Notas iniciais
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Eu passei o domingo inteiro de ressaca, com meu irmão Marcus me enchendo o saco.

— Se não sabe beber, bebe leite pirralho!!! — Eu ouvi essa frase o dia todo, o que só contribuiu pra minha dor de cabeça. Meus pais me deram uma bronca quilométrica por ter chegado em casa bêbado e passando mal.

Passei o domingo todo pensando em Claire, tento me arrependido amargamente de não ter pego o telefone da garota. Eu nem podia acreditar que tinha finalmente beijado uma garota, e uma garota bonita alem de tudo. Tudo bem que foi culpa do álcool no sangue, mas ainda assim eu tinha ficado feliz com isso. Afinal, eu já tinha 15 anos completos, era uma vergonha um cara da minha idade nunca ter ficado com nenhuma menina.

Já era segunda de manha e eu estava indo pra escola de novo. Minha bicicleta tinha chegado a algum tempo já, mas a preguiça me fazia ir de ônibus. Andar era muito cansativo e eu estava acostumado já. Eu estava doido pra ver Milla, nós não havíamos nos falado desde antes do jogo, na sexta feira.

Quando me lembrei de Milla minha consciência pesou, afinal apesar de Claire ser linda, eu tinha certeza que meu coração era de Milla. Ainda assim eu não conseguia parar de pensar em como foi bom ficar com Claire. Além do mais, minhas chances com Milla são quase nulas mesmo, ela não me vê como algo alem de um amigo.

Cheguei na escola encontrando Pete entrando pelos portões, fui logo dando um cascudo nele.

— Seu bêbado maldito — eu sussurrei quando agarrei ele pra dar o cascudo.

— Augh... para com isso japa— ele disse se soltando.

— Cara, você é um tremendo estraga prazeres!

— Você que é um novato burro mesmo, se não queria que ninguém atrapalhasse a sua agarração com a Mac devia ter procurado um lugar discreto e não o mais visitado da casa! — ele disse com um tom ofendido que eu nunca tinha escutado antes.

— Mac? — eu perguntei confuso.

— Macbright. É o sobrenome da Claire. — ele disse sério, subindo as escadarias.

Nós chegamos encontrando a sala de aula cheia de alunos já. Meus olhos procuraram por Milla instintivamente, encontrando uma Claire, agora em roupas comportadas, sentada em cima de uma das cadeiras mais a frente. Ela conversava animadamente com uma garota de olhos puxados. Ela abriu um enorme sorriso quando me viu, me chamando. Eu, como sempre, fui.

— Bom dia japinha! — ela disse animada, com um enorme sorriso no rosto. Foi impossível não corresponder aquele sorriso lindo dela.

— Bom dia Claire! — eu respondi animado também. Nós ficamos ali batendo papo, ela tendo esquecido completamente a amiga com quem falava antes. Eu me sentei em uma das cadeiras próximas a ela e fiquei ali enquanto o professor não chegava.

— UHUM — ouvi ao lado do meu ouvido, me fazendo pular. Olhei pra trás vendo Milla sorrindo com meu susto.

— Putz, quer me matar do coração Milla? — eu disse afoito.

— Não, isso eu não tava querendo não. Se você saísse do meu lugar já tava de bom tamanho.

— Opa, foi mal. Nem lembrava que você sentava aqui— eu disse sem graça, corando.

— Ele tava conversando comigo só, relaxa sua nerdzinha! — Claire respondeu irritada, me fazendo olhar assustado pra ela.

— Fica na sua ai garota, vai ver se eu to lá na esquina, vai — Milla usou o mesmo tom de voz irritado de Claire.

— ehrr... o professor já deve chegar, é melhor eu ir pro meu lugar mesmo! — Eu falei levantando rápido, antes que elas começassem a discutir de verdade na minha frente.

Fui andando até o final da sala, logo vendo uma cena que me chocou de inicio. July sentada na minha cadeira, conversando animadamente com jake. Eles nem perceberam que eu tava ali na frente parado. Olhei confuso pra Mat, que apenas balançou os ombros, voltando a conversar com Pete. Resolvi não atrapalhar os dois e me abaixei ao lado da cadeira de Pete e Mat me inteirando da conversa.

— Caralho, não acredito Pete. Tu é uma anta mesmo! — Mat disse batendo a mão na testa.

— O que aconteceu?

— Meus pais me colocaram de castigo, porque eu cheguei bêbado em casa.

— E porque ele vomitou no tapete da sala também. — Mat completou rindo.

— Putz. Se isso te deixar melhor, eu levei uma bronca homérica dos meus pais. E passei o dia com meu irmão mais velho rindo da minha ressaca.

— Pelo menos você ficou com uma garota na festa, o Pete nem isso conseguiu! — Mat disse em tom de deboche.

— Cala a boca Mat! — Pete disse irritado. Nessa hora o professor entrou na sala, fazendo o desejo de Pete ser atendido. E a minha cadeira ser desocupada.

Quando o intervalo veio, eu pude ver mat todo animado cutucando Jake.

— Hey, grandão, nem pense em sumir com a July agora. Você vai contar tudinho que rolo lá pra gente!

— Não rolou nada seu Mané, eu e a July só conversamos durante a festa. Bando de marmanjo desocupado! Na hora da saída a gente se fala manada. — Jake disse saindo antes que Mat tivesse chance de segura-lo.

— Maldito! — Mat gritou rindo pro amigo — mas você não me escapa japa.

— Eu?

— É você. Conta ai cara, como você conseguiu ficar com a garota mais desejada da nossa sala? O Pete aqui ta tentando essa proeza desde a 5º série! — ele disse novamente em tom de deboche, olhando a carranca que Pete tinha no momento.

— Mathew Black, ou você cala essa latrina sua, ou eu arrebento a sua cara antes do final da aula. Você podia ser um pouco menos insuportável? — Pete disse já puto da vida levantando e deixando nós dois ali.

— Eu acho que você o irritou.

— Não liga, é assim mesmo. Ele ta com raiva é de você. — Mat disse rindo.

— Mas eu nem fiz nada. — disse indignado.

— Fez sim. Você ficou com a garota por quem o Pete é apaixonado desde quando ele se entende por gente. Ta bom que tu nem sabia disso, mas agora já era japa.

— Como ninguém me diz um troço desses? Vocês queriam que eu adivinhasse?

— Por ai! — disse debochado, se levantando — vamos lá pra baixo, to enjoado de ficar dentro dessa sala já.

Nós íamos saindo, quando uma Milla emburrada se juntou a nós.

— Oi, vocês vão ter que me aturar hoje. — ela disse forçando um sorriso, me fazendo cair na gargalhada.

— Já sei. A July te trocou por um certo gigante loiro? — Eu disse sarcástico.

— Esse mesmo. Vocês vão pra onde?

— Pras quadras, vem com a gente também. Hoje eu vou fazer nosso amigo japa aqui falar como uma maritaca! — Mat disse me dando um tapa nas costas. Ótimo, tudo que eu precisava nesse momento era Milla ouvindo sobre eu ter ficado com Claire. Cara, eu odeio meus amigos às vezes.

— O japa falando? Isso é novidade! — ela disse debochada enquanto descíamos as escadas.

— É mesmo, mas você perdeu Milla. Sábado ele tava tagarelando que nem um papagaio. Teve até coragem de chegar em uma menina. Fiquei impressionado.

— Nossa japa! Quer dizer que o garoto tímido desabrochou!! — ela disse com deboche, os dois rindo da minha cara.

— Argh... para de palhaçada vocês dois. Eu tava bêbado e foi ela que chegou em mim. — eu disse corando de cabeça baixa.

— Nossa caius, a gente te dá a chance perfeita de se passar por um cara legal, e você se entrega assim. Por isso que eu te amo cara! — Milla falou, rindo junto com Mat.

Eu passei o resto do intervalo sendo zoado pelos dois, tendo me arrependido amargamente de não ter feito o mesmo que Jake e July, e sumido. Quando a aula acabou, eu estava ali arrumando meus materiais quando senti uma mão me cutucando as costelas.

— augh! — eu disse virando pra ver quem era o engraçadinho.

— Oi caius! — uma Claire sorridente olhava pra mim com cara de inocente. Eu ri com a visão da garota.

— Oi Claire, achei que você não viria falar comigo mais hoje. — me fingi magoado.

— Desculpa, mas na hora do intervalo eu fiquei ocupada com o dever de casa que eu deixei de fazer. — ela disse se explicando.

— Quer dizer que você deixa seus deveres pra fazer na hora da aula? Que coisa feia dona Claire! — eu disse rindo dela, enquanto saiamos da sala.

— Nem faço isso sempre, foi só que ontem eu tava com a cabeça ocupada de mais pra pensar em dever de casa — ela disse corando.

— É? E passou o dia com a cabeça ocupada com o que? — perguntei curioso.

— Fiquei pensando na noite de sábado... — ela disse olhando pra baixo.

— Eu também — disse corando.

Nós ficamos um olhando pra cara do outro, toda a minha coragem do outro dia tinha se esvaído junto com o álcool. Foi quando eu senti um puxão na gola da camisa, sentindo os lábios da garota tocando os meus em um beijo calmo, completamente diferente dos anteriores. Eu retribui prontamente, esquecendo que estávamos no corredor da escola.

—UHUM — nós paramos imediatamente quando ouvimos o pigarro. Olhei pro lado avistando Mat, Milla, Jake, July e Pete nos encarando. Meu rosto ficou escarlate no mesmo momento.

— Os pombinhos vão ficar ai se agarrando ou a gente vai conseguir ir embora hoje? — Pete disse, a irritação presente em sua voz.

—E-eu to indo galera — eu gaguejei, pra variar um pouco. Me virei pra Claire — Pra que lado você mora?

— Hardmore.

— Ótimo, você vai com a gente então — respondi todo alegre a puxando pela mão, logo recebendo olhares raivosos de Milla e Pete.

Conversamosanimadamente durante todo o caminho, quase nem notando a presença dos outros ali. Acabei descobrindo que Claire morava na rua paralela a minha.

— Hey, Claire, o que você vai fazer mais tarde? — perguntei enquanto me despedia dela.

— Não me lembro de nada importante. Por quê?

— Erh... Você gostaria de ir ao cinema comigo?— o nervosismo me atacando de novo.

— Eu ia adorar! — ela disse me mostrando seus dentes perfeitos em um sorriso perfeito.

— Ótimo, passo aqui às três, ok?

— Ta certo, vou ficar te esperando. — ela disse se aproximando de mim e roubando um beijo. Claire entrou no prédio me deixando ali com cara de bobo, olhando pro nada. Deus, eu preciso parar com isso, ou ela vai acabar enjoando de mim.

•••

Nunca na minha vida eu imaginei que eu ficaria tão nervoso, depois que a ficha tinha caído e eu havia percebido que eu tinha marcado um encontro com uma garota, o desespero tomou conta de mim. Eu, Caius Shimada Dashwood tinha conseguido marcar um encontro com uma garota. E o mais assustador, ela era bonita e divertida. Deus, onde esse mundo vai parar.

Eu tava ali na frente do espelho, mudando minha roupa pela enésima vez, me sentindo uma garota. Em menos de meia hora eu deveria estar na casa de Claire, mas meu nervosismo me fez acabar saindo de casa bem antes.

Toquei o interfone, sendo avisado que a garota logo desceria. O cinema ficava perto do centro, dependendo da boa vontade dela nós poderíamos ir a pé mesmo. Quando eu a vi fiquei em estado letárgico pelo que pareceram horas. Ela estava deslumbrante. A mini saia rodada bege com uma blusa colada, o decote deixando tudo que podia amostra, sem ser vulgar. Fiquei ali babando até me dar um selinho.

— Vai ficar me olhando com essa cara de bobo o dia todo, japa?

— Ehr... não não. Vamos? — eu disse apresado, constrangido pelas palavras dela.

O cinema foi magnífico. Não que eu tenho conseguido assistir ao filme, Claire fez questão de ocupar minha boca durante todo o tempo possível, eu que não iria reclamar. Nós não conversamos muito durante a tarde inteira, mas isso não a deixou menos interessante.Era incrível como Claire era bonita e empolgada, me distrai tanto que nem lembrava mais do resto do mundo. Se o mundo tivesse acabado naquele dia nós nem teríamos notado.

— Sabe japa, você até que é bonitinho, mas bem que podia cortar esse cabelo. — ela disse quando passamos em frente a uma enorme loja que tinha um espelho gigante. — Ele ta crescendo muito desgovernado, quem olha de longe acha que você nem penteia ele.

— Sé-sério? Eu gosto dele assim... — disse envergonhado. Meu cabelo é tão estranho assim?

— Não que não tenha gente que não goste, mas é que te deixa com mais cara de nerd. Suas roupas só contribuem pra isso, sabia? Daqui a pouco você ta andando igual a mondronga da Milla por ai. — ela disse em tom de deboche, me deixando meio chocado — Olha aquela loja ali, é careira mas as roupas são bem mais legais do que as que você costuma usar.

— Olha a hora! — eu disse me fingindo assustado, não estava tarde, mas as ultimas palavras dela me fizeram ter vontade de fazer a garota sumir. Ela podia ser o quão bonita fosse possível, mas isso não dava o direito de falar mal de amigos meus e nem de querer mandar no modo como me visto. — já ta tarde, eu tenho que estudar. Vamo embora?

— Nossa, mas são sete horas ainda. Seus pais não vão ligar.

— erh, eles são controladores com meus horários. — eu menti descaradamente.

— Ta bom então, vamos. — ela disse irritada andando na minha frente. A garota agradável se transformou na pessoa mais irritante do mundo em poucos minutos. Fiquei chocado com a transformação da garota.

— Não vai nem me dar um beijo de despedida? — ela disse me puxando, quando chegamos ao seu prédio e eu fiz menção de ir embora acenando. Beijei a garota, sem a empolgação de antes, rezando pra me livrar logo dela.

— Eu tenho que ir mesmo, até amanha. — eu disse afastando ela.

— Nossa, seu grosso. — ela disse irritada.

Cheguei em casa com o pensamento distante. Incrível como as pessoas mudam. Eu não tinha nem notado que ela era tão metida. Deve ter sido a culpa do álcool da noite anterior e a euforia de estar com uma garota pela primeira vez.

— Ei, pequena mala! — Marcus me chamou colocando a cabeça pra fora do quarto quando eu passei no corredor.

— Que foi?

— Dexa de ser mal educado. Entra aqui, comprei um presente pra você. — ele disse sorrindo, o que me deixou desconfiado. Entrei no quarto vendo um violão novinho em cima da cama dele.

— Que isso?

— comprei pra você seu mal agradecido!

— Mas eu não toco violão, nem você.

— Pois é, mas você pode aprender.

— Você ganho isso aonde? — disse levantando uma sobrancelha.

— Num sorteio lá da faculdade. — ele falou ainda rindo — Como eu não toco, e nem to com paciência pra aprender, vo te dar ele de presente, assim não ocupo meu quarto com quinquilharia inútil. E você não vai poder falar que nunca ganho nada do seu irmão favorito. — ele disse abrindo um enorme sorriso falso.

— Ta, ta. Eu fico com ele. — disse querendo me livrar logo do mala do meu irmão. Eu até que podia aprender a tocar mesmo, tinha nada melhor pra fazer.

Peguei o violão novo e levei para o meu quarto. Procurei na internet vídeos de aulas de violão para iniciantes e me ocupei o resto da noite com isso. Até que era divertido tocar, apesar de eu ser horrível naquilo, quem sabe um dia eu conseguia tirar um som reconhecível do violão.

•••

Acordei com enormes olheiras em baixo dos olhos no dia seguinte. Perdi a hora e acabei tendo que ir pra escola de bicicleta já que perdi meu ônibus. Quando cheguei na sala de aula o professor já tinha chegado e estava no meio da chamada.

— Chegou cedo hoje, hein senhor Dashwood? — o professor me repreendeu.

— Desculpe senhor, eu perdi a hora. — eu disse abaixando a cabeça.

— Para de se desculpar e vai sentar no seu lugar antes que eu resolva te mandar pra detenção por isso.

Me sentei no fundo da sala como sempre, tendo ignorado todos os olhares sob mim enquanto caminhava. Odiava atrair tanta atenção dos outros.

— Já tava pensando que você não vinha hoje, garanhão. — Mat sussurrou no meu ouvido quando o professor virou-se pra escrever o quadro. — A noite foi boa hein rapaz?

— às vezes você consegue superar o Pete na chatice, sabia? — eu disse irritado, ignorando todas as tentativas dele e dos caras de falar comigo durante o resto da aula.

— Atrasou tanto hoje porque? — perguntou Pete na hora do intervalo.

— Eu fui dormir tarde, acabei perdendo a hora. Meu irmão me deu um violão de presente, acabei ficando tempo de mais tentando fazer alguma coisa ouvivel sair daquele troço.

— Nossa, que emocionante hein japa? — disse Milla se aproximando da gente.

— Já sei, a July te trocou pelo Jake de novo? — disse Mat.

— Exatamente meu caro anão.

— Anão é a m... — ele foi interrompido quando Pete tampou sua boca com a mão.

— Olha a educação rapaz. — ele disse rindo — vamo descer. — Pete disse indo na frente.

Nós seguimos ele e acabamos sentando na arquibancada do campo, como sempre.

— Mas e ai garanhão, como anda seu rolo com a Claire? — Perguntou Mat com um sorriso sacana no rosto. Pude notar que a expressão de Pete mudou completamente à menção do nome da garota.

— Não anda, ela é muito chata. A gente foi no cinema ontem a tarde, no momento em que ela parou de me beijar e começou a falar eu descobri que tinha me metido numa fria. Nunca mais fico com ninguém bêbado. — eu disse desanimado.

— Viu, por isso que eu não namoro. As meninas bonitas são sempre um saco de se agüentar. Prefiro elas ocupadas me beijando do que falando. — disse Mat.

— Cara, você é nojento Mat. — disse Milla rindo da afirmação dele.

— Ele é nojento mesmo, ignore-o minha cara Milla. — disse Pete, com uma expressão mais agradável no rosto.

Nós passamos o resto do intervalo conversando por ali. Incrível como Milla tinha se dado tão bem com Pete, o dois juntos era um inferno.Depois da aula tinha treino de football, o primeiro depois do jogo.

— vão bora! — disse Mat animado quando a sineta tocou. — Eu to com uma vontade de bater nos outros hoje — ele disse olhando pra mim e sorrindo. Hoje eu ia ter que correr muito pra escapar daquele mala no treino.

— to indo, to indo. Vão na frente que eu encontro vocês no vestiário, dexa só eu tirar uma duvida com o professor que eu vou. — eu disse empurrando Mat.

— Anda logo japa. — Jake disse.

Andei até a frente da sala, onde o professor conversava com alguns alunos.

— Ei, japa, preciso falar contigo. — Claire disse me puxando pelo braço.

— Ehrr... eu to com pressa, pode ser outra hora? — eu disse tentando me esquivar da garota inconveniente.

— Não, vem logo. — Ela disse me puxando pelo braço. Eu tava com a maior cara de perdido ali sendo arrastado pelo corredor por uma garota da metade do meu tamanho. Droga.

— ei Japa! — ouvi a voz de July. — onde você ta indo, esqueceu do treino? — ela disse puxando meu outro braço com força. Jess estava ao seu lado observando toda a cena.

— larga ele sua oxigenada! Eu preciso conversar com o MEU namorado! — disse Claire, me deixando chocado com as palavras. Namorado? Desde quando?

— Como assim namorado? To sabendo disso não. — eu disse puxando meu braço, indignado pela petulância da menina.

— Seu ignorante! — ela berrou no meio do corredor me assustando — É assim então? Me usa e depois joga fora?

— Mas hein? — eu disse muito assustado pelos gritos da garota.

— Vamo logo antes que ela tente matar alguém. — July susurrou no meu ouvido me puxando pra longe da lunática, Jess puxando meu outro braço enquanto tentava controlar o riso. Varias cabeças já haviam surgido nas portas dos corredores graças aos berros de Claire. Eu segui July e Jess de bom grado, ignorando os berros de Claire.

— Caramba, que medo. — eu disse quando saímos do prédio.

— Sim, muito medo dela. — Disse Jess, ainda tentando controlar o riso.

— Isso que dá ficar pegando menininha bêbado, depois tem que agüentar a maluca no seu pé. Bobeou japinha. — July riu de mim junto com Jess. Fiquei preocupado com a situação, mas logo que cheguei no treino esqueci o barraco da garota e me preocupei em sobreviver ao treino pesado do coach Baisen e aos tackles de Mat.

Quando o treino acabou descobri que não só July e Jess, mas Milla também tinha ido assistir nosso treino hoje. Aproximei-me das meninas depois de sair do vestiário.

— Quer dizer que o japa garanhão já arrumou uma perseguidora lunática? — disse Milla quando eu me aproximei.

— A garota é doida e desminto tudo que essas duas afirmarem. — eu disse, vendo July me lançar um olhar maligno.

— Seu japa conquistador barato! — ela disse rindo.

— que historia é essa? — Jake disse aparecendo atrás de mim.

July fez questão de contar todo o barraco de Claire de novo, e de novo conforme nossos amigos iam chegando. Fiquei aliviado por isso, afinal de contas eu não agüentava nem pensar em toda essa confusão, quanto mais narrar ela diversas vezes. Fomos todos juntos pra casa como acontecia sempre que as meninas iam pra casa da tia de July, sem o Pete hoje, já que ele tinha ido embora mais cedo. Jess se despediu da gente, indo pegar o ônibus no ponto próximo a escola.

— Mas ai japa, quer dizer que você agora ta tocando violão? — Milla perguntou quando eu contei do presente do meu irmão.

— Teoricamente sim, mas eu ainda não sei fazer nada. Acho que vou procurar alguém que entenda do assunto pra me ensinar, eu sou muito lerdo com essas coisas pra aprender sozinho.

— Hm, então hoje é seu dia de sorte! Já que a July vai sumir o resto da tarde com o nosso amigo gigante, — ela olhou de esguelha pro casal que conversava distraído logo a nossa frente— eu posso te ajudar com isso. O que você acha? — ela disse sorrindo.

— Você toca violão? — perguntei abismado.

— é claro. Prefiro o baixo, mas violão é bem divertido também.

— caramba, que medo de você. Tu num tem cara de quem saca de musica. — eu disse verdadeiramente assustado.

— Mas então, eu só tenho uma condição. Vou querer abrigo na sua casa hoje a tarde já que a July quer ficar o dia todo com o Jake. Feito?

— Claro, minha mãe não liga. Vai almoçar lá também?

— eu ia almoçar na casa da tia da july, mas pode ser na sua também, vo comer as custas dos outros de qualquer forma.

Meu coração palpitava alegre só de pensar em passar a tarde inteira com Milla. Despedimos-nos dos outros e seguimos pra minha casa. Ao entrar em casa minha mãe colocou sua cabeça pra fora da porta da cozinha:

— Quem é a menina bonita? — ela perguntou sorrindo pra mim e Milla.

— Mãe, essa é a Milla, ela é da minha sala.

— muito prazer senhora Dashwood! — Milla foi até minha mãe e apertou sua mão.

— Alem de bonitinha ela é educada! Que graça, é bom ver que meu filho anda com tão boas companhias! — mamãe disse alegre, me deixando um pouco sem graça. — é ela a mocinha com quem você foi ao cinema ontem Caius?

Nunca fiquei tão corado em toda a minha insignificante existência. As vezes eu simplesmente odiava ter pais tão presentes na minha vida.

— erhhhh.... n-nâo, não!

— Foi com a Claire Mcbright que ele saiu ontem senhora daschwood. — disse Milla prontamente ao ver que eu demoraria a responder.

— Ohhh, uma garota diferente a cada dia meu filho? Que horror, já não basta o seu irmão ser um galinha, você também? — minha mãe disse com uma cara de mágoa extremamente forçada.

— É assim senhora dashwood, o garanhão aqui sai todo santo dia com uma menina diferente. Hoje ele me deu a honra de ser sua escolhida! — Milla disse, ela e minha mãe caindo juntas na gargalhada enquanto eu imaginava a forma mais rápida e indolor de me matar.

— Por favor me chame de Yumi, o senhora dashwood eu deixo pros meus clientes lá do escrutorio. — mamãe disse sorrindo carinhosamente pra Milla. — Vai almoçar conosco hoje Milla?

— A Milla vai me dar aula de violão hoje, tem algum problema dela passar a tarde por aqui? — eu disse, ainda com resquícios de vermelhidão em minha face.

— É claro que não Caius! Mas você bem que podia ter me avisado, vai que ela não gosta da minha comida?

— Erh... foi mal mãe.

— Você tem algum problema com comida japonesa, minha querida? — mamãe disse amável como sempre.

— não, nenhum. Eu gosto muito até! — Milla disse feliz.

— ótimo então. Vão procurar o que fazer então, porque eu ainda to longe de terminar o almoço.

— Sim senhora! — eu disse batendo continência, arrancando risos de minha mãe e Milla.

Eu levei Milla até o meu quarto, onde nós deixamos nossas mochilas.

— Nossa, sua casa é enorme japa! — ela disse admirada enquanto eu lhe mostrava o resto do apartamento.

— Nem é tão grande assim.

— E eu adorei a sua mãe, ela não trabalha hoje?

— Não, as vezes durante a semana ela deixa os estagiários com todo o serviço e passa o dia em casa comigo e o meu irmão. Mamãe simplesmente adora cozinhar pros outros.

— ela é japonesa mesmo?

— É sim. Nós comemos comida japonesa quase sempre aqui em casa por causa disso.

— Caramba, eu pensava que você era um mero descendente.

— Bom, teoricamente eu sou. Eu não nasci no país da minha mãe, ao contrario do meu irmão.

— Quantos irmãos você tem?

— um, só o mala do Marcus mesmo. Daqui a pouco você conhece a peça.

Nós sentamos na sala e ficamos ali conversando sobre coisas aleatórias até minha mãe servir o almoço.

— Podem se servir crianças! — ela disse sorridente. Nós comemos conversando, minha mãe muito interessada em saber tudo sobre Milla. Ela tinha simpatizado muito com a garota. No final das contas eu acabei sofrendo muito com isso, já que as duas adoravam me deixar sem graça.

Depois do almoço, eu e Milla lavamos os pratos e fomos para o meu quarto. Milla me ensinou o básico sobre as notas musicais e como fazer os sons do meu violão saírem audíveis. Eu acabei descobrindo que a culpa de ser tão ruim não era exclusivamente minha, mas do fato do meu violão estar completamente desafinado.

Ela tentou me ensinar a afinar ele, mas eu não tive sucesso nenhum com isso. No final das contas Milla era tão boa com o instrumento musical que eu me sentia completamente envergonhado de tentar tocar alguma coisa depois de vê-la tocando.

— Fica desanimado não japa. É assim mesmo, você ta aprendendo agora, eu toco violão desde os 7 anos de idade, é normal que eu seja muito melhor nisso do que você.

— 7 anos? Putz, nunca que eu vo chegar no seu nível! — eu disse desesperado.

— Deixa de ser dramático! Um dia você chega lá, mas por hoje chega, seus dedos já tão sangrando cara!

— É mesmo né? — eu disse olhando pra minhas mãos, meus dedos ardiam um pouco. Milla me passou um exercício simples com o violão e me fez prometer que o faria todos os dias até a nossa próxima aula, que seria da próxima vez que seu pai lhe desse uma folga a tarde.

— Mala menor, to vendo que tem companhia hoje hein garanhão? — Disse Marcus aparecendo sorrindo no meu quarto.

— Oi, eu sou a Milla. — ela disse educadamente se levantando pra comrimentar meu irmão mais velho.

— Oi, Marcus. Prazer em te conhecer Milla. — ele disse sendo simpático. — Nunca pensei que fosse encontrar uma garota no quarto do meu maninho caçula, já tava começando a achar que você era frutinha sabe. — ele disse, chorando de rir da minha cara de raiva.

— some daqui seu puto! — eu gritei jogando uma almofada na direção dele. Ele se esquivou abaixando.

— to indo estudar, garanhão, se precisar de alguma coisa é só falar. — Marcus disse enquanto saia do quarto, ainda rindo de mim.

Passamos o resto da tarde sentados ali conversando. Eu descobri que Milla não só sacava muito de instrumentos musicais, ela era aficionada por musica. Ela fez questão de me mostrar varias de suas bandas favoritas no computador. Fiquei impressionado com o gosto dela pra musica, era um tanto quanto... excêntrico. Milla era fã de rock pesado estrangeiro, a maioria de suas bandas favoritas era da terra de minha mãe.

— Milla, você tem um gosto estranho pra musica. Como você entende o que esses travestis japoneses tão falando?

— Eu estudei um pouco de japonês, oras. Qual é japa, eles são bons, admita! Aposto que você gostou.

— É legal sim, mas não deixa de ser bizarro. Olha a forma como esses caras se vestem! Eles parecem meninas estranhas! — eu disse abismado. A maioria dos músicos que Milla me mostrara se pareciam com mulheres, bonitos de mais pra serem homens de verdade.

— Vai dizer que você não entende nada do que eles tão falando ali?

— Só um pouco, eu não sou lá muito fluente no japonês. Mamãe ensinou pra gente quando éramos mais novos, mas eu nunca me preocupei em aprender direito. Sempre achei meio irrelevante aprender a falar direito uma língua que eu quase não uso.

— Mas se a sua mãe é do Japão, isso significa que você tem parentes por lá, certo?

— certo, eu só não falo com eles oras. Acontece nas melhores famílias.

Já eram quase 7 horas da noite quando Milla foi embora, minha mãe tendo pedido a garota que viesse almoçar conosco mais vezes. A concordância de Milla com minha mãe me deixou nas nuvens, a tarde com a garota fora fantástica. Eu me sentia cada vez mais próximo dela e isso me aquecia por dentro. Fui dormir aquela noite com aqueles olhos cor azuis pairando em minha mente.