Uma Nova Chance

1 Capítulo Único


Eu estava atormentado, louco. Morrer não era uma opção ruim. Meu quarto estava escuro, as janelas fechadas, a porta trancada, e eu no chão, suando frio, sabendo que havia uma multidão lá fora com o desejo de me decapitar.

– Que droga! Esse maldito nunca sai de casa? – disse um dos homens lá fora

Começaram a jogar ovos podres na minha casa. Aquilo me deixava profundamente triste. Ver sua vida ser destruída injustamente era um pesadelo, ou quase isso, porque a diferença é que você não está dormindo.

Recebi um telefonema. Peguei o telefone, quase sem forças e o coloquei no ouvido:

– Alô?

– Surpresa! Viu o que se pode fazer quando quer?

– Dennis, seu desgraçado! Você me fez ir para o buraco!

– Vingança é um prato que se come frio, e se acha que eu vou ter piedade em ver o grande cineasta Marcos Costa se despedaçando aos pouquinhos, está muito enganado! Vai ver é mais um de seus filmes melosos! – ele riu, desligando o telefone

Dennis era o culpado de tudo. Antes era o meu melhor amigo, daqueles que se confia com unhas e dentes sem medo de quebrar a cara. Depois, se tornou uma criatura das trevas pegajosa, que nunca vai parar de me perseguir, a menos que eu me renda, o que estava quase para acontecer.

Ele era um talentoso ator, a estrela de muitos dos meus filmes. Brilhava em cena como o Gene Kelly, o Brad Pitt, além de outros célebres atores. Ficamos íntimos após o primeiro filme que fiz.

Mas Dennis sempre teve um gênio forte, uma personalidade que entrava em atrito com todos que o desafiavam. Ele nunca poderia ser escalado em segundo ou terceiro, sempre o primeiro.

Tudo começou após uma briga simplesmente infantil, mas para ele. . .

Dennis veio em minha casa reclamar de seu papel no novo filme que eu iria escrever. Estava furioso pelo o seu olhar:

– O que houve, Dennis? Está tão bravo, quer entrar?

– Claro! Nessa chuva é que eu não fico!

Dennis entrou e se secou no banheiro. Sentou no sofá, ainda com uma cara raivosa. Ofereci um jantar, mas ele grosseiramente recusou:

– O que é isso, Marcos? Você, depois de ter me visto arrasar como a estrela de três filmes seus, agora me dá um papel de coadjuvante, e na primeira fase?!

– Sim, os protagonistas da primeira e segunda fase estão ocupados. O público cansa de só ter você no mesmo papel. O coadjuvante é importante, você irá revelar um grande segredo ao principal antes de morrer!

– Como ousa? Eu com um lindo currículo para mostrar pro mundo, e você me dá um papel que qualquer rostinho bonito de 20 anos poderia fazer? Eu sou seu amigo, isso é sacanagem!

– Deixa disso, Dennis. Não aja como uma criança, você tem 40 anos! Vai ver se eu não te dei o GRANDE papel é porque sua atuação está aquém do esperado!

– Minha atuação, aquém do esperado? Sua mãe estava aquém do esperado quando te pariu, isso sim!

Dei um soco no rosto dele, aquilo para mim já bastava. Ele nunca foi flor que se cheire, mas aquele ali era um lado do Dennis que não conhecia:

– Saia da minha casa! Agora você não terá nenhum papel, ok? Amanhã ligarei para um outro ator, que é mais jovem e mais competente que você!

– Você vai se arrepender! Ouviu? Você vai afundar como um bebê no oceano!

Lembrando da droga daquela briga, me sentia um lixo completo. Saí do quarto, desci as escadas até a sala, depois desci mais um lance até o porão (Raro uma casa com porão no Brasil, né? Pois é, dei sorte!). Meu porão antes era o quarto da minha irmã, Teresa, que morou uns tempos comigo. Tinha um papel de parede roxo, já mofado e rasgado com o tempo, o chão era de um piso branco, que mais parecia bege com a sujeira. Tinha também um sofá coberto por um pano verde, uma televisão velha e algumas tralhas do meu antigo apartamento.

Eu já fui casado, mas nunca tive filhos. Me casei com 25 anos, eu era um playboy, inexperiente. O nome dela era Sheila, uma mulher absurdamente incrível. Cozinhava como ninguém, era bonita, compreensível, inteligente, mas sua saúde era frágil.

Contraiu um tumor maligno nos pulmões, que logo em seguida se tornou um câncer. Não resistiu e logo me deixou sozinho. Ela encantava a todos que a conheciam.

Meus pais eram velhinhos, viviam em um sítio no interior. Pouco sabia deles, apenas que estavam bem.

Saí do porão e subi até a cozinha. Estava morto de fome, e tinha que alimentar meu cachorro, Doug, um labrador marrom. Sentia pena dele, pois se ele fosse até o quintal para fazer as necessidades, certamente iriam destruí-lo. Por isso, coloquei um jornal na área de serviço.

Preparei para mim uma sopa de legumes, pois não tinha um metabolismo lá dos melhores, e aos 40 anos é preciso tomar cuidado. Doug comeu sua ração, mas não aguentou e após comer foi correndo para a área de serviço.

Fomos para a janela, que estava fechada. Todos haviam ido embora, acho que se cansaram. Mas não adiantava, pois todos me odiavam.

A tal “vingança” de Dennis foi cruel, algo até bastante incomum. Em uma entrevista na televisão, ao vivo, Dennis afirmou que eu era um agressor de crianças deficientes. Algo terrível, não? Ele conseguiu o que queria, destruir minha vida.

Obviamente, para não parecer uma fofoca, levou a foto de uma menina paralítica machucada e um ator, que foi pago para dizer isso:

– Eu sou o pai dessa criança! Marcos Costa agrediu minha filha, sendo ela uma deficiente física e mental.

Eu nunca pude acreditar que alguém tão próximo de mim iria me trair pelas costas. Como acreditar nisso?

Liguei para a minha irmã. Sabia que ela com certeza não acreditaria naquela barbaridade, tampouco me negaria uma ajuda.

– Alô?

– Teresa, sou eu, Marcos! Você não acredita em nada do que o Dennis disse na TV, né?

– Não mesmo! Você nunca faria isso! O que você quer?

– Eu preciso sair daqui! Hoje mesmo, não é seguro dormir aqui, uma multidão estava aqui com o intuito de me “comer vivo”! E o pior, podem fazer algo contra o Doug! Nunca iria quer isso!

– Calma. Faça as malas que em vinte minutos estou aí. Feche as cortinas e não abra a porta para ninguém! Eu vou entrar por trás e vou ligar para o seu celular e avisar se é seguro sair. Aí você e o Doug saem daí.

– Fechado. Obrigado mesmo!

Fiz as malas, a minha e a de Doug. Eu pretendia voltar para a minha casa de novo em breve, se ainda estivesse em pé. Forrei todos os móveis para não mofarem. Tranquei os quartos, as janelas, para que pelo menos alguma coisa restasse quando eu pudesse voltar.

Doug estava um tanto confuso com tudo aquilo, o coitado amava aquela casa. Tudo tinha o cheiro dele, ele amava correr pelo quintal, se molhar na piscina (que eu não pude forrar) e se secar no carpete.

Não demorou e Teresa me ligou, dizendo que tudo estava pronto para eu sair. Doug e eu fomos correndo, só parando para trancar a porta dos fundos. Entramos no carro e quando fui ver, já estava bem longe:

– Oi, mano. Ainda nem pude falar com você? Nem com o seu cachorrinho adorável!

– Tudo bem. De novo, você me salvou, Teresa!

– Que isso. Aonde quer ir?

– Me leva para Orthogramma.

– Que lugar é esse?

– Aonde o pai e a mãe foram há uns anos atrás. É uma cidade completamente desligada da mídia. E é longe de São Paulo, não vão me achar lá!

– Pretende ficar lá para sempre?

– É provável. A não ser que eu tenha alguma oportunidade de provar minha inocência. Vou tentar manter contato com você, a única pessoa que eu tenho nessa cidade que me persegue, chamada SÃO PAULO!

Foram longas quatro horas de viagem. Cheguei na cidade por volta de duas da manhã. Doug estava dormindo no meu colo, num sono sem fim. Minha bunda já estava amassada de tanto tempo sentado. Me sentia como um adolescente na escola, louco pela hora de se levantar e sair correndo.

Teresa me deu as malas e me acompanhou até uma pensão. Foi difícil, mas achamos. Batemos na porta e longos dois minutos depois uma velhinha apareceu. Mas não era qualquer velhinha, era minha MÃE:

– Mamãe! – eu e Teresa gritamos

– Calma, meus amores, eu sou uma só. Mas o que fazem por aqui?

– Bom. . . – disse Teresa – Só o Marcos vai ficar, mãe. Eu tenho muitos compromissos em São Paulo, mas prometo visita-los quando der.

Fiquei conversando com minha mãe na sala de estar por meia hora, até que ela me serviu um chocolate quente e insistiu que eu dormisse. Doug nunca a tinha visto, mas se apegou a ela. Até porque, mamãe sabe do que cachorros gostam (carne, muita carne).

Os dias passavam, eu já me sentia um tanto melhor. Tinha feito amigos, mas estranhava a ausência de meu pai. Mamãe disse que ele estava viajando, mas com que dinheiro?

Esquecendo isso, uns colegas que tinha feito me apresentaram Mila. Ela era mais nova do que eu, uns dez anos, mas já era mãe de dois adolescentes. Um de 14, outro de 12.

Ela era linda, radiante, e muito boêmia. Como adorava uma festa, uma muvuca, um povão. Não tínhamos nada em comum, mas por incrível que pareça, nos atraímos um pelo outro.

Na tradicional festa caipira de Orthogramma, nós dois fomos sozinhos. Doug até poderia ir, mas ele não era fã de festas. Mila me viu sozinho e me convidou para dançar:

– Por que nós não dançamos, já que estamos sozinhos. Não acha?

– Sim.

Mas eu estava hesitante. Fui quase que arrastado por ela. Entretanto, me diverti e não paguei mico, até porque sei me virar em danças.

Dançamos tanto que ficamos cansados e fomos para o lado de fora do salão, onde havia um banco para nos sentar. Foi engraçado quando sem querer ela tocou em mim sem querer e deu um sorriso tímido.

Ela adormeceu e eu a levei para casa. Quando cheguei, seus filhos, Eduardo e Jorge, perguntaram o porquê da mãe está dormindo:

– Nós. . . Digo, ela, dançou muito. Sabe?

Eles devem ter percebido o quão nervoso eu estava por quase dizer a dois moleques que estava dando em cima da mãe deles.

Fiquei dias sem ver Mila. Não porque ela havia sumido, mas porque eu achava tudo aquilo precipitado, afinal, não era nenhum conto de fadas. Mas Doug me animava. Sua alegria constante ao ver aquele imenso gramado o esperando, era gostosa.

Contra a minha vontade, Mila foi me ver. Eu estava sem fazer a barba e meio sujo após uma longa corrida com Doug. Mila ignorou minha aparência, brincou com Doug e depois falou comigo:

– Que tal uma cerveja hoje de noite?

– Parece uma boa. – eu disse, hesitando

Ao ver Mila tão animada, não voltei atrás. Me arrumei e encontrei Mila na porta da casa dela. Ela estava tão linda, maravilhosamente linda. Ficamos longas cinco horas no bar. Eu não bebi quase nada, mas ela chegou a ficar bêbada.

Até que logo em seguida que ficou bêbado fui eu. Ficamos loucos. A ponto de eu não lembrar o que aconteceu no final daquela noite.

Acordei nu, ao lado dela, em uma cama. Não reconhecia o quarto, mas deduzi que era a de Mila. Nós dois não lembrávamos de nada, mas sentimos ter curtido, e MUITO, tudo aquilo. Aquele foi o momento mais maravilhoso de toda a minha vida. Mila era a mulher que eu sempre quis.

OITO ANOS DEPOIS. . .

As coisas melhoraram muito em oito anos. Me casei com Mila e tivemos uma filha, Luna. Eu, Mila, Luna, Eduardo, Jorge e Doug saímos da cidade de Orthogramma e fomos para São Paulo, onde provei minha inocência e Dennis foi preso. Ninguém me odiava mais. Comecei a trabalhar em um novo filme, baseado naquela minha história. Se chamaria “Uma Nova Chance”.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!