em minhas veias... Até o dia em que você explodiu tudo e deu-nos liberdade. Eu sei que foi você, V, e sou agradecida por isso até hoje.
– Sinto muito. – foi tudo o que ele disse após ouvir a história de Anna.
– O que?
– Pelo que aconteceu com você e sua querida mãe. Sinto muito, pequena. Deve ter sido horrível... E por ter te colocado naquela cela, trancado-a em uma cela novamente.
No momento que Anna iria se virar, intrigada com aquelas palavras, procurando o olhar da máscara, sentiu braços fortes e protetores rodearem sua barriga e puxá-la contra um peitoral largo e robusto em um abraço dócil.
A bochecha de Guy Fawkes pressionada contra a bochecha direita de Anna. V havia se ajoelhado para ter altura suficiente para abraçá-la daquela maneira. Conforta-la e mostrar que tudo estava bem mesmo que antes tivesse sido relevado que havia sido usado e nada mais.
Depois que o efeito surpresa passou, Anna abraçou os braços de V e inclinou um pouco sua cabeça contra a dele que estava logo ao seu lado. Virou-se para encará-lo e abraçá-lo apropriadamente, um abraço bem apertado. Lutava para não chorar; não queria que lágrimas saíssem agora e naquele momento. Evitava chorar a todo tempo porque se sentia tão fraca, tão frágil e fútil.
– Espero que permita–me saber mas... Quem seria o homem que odeias tanto? – perguntou V, a voz baixa e suave. Ele fechara os olhos por trás da máscara para sentir a delicada forma daquele corpo feminino sobre o seu. Sentir o calor dela emanando e aquecendo seu peito.
– Isso... Eu não irei falar.
Anna encontrava-se deitada de forma totalmente relaxada sobre o piano de cauda de V, na sala de estar da Shadow Gallery. Encarava o teto com um olhar vago e pensativo, totalmente entediada e sem ter o que fazer ou vontade de fazer alguma coisa. Estava ali sozinha porque V dera uma breve saída e não queria ler ou ver um filme sem uma companhia. O assunto de antes morrera e nenhum dos dois falaram sobre isso novamente.
Continuava a mesma roupa de antes com exceção de um moletom cinza que vestira para não sentir frio e também para esconder a maior parte de sua pele nua. Calçou meias pretas para aquecer os pés e os dedos e, desde então, estava espichada sobre o piano.
Pestanejava sobre quando haveria sinal da localização de seu alvo novamente e como dessa vez seria mais cautelosa para não cair em uma segunda armadilha. Não seria imprudente e impaciente ou, com certeza, morreria.
– Acredito que cama não seja a verdadeira função de um piano, querida.
Anna quase caíra do piano pelo estranho salto que dera de susto com o rico som da voz de V falando com ela e sua figura saindo de uma sombra que vinha do corredor principal.
– E, novamente, perdoe-me por tê-la assustado dessa forma.
– Voltou mais cedo do que eu esperava. – comentou ela, com descaso, voltando a deitar as costas sobre o verniz do piano.
– De fato, e fico feliz que não tenha sucumbido ao tédio. – V debochou, sentando-se na cadeira do piano, observando–a.
Ele trajava sua favorita camisa vitoriana ao estilo Jacobean cinza e o colete negro por cima, uma calça preta bem justa e suas botas de couro escuro. Ambos tinham um guarda-roupa similar em cores, optando pelas monocromáticas cinzas e pretas.
Por um momento, V perdeu-se atônito com a incrível visão daquele delicado e treinado corpo de mulher que Anna possuía. Sua silhueta deitada sobre o seu piano era hipnotizante e obrigava-o a conter o desejo de tocá-la, de sentir como seria a sua alva e macia pele de menina. Insultou a si próprio mentalmente por sentir tamanho desejo de luxúria por aquele corpo.
– Sabe tocar? – Anna perguntou de repente, virando a cabeça para encarar V. – Se souber, poderia tocar uma música pra mim?
– Com toda a certeza e será um enorme prazer para mim tocar uma melodia para você, pequena.
Um sorriso iluminou o rostinho pálido de Anna, deixando um V momentaneamente encantado com sua beleza. Ela fechou os olhos e ouviu V liberar as teclas e por os pés nos pedais. Um som curioso também e deduziu que fosse ele tirando as luvas para tocar e se controlou para não abrir os olhos e olhar suas mãos, tocá-las e beijá-las.
(Melodia do piano: http://www.youtube.com/watch?v=ePLKJSfjb8M )
Então as primeiras teclas começaram a ser tocadas em um som suave e delicado. Suas tonalidades eram finas e tão doces que Anna deleitou-se com aquilo, seus lábios cada vez mais esboçando um sorriso. Tudo ao seu redor desapareceu e somente o som daquela música tocada em um lindo piano de cauda existia.
Logo o ritmo ficou mais rápido, sempre mantendo a suavidade e delicadeza de sua melodia tão triste. Foi quando Anna começou a se lembrar do dia que sua mãe morrera, o dia que prometera a si mesma que teria a todo custo a sua vingança.
– 1:30 – (tempo de acordo com o vídeo)
“O dia amanhecera com um clima estranhamente pesado e de que algo estava errado, algo perturbante. Anna ainda dormia no chão frio de sua cela quando a porta de ferro abria abruptamente e dois homens entravam e a puxavam sem mais nem menos para que ficasse de pé. Deram tapas e pontapés para que acordasse e ficasse atenta para o terceiro homem, este vestido de terno caro, que entrava e a encarava como se ela fosse um ser insignificante e nojento.
– Sua mãe era uma fraca, menina. Ainda bem hoje mesmo pelo início do dia ela faleceu.
De primeira, Anna não digerira suas palavras porque ainda estava meio grogue de sono mas, quando o fez, seus olhos se arregalaram e o ar fugiu de seus pulmões. Não sabia mais como respirar, andar, falar... Nada. Aquilo só poderia ser mais uma daquelas malditas torturas psicológicas.
– Não, você está mentindo. E pegou pesado dessa vez na tortura psicológica, idiota.
O homem de terno deu um tapa em Anna pelo modo como fora insultado e cuspiu as próximas palavras.
– Sua vadiazinha, se não acreditas do que digo então é bom que veja por si mesma.”
Os dedos de V deslizavam tocando as teclas do piano de forma tão natural, tão esplêndida e encantador que ele mesmo se perdeu na próxima melodia. Seus olhos poderiam estar fechados, mas sua memória sabia muito bem onde seus dedos deveriam tocar.
Anna, por sua vez, parecia desligada daquele mundo.
– 2:00 –
“O ar era úmido e fazia muito frio do lado de fora da cela, na área de lazer e intervalo para todos que estava ali, presos naquele inferno. No centro havia uma mesa de madeira com uma mulher deitada nua e com os olhos fechados. Era magra, pálida, cheia de marcas e cicatrizes de tortura pelo corpo. Dedos mutantes cresciam em seus braços e em suas pernas de forma horrenda, pura efeito dos experimentos aos quais lhe obrigaram a fazer. Era a mãe de Anna que jazia deitada e sem vida enquanto o céu chorava lágrimas de água sobre ambas.
Anna encarava seu rosto com olhos vazios e perdidos em algum lugar naquele mundo. Estava calma agora mas, alguns minutos antes, gritaram em negação daquilo, sem acreditar que era mesmo a sua querida mãe morta e deitada sobre aquela mesa de madeira pobre e sem pudor. Porém no seu peito sentia a falta de alguma coisa. Sentia um vazio terrível. Com certeza não era mais a mesma. Sentia-se morta por dentro. Respirava porém morta.”
Quando a jovem Anna abriu os olhos e seu olhar encontrou o teto subterrâneo da Shadow Gallery, levou uns segundos para notar que chorava. As lágrimas haviam-lhe escapado dos olhos enquanto vivenciava aquele triste flashback que por anos tentou esquecer.
V não notara sua movimentação, totalmente concentrado na música que agora passava de uma parte de tonalidade frequente, sendo o prelúdio de outro ritmo mais rápido e sempre melancólico.
– 2:46 –
Anna se sentou no piano, limpando as lágrimas dos olhos e do rosto, desejando apagar os indícios de sua repentina tristeza. Virou a cabeça e observou V tocar, imaginando que estivesse com os olhos fechados porque não inclinou a cabeça para ela de imediato; sequer deixou de tocar o piano. Parecia que era só ele e o piano.
A música do piano ficou um pouco lenta outra vez.
“As gotas de chuva caiam do céu como pedras pesadas na cabeça de Anna, que ainda observava, em pé e imóvel como uma estátua, para o rosto de sua mãe. Duas horas haviam se passado desde que chegara ali. Assim que seus olhos rolaram pelo resto do corpo dela, Anna viu algo no braço de sua mãe, algo escrito por unhas. As unhas dela, antes de morrer.
‘Perdoe–o’
Era a última coisa que pensara em fazer. Como sua mãe queria que o perdoa-se? Nunca! Anna não seria capaz de perdoar o monstro desgraçado que fizera isso com elas, que as jogara naquele inferno que era LarkHill e desaparecera sem mais nem menos.
Anna respirou fundo e olhou para os céus que ainda choravam como se chorassem por ela. Os punhos cerrados com tanta força que cortou sua carne e, dado um certo momento, um urro alto e cheio de ódio saiu de sua garganta. Saiu de dentro de seu peito. Gritava para os céus como uma loba solitária uivava para a lua.
– Eu jamais irei perdoá-lo pelo que fez a nós, mamãe, jamais!”
Quando V abriu os olhos, deparou-se com o rosto de Anna a centímetros do seu, encarando-o através das telas negras que escondiam seus olhos por trás da máscara. O olhar dela era penetrante, pesado de sentimentos e com algum significado.
– 3:10 –
A melodia tornou-se mais animada, sem nunca deixar seus aspecto melancólico de lado, quando V sentiu o gentil toque da mão de Anna segurar o seu queixo e levantar seu rosto para mais próximo do dela. O coração dele acelerou e bateu como se acompanhasse o ritmo da música e sorriu de forma afetuosa e sincero.
Anna sorriu para ele, mantendo essa posição sentada e curvada de modo que seu rosto alcançasse o de V e pudesse fitá-lo demonstrando todo o sentimento que tinha por ele. Tudo o que há algum tempo começou a sentir por aquele incrível homem mascarado e vestido completamente de preto.
– 4:12 –
Houve uma rápida pausa como prelúdio delicado do fim daquela melancólica melodia.
A cabeça de V acompanhou os movimentos de Anna que descia do piano e tomava um lugar no banco ao lado dele, sorrindo ao encontrar o olhar da máscara novamente. Ficaram assim, encarando-se, enquanto as mãos e os dedos do vigilante tocavam o piano sem um erro sequer.
Quando os olhos de Anna resolveram dar atenção às teclas, V fez o mesmo e continuou enquanto lembrava-se de algo e tomava imediatamente uma boa decisão. Uma surpresa porque ainda era aniversário dela.
– Eu tenho um presente para você, Anna. Um presente muito especial em consideração ao seu aniversário que é hoje. – disse V assim a melodia terminara.
– Um presente? – os olhos de Anna brilharam de curiosidade. – Que presente?
V levantou-se da cadeira e curvou o corpo com cordialidade, oferecendo a mão para que ela segurasse e o acompanhasse para o quarto dela. Seria lá o local onde ele daria o presente tão especial para sua pequena. Depois daquele olhar intenso de Anna na hora que tocava ele tocava o piano, tinha certeza que havia algo entre os dois. Era puro e verdadeiro.
A esperança é o sonho do homem acordado.¹, ele pensou consigo mesmo.
– Venha.
Assim que chegaram no quarto, Anna se sentou na cama um pouco depois de V. Estava escuro, ele fechara a porta para que a escuridão reinasse e cegasse a jovem moça para o que estava a acontecer. Ainda era assustador para ele ter que fazer aquilo mas não queria esperar mais, não podia mais permitir que seus medos e seus receios decidissem por si. Precisava enfrentar isso ou nunca seria capaz de nada.
Anna estava nervosa e curiosa, seu coração batia que não duvidava que fosse escapar-lhe pela boca. Aquele suspense matava qualquer um e ela tinha certeza que podia ver a luz no fim do túnel.
Click
Oh.
Esse mísero som foi intrigante aos ouvidos dela. O que poderia ser? Muita coisa. Quais? Não sabia, não tinha como listar as possibilidades porque estava incapaz de pensar.
V fez algum movimento na cama, ele havia se mexido, talvez mudado de posição.
Até que lábios quentes e meio ásperos tocaram os de Anna em um delicado beijo. Mal podia acreditar que... eram os lábios dele que estavam sobre os dela. Que seu rosto estava descoberto, que não havia uma máscara irritantemente sorridente como barreira. Jogou pragas nele por ter mantido o quarto naquela escuridão para não ver seu rosto ou a cor verdadeira de seus olhos. Como ela desejou olhá-lo nos olhos naquele momento, explorar seu rosto independente de como ele fosse.
Anna abriu passagem para a língua de V entrar em sua boca e intensificar o beijo dos dois, levando as duas mãos para segurarem carinhosamente o rosto dele. Podia sentir a irregularidade de seu rosto marcado por cicatrizes de queimaduras sérias e a sua aspereza comparada a maciez da pele dela.
Aproveitou aquele momento para explorar como era a face daquele homem tão magnífico usando apenas o seu tato. O beijo estava mais apaixonado mas Anna podia sentir que ele estava tenso por ela tatear delicadamente o seu rosto com as mãos. Todavia, ele queria o toque dela. Queria o toque de suas mãos em seu rosto monstruoso, assim ele pensava. Era tão caloroso e bom que desejou nunca mais sair daquele momento e perder o delicado carinho que ela fazia nas maçãs de seu rosto.
V tinha o maxilar quadrado, anguloso e forte, com nariz pontudo e nenhum cabelo. Ele era careca por causa das queimaduras que sofrera, era de se imaginar. As orelhas ainda estavam lá, apesar de também serem estranhamente ásperas como o resto de sua pele. Entretanto, ele parecia lindo para ela. Deveria ser um homem lindo antes de explodir LarkHill aquela noite.
– Feliz aniversário... — disse ele, meio rouco, os lábios roçando com os dela. – Agora deve ser a sua hora de dormir, minha pequena.
Era a primeira vez que Anna ouvia a voz de V sem a máscara. Ela parecia tão mais viva e rica do que antes, meio baixa e abafada. Aquilo causou arrepio-os pelo corpo inteiro dela que abriu um largo sorriso de alegria.
– Só se você dormir comigo hoje.
– Anna, eu não...
– Por favor... Só quero sua companhia. Eu me sinto tão sozinha dormindo neste quarto e é assustador acordar na escuridão durante a noite...
Um som baixo como um suspiro veio de V que se afastou de Anna. Teria ele deixado-a sozinha na cama?
Logo uma mão tocou-lhe o braço ao seu lado e ela se deu conta que V havia deitado do outro lado da cama e chamava-a para se deitar com ele. O coração de Anna falhou algumas batidas com isso.
Sorrindo, ela ajeitou-se ao lado de V, deitando sua cabeça no ombro dele e passando o braço por cima de seu estômago, abraçando-o. Esperando que Anna dormisse, ele ficou paralisado, ainda tentando se acostumar àquela ideia de dormir na mesma cama que ela e seus corpos estarem próximos daquela maneira. Assim que ela adormecesse, V estaria seguro para sucumbir ao sono.
– V?
Ele respirou fundo, de repente tenso.
– Sim? – sua voz estava abafada novamente. Ele havia reposto a máscara no rosto.
– Canta uma canção para eu dormir?
– Como desejar, minha pequena.
Realizando o desejo dela, V começou a cantarolar baixinho uma música de ninar antiga para Anna. Sua voz tão musical e tão linda que não demorou até que ela caísse em um sono tão profundo que nem uma explosão causada por ele pudesse ser capaz de acordá-la.
Ele também já estava sonolento, sentindo o calor do corpo dela com o seu, a respiração tranquila contra seu pescoço, fazendo-o finalmente relaxar e aos poucos começar a dormir. Não obstante, antes disso, ele pensou com um feliz sorriso no rosto:
Enquanto houver um louco, um poeta e um amante, haverá sonho, amor e fantasia. E enquanto houver sonho, amor e fantasia, haverá esperança.²
A última citação saiu de sua boca sem querer, sua voz baixa e totalmente sonolenta.
– Se podemos sonhar, também podemos tornar nossos sonhos realidade.³
Agora, tanto Anna quanto V, dormiam de forma tranquila naquela noite. Ambos sonhavam em um futuro juntos e felizes.
¹.: “A esperança é o sonho do homem acordado.” By Aristóteles
².: “Enquanto houver um louco, um poeta e um amante, haverá sonho, amor e fantasia. E enquanto houver sonho, amor e fantasia, haverá esperança.” By Willian Shakespeare
3.: “Se podemos sonhar, também podemos tornar nossos sonhos realidade.” By Walt Disney
Notas finais
Dou créditos para quem tocou esse impressionante sinfonia de piano.
Somente os leitores atentos lembrarão que o flashback do passado de Anna tem haver totalmente com a última frase dita por V no capítulo passado. ^^ Talvez não voltem para ler então, aqui está a frase a qual me refiro: "A música cria para nós um passado que ignorávamos e desperta em nós tristezas que tinham sido dissimuladas às nossas lágrimas..." de Oscar Wilde.
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