Uma Realidade Diferente
4 Capítulo 3 - Rosa, carne e vingança
Rosa, carne e vingança
- Então quer dizer que você teve problemas com uma ninhada de gatos ao tentar me seguir?
Aquela era um pergunta tão fora do comum e engraçada vinda de V que até mesmo a risada que se sucedeu pareceu estranha. O fato era que Anna e V estavam conversando há horas e já tinham uma relação igual a amigos de longas datas. Tão amigos que Anna contava os piores momentos dos dias que ela espiava e seguia V durante as noites. Uma dela foi quando pisou sem querer na cauda de um gato que saltou arranhando ela todinha; e, como se não bastasse, outros gatos raivosos da mesma foram resolveram se juntar à festa também. Uma outra vez, tinha começado uma chuva leve e que, por azar desgraçado, deixou os telhados escorregadios e Anna caiu de bunda numa poça de água e quebrou as persianas de um edifício.
Quando se deram conta do tempo que passaram em conversas fora, histórias e pérolas um do outro, já era noite e a hora do jantar no mundo lá em cima, fora da Shadow Gallery. Se não fosse por um relógio antigo no móvel rente à cama, Anna nunca seria capaz de distinguir noite do dia naquele lugar subterrâneo. Isso causaria um problema no seu sistema biológico de determinada o momento necessário para dormir ou acordar do corpo.
Como sempre, até mesmo no simples ato de levantar-se da cadeira, V era incrivelmente encantador. Oh, céus.
- Imagino que esteja faminta, por isso irei preparar algo para você comer. – ele disse, já abrindo a porta, e virando-se para observá-la uma outra vez.
Agora que ele iria sair e deixá-la a sós no quarto, Anna finalmente pegou a xícara de chá e a segurou com ambas as mãos em forma de conchinhas ao redor da porcelana. Só que ela simplesmente não esperava o comentário que V estava prestes a fazer. Comentário que...
- Seus olhos são lindos, Anna.
Detalhe: ela tinha olhos verdes.
Um arrepio e um terrível frio na espinha atravessou-a.
Oh.
Realmente Anna não esperava por isso.
Num velocidade quase que da luz, ela encarou o líquido do chá afim de ver seu próprio reflexo mas não viu nada porque suas mãos tremiam. Tudo o que via era ondulações e suas mãos trêmulas. Levou uma mão ao rosto e tateou a própria pele. Não deveria ser sua pele, deveria ser sua máscara. Onde estava sua máscara? Quando ela havia saído? Há quanto tempo? E V, ele sabia disso e não falou nada? Nada bom, nada bom.
Anna para V com olhos assustados e ofensivos, abrindo a boca para falar mas nenhuma palavra saiu. Vendo isso, V ficou em silêncio e vez uma reverência com a cabeça antes de desaparecer pela porta para a cozinha.
Teve que tomar um gole do chá. Estava frio. Servia mesmo assim como bebida e como distração porque ela ainda tentava digerir o que acabara de acontecer. Tomou todo o chá e o recolocou sobre o móvel, voltando suas mãos para o rosto, tocando na própria pele e bochechas. Ah, suas bochechas ardiam por causa do elogio mas não mudava o fato que ele a vira sem máscara. Não tão cedo como ela queria. Isso só a fazia querer desaparecer, se esconder, estava assustada e não sabia o que fazer. O pânico tomou conta de sua cabeça e começou a pensar e pensar e pensar... Até que recordou-se que sua máscara deveria ter caído no momento que V a segurou em braços antes que caísse no chão. Isso! Foi naquele momento, aquele clank que ouvira era sua máscara já no chão.
Como não fora capaz de notar isso antes? Claro, estava ocupada demais admirando V.
Oh, céus...
Admirando ele. Admirando seu congelado sorriso de Guy Fawkes, seu corpo, seus peitoral largo, seus braços e suas pernas. E ele sabia. Assistindo isso, evidente no olhar de Anna, sem dar uma palavra. V deve ter se divertido com isso, só pode. E ela estava com irritada. Irritada porque ele, alguém que também usa uma máscara, quase 24h por dia, não disse nada à respeito, não avisou e muito menos devolveu a máscara para ela. Que desculpa ele iria dar?
- Por que não me avisou que eu estava sem máscara?! Era pra ter me dito! Se fosse você quem tivesse perdido a máscara por aí, e não eu, asseguro que a primeira coisa que faria seria alertá-lo. Argh!
Anna entrou como uma fera indomável na cozinha que por sinal era bem organizada e bonitinha. As mãos fechadas em punhos trêmulos dando a mínima importância se seus ferimentos iriam ou não se abrir novamente.
Com a tranquilidade de sempre, V assava um filé de carne da frigideira. Estava também sem suas luvas, deixando à vista suas mãos, marcadas eternamente pelas cicatrizes de queimaduras de terceiro grau, e usava um engraçado e estranho avental rosa. Rosa.
Isso mesmo que você leu: Rosa.
- Está ao menos me ouvindo? – vociferou Anna, dando alguns próximos em direção a ele. Ela cruzou os braços e o encarou como quem queria matar.
- Sim. – e ele respondeu com a voz breve e calma. — Tenho paciência e penso: Todo mal traz consigo algum bem¹.
Agora sim Anna estava com mais raiva ainda. Reproduziu uma espécie de rosnado em sua garganta, querendo fazer alguma coisa, mas nada fez além de respirar fundo, contar até dez e suspirar com os olhos fechados. Teve que pensar diversas outras coisas. Gatos, matar Fingermen, vingança, biscoito, filmes, V...
Não demorou para voltar a manter a calma, agora envergonhada e cabisbaixa por ter explodido daquela maneira. Ela explodindo e ele ali, tranquilo, assando a carne. Simplicidade que acalmava.
Olhou para o próprio corpo e Ela usava uma camisa Jacobean cinza de V e uma calça de seda preta. A imagem de suas próprias roupas aos trapos veio à sua mente e compreendeu que ele não podia deixá-la nua. De repente sentiu um calor no corpo e o sentimento de vergonha e pudor dominando seus sentidos.
- Não gosto de carne. — disse ela de repente. Agora era vez de desviar aquele assunto.
V se virou imediatamente para ela, confuso. A espátula ainda em sua mão nua.
- Perdão?
- Não gosto de carne. – repetiu Anna, jogando o corpo na cadeira da mesa de jantar. – Quero dizer, não de carne vermelha. Só como frango ou peixe. Odeio carne vermelha...
Um "hum" foi murmurado por V. Ele baixou a cabeça e virou-se de costas novamente. Anna, por sua vez, apoiou a cabeça na mão que estava com o cotovelo sobre a mesa numa posição de tédio. Isso durou até o momento que seus olhos focaram as mãos nuas de V enquanto ele tampava a frigideira da carne, guardando-a. Parecia uma pele desregular, coloração avermelhada em uns lugares e esbranquiçadas em outros. Era suas cicatrizes da vez que ele explodiu LarkHill e todo o seu corpo pegou fogo. Um dia de triunfo explosivo. Imaginou que devia ser por isso que nenhuma parte de sua pele era exposta, tudo escondido naquela roupa preta de vigilante vingativo, cheio de ideais. Rapidamente Anna se arrependeu de ter ficado enraivecida só por ele não ter-lhe avisado sobre sua máscara. Quem era ela para gritar por algo tão banal? Ela que tinha o rosto normal e ele o corpo queimado?
Com o olhar de culpa e vergonha, Anna disse, o tom próximo a de um sussurro:
- Desculpe por... Ter ficado com raiva. Eu não tinha o direito.
- Não há porque se desculpar. Realmente eu deveria ter avisado sobre sua máscara, já que sempre, assim como eu, manteve seu rosto escondido. Porém eu fiquei tão encantado com seu rosto que esqueci-me.
Borboletas começaram a voar e brincar dentro do estômago de Anna que apressou-se a olhar para ele, não esperando encontrá-lo observando-a. Seus olhares se encontraram e ela nem sabia, via apenas os globos negros da máscara fitando-a.
- Bem, já que não gosta de carne, gostaria de comer outra coisa?
- Ah, não estou mais com fome... — o tom dela era tão monótono que dava até desânimo.
- Você precisa comer, Anna. – ele retrucou, voz grave e repreensiva.
- Eu sei mas não quero comer sem sentir fome. Além do mais, aquele seu chá me ajudou muito. Estou bem melhor agora.
- Se você deseja assim.
Por mais que tentasse pensar em outra coisa, era necessário, era mais que preciso, perguntar:
- V...
- Sim? — ele gesticulou com a cabeça. Encorajando Anna a falar.
- Quando você estava tratando de meus ferimentos, você...
- Ah, não — ele apressou-se em responder. — Tomei todo o cuidado possível para não ver mais que o necessário ao tratar seus ferimentos. Pertubada?
- Não! É que a ideia de meu corpo exposto como imaginei que estaria me... Deixou envergonhada. — ela corou sem querer.
Aquele momento de silêncio era estranho e constrangedor. Ambos olhavam um para outro. Em parte, na verdade, porque Anna só via o vazio negro dos olhos da máscara, desejando os verdadeiros. V fitava a as curvas do rosto de Anna, deliciado com sua delicadeza e jovialidade. Suas maçãs levemente avermelhadas de um jeito fofo por estar sem graça. Seus olhos se perdiam na intensidade da íris verdes que devolviam o olhar pra ele. Os curtos e repicados cabelos castanhos ainda bagunçados porém brilhosos. Desejou poder tocar e sentir como o cabelo dela era macio com sua própria pele, não com as luvas negras de couro.
Nem notara quando ela baixou o olhar para encarar suas mãos nuas e horrendas. Feias aos olhares dele. Ficou surpreso por notar, no olhar dela, compreensão e afeto e não nojo e aversão.
Disfarçando o nervosismo, V calçou as luvas nas mãos e relembrou uma pergunta curiosa.
- O que a levou a me seguir, ser uma vigilante? Por acaso tens uma vingança em questão?
Anna endureceu o olhar na mesma hora. V viu ódio queimando em forma de globos oculares.
- Sim, assim como você viveu muitos anos, eu vivo para ter minha vingança. Matar o responsável de tudo.
- E quem seria?
V estreitou o olhar quando Anna ficou pertubada e seus ombros tensos de repente. Uma reação bastante interessante para um assunto simples para ele.
- Acho que está tarde. — ela mudou o assunto. Para dar mais ênfase, fingiu um bocejo e espreguiçou-se na cadeira. — E estou com sono...
- Então sugiro que vá dormir. Preciso resolver um coisa mas não irei demorar.
- Ok.
Fingiu outro bocejo e fez seu caminho de volta para o quarto, deixando a porta entreaberta, quase fechada, para esperar que ele saísse. Mal sabia ela que V notara ser uma mentira ou uma desculpa para não conversar sobre o assunto. Se aquilo era um assunto indesejado, não havia problema em dizer. Compreendendo, ele não argumentou ou forçou-a a falar. Daria espaço à Anna para se sentir à vontade de conversar mais abertamente.
De prontidão, Anna olhava pela pequena abertura que a porta fazia e seu coração disparou quando viu V andar em direção ao quarto. Ela correu e saltou na cama, suprimindo um gemido de dor e sofrimento por causa de seus ferimentos e ouviu a porta se abrir. Nesse momento seus olhos já se encontravam fechados e só dependeu do outros sentidos ali, super nervosa. Estava a ponto de ter um infarte.
Passos. Passos se aproximavam da cama. O som de tecido se mexendo indicava que ele deveria estar se curvando um pouco sobre ela. Depois uma mão enlivada tocou com estranho carinho e delicadeza a sua testa e deslizou-a até sua bochecha, afagando ali com o polegar.
Era um gesto de afeto. De cuidado. Anna sentiu um calor confortante na barriga e inclinou a cabeça na direção do toque de V em seu rosto. Queria sentir melhor o seu toque, sentir o calor através do couro, o calor humano. Era tão bom que a fazia se esquecer de qualquer do ambiente ao redor.
Um suspirou baixo e abafado escapuliu da boca de V no instante que Anna inclinou a cabeça contra sua mão. Ele a puxou de volta e se afastou, receioso e inquieto.
O suspiro fora tão próximo. Próximo o suficiente para provocar uma batida desregular no coração de Anna. O que ele estava fazendo? Não importava. Ela estava gostando disso. Gostando desse afeto. Queria que fosse a própria pele dele no lugar do couro, imaginando como seria o toque da pele nua de V em seu rosto.
Anna teve que conter um murmúrio desapontado a mão de V deixou de tocar seu rosto, ouvindo seus passos ficarem distantes e o barulho da porta se fechando.
Precisou esperar um pouco. Talvez meia hora, até se levantar e encontrar, às cegas, os trapos de suas roupas ensanguentadas e furadas. Vestiu-se com pressa e cuidado e depois abriu a porta. Olhou para um lado e para o outro. Tentou ouvir algum tipo de barulho. Nada. Ninguém. V não estava. Ótimo. E assim procurou pela saída e voltou a respirar o ar gélido de Londres pós-revolução.
Seu destino era sua casa. Lar, doce lar.
¹.: "Tenho paciência e penso: todo mal traz consigo algum bem." — Beethoven.
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