Notas iniciais
Obrigada a todos que estão comentando e aos que favoritaram! Boa leitura!

— Ela te deu um tapa na cara? — indagou August, incrédulo.

— Sim, e pra piorar, minha mãe presenciou a cena. Por sorte, ela não viu e nem descobriu a razão daquele tapa — Emma falou. — E eu só a beijei porque pensei que ela corresponderia…se bem que ela correspondeu, mas depois, deu a louca e me bateu.

— Vai ver ela não gostou do seu beijo.

— Ninguém nunca reclamou.

— Sempre há uma primeira vez.

— Isso é verdade…mas eu não me arrependo de tê-la beijado.

— Tem certeza?

— Meu amigo, no mar dos sentimentos não importa se você sabe nadar porque o risco de se afogar é o mesmo.

— Falou a poeta!

— Se diz poetisa.

— Que seja. Está apaixonada por ela?

— Eu não sei…só sei que ela não sai da minha cabeça.

— Sim, você está apaixonada e ferrada.

— Por que ferrada?

— Por não ser correspondida.

— Talvez eu devesse ter pedido permissão para beijá-la.

— É, talvez. Mas esqueça isso e vamos trabalhar. Precisamos entregar esses dois carros até sexta-feira.

— Tem razão…

Iniciado o trabalho, Emma imaginou que pelo menos naquele momento, Regina sairia de sua cabeça. Grande equívoco de sua parte, uma vez que a cada cinco minutos, a imagem dos traços e curvas perfeitas daquela mulher lhe invadiam a mente.

Regina, por outro lado, mergulhava em um poço de arrependimento por aquela falta cometida, principalmente por admitir para si mesma que havia gostado do beijo.

— Burra! Mil vezes burra! É isso o que você é, Regina, uma burra! — ela se repreendia, enquanto distribuía pequenos golpes sobre a madeira da mesa.

— Falando sozinha, irmãzinha? — indagou Zelena, adentrando a sala de sua irmã sem ser anunciada.

— Zelena? Quando chegou? — Regina perguntou, levantando-se para cumprimentá-la.

— Ainda agora. Papai e mamãe estavam de saída então resolvi vir te infernizar.

— Hoje não…hoje eu estou sem cabeça pra isso.

— O que houve? Você está abatida…

— Não foi nada…apenas…droga! Eu me odeio!

— Ei, é sério…o que aconteceu?

Ainda que estivesse receosa, Regina confessou a Zelena seu possível interesse por Emma, ressaltando os desentendimentos, o primeiro tapa, e só então ela falou a respeito do beijo que acabou resultando naquela reação impensável de sua parte.

— Regina, como é possível? Ela te beija e você retribui com um tapa? Alias, dois tapas desnecessários porque não havia necessidade de agredi-la em nenhuma das ocasiões — Zelena falou.

— Eu sei, eu sei! Mas a primeira vez ela me irritou chamando-me de ridícula. E a segunda… — ela recuou, sem saber exatamente o que dizer.

— E a segunda…?

— Não sei. Fui pega de surpresa e me assustei.

— Se assustou por quê? Até parece que ela é a primeira mulher que você beija.

— Foi ela quem me beijou.

— Dá no mesmo. Agora diga, por que se assustou?

— Estou com medo de me apaixonar por ela.

— Acho que você já está apaixonada.

— Isso não pode acontecer…somos muito diferentes, somos de mundos diferentes.

— O que é que você está querendo dizer com isso?

— Ora, Zelena! Ela é uma…mecânica! E eu sou uma executiva.

— Mas o que isso importa?

— Nossos mundos não se encaixam!

— Isso é bobagem da sua cabeça. Alias, você está falando igualzinho a mamãe.

— Estou tão confusa…mas o melhor a se fazer é não procurá-la mais.

— Você a procurava?

— É um modo de falar.

— Olha, Gina…só vou te dizer uma coisa…se você gosta dela, não deixe que essa história de mundos diferentes seja um obstáculo entre vocês, mas, independente do que pretenda fazer, no seu lugar, eu pediria desculpas pelo tapa.

— É melhor deixar as coisas como estão.

— Você quem sabe. Bom, eu vou para casa descansar um pouco — Zelena falou, levantando-se no mesmo instante.

— Obrigada por ouvir minhas confusões — disse Regina.

— Somos irmãs e sempre que precisar desabafar, conte comigo — ela falou, despedindo-se com um abraço.

Tão logo Zelena se retirou, Regina se trancou em sua sala perdida em pensamentos. Em seu raciocínio, Cora e Henry jamais aprovariam um possível relacionamento entre ela e Emma, o que só resultaria em discussões, aborrecimentos e um péssimo clima na família. Por ora, ela resolveu que procuraria apagar aqueles momentos e a imagem de Emma de sua cabeça, e se não conseguisse, pensaria em um modo de reverter aquela situação.

[…]

Alguns dias se passaram e enquanto examinava uma pilha de papeis recém-chegados a sua mesa, Regina foi surpreendida por sua secretária com um envelope em mãos, e embora no papel não houvesse remetente, aquela pequena correspondência estava destinada a ela.

— Para mim? Tem certeza? — indagou Regina, com o cenho franzido.

— A pessoa que entregou disse que era para a senhora — disse a secretária.

— Tudo bem, obrigada.

Movida pela curiosidade, Regina esperou a secretária se retirar e no mesmo instante, abriu o envelope. Seus olhos instintivamente se arregalaram quando ela reconheceu sua própria letra estampada no cheque que dias atrás, havia pagado a Emma. Acompanhado do cheque, estava um outro papel com algumas palavras escritas.

Minhas sinceras desculpas por tê-la molestado. Essa era a última das intenções.

Emma.”

Regina perdeu as contas de quantas vezes leu e releu aquele bilhete. Sua atenção e concentração para com o trabalho tinha ido por água abaixo, nada funcionava em sua cabeça, tudo era confusão.

— Idiota! Quem está devendo um pedido de desculpas sou eu, não você! E esse cheque? O que o cheque tem a ver com tudo isso? Não basta ser idiota, tem que ser orgulhosa também? — dizia ela, andando de um lado para o outro dentro de sua sala.

— Adotou o hábito de falar sozinha? — Zelena perguntou, adentrando o cômodo.

— E você adotou o hábito de entrar em minha sala sem bater?

— Uau! Seu humor está à mil! Deixe-me adivinhar a razão…

— Eis a razão! — Regina exclamou, atirando o envelope em cima da mesa.

— Nossa! Além de apanhar, ainda pede desculpas? E esse cheque?

— Foi o pagamento de um serviço que ela fez em meu carro.

— Acho que ela desistiu de você.

— Não enche, Zelena…e por favor, deixe-me sozinha.

— Como quiser, mas vou logo avisando…não deixe para fazer o que tem vontade quando for tarde demais — dito isso, Zelena se retirou.

Algumas horas se passaram e Regina resolveu sair um pouco mais cedo do que de costume. Depois de muito pensar, ela mudou seu percurso deslocando-se até o novo endereço da oficina de Emma, decidida a pedir-lhe desculpas e claro, devolver o cheque.

Para sua surpresa, Emma não estava lá. Segundo August, seu ajudante, ela havia saído sem avisar para onde iria.

— Ela esteve aqui… — August falou.

— Ela quem? — indagou Emma.

— A madame Mills.

— Disse o que queria?

— Perguntou por você e foi embora.

— Deve ter vindo perguntar porque devolvi o cheque.

— Eu também fiquei curioso…por que devolveu o cheque?

— Sei lá…

— Tudo bem…não vai ao jantar em comemoração à formatura do seu irmão? É hoje, não é?

— Sim, é hoje. Mas não irei.

— Por quê?

— Ele não mandou o convite.

— Você é da família, não precisa de convite.

— Talvez, mas ele poderia ter vindo aqui me convidar pessoalmente, ou telefonar. Mas não…mamãe insiste mas eu sei perfeitamente que ele não quer que eu vá.

Na manhã seguinte, como Emma já imaginava, Ingrid telefonou para questioná-la sobre as razões que a impediram de comparecer ao jantar, e para sua surpresa, Emma revelou que David não havia lhe mandado o convite, e mesmo que o tivesse feito, ela deixou claro que ainda assim não compareceria, uma vez que o relacionamento dos dois nunca foi um dos melhores. De qualquer forma, aquela atitude do seu filho mais velho não agradou a matriarca da família, e em consequência disso, ela resolveu tomar satisfação.

— Porque não mandou o convite para sua irmã? — Ingrid perguntou.

— Para que? Sei que ela não viria mesmo.

— Responda o que eu perguntei, David.

— Mamãe, por favor…a senhora acha mesmo que eu passaria vergonha diante dos meus amigos com uma desmiolada metida a macho e cheirando a graxa? — ele falou, recebendo um tapa na cara como resposta.

— Nunca mais se refira a sua irmã dessa forma! — vociferou Ingrid. — Que essa tenha sido a primeira e última vez, entendeu? — dito isso, Ingrid se retirou, atraindo discretamente os olhares espantados dos funcionários do hotel.

Os dias se passavam rapidamente e desde então, Emma não teve mais nenhuma notícia relacionada a Regina. Por mais que não quisesse admitir, estava sim apaixonada, caso contrário, não pensaria naquela mulher vinte e quatro horas por dia. A todo instante, a lembrança do beijo martelava em sua cabeça aumentando a vontade que ela sentia de procurá-la e declarar seu amor, todavia, sempre que pensava nessa possibilidade, o momento do tapa surgia em sua mente como um lembrete, alertando-a para se manter distante.

Era uma tarde de sexta-feira. Regina retornava para casa quando seu carro, sem motivo aparente estancou, e por pouco não causou um acidente naquela via movimentada.

— Alguém lançou algum tipo de feitiço nesse carro, porque não tem condições! — esbravejou Regina, golpeando o volante. No mesmo instante, ela ligou para Zelena, entretanto, sua irmã mais velha não atendeu. — Também, o que ela poderia fazer? Nada! — ela falou consigo mesma, enquanto procurava em sua carteira, o cartão da seguradora, mas em vez disso, ela encontrou o cartão da oficina de Emma.

Depois de muito pensar, Regina finalmente ligou, uma vez que já passava das dezessete horas e logo anoiteceria e consequentemente, seria perigoso permanecer muito tempo ali, especialmente por se tratar de uma mulher.

Emma quase não acreditou quando viu o número de Regina piscando no visor do seu telefone celular, e ainda que seu coração estivesse palpitando de felicidade, ela lutou com todas as suas forças para se mostrar indiferente. Minutos depois, Emma apareceu ao lado de August e sem que pudesse evitar, o coração de Regina disparou. Fazia alguns dias que seus olhos castanhos não encontravam os verdes, e agora, diferente do que imaginou, seu corpo reagiu da forma que ela tanto queria evitar.

— Esse carro não gosta de você — Emma comentou, num tom brincalhão, esforçando-se para se mostrar o mais natural possível.

— Estou começando a acreditar nisso — Regina falou, esboçando um meio sorriso.

— Creio que o problema esteja no motor e tenho quase certeza que esse problema é de fábrica. Terei que levar seu carro para oficina — ela disse.

— Tudo bem… — ela murmurou, procurando uma forma de se aproximar. — Eu…

— August levará a senhorita até sua casa — Emma a interrompeu. — Pode retirar sua bolsa e outros objetos que forem necessários, e assim que o carro estiver pronto, eu aviso — acrescentou, enquanto discava algum número em seu telefone celular.

— Vamos, senhorita Mills? — August a chamou, e extremamente sem graça, Regina o acompanhou.

— Ela me ignorou! Nem me olhou direito! — dizia Regina, enquanto dava voltas e mais voltas dentro do seu quarto.

— E o que você queria? Que ela estendesse um tapete vermelho e se ajoelhasse aos seus pés?

— Não era isso que eu queria…

— Regina, você se comportou como uma adolescente boba e sequer teve a decência de pedir desculpas.

— Você está do lado dela sem nem ao menos conhecê-la…

— Eu estou do lado da razão e se eu fosse ela, teria mandado você à merda!

— Zelena, sai do meu quarto!

— Eu vou sair mesmo porque você está insuportável — dito isso, Zelena se retirou.

Assim que amanheceu, ainda que fosse sábado, Regina levantou cedo para fazer sua caminhada que geralmente praticava nos finais de semana, já que a empresa só funcionava de segunda a sexta. Ao passar em frente a propriedade de Gold onde Emma se instalou por poucos dias, Regina desejou nunca tê-la conhecido, mas agora, como não podia mudar os acontecimentos passados, resolveu interferir nos possíveis acontecimentos futuros. Tão logo retornou para casa, após o banho e o café da manhã, Regina pegou o carro do seu pai e dirigiu ao encontro de Emma.

— Anna? Aconteceu alguma coisa? — Emma perguntou, ao notar a presença de sua irmã mais nova.

— Aconteceu que eu vim te visitar. Como está? — ela perguntou, envolvendo-a num abraço apertado.

— Estou muito bem, obrigada. E você?

— Estou bem, mas o clima lá em casa não está muito bom.

— O que houve?

— Mamãe e David brigaram feio porque ele não te mandou o convite para o jantar.

— Eu sinto muito…mas eu avisei a mamãe que com ou sem convite, eu não iria.

— Você não precisa se afastar de nós porque optou por levar uma vida diferente daquela que mamãe planejou pra você.

— Eu não me afastei…só ando um pouco ocupada, assim como vocês.

— Mamãe quer a família junta, unida…

— Anna, por favor…será possível que quando você se casar, continuará vivendo com seu marido naquela casa?! Mamãe tem que entender que depois de adultos, os filhos tendem a seguir com suas vidas.

— Porque você acha que mamãe comprou aquela mansão?

— Boa sorte, minha irmã! — Emma disse, e as duas gargalharam.

— Bom, eu já vou. O que acha de um domingo em família? Mamãe ficará muito feliz — dizia Anna, enquanto caminhava ao lado de Emma na direção do seu carro.

— Está bem…avise a mamãe que domingo passarei o dia na mansão — ela disse, e após um abraço apertado, Anna se foi.

Do outro lado da rua, Regina observava a cena, e mesmo sem querer admitir, estava morrendo de ciúmes.