Notas iniciais
Obrigada a todos que comentaram e que favoritaram a história! Boa leitura!

O domingo transcorreu de forma tranquila, em família como Cora sempre gostava. No final da tarde, ao se dirigir para seu quarto, Regina pôde ver através dos vidros da janela, Emma exercitando-se no jardim dos fundos. Embora estivesse um tanto distante, era possível enxergar de forma clara, as curvas perfeitas do corpo em forma e bem torneado. Sem perceber, ela puxou o ar com força aproximando-se um pouco mais da sacada como se tentasse observá-la com uma maior precisão, todavia, no mesmo instante, ela recuou quando Zelena adentrou o cômodo sem sequer bater à porta.

— Quantas vezes terei que repetir que detesto que entrem em meu quarto sem bater? — questionou Regina, afastando-se da sacada.

— O que estava fazendo plantada ali? Está de olho na nova vizinha? — indagou Zelena, num tom zombeteiro.

— Poupe-me Zelena, e diga logo o que quer!

— Esse mau humor todo é consequência de muito trabalho e pouco sexo.

— Falou a voz da experiência!

— Essa sou eu! Agora, falando sério…vim te dar um beijo porque meu voo parte dentro de duas horas.

— Nossa! Eu esqueci completamente sua viagem. Quer que eu te acompanhe até o aeroporto? — Regina perguntou, levantando-se rapidamente.

— Não precisa, irmãzinha…é melhor você descansar porque amanhã é segunda-feira e a empresa estará te esperando de pernas e braços abertos — disse Zelena, divertida como quase sempre. — Não morra de saudades, serão apenas alguns dias — acrescentou, depositando um beijo na testa de Regina.

— Até parece! Boa viagem, Zelena.

— Obrigada, Gina.

Tão logo se despediram e Zelena se retirou, Regina voltou a se aproximar da sacada, no entanto, Emma já não se encontrava mais ao alcance de sua visão. Dessa forma, ela se deixou cair em sua cama e acabou adormecendo, despertando apenas quando a governanta da casa informou que o jantar seria servido dentro de vinte minutos.

— Onde estão meus pais? — Regina perguntou, sentando-se à mesa.

— Foram a missa, menina.

— Sendo assim não precisa servir o jantar apenas para mim. Vou dar uma volta — ela disse, levantando-se em seguida.

Regina dirigiu por alguns minutos sem rumo. Algo em sua cabeça a perturbava deixando-a inquieta. Um misto de impaciência e insatisfação se apoderava de si já tinha algum tempo, e esses “sintomas”, segundo ela mesma, começaram a aparecer quando se tornou presidente da empresa de seus pais. Sua liberdade praticamente não mais existia e aquela vitalidade de antes parecia ter se adormecido e consequentemente, poucas coisas lhe davam prazer. Foi tirada de seus pensamentos quando, ao olhar pelo retrovisor, percebeu que havia uma motocicleta a poucos metros de seu carro. Sem pensar duas vezes, ela acelerou dando-se conta de que aquele veículo de duas rodas já vinha no seu encalço a um longo percurso. Temendo um possível assalto ou coisa pior, Regina ligou para a polícia informando que estava sendo seguida por um motoqueiro e que, infelizmente, ela não conseguia informar qualquer detalhe sobre o veículo, já o piloto, pelo que podia enxergar, vestia roupa de couro preta. Depois de informar a avenida em que se encontrava, não demorou muito e duas viaturas da polícia apareceram e sem qualquer aviso prévio, “fecharam” o caminho de forma brusca que acabou resultando no desequilíbrio da motocicleta e em consequência disso, o condutor acabou caindo.

Regina que já havia parado o seu carro, se aproximava ao lado de dois policias, enquanto outros quatro, cercavam o “motoqueiro” caído no chão, com suas respectivas pistolas apontadas em sua direção.

— Fique de joelhos e retire o capacete! — ordenou um dos policiais.

— Ele pode estar machucado… — murmurou Regina.

— A queda não foi tão brusca, não se preocupe, senhorita — um outro falou.

— Vamos! Fique de joelhos e retire o capacete ou atirarei! — o mesmo policial tornou a falar, e sem esboçar qualquer reação, a figura vestindo couro preto se joelhou, surpreendendo a todos quando retirou o capacete e a cabeleira longa e loira caiu como uma cascata sobre os seus ombros.

Instintivamente, os olhos de Regina voltaram a se arregalar como na primeira vez em que cruzou com aquela mulher. A surpresa era nítida, assim como o desconserto em sua expressão ao se dar conta de que havia se equivocado ao chamar a polícia.

— Porque estava seguindo aquele veículo? — indagou o policial.

— Eu não estava seguindo ninguém. Estava indo para casa — Emma explicou.

— Está tudo bem…ela é minha vizinha — Regina falou, claramente constrangida.

— Tem certeza? — o outro perguntou.

— Sim, senhor. Eu me assustei porque não a reconheci, mas ela é sim minha vizinha — disse Regina.

— Tudo bem. Está liberada e desculpe pela abordagem, senhorita — disse o policial, e Emma nada respondeu, apenas apanhou sua motocicleta e partiu sem sequer dirigir o olhar à Regina.

[…]

— Bom dia, filha. Está tudo bem? — Henry perguntou, acompanhado por Cora, ambos se dirigiam à sala de refeições para tomar o café da manhã.

— Bom dia, papai…mamãe… — ela disse, servindo-se apenas de café. — Não dormi direito, mas estou bem — acrescentou, dando um único gole no líquido quente e escuro.

— Já vai à empresa? Você não comeu nada! — Cora a repreendeu.

— Estou sem fome, mamãe. Mais tarde como alguma coisa… — dito isso, ela se retirou.

Antes de seguir para a empresa, Regina resolveu parar por alguns minutos na casa ao lado com a intenção de se desculpar com sua vizinha pelo “episódio” de ontem. Ao descer do seu carro, meio sem jeito, ela se aproximou em passos lentos.

— Eu gostaria de me desculpar por ontem — ela disse, de supetão. Emma permaneceu na mesma posição em que se encontrava, atenta ao que fazia no motor de um carro. — Eu me assustei…pensei que fosse um assaltante ou algo do tipo, não a reconheci — acrescentou, nitidamente constrangida.

— Compreendo…talvez, no seu lugar, eu tivesse feito o mesmo. Portanto, não precisa se desculpar — Emma falou, virando-se para encará-la.

Por um determinado tempo, Regina se perdeu naquele olhar tão intenso, firme e desafiador. Eram também os olhos mais verdes e brilhantes que havia visto em toda sua vida. Aquele choque de ideias desapareceram de sua mente trazendo-a de volta a realidade quando, ao se virar, Emma acabou batendo a cabeça no capô levantado do carro, atraindo sua total atenção.

— Merda! — exclamou Emma, levando a mão à cabeça.

— Você se machucou? — indagou Regina, aproximando-se um pouco mais.

— Não foi nada…

— Deixe-me ver… — Regina disse, tocando-lhe a cabeça com a ponta dos dedos, enquanto seu olhar procurava uma possível lesão. — Não cortou, mas está um pouquinho inchado — disse ela, arrepiando-se com aquela súbita aproximação.

Emma, por outro lado, já não sentia a dor provocada por aquela pancada, uma vez que o cheiro inebriante de Regina e o calor daquele corpo perfeitamente modelado tão próximo do seu, parecia tê-la anestesiado por completo.

— Bom…era só isso… — murmurou Regina, afastando-se rapidamente.

— Tenha um bom dia, senhorita…? — ela indagou como se ainda desconhecesse o seu nome.

— Regina. Meu nome é Regina — ela disse.

— Bonito nome — Emma falou.

— Infelizmente não posso dizer o mesmo do seu — Regina rebateu, caminhando na direção do seu carro.

— Você nem sabe o meu nome!

— Alguma coisa me diz que essa oficina é sua, e que esse nome horroroso é seu. A propósito… — ela se virou para que seus olhos castanhos capturassem aquele par de esmeraldas tão brilhantes quanto os raios solares. — Emma é nome de um animal.

— É mesmo, espertalhona? Ema é uma ave e se escreve com um M apenas. O meu nome se escreve com dois! — ela explicou.

— Um M a mais ou um M a menos não faz a menor diferença. Além disso, a pronúncia é a mesma e é isso que conta!

— É claro que faz diferença!

— Para mim não faz! — Regina exclamou, retomando sua caminhada sob o olhar atento de Emma que preferiu se perder naquele rebolado sensual, a contestar os argumentos proferidos por ela.

— Minha nossa… — ela murmurou, esboçando um largo sorriso que só se desfez quando Ingrid Swan apareceu.

[…]

Enquanto Regina dirigia rumo à empresa, a imagem do rosto de Emma tão próximo do seu, invadia-lhe a mente. Por mais que estranhasse o fato de uma mulher tão bonita como aquela exercendo uma profissão tão máscula, não podia negar que aquela situação acabava por se tornar excitante. Pelo pouco que pôde observar, Emma não era muito feminina, mas também não era masculina, na verdade, era quase como uma mistura perfeita de ambos os sexos.

— Meu Deus, o que eu estou pensando?! — se questionou mentalmente, acionando o freio do carro de forma brusca ao se dar conta de que estava prestes a passar direto do destino desejado. Regina puxou o ar com força e o deixou escapar devagar, como se tentasse acalmar algo dentro de si que nem ela mesma sabia dizer do que se tratava.

Depois de alguns segundos dentro do carro parado, ela engatou a marcha ré e adentrou o estacionamento da Mills Export, disposta a ocupar seus pensamentos apenas com o trabalho e nada mais.

Emma, por sua vez, procurava controlar seu temperamento para com sua mãe, uma vez que aquele mesmo diálogo tratado com ela desde que resolvera sair de casa, causava-lhe uma exaustão sem tamanho.

— Até quando pretende manter esse circo armado, Emma? — indagou Ingrid.

— Não vejo circo nenhum — ela disse.

— Por que faz isso? Para me afrontar?

— Mamãe, diga logo o que quer porque eu tenho muito trabalho…

— Trabalho? Você chama isso de trabalho? Nossa família tem um patrimônio imenso do qual você deveria cuidar junto com seus irmãos! — Ingrid a interrompeu sem qualquer cerimônia.

— Gosto do meu trabalho! Você não entende isso? — questionou Emma.

— Isso é um trabalho para homem, não para uma dama! — ela rebateu.

— Eu não sou uma dama!

— É um homem por acaso?

— Não sou homem e nem dama! Sou uma mulher que gosta do que faz!

— Se você não desistir dessa vidinha sem fundamentos, Emma…você será deserdada!

— Tenho meu próprio dinheiro, mamãe. Não preciso do seu.

— Veremos até quando! — dito isso, Ingrid se retirou.

Emma se dirigiu aos fundos da oficina sentando-se num pequeno banco encostado na parede. Desde que seu pai faleceu vítima de um acidente de motocicleta, Emma resolveu sair de casa, mesmo contra a vontade de sua mãe, Ingrid Swan. Diferente de seus dois irmãos Anna e David, Emma descartou qualquer possibilidade de atuar no ramo do Turismo, mesmo sabendo que sua mãe era proprietária de uma das maiores redes hoteleiras do país, a Swan Ocean Palace. Não era a primeira vez que Ingrid ameaçava lhe tirar a herança, todavia, Emma não se importava, uma vez que seu pai, embora fosse de origem humilde, havia lhe deixado uma quantia significativa de dinheiro junto com os equipamentos para que ela pudesse montar sua própria oficina.

Passados alguns minutos, Emma tratou de esquecer a conversa extremamente desagradável que tivera com sua mãe, para dar continuidade ao trabalho. Enquanto ajustava as últimas peças no motor de um carro, Emma se flagrou pensando em Regina e sem que pudesse evitar, um largo sorriso brotou em seus lábios. Embora soubesse que aquela hora a morena que pouco a pouco começava a ganhar espaço em seus pensamentos não se encontrasse em casa, Emma não hesitou em focar o olhar na direção da sacada do quarto que ela julgou ser de Regina, já que por mais de uma vez, ela conseguiu observá-la sem que ninguém percebesse.

— Perdeu alguma coisa no meu quarto? — questionou Regina, aproximando-se por trás.

— Eu não estava olhando para o seu quarto — Emma respondeu, virando-se rapidamente em sua direção.

— Ah, não? E para onde estava olhando? Não me diga que estava brincando de formar desenhos com as nuvens…

— Nossa, que engraçada. Estou rindo muito — Emma falou, esforçando-se para se mostrar indiferente. — Mas e você? Perdeu alguma coisa na minha oficina?

— Não, e nem pretendo! Acontece que meu carro está com um barulho estranho e se não for muito incômodo, gostaria que você desse uma olhada — disse Regina, tentando soar o mais convincente possível, já que essa tinha sido a única desculpa que encontrou para que pudesse trocar algumas palavras com Emma.

— Não é incômodo, é meu trabalho, não?! — ela disse. — Quando quiser, traga o veículo e darei uma olhada.

— Obrigada — Regina falou.

— Disponha. Isso era tudo?

— Sim, quer dizer, não. Bom…eu também queria me desculpar por aquele tapa. Acontece que você me tirou do sério e…

— Não precisa se desculpar — Emma a interrompeu. — Eu nem lembrava mais — acrescentou, e subitamente, a expressão de Regina mudou.

— Imaginei que não lembrasse mesmo! — ela disse, aparentemente aborrecida.

— O que foi? Eu disse algo errado? — Emma perguntou, nitidamente desconsertada.

— Não foi nada! E tenha um ótimo dia! — ela exclamou, se retirando a passos largos.

— Essa mulher só pode ser louca…eu hein!

Após o aparecimento repentino de Regina e sua saída desconsertante, Emma novamente retomou seu trabalho, todavia, mal começou e logo foi interrompida pela chegada de Gold, proprietário do imóvel que ela havia alugado.

— Senhor Gold, que surpresa! — ela disse. — Algum problema? — acrescentou, ao notar a expressão estranha apresentada por ele.

— Emma, precisamos conversar…