Uma Nova Injeção De Adrenalina
24 Capítulo 24
Notas iniciais
Na semana seguinte, quase nada mudou. Os encontros do coral voltaram a ser na escola e coordenados pelo Sr. Schuester, que voltou, com o aval de quase todos os componentes do conselho de pais e mestres, reunido por Figgins para decidir a questão. Contudo o convívio maior entre membros que não interagiam antes continuou.
Lauren já não era mais vista somente com Artie e Britt, mas também fofocava, animadamente, com as Skanks, Sheila e Ronnie, que, por sua vez, também pegavam dicas de moda com Kurt e Mercedes, os quais eram bajulados por Wade, em razão de seus conhecimentos sobre o mundo fashion. Trent ouvia as discussões sobre política que rolavam entre Joe e David, participante ativo do grupo militante em prol dos direitos das minorias, enquanto Quinn, Santana e Rachel ensinavam truques de maquiagem para Sunshine.
As pessoas estavam se tornando tão próximas que Hilary até percebeu que Kurt estava triste e, mesmo sem fazer a menor ideia do que poderia estar acontecendo com ele, tentou ajudar, da melhor maneira que ela conhecia.
"Adorei sua roupa." Ela disse, se aproximando dele, que estava sozinho, pegando livros em seu armário. "Acho que está fabuloso! Adoro tudo o que você faz, Kurt."
"Oh! Obrigado, Hilary." Ele respondeu, surpreso.
"Eu gostaria de te ajudar a se animar um pouco. De todos nessa escola, acho que você é o maior unicórnio. E unicórnios merecem ser felizes."
"O que?" Perguntou, super confuso.
"Quando um pônei faz algo bom, ganha um chifre... aí vira um unicórnio e sua caca vira algodão doce. Até que um dia ele esquece que é mágico... e seu chifre cai." Ela falava tudo, como se realmente acreditasse em cada palavra. "Bom, mas nada disso é importante. O fato é que um unicórnio é alguém que é mágico, especial, e não tem vergonha de se mostrar... e você já chegou aqui no colégio mostrando quem você é... entrando pro Glee, se destacando nos projetos de arte. Você é um unicórnio!"
"Bom... é... eu acho que isso é um tipo de elogio, então... obrigado, Hil."
"De nada, Kurt." Deu um beijo no rosto dele. "Te vejo na aula de Desenho Artístico."
Hilary saiu e deixou Kurt boquiaberto, o que foi percebido por Rory, que passava na hora.
"Está tudo bem, Kurt?" Perguntou o irlandês.
"Hum... é... está, sim. É a Hilary... ela é meio estranha. Contou uma história sobre pôneis... e unicórnios, e disse que eu sou um." Riu.
"Hilary é maluquinha mesmo." Riu também Rory. "Logo que eu cheguei à America e fui morar na casa dela, ela pensou que eu fosse um Leprechaun e que as pessoas não podiam me ver... e, quando descobriu que elas podiam, achou que era só porque eu estava deixando. Disse que a minha raça mágica fazia os cereais favoritos dela, então me pediu uma caixa deles, com marshmallows... e depois, queria que eu transformasse as fezes do gato dela em chocolate!"
Os dois riram e seguiram juntos pelos corredores, rumo às suas aulas, mudando de assunto e passando a falar do clube do coral. Combinaram, inclusive, de fazer um dueto, assim que tivessem a oportunidade. O humor de Kurt melhorou muito com a distração que eram os novos amigos, e ele até esqueceu um pouco as cartas, pelo menos até o momento em que recebeu a próxima, pelo correio. Elas continuaram chegando naquela semana, seja desse modo, ou simplesmente aparecendo em seu armário da escola. O garoto já estava até se acostumando com isso, e não se surpreendia mais.
Se Kurt continuava tendo problemas com algum engraçadinho que resolvera ameaçá-lo por causa de sua sexualidade, Santana continuava estranha, calada, mal humorada e cada vez mais sensível. Não aguentando mais passar sozinha pelos problemas que vinha enfrentando, resolveu convocar Quinn e Rachel para uma noite do pijama, que começou como se fosse um encontro como todos os outros, com pipoca, brigadeiro, fofocas e cuidados com a beleza, como o de tirar a sobrancelha e o de hidratar os cabelos, mas logo virou uma sessão de análise, ainda que sem um especialista.
Santana começou a chorar do nada e as duas amigas, preocupadas, começaram naturalmente a perguntar o que estava acontecendo com ela, por que razão ela estava chorando. Nos primeiros minutos, o choro era tão forte que ela não conseguia produzir frase coerente, e as outras duas iam ficando cada vez mais apreensivas, achando que a morena, ou alguém de sua família, estava doente, ou que algo muito grave tinha acontecido. A latina era sempre a mais forte das três e não chorava daquele jeito desde que deixara de ser criança e se tornara uma adolescente.
"Eu beijei... uma garota." Ela disse, entre soluços, finalmente, quando conseguiu controlar, um pouco, a choradeira.
"E o que tem isso? Você já beijou meninas antes." Rachel comentou.
"É verdade. Naquele período em que o meu irmão andou fazendo pega... e indo àquelas festas malucas, cheia de gente doidona, enchendo a cara e fumando maconha... você foi a várias com ele e voltou contando pra gente que beijou umas garotas lá, de palhaçada." Concordou Quinn.
"É... eu sei. Mas..." Voltou a chorar, mas agora de forma mais silenciosa. Secou as lágrimas e enfiou a cabeça no travesseiro, derrotada.
"Santy, nós somos suas amigas. Fala com a gente. Essa garota que você beijou... ela fez algo com você?" Rachel tentou adivinhar o que poderia estar acontecendo.
"Não." Suspirou. "Não... a... a menina não fez nada. Sou eu."
"Você..." Quinn incentivou.
"Eu nunca disse pra vocês que eu tinha gostado. Que eu tinha gostado até mais do que eu gosto dos beijos dos meninos." Fez uma cara envergonhada e procurou alguma reação nas amigas, mas elas só pareciam estar surpresas. "Eu, na verdade, não gosto muito de beijar meninos. E... quanto ao sexo... bom, com aquele menino que eu peguei naquela minha viagem, foi como ser sufocada por um saco de batatas suado, em que alguém colocou perfume."
"Sério? Você disse que tinha sido fantástico." Rachel afirmou e, percebendo que Quinn ficara surpresa, continuou. "E que só tinha dito pra Quinn que não tinha sido grande coisa, porque seria chato falar isso pra irmã do seu namorado." Fez uma careta, como quem se desculpa por trazer o tema à tona.
"Desculpe, Q." Santana se dirigiu à loirinha. "Eu, realmente, só não te falei que tinha sido fantástico por causa do Sam. Apesar de, na verdade, não ter sido mesmo NADA fantástico... e sim bem desconfortável." Enterrou o rosto nas mãos por alguns segundos. "Eu achava que deveria dizer que tinha sido muito bom... que seria estranho dizer que eu não senti coisa nenhuma."
"Você não era obrigada a gostar do carinha, Santie." Rach deu de ombros.
"Você não entende, Ray. Eu não gostei com ele... e não gosto com o Sam." Olhou, temerosa, para Quinn. "Não conta pra ele, por favor!" Implorou.
A amiga pegou a mão direita dela, demonstrando solidariedade. É claro que não contaria, não tinha esse direito.
"Eu já senti prazer com ele me tocando... e com... sexo oral também. Mas nunca com ele me penetrando, sabe?" Continuou falando e as amigas balançaram a cabeça, afirmativamente. "E mesmo nos toques e tudo... eu sempre me pegava pensando em meninas, antes de gozar." Rachel pegou a mão esquerda dela, pois via que a conversa estava sendo dificílima para Santana. "Ai, meu Deus, que vergonha!" Ela voltou a chorar e foram as melhores amigas que secaram suas lágrimas.
"Santie, não é nenhuma vergonha você gostar de meninas." Quinn assegurou.
"Contando que não se apaixone por nenhuma de nós... isso seria estranho." Brincou, Rachel, arrancando, finalmente, um sorriso de Santie.
"É... e você deve terminar com meu irmão, também..."
"É claro! É claro que eu vou fazer isso." Prometeu. "Em relação ao resto, é que eu não sei como agir. A minha mãe talvez me apoie e tudo... mas a minha avó... ela nunca vai aceitar. E eu vou ser alvo de piada... as meninas vão se afastar de mim..."
As três conversaram bastante sobre homossexualidade e preconceito, e Santana ficou muito aliviada e feliz com o apoio recebido. Quinn e Rachel consolaram a morena e a fizeram compreender que, se a avó e outras pessoas não aceitassem sua orientação sexual, isso seria chato, mas não o fim do mundo, porque ela tinha uma mãe maravilhosa e muitos amigos fantásticos, que a amavam e jamais lhe virariam as costas.
A curiosidade, àquela altura, no entanto, atormentava as duas garotas, que acabaram perguntando o que queriam saber, quase juntas, depois de alguma hesitação.
"Quem você beijou?" Foi o questionamento de Quinn.
"E quanto a essa menina que você andou beijando?" Foi a pergunta formulada por Rachel.
"Ai. Isso é ainda mais complicado." As duas esperavam por uma resposta mais direta e por detalhes. "Eu acho que eu to gostando dela. Gostando de verdade." As duas sorriram, mas ela não. "Mas eu não entendo! Como é que eu, Santana Lopez, posso gostar da maior nerd da escola?"
"BRITTANY?" As meninas não conseguiram controlar a surpresa.
"Sim, Brittany. Uma nerd maluca que quer ser astronauta! Que fala um monte de coisas que eu não entendo." Se levantou da cama, indo em direção ao banheiro, tentando evitar dar muita importância àquele tópico. "Vocês acreditam que, depois que a gente se beijou, ela disse que não estava se reconhecendo, porque ela é muito racional e não costuma se deixar levar por... comu... consu... consuminências?" Comentou, muito na dúvida.
"Concupiscências, Santy... deve ter sido isso que ela disse. Concupiscência é um desejo, sem limites, de se satisfazer sexualmente e tal." Revelou Quinn.
"Que seja! Ela é estranha e eu só posso estar maluca. Uma coisa é eu gostar de meninas... isso eu aceito. Mas gostar daquela nerd?" Suspirou. "E ela ainda tem namorado. Definitivamente, eu tenho que esquecer esse beijo." Entrou, enfim, no banheiro, deixando Quinn e Rachel do lado de fora, e elas somente trocaram olhares. Sabiam que, para que o beijo tivesse feito Santana contar um segredo tão grande, e que tinha guardado tão bem, por tanto tempo, ele tinha sido mais importante do que ela queria admitir. Brittany era bem mais importante do que ela aceitaria admitir.
Então, não se falou mais sobre o assunto, pelo resto da semana e, apesar de ter desabafado, o que sempre é bom, Santie continuou tristonha, o que as amigas atribuíam tanto ao fato de ela ainda ter uma família e toda uma sociedade a enfrentar, quanto ao problema que é gostar de uma pessoa comprometida, seja você hetero ou homossexual. A latina terminou com Sam, mas isso não causou grandes turbulências, porque eles continuaram amigos, o que, na verdade, mudava muito pouco o comportamento deles, que já não eram um casal muito carinhoso quando namoravam.
Carinhos eram o forte de Quinn e Puck, que ficavam o tempo todo de mãos dadas, roubavam beijinhos um do outro, e cochichavam declarações de amor ou coisinhas picantes no ouvido um do outro, seja nos corredores da escola, no refeitório, na sala do coral, ou na casa de um deles, no clube ou nas lanchonetes que a turma frequentava.
Finn e Rachel também eram um grude só, mas ele continuava muito incomodado com o fato de não pode fazer nenhum carinho na namorada dentro da escola, por isso eles começaram a discutir quase todos os dias. Ela ainda achava cedo para que todos os alunos do McKinley soubessem, porque tinha uma preocupação exagerada com sua reputação, e ele questionava as razões dela, e perguntava se ela estava preocupada em não aborrecer Jesse, se ela tinha vergonha dele ou se ainda não tinha certeza dos próprios sentimentos, o que ela negava veementemente.
Mal sabia ela que as discussões entre eles podiam chamar tanta atenção de seus colegas de colégio, quanto qualquer carinho que ela e Finn tivesse trocado, em um dos muitos corredores daquele lugar.
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