Notas iniciais
Obrigada a todos os comentários e favoritos! Boa leitura!

— Mãe, podemos conversar agora?

— Claro, filha. Vamos à biblioteca.

Assim que entraram e se acomodaram, Ingrid a encarou por um longo momento, a mente tomada por pensamentos angustiantes.

— Emma você está me assustando. Aconteceu alguma coisa?

— Mamãe, não estou gostando de te ver assim, sempre com medo, com tanto cuidado…

— Eu não suportaria te perder outra vez. Juro que não suportaria.

— A senhora não me perderá…agora me deixe dizer o motivo dessa conversa, aliás, são dois motivos.

— Estou ouvindo querida…

— Bom, dentro de alguns dias é aniversário do senhor Leopold e eu gostaria de presenteá-lo.

— Meu amor, está mais do que certa!

— Acontece que o presente é um pouco caro. Mas será de grande utilidade para ele e sua neta.

— E do que se trata?

— Então…como a senhora sabe, eles sobrevivem da pesca e a lancha utilizada na pescaria está caindo aos pedaços…

— Quer dar uma lancha de pesca de presente para ele?

— Sim, mas eu não tenho o dinheiro…

— É claro que tem, meu amor. Não se preocupe com isso. Aliás, aquelas pessoas merecem muito mais do que uma lancha de pesca. Eles salvaram sua vida.

— Obrigada, mãe. Eu gostaria que a senhora viesse comigo para escolhermos a lancha.

— Com todo o prazer, minha menina. Agora, do que se trata o segundo motivo dessa conversa?

— Bom…eu queria seguir em frente e pretendo fazer isso. Mas não estou me sentindo à vontade aqui com David e Regina. Não posso viver sob o mesmo teto que eles.

— Eu compreendo… — disse Ingrid, segurando-lhe as mãos. — Pedirei ao seu irmão para que procure um apartamento e…

— Não, mamãe. Não é isso que eu quero.

— Não estou entendendo, filha…

— Vi nos classificados uma casa de frente para o mar nas proximidades do cais…

— Não, Emma. Por favor. Não quero que saia de casa — Ingrid falou, a expressão aflita em seu rosto era chocante.

— Mamãe, não é longe daqui e eu prometo que virei visitá-la todos os dias. Mas no momento, eu preciso de espaço. Um espaço para mim, só meu.

— Filha, com o tempo…

— O tempo nesse momento é como um relógio dentro do meu coração que palpita cada vez que eu penso nela…cada vez que a encontro pelos cômodos da casa… — ela explicou. — Não é de tempo que preciso, mamãe. É de espaço.

— Está bem. Segunda-feira, após comprar o presente do senhor Leopold, olharemos a casa e será como decidir.

— Obrigada, mãe.

— Senhorita, Emma…desculpe interromper. A senhorita Ruby está aí — avisou uma das empregadas.

— Vamos, filha. Vamos aproveitar esse dia de sol.

Lá fora, na borda da piscina, David conversava com Anna sobre trabalho quando Regina se juntou a eles. Minutos depois, Ingrid acompanhada de Emma e Ruby apareceram, e sem pensar duas vezes, Regina escondeu os seus olhos faiscantes de raiva e ciúmes por trás das lentes escuras dos seus óculos de sol.

— Não vai dar um mergulho? A água parece ótima! — indagou Ruby.

— Não, fica para a próxima — Emma respondeu, e Regina sorriu discretamente diante daquela resposta.

— Então faça a gentileza de cobrir minha pele com esse protetor solar — ela disse, e não conteve o sorrisinho ao testemunhar a fúria com que Regina olhou para elas.

Virando-se para o outro lado com a desculpa de perguntar alguma coisa a Ingrid, Regina tentava ignorar o quanto aquela cena a afetava. Ela sabia que não tinha o direito de sentir ciúmes, mas sentia o que sentia e fim de papo. Dividida entre a necessidade de expulsar Ruby da mansão e implorar perdão a Emma, Regina se levantou, pediu licença e se recolheu para o quarto.
O restante do final de semana se passou de forma tranquila. Emma evitava esbarrar com Regina pelos cômodos da casa, enquanto Regina procurava sempre uma desculpa para encontrá-la.

Na segunda-feira, conforme o combinado, Emma e Ingrid saíram à procura do presente de aniversário de Leopold, e posteriormente, fariam uma visita à casa que Emma transformaria em seu novo lar.

— Quase não acreditei quando vi a notícia. Foi realmente um milagre ela ter sobrevivido — dizia Zelena.

— Pois é…foi mais de um ano pensando numa morte que não existia — Regina falou.

— E como estão as coisas na mansão? O que ela disse sobre seu casamento com o irmão dela?

— Ela se mostrou indiferente. Disse que seguirá com a vida dela do mesmo jeito que eu segui com a minha.

— Então vocês estão se falando numa boa?

— Claro que não, Zelena. Ela me evita, me ignora. Ainda mais com aquela imbecil se oferecendo o tempo todo.

— De quem você está falando?

— Aquela idiota que trabalha com David, a tal Ruby…agora não sai da mansão!

— Ah, eu lembro que você comentou a respeito dela. Mas elas são amigas já tem um bom tempo, não?

— Mais que amigas…tenho certeza que tiveram algo antes de nos conhecermos.

— Bom, o que pretende fazer? Agora que está casada…

— Me arrependo amargamente desse casamento. Meu Deus…como eu fui idiota.

— Por que não pede o divórcio, Regina?

— É isso que vou fazer. Mesmo que Emma me despreze pelo resto da vida, eu não posso continuar ao lado do irmão dela quando é ela quem eu amo de verdade.

Naquele mesmo dia, as horas se passaram mais depressa do que Regina desejava. A todo instante seu coração travava uma batalha interna, ora querendo estar perto de Emma, ora desejando se afastar o máximo possível. Tinham se passado apenas três dias desde o seu retorno, e a partir de então, suas noites eram como se fossem dias, sem sono, passadas em claro.

— Onde está mamãe, Granny? — David perguntou.

— Na biblioteca, seu David — ela respondeu, e em passos largos, ele se dirigiu até lá.

— Mamãe, posso entrar?

— Claro, filho.

— Estava conversando com Anna esta manhã e ela comentou sobre uma compra no valor de duzentos mil dólares. Foi a senhora?

— Sim, fui eu quem fiz a compra.

— Bom…e posso saber o que comprou nesse valor tão alto?

— Uma lancha de pesca.

— Lancha de pesca? — ele repetiu, claramente confuso.

— O senhor Leopold faz aniversário esses dias e Emma me pediu para comprar esse instrumento de trabalho para lhe dar de presente.

— Instrumento de trabalho? Não posso acreditar que a senhora gastou duzentos mil dólares com um presente para um pescador morto de fome! — David exclamou, perplexo com a atitude de sua mãe.

— Gastei e gastaria muito mais se assim fosse preciso! O que aquele homem fez por sua irmã nenhum dinheiro do mundo pode pagar!

— Não seja ingênua, mamãe! Pelo amor de Deus! Agora se Emma quiser trazer o velho e sua neta para viver conosco, teremos que aceitar só porque ele…

— Já chega, David! Não questione as minhas decisões!

— Tudo bem…continue fazendo tudo o que Emma quer e depois não se arrependa! — dito isso, ele se retirou.

Quando a noite chegou, a família inteira se reuniu no horário do jantar. Desde que Emma havia retornado, essa era a primeira vez que Regina sentava à mesa junto com ela, uma de frente para a outra. Era possível sentir a tensão e o desconforto cada vez que os olhares se cruzavam, e a situação só não se tornava ainda mais constrangedora, porque Anna a todo momento abordava um assunto diferente.

— Mamãe comentou sobre o aniversário do senhor Leopold. Eu posso ir junto? — Anna perguntou.

— Claro que sim, Anna — disse Emma.

— Você e Regina virão também, David? — questionou a mais nova.

— Minha esposa não conhece esse sujeito, então não vejo razão alguma para ela estar presente. E quanto a mim, tenho assuntos muito importantes que não podem esperar por causa do aniversário de um pescador.

— Não menospreze os outros assim, David…são seres humanos como todos nós — disse Ingrid, claramente aborrecida com o tom usado por ele.

Ainda que sentisse vontade de rebater as palavras do irmão, Emma optou por permanecer em silêncio. Por alguns instantes, ela chegou a pensar que David havia mudado um pouquinho que fosse, principalmente depois da conversa que tiveram após o jantar quando ele retornou de viagem, no entanto, estava claro que seu irmão não conseguia esconder sua verdadeira face por muito tempo. Dessa forma, ela não conseguiu evitar imaginá-lo se aproveitando dos momentos de instabilidade de Regina para persuadi-la a se casar com ele.

— Meu Deus…estou procurando uma razão para justificar o que ela fez… — Emma disse, em pensamento.

— Filha? Está se sentindo bem? — Ingrid perguntou, ao notá-la imóvel e cabisbaixa.

— Sim, mamãe… só estou com dor de cabeça. Vou deitar um pouco, com licença — ela disse, levantando-se em seguida.

— Eu vou com você, meu amor — disse Ingrid.

— Não precisa, mãe…

— Está vendo porque não quero que vá embora? — ela disse, sobressaltando-se com o som de uma taça se quebrando no chão.

— Desculpem…me distrai… — murmurou Regina, lutando com todas as suas forças para esconder a angustia que sentiu ao ouvir as palavras de Ingrid.

Mais uma noite insone. Cada vez que Regina fechava os olhos, a imagem de Emma se formava em sua mente misturada aos pensamentos conflitantes que atormentavam sua cabeça. Apenas o fato de imaginá-la distante, lhe doía o coração.

— Eu preciso falar com ela…eu preciso me explicar, preciso pedir perdão… — dizia Regina, em pensamento, até que finalmente o sono lhe venceu.

Na manhã seguinte, Regina esperou que David e Anna saíssem na tentativa de conseguir alguns minutos a sós com Emma, entretanto, seus esforços foram por água a baixo quando Granny informou que Emma saíra bem cedo. Quase uma hora se passou e como ela não retornou, Regina recorreu a Ingrid.

— Ingrid, podemos conversar um minuto? — ela perguntou.

— Claro, Regina. Sente-se — ela disse, indicando a cadeira ao seu lado.

— Bom…é melhor ir direto ao ponto…Emma quer ir embora por minha causa?

— Ela não está se sentindo bem depois que soube do seu casamento com David.

— E eu poderia saber para onde ela pretende ir?

— Felizmente, ela não irá para longe…quer uma casa de frente para o mar aqui mesmo em Storybrooke.

— Que bom…digo, desse jeito a senhora não sofrerá tanto a ausência dela.

— E nem você.

— Como?

— Você não é feliz com David e ainda a ama.

— Emma nunca me perdoará por isso.

— Você está fazendo por onde conseguir o perdão dela?

— Eu não sei o que fazer…

— Se você não sabe, quem saberá? — Ingrid indagou, e em resposta, Regina abaixou a cabeça. — Eu tenho que sair agora…e se serve de alguma coisa, Emma foi visitar a casa que pretende comprar — dito isso, Ingrid se retirou.

Regina não pensou duas vezes e antes de se dirigir à Mills Export, desviou o trajeto e em poucos minutos se encontrava nas proximidades da casa onde Emma estaria. Seu coração bateu mais forte ao ver o carro dela parado.
Ainda que seus passos fossem hesitantes, ela não pensava em desistir do seu propósito, especialmente por saber que teria o apoio de Ingrid para conseguir o perdão de Emma, e quem sabe uma reconciliação com ela.

Emma analisava os cômodos da casa chegando a conclusão de que a estrutura se encontrava em perfeitas condições. As únicas mudanças que ela pensava em fazer estava relacionada com a decoração. Seus pensamentos foram interrompidos quando o som da campainha se fez presente, e ao abrir a porta, um arrepio lhe percorreu o corpo quando seus olhos verdes cruzaram com os brilhantes castanhos de Regina.

— Posso falar com você um minuto? — Regina perguntou.

— Eu já estou de saída — Emma respondeu.

— Prometo não tomar muito o seu tempo — ela argumentou.

— Está bem… — Emma disse, dando passagem para que ela entrasse.

Um silêncio sufocante pairou sobre elas quando Emma fechou a porta. Regina então a fitou bem no fundo dos seus olhos, e conseguiu enxergar seu sofrimento.

— Estou ouvindo… — disse Emma, quebrando o silêncio entre elas.

— Foi tudo o que eu encontrei para ficar perto de você…

— O que está dizendo? — Emma perguntou.

— Eu me casei com David na ilusão de encontrar nele qualquer coisa que pertencesse a você.

— E você encontrou?

— Não…não encontrei porque você é única.

— Se era apenas isso que tinha para dizer, pode se retirar.

— Não era apenas isso… — ela fez uma pausa, sentindo-se desesperada. — Por favor, me perdoe.

— Regina…

— Eu te amo, Emma…

— Você está casada agora.

— Não por muito tempo. Pedirei o divórcio e…

— Nada disso me interessa mais.

— Por favor…se você ainda me ama, me perdoe…eu imploro de joelhos — Regina falou, e estava prestes a se ajoelhar, mas Emma a impediu.

— Não faça isso, por favor — disse Emma, puxando-a lenta e delicadamente pelos braços.

— Eu te amo, Emma. Por favor, sei que nesse momento você me odeia…

— Não, Regina — ela a interrompeu. — Eu não te odeio…e nem te amo mais.

Assim que as palavras saíram de sua boca, Emma desejou poder pegá-las de volta. Ela sabia que estava dizendo uma mentira e isso lhe doía, tanto quanto certamente doeria em Regina.