Uma Nova Amizade
23 Um Céu Cheio de Estrelas
Notas iniciais
JASON
Demorou alguns metros para Jason estabilizar o vento que sustentava ele e Leo no ar. Até mesmo houve um momento em que ele quase derrubara Leo. Eles voaram por alguns minutos com certa dificuldade e instabilidade, como um pernilongo que acaba de sugar o sangue de alguém e mal consegue sustentar seu voo. Assim foi até Jason não aguentar mais o peso, e eles aterrissaram em algum lugar da floresta, mas por sorte já estavam bem próximos da montanha e completaram a distancia caminhando.
Jason estava mais suado que antes, dessa vez devido ao esforço que fizera ao usar seus poderes e parecia tão cansado quanto à vez em que guiara os cavalos de vento. Os semideuses caminharam silenciosos por uma distancia consideravelmente longa e cansativa até conseguirem chegar até a montanha. Leo posicionou os binóculos nos olhos e mirou para cima, para o topo da montanha, mas a nevoa densa bloqueava sua visão e a escuridão da noite não ajudava muito.
– Um ventinho básico cairia bem, colega – Leo pediu para Jason. Ele estendeu uma mão e uma brisa afastou a nevoa do céu.
– Valeu – Leo voltou a olhar para cima através dos olhos biônicos.
– E então? – Jason perguntou.
– Tem algo errado – Leo respondeu preocupado – Eu vejo o casco do navio, mas está muito alto. Eu pedi para que Percy abaixasse-o o máximo possível.
Ao longe, cascos batiam contra o chão da floresta e as folhas farfalharam por perto quando Frank e as garotas chegaram até eles.
– Eles não virão ajudar – Piper falou, a voz dura e seca. Desceu do cavalo rapidamente e correu até Jason, envolvendo-o em um abraço intenso – Senti sua falta – Ela sussurrou ao ouvido dele.
– Senti a sua ainda mais – Ele lhe beijou a testa e a apertou em seus braços.
– Eu também senti sua falta, Jason – Leo interrompeu – Mas, o que Piper quis dizer com “eles não virão ajudar”?
– Eu quis dizer que eles não pegaram o sinal. Estão sem saber o que está acontecendo aqui.
– Mas eu enviei a mensagem por três vezes e...
– Eu sei, mas por algum motivo eles a perderam.
Leo largou os braços ao lado do corpo, seu rosto invadido por um semblante decepcionado.
– Poxa.
– Já aconteceu Leo, não adianta ficarmos parados aqui – Piper falou com a voz impaciente – Vamos dar um jeito de subir.
– Mas como? – Frank perguntou. Ele havia voltado á forma humana sem ser notado.
– Eu posso ajudar – Emily apareceu por entre as arvores da floresta.
– Emily! – Leo exclamou um pouco mais exagerado do que deveria. Os outros olharam para ele, desconfiados – Quer dizer – Ele pigarreou – Emily, você por aqui.
– Vocês precisam sair logo. A noticia se espalhou no spa e estão procurando a Piper e a Hazel por toda parte. Quando perceberem que elas fugiram, Circe será avisada.
– Como eu fui burra – Hazel graniu e deu um tapa na própria testa – Eu devia ter desfeito aquela Névoa. Teríamos ganhado mais tempo.
Frank se aproximou dela e passou o braço por cima dos seus ombros.
– Todos cometemos erros, alguns mais graves que outros e o seu erro com certeza não foi o pior do dia.
– Por isso vamos evitar mais erros por esta noite, está bem? – Jason falou. – Qual o plano?
Emily não disse nada, apenas deu um passo para frente, respirou fundo e começou um movimento rítmico com as mãos. Grossas raízes brotaram arrebentando a terra e subindo até onde os olhos não podiam enxergar e a trançaram-se graciosamente, formando uma longa escada que começava no chão e supostamente subia até o navio. Emily abaixou as mãos e passou a manga na testa úmida de suor.
Piper já havia visto isso uma vez, mas Emily não fizera uma escada tão grande quanto essa e isso a deixou surpresa.
– O plano é subirmos todos juntos. Ninguém fica para trás – Piper respondeu a pergunta inicial de Jason.
– Não – Emily a cortou – Temos que subir em duplas. Caso haja um problema com uma das duplas, a outra estará livre para ajudar.
– Espere. Nós? – Jason perguntou, levemente atordoado.
Emily olhou para Leo, que ficou claramente surpreso com a decisão de Emily de partir com eles e explicou:
– Emily tem que ir conosco.
– E por quê? Piper cruzou os braços – Leo, estamos no meio de uma missão, não em férias entre amigos. É perigoso demais levarmos ela.
– Ela é semideusa – Leo revelou e se colocou ao lado de Emily – Filha de Demeter. É perigoso se a deixarmos aqui.
– Eu já devia saber! – Piper manifestou – Sua traidora mentirosa.
Ela partiu pra cima de Emily, mas Jason a segurou pelos ombros e a levantou do chão. Piper dava chutes no ar com a intenção de que algum deles atingisse à Emily, que permanecia imóvel com os olhos arregalados, sem reação alguma. Leo se colocou na frente dela e gritou de volta para Piper:
– Ela não traiu ninguém, Piper! Economize suas voadoras pros inimigos de verdade.
– Vocês não percebem porque ela nos ajudou? – Piper tentava se soltar de Jason – Ela só queria nos usar pra sair da ilha!
– Não é verdade! – Emily gritou, lagrimas escorrendo pelas suas bochechas. Uma delas pousou no chão de terra da floresta e de lá brotou um Gerânio. – Por todos esses anos eu vivi sob ordens de Circe. Por todos esses anos eu nunca tive um único amigo que mostrasse algum tipo de compaixão. Agora que eu encontrei, terei de vê-lo ir embora para sempre – Ela olhou para Leo e enxugou o rosto com as costas da mão – Eu só queria ter uma vida de verdade.
Piper parou de se debater, mas mesmo assim Jason continuava segurando-a pelos ombros. Ela abriu a boca para dizer algo. Fechou. Tentou novamente, mas as palavras não saíam. Até que Hazel puxou o ar com força, como se tivesse se assustado com algo terrível e disse baixinho:
– Ela está vindo.
HAZEL
Teriam eles ouvido direito? Hazel tinha dito tão baixo e os gritos de Piper ainda ecoavam em seus ouvidos que nenhum deles pensou ter escutado direito, até que Hazel falou, dessa vez mais alto:
– Está muito perto.
– O que faremos? – Frank perguntou com a voz tremula.
– Rápido! – Emily disse e foi empurrando Leo pelas costas até o pé da escada – Subam todos juntos, eu vou mover as raízes até o topo.
– Você não vai ficar aqui, senhorita – Leo virou-se – Vai com a gente.
– Não há tempo, eu vou ficar.
– Não há mais tempo – Hazel interrompeu a todos – Ela está aqui.
Piper sentiu o chão girar abaixo de seus pés. A Névoa de Hazel, o ataque que acabara de ter com Emily, Jason segurando seus ombros, mas dessa vez com mãos frouxas, estavam-na deixando desnorteada. Até que ela ouviu Hazel choramingar “não há mais tempo” e de repente um plano completo passou pela sua cabeça e ela empurrou Jason para trás, empunhou Katoptris (a qual havia escondido no forro do roupão de banho) e investiu contra Emily. Agarrou-a pelos cabelos e encostou a lâmina brilhante da adaga em seu pescoço. Emily já estava se cansando de ser atacada por Piper com tanta frequência.
– Piper! – Leo levou as mãos á cabeça – Você enlouqueceu?!
Piper não pôde dizer mais nada. Atrás dela, vinda da floresta, uma voz familiar gargalhou:
– Ora, ora, ora – Circe apareceu das sombras caminhando calmamente. A barra de seu robe preto de cetim arrastando pelo chão. Ela batia palmas ironicamente – Planejaram uma festinha e não convidaram a anfitriã? Mas que falta de consideração.
Piper sussurrou no ouvido de Emily “Me acompanhe” e Emily assentiu discretamente, então Piper virou-se para Circe.
– Afaste-se, ou mato ela. – Suas mãos tremiam ligeiramente, coisa que ninguém mais podia notar além de Emily.
– Ora, meu bem. Com tantas empregadas que eu tenho você acha que matando uma delas me fará alguma falta? – Circe analisava meticulosamente suas unhas perfeitas pintadas de vermelho.
Atrás de Piper e Emily, os outros semideuses não sabiam o que fazer, já que Piper estava prestes a matar a garota que os estava ajudando. Leo tentava pensar em uma maneira de tirar Piper de cima de Emily, Jason estava perplexo e não sabia o que pensar (além do fato da cueca broxante) e Frank queria descobrir se era mesmo rápido com suas flechas para acertar Circe de surpresa, mas achava que não seria capaz de matar um humano a sangue frio. A única que entendia toda a situação era Hazel.
Sua Névoa estava tão expeça agora que ela sentia tudo e todos ao seu redor. Pensou até que estava ouvindo os pensamentos dos amigos, já que ela podia ler seus movimentos de forma nítida, como se os seus olhos tivessem dado o zoom máximo. As mãos de Piper estavam oscilando e ela não segurava a adaga tão forte na garganta de Emily a ponto de machuca-la. É claro, ela pensou, Piper está ganhando tempo. Olhou de soslaio para Leo, o qual estava um pouco á frente dela e viu gotas de suor escorrendo de sua nuca em câmera lenta e pingarem na camiseta. Sua respiração estava acelerada. Se acalme Leo, Piper não vai fazer nada. Ela desejou que seus pensamentos fossem ouvidos por ele. Ao seu lado estava Frank. Ele aproximava a mão do arco em suas costas lentamente, quase de forma imperceptível. (Bem, talvez totalmente imperceptível pra quem não tivesse zoom nos olhos). Hazel entendeu que ele hesitava em atacar. Agora não Frank, espere. E finalmente olhou para Jason. Pobre Jason. Não entendia nada o que estava acontecendo e tremia de frio devido ao vento noturno. Livre-se dessa cueca logo, Jason.
Hazel invocou ainda mais Névoa. Concentrou seus pensamentos somente nisso e sentiu a fumaça emanando de seu corpo. Ela iria manipular todos ali. Iria enganar Circe. Iria vencê-la. Iria salvar seus amigos.
“Ei. É a Hazel.” Ela pensou com todo o poder da Névoa caindo sobre as palavras e mentalizou cada um dos amigos. “Podem ouvir?”. Hazel olhou ao redor e notou que os semideuses olharam para ela de canto de olho, curiosos. “Ótimo”. Ela sorriu “Não façam nada enquanto eu não mandar”.
Agora Hazel se concentrou em Piper. Entrou na mente dela e viu que ela não sabia mais o que dizer à Circe. Era o momento certo de agir. Depois grudou os olhos em Circe e notou que apesar de ela tentar parecer indiferente, estava nervosa. Mas por que? Foi mais á fundo e sentiu a feiticeira. Ela está preocupada em perder Emily. Não é apenas uma empregada. Emily que está mantendo essa ilha viva. Voltou-se para Piper. “Ela está blefando. Continue a ameaçar.” E foi isso que ela fez.
Agora era a vez de Frank. “Voe nela. No rosto”. Frank pareceu hesitar por alguns segundos antes de transformar-se em um corvo e voar para a feiticeira, que não viu de onde veio o pássaro desgovernado. Ela guinchou e tentou agarrar a ave pelas asas.
No mesmo instante Hazel sincronizou seu pensamento com o de Emily. “Raízes. Amarrar” Piper se afastou, dando espaço para ela mover as mãos e as raízes, que saíram do chão com tanta velocidade como um gêiser de água e se agarraram aos pés, pernas e em pouco tempo, ao corpo inteiro de Circe.
– TRAIDORA! DESGRAÇADA! – Circe gritava loucamente, antes de uma raiz cobrir a boca dela.
– Agarrem-se na raiz! – Agora Hazel gritou ao invés de apenas pensar – Rápido!
Leo, Jason e Piper obedeceram e seguraram firme na raiz grossa.
– Sabe o que fazer – Hazel disse para Emily, que balançou a cabeça e moveu a raiz até o alto.
– Frank! Vamos! – Frank finalmente saiu da cabeça de Circe e, num giro triunfal, transformou-se em harpia e voou para Hazel, que pulou no dorso da ave. Do alto ela gritou:
– Rápido Emily, Agarre-se na raiz!
Assim Emily o fez e manipulou-as a subir. Estava quase tão alto quanto Frank e Hazel voando acima quando um punho invisível agarrou-lhe a garganta e a raiz parou de subir. Emily tentou puxar o ar, inutilmente. Olhou para baixo e viu que Circe tinha libertado uma das mãos no meio das raízes e apertava um pescoço invisível entre os dedos. A esclera ocular coberta pela cor da magia negra. Emily tentou outra vez puxar o ar e gritar. Falhou. Hazel e Frank estavam muito mais acima agora para poderem ouvir qualquer coisa. Com o rosto arroxeado pelo estrangulamento, ela soltou as mãos da raiz, junto com uma lagrima desenganada, sabendo que estava tão próxima da liberdade, e agora fora obrigada a soltar-se de sua única e ultima esperança que lhe restou. Esperou chegar ao chão, mas este não veio. Abriu os olhos e olhou para baixo. O chão jazia á poucos centímetros dela. Entre o solo e Emily estava uma Névoa densa, negra. Até que dissipou-se e Emily deu com as costas no chão e soluçou, não pela dor do tombo, mas de tristeza.
– Achou que iria escapar de mim, meu bem? – Emily ouviu a voz se aproximar e Circe entrou em seu campo de visão – Más notícias pra você, boas pra mim: Você não vai sair desta ilha. Nunca – Ela sorriu e provocou as lagrimas de Emily, que ao caírem no solo fresco como sementes, brotaram como Gerânios brancos.
LEO
– Onde ela está? – Leo sorriu animado, da proa do navio e correu para olhar para baixo. – Não estou vendo.
Só então percebeu o silencio de Frank e Hazel e virou-se, deparando-se com o olhar que poderia ser nomeado de “Aí Vem Más, Ruins e Péssimas Notícias”.
– O que foi, gente? – Ele perguntou, o sorriso se apagando gradativamente – Por que a raiz parou de subir?
Hazel olhou para Frank. Frank olhou para Hazel. Então ela deu um passo á frente e estendeu o braço pra tocar o ombro de Leo.
– Leo... Nós sentimos muito. Não ouvimos nada. Só a vimos caindo e, bem... A raiz parou de subir.
– Ela... – Ele gaguejou e engasgou com a crise de choro que estava por vir – Vocês... – Então ele se desviou da mão de Hazel e correu para o andar inferior do navio.
Hazel ficou lá, parada, de costas para os outros semideuses e caiu de joelhos, cobrindo o rosto molhado de lagrimas. Frank veio e ajoelhou-se ao lado dela, amparando-a em um abraço.
– Poderíamos tê-la salvo. O que aconteceu?! – Ela fungou – QUE CARALHOS ACONTECEU?! – esgoelou.
Os outros ficaram chocados ao ouvirem Hazel gritar dessa maneira e os casais se abraçaram também. Percy e Annabeth, Jason e Piper, Frank e Hazel. Três casais perfeitos, abraçados enquanto a brisa noturna batia contra eles, debaixo do céu coberto de estrelas. Mais perfeito que isso, todos sabiam, seria quatro casais, e não três.
...
Mais tarde, faltando pouco para o amanhecer, todos desceram até o aposento de Leo. A porta estava trancada e as incessantes batidas pareciam não adiantar de nada. Até que Leo finalmente abriu a porta. Seu rosto estava inchado de choro, mas ele sorriu e sua cabeça pendeu para baixo. Todos ficaram li, parados, olhando para ele. Mas um deles tomou a iniciativa e deu um passo a frente.
– Eu sinto muito – Frank disse com tamanha sinceridade que sua voz tremeu, claramente tentando engolir o choro. Mais surpreendente que isso foi o que veio depois. Frank abraçou Leo. E no instante seguinte todos o abraçaram juntos.
...
Annabeth estendeu uma toalha xadrez no piso da proa. Hazel trouxe da cozinha copos e pratos; e Piper, sua cornucópia. Arrumaram um banquete suculento faltando pouco para o amanhecer. As estrelas ainda eram visíveis quando Percy, Jason e Frank sentaram-se ao lado de suas amadas. Leo estava encostado na margem do navio, próximo dos outros, perdido em seus pensamentos. Perdido em Emily. Olhou para o nada, abaixo do navio que pairava no ar, navegando devagar, quando notou um movimento estranho, delicado, vindo de lá. Era o talo de uma flor. Ele levantou a cabeça e o talo cresceu até a sua altura. Ele viu quando brotou uma flor de lá. Uma delicada flor cor de rosa. Seus olhos ficaram vidrados e ele chamou:
– Pessoal! Rápido! Venham ver isso!
Todos se levantaram e correram até ele, ficando tão atônitos quanto Leo ao verem a flor.
– O que é? – Piper perguntou.
– Parece uma rosa – Hazel falou.
– Não é uma rosa. É uma peónia – Annabeth respondeu – Significa vida.
Silenciaram por um segundo, até prestarem atenção no que Annabeth tinha dito.
– Ei... – Leo começou – Significa vida. Emily está viva!
– Sim! – Hazel deu um pulinho de alegria – Ela sobreviveu à queda!
– Nem deve ter sido uma queda – Disse Jason, distraído – É bem provável que tenha sido Circe.
– Não importa. Só importa que um dia eu posso voltar e busca-la.
– Boa sorte amigo – Percy sorriu e apertou o ombro de Leo.
– Ótimo – falou Piper – Agora pegue a florzinha e vamos nos deliciar do banquete. Estou faminta.
Assim os semideuses sentaram-se em volta da toalha xadrez, em meio ao banquete, apreciando a vista do sol nascente, curtindo a música que vinha do ipod de Jason. Nesse momento a música era A Sky Full Of Stars, de sua banda predileta. E todos concordavam em silêncio que aquela era a música perfeita pra esse momento, enquanto as estrelas davam lugar ao sol, enquanto estavam vivos e entre amigos, e enquanto Emily esperaria pela volta de Leo. Também concordavam em silêncio que a amizade entre eles, entre todos eles, crescia a cada aventura que viviam e sobreviviam juntos, e que esse era apenas o começo de uma grande amizade.
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