Uma Nova Amizade
11 Um Ataque Inesperado
Notas iniciais
PIPER
– Acho que eles vão dormir pra sempre – Disse Leo, pilotando o navio.
– Dê um desconto a eles. Ninguém aqui sabe como é passar pelo Tártaro – Piper falou sem pensar, esquecendo-se que Nico já passara por lá, e sozinho. Ele abaixou a cabeça e fitou os pés – Hã, desculpe. Quase ninguém.
Jason contemplava o horizonte, encostado na lateral do navio. Frank e Hazel mantinham-se afastados, conversando baixo e acariciando um ao outro, o que é muita “melosidade”. Piper não pôde conter um sorriso. Estava orgulhosa e satisfeita com eles, afinal, era um casal completo agora.
– Você tem alguma coisa a ver com isso, Pipes? – Jason a flagrou olhando para eles.
– Eu? Por que eu teria algo a ver com aqueles dois? – Ela logo tratou de usar Charme, por precaução.
– Hm, está bem.
O único indício que indicava a presença do treinador Hedge entre eles era o som que fazia ao mastigar uma lata de refrigerante, até que ele se fez notar.
– Minha vez de pilotar, garoto – Ele empurrou Leo do comando – Deixe o sátiro aqui mostrar como se faz.
– Tudo bem, bonitão – Foi o que restou a Leo dizer.
Piper não passara muito bem há semanas. Andava enjoada, tonta e regurgitava seu jantar todas as noites. Ela logo ligou os pontos e então percebeu o que estava causando tanto mal-estar. Queria estar errada sobre isso, mas era inevitável, ainda mais agora, que sua menstruação, normalmente regular, estava atrasada há muitos dias. Aparentemente Jason não notara nenhuma diferença nela e Piper queria aproveitar a inocência dele para ter certeza.
Meio sem jeito, Piper encostou-se ao lado de Jason.
– Jason, me responda uma coisa.
– Qualquer coisa – Ele disse, olhando fixamente para ela.
– Na noite que nós transamos – ela disse a última palavra quase sussurrando – Você usou proteção?
– Na última noite? Claro que sim.
– Não, não. Na primeira. Na nossa primeira vez.
Jason desviou a atenção dela e pareceu refletir. Semicerrou os olhos, como quem se esforça para lembrar e depois de alguns momentos respondeu:
– Droga. Não.
– MERDA, JASON! Cacete – Ela gritou tão alto que todos pararam o que estavam fazendo e olharam para ela, até Frank e Hazel, o casal afastado.
Jason nunca vira Piper com raiva desse jeito. Na verdade, nunca vira nenhuma garota tão nervosa. Achou que era coisa de mulher e resolveu arriscar.
– Piper, amor. Você está... Menstruada? – Ele se encolheu, com medo do olhar dela, que há poucos segundos estava calmo, mas agora parecia prestes a matar alguém.
– Quem me dera, Jason – Ela respondeu de costas para ele. Mantinha os braços cruzados no peito e o pé batendo no chão.
– Então o que tem de errado? – Ele colocou a mão no ombro dela, ainda de costas.
Ela respirou fundo e virou-se subitamente.
– Jason, eu estou...
O navio bateu em algo logo à frente, fazendo todos cambalearem.
– Treinador! – Leo e Jason gritaram ao mesmo tempo.
– O que? Eu não fiz nada errado, pirralhos intrometidos.
Piper não podia ficar mais zangada do que estava, mas seu rosto ficou ainda mais vermelho e ela gritou:
– PRESTE ATENÇÃO NO QUE ESTÁ FAZEND...
Leo a interrompeu.
– Ei, detesto interromper essa “DR” de vocês, mas é melhor verem isso.
PERCY
Todos já estavam se aproximando do parapeito do navio, quando Percy e Annabeth apareceram apressadamente.
– O que houve? – Percy perguntou ofegante.
Ninguém respondeu. Estavam tão desinformados quanto ele. Olhavam perplexos para o mar, bem abaixo, onde um redemoinho de água estava se formando e aumentando cada vez mais rápido.
– Furação? – Hazel perguntou.
– Não. Furações fazem pressão para baixo, levando tudo o que está em volta. Este está subindo. – Percy respondeu.
– Mas, o que...?
Ninguém teve tempo de falar. O redemoinho de água começou a ganhar altura, subia enquanto girava em alta velocidade, causando uma tremenda ventania. Até que ele foi tomando forma. Uma forma humana. A extensão pareceu ser um vestido, enquanto no topo se esticava os braços e a cabeça. Em alguns segundos, estavam diante de uma mulher feita de água, alcançando facilmente seus dez metros de altura. Seus cabelos iam do topo da cabeça até o mar, caindo em cascata pelas suas costas. Os olhos eram de um abismo infinito, como se todos os furações do mundo terminassem neles. Ela olhava fixamente para o navio.
– Hã, está perdida, moça? – Leo gritou, o que não devia ter feito, porque agora a criatura conseguiu identificar onde eles estavam.
Ela cerrou os dentes, também feitos de água, fez um grunhido esquisito e disse:
– Quod commodius praestandum, humano?
Leo fez uma cara como quem diz “mas que porra foi essa?” e perguntou:
– Hã, ela quis dizer “quero um cômodo emprestado”? Porque eu acho que ela não caberia em nenhum dos quartos, ein.
– Não, idiota – Frank respondeu – Ela quis dizer: O que vocês querem aqui, humanos?
– Ah, isso faz mais sentido. Bem dona, estamos de passagem.
A mulher de água cerrou os punhos, não parecendo nada satisfeita e repetiu a pergunta, gritando dessa vez, fazendo jorrar um chafariz de sua boca e molhando todos no convés.
– Caramba, Frank. Diga algo á ela. – Jason disse todo encharcado assim como todos os outros.
– O que você quer que eu diga? – Frank tremia um pouco.
Jason olhou para Percy, buscando sua orientação, mas ele deu de ombros e Jason mandou:
– Pergunte quem é ela.
Mesmo com medo, Frank obedeceu. Reformulou a pergunta em latim e gritou para que a mulher-água ouvisse bem. Ela respondeu com outra enxurrada:
– Ego sum Odêmira.
– Odêmira? Alguém conhece algum ser mitológico chamado Odêmira? – Frank perguntou.
Eles se entreolharam por um bom tempo, tentando pensar em algo, enquanto a mulher os observava entediada. O único som que se destacava era o da cachoeira que fazia vezes de cabelo. Até que a criatura quebrou o silêncio:
– Báh, et disperdam te, in omnibus!
– O que ela disse, afinal? – O treinador Hedge indagou – Diga logo que eu acabo com ela agora mesmo!
Frank não teve tempo de traduzir o que a mulher tinha dito, tão apavorado ficou com suas palavras. Seus lábios tremiam tentando falar, até que Odêmira levantou o punho na altura da cabeça e mirou no navio para acertá-los no convés.
– Abaixem-se! – Percy gritou e permaneceu de pé com os braços erguidos enquanto todos os outros se jogavam no chão.
Ele conseguiu sustentar o primeiro golpe de água com as mãos, fazendo o pulso da mulher se dissolver e toda a água inundou a proa do navio. Seu esforço só conseguiu deixar Odêmira ainda mais agressiva, pois seu punho se reconstituiu. Ela fitou a mão que acabara de se formar e em seguida olhou para Percy, amaldiçoando-o em latim.
– filius deus maris, ego te occidere!
– Percy! – Frank gritou – Acho que ela não gosta muito de filhos de Poseidon.
– Ótimo. – Ele respondeu – Assim posso derrota-la sem culpa.
Dessa vez Odêmira tomou impulso para jogar o corpo inteiro em cima do navio.
Jason juntou-se a Percy, evocando uma rajada de ventos para cima de Odêmira, a fim de afastá-la enquanto ele tentava controla-la e Frank atirava flechas sem efeito algum, mas o esforço só conseguiu diminuir sua queda sobre o navio. Percy teve tempo de virar a cabeça para ver se todos estavam bem. Supostamente estavam apenas molhados, com exceção de Piper, que estava caída encostada no mastro, aparentemente sangrando. Vislumbrou Hazel levantando-a quando Odêmira atacava novamente.
– Percy! – Jason gritou – Se afaste!
Ele entendeu qual era o plano quando viu um frasco de fogo grego nas mãos de Leo, que estava mirando para atirá-lo. Teve tempo de correr e jogar-se no chão.
Até que a explosão veio.
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