Uma Nova Vida
1 O inicio de tudo
Notas iniciais
Eu peguei minha mochila nova em cima da estante enfiando o fichário dentro dela de qualquer jeito. Era o primeiro dia de aula na escola nova e eu já estava completamente atrasado, ótimo isso.
Cheguei correndo na sala, parando em frente ao enorme espelho que cobria uma das paredes. Eu vi meu reflexo nele, um rapaz no auge dos seus 15 anos, com os cabelos de um negro vivido, caindo sobre os olhos verdes puxados, a pele muito clara. O verão tinha feito muito bem pra mim, minha cor já não era fantasmagórica como antes de mudar para aquele apartamento a uma quadra da praia. E eu tinha crescido uns bons 10 cm desde o inicio das minhas férias de final de ano, feliz por agora ser maior que meu irmão mais velho.
1,78 era uma boa altura, minha tia tinha me dito da ultima vez que me viu “sabe, as pessoas dessa família não crescem muito, você devia ficar feliz que puxou a família do seu pai e não a nossa”. Eu tinha que concordar com ela, era difícil ser um garoto baixinho na escola, sempre fora pra mim. Mas esse ano não, eu estava começando uma vida praticamente nova. Casa nova, escola nova, cidade nova.
Eu sai de meu devaneio quando minha mãe colocou a cabeça pra fora da porta da cozinha me apresando. Sai correndo dando um rápido tchau pra ela e pegando o lanche em cima da mesa. Eu fiquei muito aliviado de descobrir que o ônibus tinha atrasado hoje de manhã também.
Definitivamente não saberia chegar à escola nova sem o ônibus que meu irmão tinha me falado. Ela não ficava longe o bastante pra se ir a pé, mas eu nem conhecia minha vizinhança nova, quem dirá os caminhos pros lugares fora do bairro.
A escola ficava no centro da cidade, levei uns 6 min dentro do ônibus pra chegar lá. Assim que minha bicicleta chegasse, junto com o resto da mudança eu iria usá-la pra vir à escola e poupar a grana que meus pais me davam pra passagem.
Eu cheguei à escola, já não tão afoito quanto antes, o sinal nem tinha batido ainda, eu teria tempo de sobra pra procurar a minha sala. Procurei no quadro de avisos logo na entrada do colégio, encontrando sem nenhum problema um papel com o indicativo das salas e andares de cada ano. Achei fácil, 1º ano A, sala 2, 2º andar.
A escola era um conjunto de 3 prédios. O primeiro era onde ficava a administração do lugar, um prédio de dois andares, pequeno. Eu segui pelo corredor que levava ao segundo prédio, passando por um pátio a céu aberto com uma enorme fonte bem no meio, vários bancos de pedra o circulavam. Atravessei o portão em meio à grande quantidade de alunos que se espremiam para passar pelo enorme portão de entrada do segundo prédio. Esse era enorme em comparação ao primeiro, tinha cinco andares e era de um azul muito escuro, da mesma tonalidade da camiseta do meu uniforme.
Eu entrei nele e segui o fluxo que me levou até as escadas do lugar. Subi até o segundo andar, um grande fluxo de gente ao meu redor, o menor espaço agora que estávamos na escadaria fazia parecer que a quantidade de pessoas ali tinha triplicado. O corredor do meu andar era imenso, varias portas se estendiam pelo corredor, nas duas paredes do lugar.
Achei facilmente a minha sala, era uma das primeiras do corredor, entrando e sentando na cadeira mais ao fundo da sala que eu encontrei. Eu era novo ali, não ia querer chamar atenção dos professores lá na frente.
O colégio meridiano era uma escola tradicional na cidade, uma das melhores. A maioria dos alunos da minha sala deveria estudar juntos desde o jardim de infância. Deveriam se conhecer desde sempre.
Eu estudei em uma escola assim em minha outra cidade, quase todos de minha sala se conheciam desde os primórdios de nosso ensino, eu sabia como era ter gente estranha pra compartilhar o espaço.
Eu fiquei ali sentado vendo os alunos entrarem conforme o tempo passava, fiquei observando meus novos colegas de sala entrarem com alvoroço assim que o sinal bateu. Vários garotos entraram na minha sala, a maioria sentando ali no fundo como eu tinha feito, um grupo deles se sentou a minha volta, eles eram três. Um garoto muito mais alto, e mais musculoso que eu, de cabelos loiros platinados sentou-se na cadeira ao meu lado, outro bem mais baixo, com os cabelos castanhos espetados sentou-se na frente do rapaz loiro. O ultimo era mais baixo que eu, seus cabelos eram tão negros quanto os meus, sentou-se na cadeira logo a minha frente, virando-se imediatamente pra mim.
— Meu nome é Peter, prazer. — ele disse estendendo a mão na minha direção.
Eu apertei sua mão, ainda um pouco receoso.
— Caius. Prazer.
Ele riu da minha voz tremula.
— Não precisa ficar sem graça japa. A gente não morde — ele disse abrindo um sorriso cheio de dentes— esses são Jacob e Mat — ele apontou o garoto loiro e o de cabelos castanhos respectivamente — você veio de onde novato?
— acabei de mudar de Elgin, eu estudava em uma escola agrícola por lá.
— escola agrícola? O que diabos se faz em uma escola agrícola? Você tirava leite de vacas ou coisa do tipo? —ele perguntou o claro tom de deboche em sua voz, o sorriso altamente sarcástico em seu rosto.
— erh... eu nunca tirei leite de vacas — eu respondi extremamente sem graça, as gargalhadas de Peter e seus amigos agora muito altas em meus ouvidos. Meu rosto devia estar tão vermelho quanto um tomate nesse momento.
Meu alivio veio quando o professor entrou na sala, todos se virando pra ele e esquecendo a minha existência ali no canto. Era aula de inglês, o professor era um senhor baixinho seus cabelos, ou a falta deles mais precisamente, denunciavam sua idade já avançada. Eu estava tentando prestar atenção o Maximo possível.
Eu ouvi alguém batendo levemente na porta da sala. O professor parou de falar e olhou com a testa enrugada na direção da porta, mandando quem estava ali fora entrar. Uma garota alta, com os cabelos lisos caindo até quase a sua cintura, seus olhos eram de um tom claro muito intenso, ela devia ser quase da minha altura, muito magra e com um ar imponente, entrou na sala pedindo desculpas pelo atraso. Ela veio caminhando até o fundo da sala, a essa hora as carteiras na frente já estavam todas ocupadas. Seus passos foram seguidos por todos os olhos do ambiente, mas ela não estava nem sequer corada com isso, eu imaginei como ela conseguia tal fato, eu já estaria laranja de tão sem graça se estivesse no lugar dela.
Seu ar era de uma imponência que me assustava um pouco, mesmo assim eu não consegui despregar os olhos dela, eu nunca tinha visto algo mais gracioso na minha vida. Eu sentia que minha boca deveria estar levemente aberta, mas meu cérebro parecia não estar funcionando direito nesse momento. Meus olhos estavam fixos nela, eu nem sequer conseguia piscar. Eu agradeci aos deuses por não ser o único que olhava pra ela nesse momento.
A menina se sentou na cadeira logo ao meu lado, e assim que ela olhou para mim eu fiquei duro, virando minha cabeça pra frente numa velocidade recorde, fingindo não notar a sua existência ali. Eu devia estar vermelho. De novo.
•••
Aquele dia havia sido definitivamente o dia mais longo de minha vida. Até aquele momento pelo menos. Eu estava agora em minha cama deitado refletindo sobre o que tinha acontecido hoje. Minha mente pairara na garota que se sentou ao meu lado na sala. Ela era linda aos meus olhos, mais linda do que qualquer coisa que eu pudesse imaginar. Ela ficou sentada ali ao meu lado a manha inteira, só se levantando na hora do intervalo, eu pude perceber que assim como eu ela deveria ser nova na escola. Ninguém ali pareceu conhecer ela também.
E eu nem sequer consegui reunir coragem o suficiente pra me virar e perguntar o seu nome. Eu definitivamente preciso melhorar minha timidez.
Eu passei meu intervalo sentado com Pete, Jacob e mat. Eles eram mais legais do que eu imaginava, eles me carregaram pela escola me explicando tudo que eu precisava sobre o lugar. Eu descobri que o terceiro prédio da escola abrigava a imensa biblioteca do lugar. Era assustadora de tão grande. Apresentaram-me também ao centro esportivo do lugar, ali havia mais campos e quadras do que eu pude contar, ficamos um bom tempo rodando por ali, com eles me falando sobre a imensidade de esportes e clubes culturais que a escola disponibilizava pros alunos.
Pete era o mais extrovertido do grupo, sempre muito falante, eu percebi que ele não enchia só a minha paciência, mas a de todo mundo que desse uma brecha pra ele. Jacob não era o tipo muito falante, ele conseguia ser mais quieto do que eu, isso era definitivamente impressionante, ele era do time de futebol americano da escola, mas eu não consegui descobrir exatamente em qual posição ele jogava. Mat era legal também, mas ele era um tanto quanto esquentado, eu fiquei com a impressão de que ele ia bater em Peter a cada brincadeira sem graça que o mais alto fazia. E ele também era do time de Jacob. Eu nunca tinha jogado, mas a essa altura já estava pensando seriamente em tentar entrar também. Seria bom andar o máximo possível com os meus novos amigos.
A gente havia conversado sobre os alunos novos, eles me deram a confirmação de que a garota da cadeira ao lado era novata também. Todos a acharam um pouco estranha, séria de mais segundo Pete. Eu fiquei incomodado com os comentários, eu não achei ela estranha, ela era a pessoa mais graciosa que eu já tinha visto.
Eu descobri que Pete e Jacob moravam perto do meu apartamento. Nós voltamos juntos, Pete morava a duas quadras do meu prédio e Jacob morava no prédio ao lado do meu. Mat morava no bairro vizinho, ao contrario de nós ele vivia em uma casa.
Viemos conversando sobre vários assuntos aleatórios. Agora eu estava ali deitado ao invés de estar fazendo os deveres que os professores passaram. Não que eu não quisesse fazê-los, mas o rosto daquela garota ainda estava ali, me fascinando, eu não conseguia me concentrar em nada.
Minha porta abriu com um estrondo muito alto:
— E ai pequena mala, como foi a aula na escola nova?— era meu irmão mais velho, Marcus. Ele veio e se jogou em cima do meu estomago, me fazendo guinchar de dor no mesmo instante. Eu odiava quando ele fazia esse tipo de coisa.
— argh, você podia não me machucar de vez em quando, sabia?
— e onde estaria a graça nisso? — ele disse abrindo um sorriso demoníaco no rosto, começando a fazer cócegas nas minhas costelas.
Marcus era quatro anos mais velho que eu, ele tinha acabado de conseguir entrar na faculdade de direito de Hardshare, era mais por causa dele que nós tínhamos nos mudado. Meu pai pedira transferência para a sede de sua empresa na cidade, e minha mãe tinha conseguido uma vaga em um escritório de advocacia no centro. Meu irmão e eu éramos muito diferentes, eu tinha cabelos negros como minha mãe, ele era loiro como meu pai. Eu era muito parecido com minha mãe, e ele era igual ao meu pai.
Marcus era divertido, ao contrario de mim ele não era nem um pouco tímido. Ele, assim como eu, puxara os olhos puxados da família de japoneses de nossa mãe.
— afinal, gostou ou não da escola nova? — ele estava sentado na beirada da cama agora
— foi... divertido, posso assim dizer. Eu conheci uns caras que moram aqui perto, acho que vou tentar entrar no time de Futebol americano.
— futebol americano, é? Você não é meio pequeno pra isso não? — ele disse com seu tom de deboche costumeiro
— nem sou, to maior que você já. E existem posições em que não se precisa ser um monstro pra jogar. — eu disse emburrado.
Ele riu da minha cara, bagunçando meus cabelos — Boa sorte lá então anãozinho. Você não devia estar estudando? — ele disse levantando meu fichário jogado no chão ao lado da cama.
— eu ia fazer isso quando você entrou no quarto, ok? Agora some daqui vai, deixa de ser chato.
Ele saiu rindo alto do quarto. Às vezes ele me tirava do sério mais fácil do que eu gostaria.
•••
Eu acordei com o despertador no dia seguinte, dessa vez eu tinha conseguido tomar o café da manha tranquilamente. Jacob e Peter já estavam em baixo do meu prédio quando eu desci pra ir pra escola. Eles me cumprimentaram e nós fomos caminhando pra escola hoje. Mat nos encontrou no meio do caminho. O caminho até a escola era menos tediante com os caras, Peter parecia não conseguir ficar um minuto sequer sem falar, e isso era divertido.
Nossa primeira aula hoje era matemática. A garota de ontem estava sentada em uma das primeiras carteiras da sala hoje. Eu lamentei internamente por isso. Ela estava tão linda quanto eu me lembrava, eu tentei não olhar muito pra ela, definitivamente eu não queria Pete enchendo a minha paciência por causa disso.
Quando o intervalo chegou, nós descemos pro pátio, mat me mostrou o anuncio do time de futebol que estava pendurado nas paredes dos corredores. O time estava abrindo vagas para jogadores novos, os teste seriam 3 dias.
— E ai japa, vai tentar entrar também? — mat perguntou olhando pra mim
— eu acho que sim.
— a qual é, olha o tamanho dele mat, você num acha que vão massacrar ele lá não? — Pete disse divertindo-se com a minha expressão indignada
— eu sou maior que o mat! — eu falei indignado com Pete
— deixa de ser mala Pete, você nem viu o cara jogar ainda. Alem do mais, você nem joga futebol, aposto que ta falando isso pra chamar ele pro baseball depois.— Mat disse ignorando a minha afirmação sobre a sua altura
— bom, ele parece ser leve o suficiente pra correr bem, agora que você mencionou, eu acho que o time de baseball também abriu vagas pra novos jogadores — Pete tinha o sorriso muito aberto e olhava Mat em um tom muito provocador.
— demente — mat rosnou pro amigo. Nesse momento Jacob puxou mat pra longe de Pete, eu fiquei agradecido por isso. Eu não acho que conseguiria impedir mat de arrebentar a cara de Pete sozinho.
— sem discussões hoje crianças — Jacob disse — o japinha ai escolhe o que ele quer fazer ou não. E para de encher a paciência Pete. — a voz dele era muito grossa, eu presumi que ele já estava acostumado a impedir esses dois de se matarem.
Pete deu de ombros virando e indo em direção as quadras.
— você é muito sem graça jake, eu só tava brincando, ok? Vamos lá pro japinha aqui fazer a inscrição dele no teste logo, anda manada.
Nós fomos até a sede do time de futebol onde eu fiz minha inscrição pro teste, mat e Pete conversando como se nada tivesse acontecido.
Quando voltamos a sala de aula eu vi a linda garota dos cabelos longos e lisos sentada em sua carteira de hoje, conversando animadamente com uma menina loira, seus longos cabelos balançando enquanto ela gesticulava. Jacob tropeçou enquanto nós andávamos, me fazendo cair junto com ele bem em frente as garotas, mat pulando por cima de nós e Pete parou, não se agüentando de tanto rir. Eu me levantei o mais rápido que eu consegui, eu devia estar púrpura nesse momento, andei em direção a minha cadeira sentindo os vários olhares dos outros alunos nas minhas costas. A risada de Pete ainda muito alta lá na frente.
Eu passei o resto das aulas do dia tentando prestar atenção nas aulas e ignorar a conversa de Pete e mat. Eles não paravam de comentar sobre as garotas da nossa sala, eu não queria ser chamado atenção pelos professores logo no segundo dia de aula.
Quando o sinal do final da aula tocou eu fiquei aliviado, queria sair correndo da sala, ainda embaraçado pelo tombo mais cedo. A menina tinha olhado, ela tinha me visto que nem um paspalho caído no chão. Só de pensar eu já me sentia com vergonha.
Eu levantei e fui andando logo atrás de Pete.
— ei Milla, me espera, a gente vai embora junto. — eu ouvi a menina de cabelos loiros dizendo a menina que eu admirava.
Milla. Era esse o nome dela. Era um nome lindo, Milla.
Pelo menos o nome dela eu sabia agora.
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