"O Finn não tá." Kurt informou, secamente, enquanto começava a fechar a porta que tinha acabado de abrir, sem imaginar que a campainha de sua casa tinha sido tocada por Rachel Berry.

"Eu sei." Ela revelou, impedindo-o de fechar a porta. "É com você mesmo que eu quero falar."

"E por que eu falaria com você?" Questionou, antipático. "Eu já to sabendo de tudo, Berry."

"Porque eu to desesperada? Porque eu adoro o seu irmão e... eu não sou uma pessoa do mal... e eu PRECISO de uma chance pra provar que eu não fiz nada contra você?" Suspirou. "Porque eu to implorando, Kurt... por favor!" Ela tinha lágrimas nos olhos e, mesmo sem saber por que, o rapazinho ficou mexido com aquilo.

"Ok." Ele devolveu, abrindo a porta e fazendo sinal para que ela entrasse.

"O Finn acha que eu fiz alguma coisa contra você, por causa dessas coisas que apareceram no meu armário." Ela tirou todas as coisas que estavam em seu armário e não eram dela da mochila e deu a ele. "Eu sei que é difícil acreditar em coisas aparecendo no armário de alguém, sem que a pessoa saiba como. Mas você não acha que, além de ser uma fingida e uma covarde, eu teria que ser muito BURRA pra fazer alguma coisa usando esse material aí e colocar tudo justamente no meu armário?" Ele não respondeu, apenas ficou pensativo. "Por que guardar isso na escola, no armário ao qual o seu irmão vai comigo o tempo TODO, se eu podia guardar em qualquer lugar... tipo na minha casa, embaixo da minha cama?"

"Tem lógica." Ele comentou, batendo no queixou.

"Infelizmente, outras pessoas tem a senha do meu armário, Kurt." Ela lamentou, sentando-se, derrotada, apesar de não ter sido convidada. Ele acabou sentando ao lado dela. "As meninas não fariam nada de mal com ninguém, mas... o Jesse, ele também tem a senha... ele guardava minhas coisas pra mim, toda hora. Eu não mudei porque não achei que precisasse, sabe?"

"Uhum." Sussurou, ainda não totalmente convencido da história dela, mas disposto a ouvir mais.

"Eu não sei como provar que não fui eu... ou como provar que foi ele." Engoliu seco, pois começava a ter vontade de chorar e nem tinha intimidade com Kurt para fazer isso na frente dele. "Eu só sei que eu PRECISO descobrir um jeito! Eu não posso perder o Finn." Respirou fundo, espantando a menina apaixonada e acessando a garota decidida. "Sem contar que não é justo comigo ou com vocês o Jesse fazer isso e não acontecer nada com ele!"

"Nisso você tem razão. Se foi ele..."

"O que fizeram com você, Kurt?" Ela interrompeu. "Me conta, por favor! Eu imagino que tenham feito cartas pra você, pelo material... revistas recortadas, envelopes. Mas o que diziam nelas exatamente? Talvez a gente consiga alguma pista... talvez, juntos, a gente consiga pegar algum detalhe que prove..."

"Espera aqui." Foi a vez dele de interromper e, depois disso, ele saiu da sala, deixando a garota sozinha.

No entanto, o menino não demorou muito para voltar, e trouxe com ele as cartas recebidas. Mostrou todas a Rachel, que ficou horrorizada. O conteúdo dos bilhetes anônimos era ainda pior do que ela esperava, o que fez com que ela não conseguisse conter as lágrimas por mais tempo.

"Eu sinto muito, Kurt! Muito MESMO! Ninguém jamais deveria passar por isso." Assegurou, secando as lágrimas. "Eu vou fazer o Jesse pagar por isso... e, se aqueles amigos dele estiverem envolvidos também, eu vou descobrir. Eu ainda não sei como, mas eu vou." Sorriu e Kurt sorriu de volta. Alguma coisa no olhar de Rachel fazia com que ele acreditasse nela. "Você me ajudou muito, me mostrando as cartas. Eu agora já sei, pelo menos, do que eu to sendo acusada exatamente e... isso tornou bem mais fácil a minha defesa, porque, se tem uma coisa insana nesse mundo, é pensar em mim como uma homofóbica... acredite!" Riu, mesmo que ele não pudesse entender e rir junto.

Os dois se despediram cordialmente e Rachel seguiu para seu carro, mas não sem antes perguntar ao irmão de Finn se o garoto tinha dito para onde pretendia ir. Kurt disse não saber, e era verdade. A única coisa que o irmão dissera fora que tinha que ficar sozinho e esfriar a cabeça. Então a garota seguiu para o primeiro lugar que passou pela sua mente e logo viu o carro do namorado (ela se recusava a pensar nele como ex) estacionado perto do lago. Ele brincava de atirar pedrinhas na água o mais longe que conseguia, e observar as ondas que se formavam.

O barulho do carro dela o fez olhar para trás, mas ele continuou sua atividade, atirando as próximas pedras com mais raiva, porque tudo que ele não queria, naquele momento, era ter de lidar com ela. Será que ela não entendia o significado de ficar longe? Como ela podia querer ainda falar com ele, depois de ter agido pelas suas costas, perseguido seu irmão de forma tão covarde!

"Você é tão óbvio, Finn!" Ela disse, saindo do carro e andando na direção dele. "De tantos lugares que você poderia ter escolhido, você veio pensar aqui... nesse lugar... no NOSSO lugar!"

"Não existe NOSSO lugar, Rachel. Não existe NÓS." Respirou fundo. "Nós somos muito diferentes e eu, na verdade, já sabia disso. Você praticamente manda naquele colégio... já foi rainha de vários bailes... é a Srta. Popular... e eu sou só mais um cara."

"Não, Finn. Você sabe que não é só mais um cara!" Ela pegou na mão dele, mas ele fez um gesto rápido, não permitindo que ela a segurasse.

"Isso não importa, Rach." Falou, irritado. "Mesmo que você ME ache um cara bom o suficiente pra você, eu não acho boa o suficiente pra mim uma garota que faz o que você fez."

"Você sequer me ouviu, Finn Hudson! Já foi chegando a conclusões... isso não é justo! Eu conversei com o Kurt, agora há pouco e..."

"Por que o Kurt falaria com você?"

"Talvez porque ele não esteja com a cabeça tão quente... e tenha visto o quanto eu tava desesperada... eu não sei. O fato é que ele me mostrou as cartas... todas! E eu NUNCA mandaria aquelas cartas pra ele... nem pra ninguém." Ele colocou as mãos nos bolsos da calça e olhou para ela pela primeira vez. "Eu poderia usar um monte de argumentos pra te convencer, mas eu não vou usar nenhum, Finn. Eu já conversei com seu irmão e você pode conversar com ele. Eu só vou te fazer um pedido... um único pedido e depois você nunca mais olha na minha cara, se não quiser."

"Um pedido?" Perguntou, desconfiado.

"Arruma uma mochila, com coisas pra passar um final de semana fora." O semblante confuso dele não passou despercebido, é claro. "Não como meu namorado... num final de semana romântico... não é isso. Eu só quero te levar a um lugar, pra... conhecer... uma pessoa."

"Isso não faz o menor sentido, garota." Falou, aborrecido.

"Vai fazer." Retorquiu, firme. "E, como eu disse, se não fizer... se isso não te convencer de que eu não mandei as cartas pro seu irmão... você e eu... a gente se separa de vez." Falou a última parte com uma tristeza enorme na voz, com um grande medo.

Finn fez o que Rachel lhe pediu e, enquanto arrumava a tal mochila, ainda conversou com Kurt, que lhe contou tudo sobre seu encontro com a morena. Pensando com calma, fazia muito mais sentido que ela estivesse falando a verdade do que mentindo. Jesse era um babaca com amigos igualmente babacas e eles já haviam, inclusive, se referido a Kurt com algumas das mesmas expressões usadas nas cartas, pessoalmente. Além disso, tinha razões para querer se vingar da ex-namorada, que não tinha propriamente sido amigável com ele nos últimos tempos. E não era nada absurdo que ele tivesse a senha do armário, como ela tinha afirmado, enquanto teria sido, sim, uma estupidez da parte dela guardar coisas incriminadoras no armário, quando ele a acompanhava até o mesmo quase todos os dias, mais de uma vez.

Os dois viajaram no final da tarde, com ela na direção, porque ela não queria contar, ainda, para onde eles estavam indo. A maior parte da viagem foi feita em silêncio ou apenas ao som do rádio, conectado ao Ipod dela. Se não fosse pelas circunstâncias estranhas, ele teria ficado feliz em ir passar um final de semana com ela na cidade onde morava a tal pessoa que ela queria que ele conhecesse, afinal era nada mais nada menos que Akron, a cidade em que ele vivia antes de se mudar para Lima.

"O que a gente veio fazer na cidade onde eu morava?" Perguntou, logo que entraram nela.

"Visitar alguém que mora aqui." Ela disse, como se não fosse grande coisa.

"Quem é essa pessoa misteriosa afinal?" Perguntou, sem paciência.

"Se eu quisesse te contar, eu não teria dirigido até aqui... teria te contado em Lima. Não vou contar nada... você vai VER quem é..."

Os dois andaram mais um pouco de carro e ele observou, com saudades, as ruas tão familiares, e ficou ainda mais surpreso quando ela estacionou o carro em uma certa rua e, pior ainda, em frente a uma certa casa que ele já tinha visitado várias vezes.

"Essa casa aqui..."

"É a casa dos Berry... e você já esteve aqui antes. Eu sei." Ela o interrompeu. "Eles estão nos esperando. Vem!" Disse, caminhando para a porta.

"Você me disse que queria que eu conhecesse alguém e me trouxe para ver duas pessoas que você sabia que eu conhecia?" Confuso era pouco para descrever o rapaz.

"Vamos dizer que você vá... conhecer melhor, vamos colocar assim."

A porta foi aberta por uma governanta, que foi cumprimentada pelos dois adolescentes. Ela conhecia bem os dois, mas nunca tinha imaginado ver os dois juntos. Apesar disso, sabia que a aparição de ambos na casa não era da conta dela, então apenas os encaminhou para a sala, onde dois homens conversavam, sentados em confortáveis sofás.

"Minha princesinha!" Hiram disse, levantando para abraçar Rachel. "Finn?" Se espantou com a outra visita que chegava à sua casa.

"Finn!" Foi a vez de LeRoy se manifestar, deixando o sofá e dando um abraço apertado no garoto, enquanto seu companheiro abraçava a beijava a menina baixinha.

"O Finn é a pessoa que eu disse que queria que conhecesse vocês." Rachel foi tratando de explicar. "Claro que foi uma meia verdade, porque vocês já se conhecem..."

"O que o meu antigo técnico tem a ver com você não mandando aquelas cartas pro meu irmão?" Finn questionou, se referindo a LeRoy.

"Ele é meu pai... quer dizer, ele é meu padrasto, mas é como se fosse pai." Sorriu, abraçando o homem. "Ele é casado com meu pai há anos!" Ela sentou em um dos sofás e o padrasto sentou ao lado dela. Hiram sentou no outro sofá e fez sinal para que Finn se juntasse a ele. "E isso tem a ver com eu não mandar cartas pro seu irmão porque, obviamente, eu não tenho problemas com homossexuais... ou bissexuais... ou com qualquer que seja a preferência de uma pessoa."

"Mas você esconde isso, Rachel. Você não lida bem com isso."

"É difícil lidar com isso, Finn! Você acha que eu nunca sofri bullying porque o meu pai se casou com outro homem, depois de se separar da minha mãe?"

"A Rachel sofreu bastante... crianças podem ser cruéis, Finn." Afirmou LeRoy.

"Mas você sequer usa o sobrenome do seu pai!"

"Eu USO o sobrenome do meu pai. Eu sou mais conhecida como Corcoran porque, antes de ir trabalhar com o Clay, a minha mãe foi professora no McKinley... e muitos professores já me conheciam como filha dela, quando eu cheguei lá. Mas, sim, eu tenho o sobrenome do meu pai... e assino Berry no final do meu nome. Meus melhores amigos sabem que meu pai é casado com LeRoy e... eu sei que eu fiz mal em não te contar... e te dizer só que ele tinha se casado de novo e mudado de cidade, mas... sei lá, eu estava esperando o momento certo, por mais estúpido que pareça."

"Rapaz, você tá namorando a minha princesa?" Perguntou Hiram, percebendo o tom da conversa dos dois, muito cheio de explicações para simples colegas de colégio. Os dois trocaram olhares, até porque, naquele exato momento, eles não estavam namorando.

"Eu sabia que você tinha uma filha chamada Rachel... e que ela morava em outra cidade com a mãe... mas eu nunca poderia imaginar..."

"Esses dois não tem uma foto aqui na sala! Fica tudo nos quartos."

"O quarto dela, em compensação, é cheio de fotografias!" LeRoy afirmou. "Leva o Finn pra ver, princesa." Autorizou, assumindo que os dois tinham muito que conversar. "Vamos jantar daqui a pouco e colocamos o papo em dia."

"Nossas coisas ficaram no carro." Rachel disse, jogando a chave em direção a Hiram, e fez um sinal para que Finn a seguisse.

Finn foi conhecer o quarto que a garota tinha na casa dos Berry e os retratos serviram como uma boa desculpa, mas, na verdade, ele estava um pouco desconfortável.

Tinha duvidado dela e lhe devia desculpas. E admitir que tinha errado não era bem o forte de Finn Hudson.