Uma Nova Vida

1 Primeira parte.


Notas iniciais
Apreciem a leitura.

“Sua opinião realmente não me importa.” “Mas eu sou sei pai!” “Não é como se eu tivesse pedido por isso ou como se você agisse como um.” “Sua vagabunda, mal educada! Não dê as costas para mim! Enquanto você estiver na MINHA casa, vai seguir as MINHAS regras.”

E foi depois destes elogios que virei às costas para meu pai pela última vez. Subi correndo as escadas antes que ele tivesse a chance de me deter e passei a chave na porta, não abrindo nem mesmo quando minha pobre mãe chamou ou quando meu irmão veio ver como eu estava. Eu estava decidida, nunca mais veria a cara daquele porco imundo. Ainda teria dinheiro suficiente para livrar minha mãe e irmão das mãos daquele porco bêbado. Eu teria esse dinheiro, sabia disso. Só ainda não tinha ideia de como conseguir isso.

E foi depois que todas as luzes da casa apagaram-se e eu não conseguia ouvir um rangido sequer do velho assoalho de madeira estalado sob passos, que abri a minha janela e desci a árvore do quintal, rumo a uma nova vida. E foram estes acontecimentos que me trouxeram onde estou. Algum lugar distante da minha antiga vida rumo a uma nova cidade, rumo ao desconhecido.

Comprei a passagem para o primeiro ônibus que chegasse a rodoviária e embarquei. Meu escasso dinheiro, economia de todo um verão trabalhando, não duraria nem mesmo dois dias.

Quando cheguei ao meu destino, o dia ainda não havia amanhecido. Desci do ônibus, peguei minha mochila e sai caminhando distraidamente por ruas desconhecidas. Eu sei que isso é imprudente, mas dane-se. Não tenho e nunca tive nada a perder.

Estava procurando uma lanchonete 24 horas quando avistei um grupo de rapazes em uma equina, bebendo e fumando. Eram cinco garotos, provavelmente todos mais velhos que eu. Continuei andando, sem olhar enquanto eles mexiam comigo e me chamavam.

Foi quando me cercaram. Nunca pensei que conheceria pessoas tão nojentas, sujas e vis como estas. Estava enganada.

Eu só queria que tudo acabasse logo, para poder morrer em paz. Bem, depois de tudo aquilo eu ainda apanhei. Chances de sobreviver? Bem, muito poucas. Mesmo apesar de toda a dor eu ainda tinha pensamentos coerentes e sabia disso. Ter tantos ferimentos assim, ser machucada das formas que eu fui e sobreviver parece uma chance bem remota.

Eles estavam rindo, caindo bêbados. De repente o bando barulhento se calou, ouvi um barulho. Parecia o de ossos quebrando. Esperava que algum deles tivesse tropeçado e quebrado o pescoço, eles mereciam. Na verdade, mereciam morte pior.

Alguém me tomou nos braços. “Tudo vai ficar bem”, sussurrou uma voz grave no meu ouvido. Então algo me cortou. Bem no meu pescoço. Parecia uma mordida, mas não poderia ser. Que espécie de mente doentia morderia uma moribunda?

Algo estava sendo sugado. Meu sangue estava sendo sugado. Do meu pescoço. O que isso significava? Eu não conseguia entender ou pensar. Não sabia nem como estava acordada, como meu corpo suportava. Parecia que meu corpo não pensava na ideia de se deixar apagar, para morrer e virar comida de vermes. Ele não aceitava aquela derrota. Eu queria aceitar.

Então uma dor abrasadora começou. Era como fogo varrendo minhas veias, uma dor alucinante. “Fique calma, não se preocupe. Eu dei um jeito neles, e darei em você. Apenas não grite” repetiu aquela voz. A voz era tão bonita, o tom tão calmo e tranquilo que eu quase queria obedecer, mas a dor era demais. Tentei abrir meus olhos, mas não vi nada. Meus olhos estavam turvos. Gemi. Um gemido que se não estivesse tão acabada teria sido o mais terrível grito, mas não passou de um gemido. Quase um sussurro.

Fui carregada para algum lugar, eu acho. Senti o vento correndo pelo meu corpo, mãos me segurando e mais tarde me depositando no chão.

A dor era tamanha que chegava a ser irracional. Meu corpo ferido queria se debater, gritar. Mas não conseguia. Desmaiei.

Não sei quando tempo passou, mas sei que demorou. Talvez três dias. Quando estava perto do fim, eu já estava consciente. Já conseguia até mesmo gritar. Já conseguia ouvir ruídos distantes, o barulho de uma cachoeira, peixes nadando. Não que eu já tenha escutado o barulho de peixes nadando antes, mas eu sabia o que era.

Mas a dor foi diminuindo, até que com uma batida de coração acabou. Eu fiquei surpresa, parada. Tentei mexer um braço, depois outros. Me coloquei de pé. Abri os olhos. Me encontrei sozinha.

Estava em uma velha cabana desprovida de móveis, suja e mal cheirosa. Ouvi um barulho de bater de assas e me virei assustada. Virei-me tão rápido como nenhuma pessoa deveria conseguir. Era apenas uma libélula, mas era diferente. Era mais nítida, conseguia ver cada detalhe. As cores eram mais ricas, e não só as cores dela. Mas as cores de todas as coisas. Tudo era mais nítido, tudo estava diferente. Conseguia ver coisas que nunca conseguira antes, via até mesmo os grãos de pó.

Sai para a rua. O sol bateu em minha pele, então um brilho intenso saiu dela. Era como um diamante. Tranquei a respiração. Descobri que não precisava respirar, apesar de me sentir desconfortável sem realizar este movimento.

Estava assustada, sozinha e perdida.

Então uma sede abrasadora me tomou e eu só podia correr. Correr em direção a um cheiro tão suculento quanto desconhecido por mim.

-x-

Continua... Ou não.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Comentários são sempre muito bem-vindos.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.